O mistério de Atlântida

 

Atlantis ou Atlântida numa criação artistica
Atlantis ou Atlântida numa criação artística

As histórias sobre a Atlântida se multiplicaram ao longo dos séculos e impulsionaram historiadores e arqueólogos à procura de respostas a um dos mais antigos mistérios da humanidade. Ninguém até hoje, porém, conseguiu uma prova irrefutável para as dezenas de teorias sobre o continente perdido. Revirando as profundezas oceânicas, em busca de uma cidade submersa, exploradores de todo o mundo descobriram apenas pistas ou novas perspectivas desse fascinante enigma ainda não resolvido.

Platão
Platão

“Eu ouvi meu avô contar essa história, a qual ouvira de Sólon, o célebre filósofo”, disse Crítias nos diálogos de Timeu, escritos por Platão. Pois foi exatamente um dos mais influentes filósofos gregos, Platão (427-347 a.C.), que teria obtido, em uma visita ao Egito, o conhecimento sobre a existência e a destruição de Atlântida, ocorrida mais de 9 mil anos antes de seu tempo, e reproduzido a história nos diálogos de Timeu e Crítias. “Há um manuscrito com o relato de uma guerra lavrada entre atenienses e uma poderosa nação que habitava uma ilha de grandes dimensões situada no oceano Atlântico. Nas proximidades dela, existiam outras e, mais além, no extremo do oceano, um grande continente. A ilha chamava-se Posseidonis ou Atlantis e era governada pelos reis aos quais também pertenciam as ilhas próximas, assim como a Líbia e os países que cercam o mar Tirreno”, contam os sacerdotes egípcios ao filósofo Sólon no diálogo de Timeu.

“É questionável o fato de Sólon ter retornado à Grécia e transmitido lá o que ouviu dos sacerdotes. Ele teria ficado no Egito”, afirma o professor de História Antiga e Línguas Clássicas da Universidade Federal Fluminense, (UFF) Marcos Caldas. “Provavelmente, a história de Atlântida foi levada à Grécia por comerciantes de vasos que trabalhavam no porto de Naucratis no delta do Nilo”, diz. Segundo a narrativa de Platão, os atlantes invadiram a Europa pela cidade de Atenas que, por sua grandeza, venceu os inimigos e salvou a Grécia da opressão. Mas, o infortúnio dos atlantes não terminaria com essa derrota. Uma tragédia encomendada pelos deuses extinguiria essa civilização com elevados padrões culturais e artísticos.

O castigo de Atlântida

No início dos tempos, os deuses dividiram a Terra entre eles, conforme o nível hierárquico de cada um. Ao deus Posseidon coube Atlântida. No meio da ilha havia uma montanha, talvez um vulcão, onde moravam os humanos Evenor, sua mulher Leucipa e sua filha Clito. Após a morte de seus pais, Clito uniu-se a Posseidon e tiveram cinco pares de meninos. Atlas, o mais velho, governou os outros nove. “O termo Atlântida, ao contrário do que se pensa, é derivado do nome Atlas e significa ‘que pertence ao Atlas’, e não uma referência ao oceano Atlântico”, explica o professor Marcos Caldas.

Posseidon
Posseidon

Assim, Posseidon dividiu Atlântida em zonas concêntricas de terra e água: – duas de terra e três de água cercando a ilha central, a qual era irrigada por uma fonte de água quente e outra de água fria. Com recursos naturais aparentemente inesgotáveis, os atlantes domesticaram animais selvagens, mineraram metais preciosos e destilaram perfumes. Também ergueram palácios, templos, canais e docas (parte abrigada do porto). A rede de canais unia várias partes do reino. “O continente contava com quatro aquedutos distribuídos igualmente pela ilha de forma que todas as regiões tivessem acesso às duas fontes (de água quente e fria). Era uma sociedade igualitária”, afirma Caldas. Havia lugares públicos para prática de exercícios físicos e banhos e ainda um estádio para corridas. Todas as ilhas eram cercadas por fortificações, em cujas baias aportavam os navios de todo o mundo então conhecido.

Cada rei era soberano, mas deveria respeitar um código central gravado em uma coluna de oricalco (espécie de latão com mistura de ouro e prata) pelos dez primeiros reis. A principal lei de Atlântida proibia os reis de guerrearem entre si e estabelecia o dever de se defenderem mutuamente contra qualquer ataque externo. Em tempos de crise, as decisões finais ficavam com os descendentes diretos de Atlas.

Desenvolvida e igualitária, Atlântida foi destruída em razão do orgulho de seus cidadãos engajados em atacar Atenas e o Egito. Ao constatar que os habitantes da ilha se tornaram perversos e gananciosos e que os reis desobedeceram às leis, Posseidon enviou um maremoto seguido de um terremoto a Atlântida, e o continente foi encoberto por uma enorme onda de lama. “Até hoje, ninguém sabe sobre o destino dos descendentes dos atlantes depois, pois os diálogos de Crítias estão inacabados. Provavelmente se perderam no tempo”, afirma o professor Marcos Caldas.

Relato histórico ou alegoria platônica?

O mito da Atlântida começou com Platão. Posteriormente, filósofos, historiadores e arqueólogos tentaram desvendar seu destino e significado e buscaram provas de sua existência. Cerca de cem referências à Atlântida foram encontradas na literatura clássica pós-platônica,   mas   nenhuma   delas   acrescentou   novos   aspectos   ou facetas à lenda do filósofo grego.

A narrativa de Platão parece historicamente consistente até o ponto da queda do império, em um dia e uma noite que, de acordo com os sacerdotes egípcios, ocorreu por volta de 9600 a.C. Nessa época, Atenas não existia, nem a escrita e a metalurgia ainda tinham sido inventadas. As comunidades agrícolas datam por volta de 7000 a.C., e a arquitetura descrita por Platão, incluindo pirâmides, não existia antes de 4000 a.C.

Segundo Aristóteles, discípulo de Platão, Atlântida era uma alegoria para ilustrar as teorias políticas de seu mestre. “Pode ter sido uma alegoria. No entanto, a história de Atlântida não tem nada a ver com o dualismo platônico: o mundo das idéias, perfeito, e o mundo dos homens, imperfeito, finito”, ressalta Caldas. O professor explica que talvez, por não se encaixar no modelo da alegoria platônica, o mito da Atlântida tenha gerado especulações que perduram até os dias atuais. “Em Atlântida não há dualismo, o que existe é um escapismo – o continente não é perfeito, mas é muito rico e desenvolvido; um local onde tudo poderia dar certo”.

No livro Man, Myth and Magic, Edward Bacon sustenta que a Atlântida descrita por Platão é muito semelhante às descobertas arqueológicas sobre as civilizações da alta Idade do Bronze do Egeu (3300-1200 a.C.) e Oriente Próximo, assim como os minóicos, os micênicos, os hititas, os egípcios e os babilônios. “Havia algo de errado com a data de Platão? Os sacerdotes egípcios, ou Sólon, teriam confundido 900 com 9000? Em caso afirmativo, a data do desastre teria sido 1500 a.C. em vez de 9600 a.C.” constata Bacon.

Essa suposição torna a existência da Atlântida e sua subseqüente destruição mais verossímil. Um cataclismo vulcânico ocorreu durante o império da Creta minóica por volta do século 6° a.C. A civilização minóica caiu por uma série de desastres naturais, como incêndios,     inundações e terremotos. Nessa mesma época, a ilha de Santorini, anteriormente   chamada  Thera,  no Mar  Egeu,  sofreu  uma das explosões vulcânicas mais fortes da História humana.

As evidências históricas, no entanto, não esclarecem o que teria motivado Platão a relatar um desastre natural ou o que o filósofo pretendia com a narrativa sobre uma civilização altamente desenvolvida e superior aos padrões da época. Diversas teorias tentam explicar o recado de Platão com o continente perdido. “Acredito que Platão teria descrito Atlântida como uma realidade, não como um mito. Mas é preciso considerar que seus diálogos não eram dirigidos a um público comum. Ele falava para os acadêmicos, para seus alunos, ou seja, a um público conhecedor de suas teorias”, destaca o professor Marcos Caldas, da UFF.

Também se especula que a história dos atlantes tenha sido criada para enaltecer o povo ateniense. Na época em que Platão escreveu sobre Atlântida, Atenas havia perdido a guerra contra Esparta e estava sendo invadida. “Platão pode ter construído a idéia de que os atenienses teriam derrotado uma nação poderosíssima como um consolo. Ele engrandece os inimigos, pois quanto mais forte e grandioso é o oponente, maior é a vitória sobre ele”, explica Caldas.

Sonhos de um mundo perfeito

A série de erupções em Santorini, a pequena ilha situada cerca de 120 km ao norte de Creta, ocorrida por volta de 1645 a.C., foi relacionada à destruição da avançada civilização. A violência das explosões, que teriam causado danos potenciais a quilômetros de distância de Santorini, reacenderam o debate sobre a destruição de Atlântida. Escavações na ilha, na vila Akrotiri, realizadas na década de 60, sob a direção do professor Spiridion Marinatos, demonstraram que Santorini era parte ativa e culturalmente avançada da civilização minóica – um exemplo desse avanço é o palácio de Cnossos em Creta. Marinatos levantou a hipótese de que a explosão da capital causou tamanha inundação nas costas cretenses que segmentos inteiros de seu litoral foram destruídos. Ele também concluiu que a quantidade e densidade de cinzas e pomes cuspidas pelo vulcão teriam enterrado a civilização minóica, inclusive o palácio de Cnossos, e expulsado seus habitantes.

O professor afirmou, em 1969, ser muito improvável que a erupção de Santorini tivesse deixado Creta intocada. “É impossível ignorar a potência catastrófica dos tsunamis (ondas fortes e destruidoras) que teriam atingido o litoral cretense”. Marinatos constatou ainda que, além de Creta, outros locais no Egeu oriental foram atingidos pelos tsunamis e sofreram grandes danos por volta de 1500 a.C.

Além de Santorini, expedições marinhas em Bimini, no Caribe, apontaram para uma civilização submergida. Outras evidências associadas à Atlântida também foram levantadas nas costas da Espanha e da Irlanda no Mar do Norte.

Provavelmente, as descobertas submarinas não passam de pistas, e a verdade nunca será revelada. Mas é certo que as investigações sobre o continente perdido de Platão fazem com que muitos continuem a sonhar com o paraíso de Atlântida. Talvez seja justamente isso que, após milhares de anos, mantém e renova Atlântida no imaginário humano: a permanente necessidade de crer em um mundo ideal, em um exemplo a ser seguido.

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7 comments

  1. Caros amigos,
    Nunca o tema da descoberta da Atlântida foi abordado de um modo mais racional e objetivo. No site do professor Ropero cada uma das suas afirmações vêm acompanhadas de links que remetem ao leitor à leitura de revistas de renomado prestigio como a revista Nature e a revista da National Geographic Society.
    O autor utiliza para suas pesquisas as mesmas ferramentas de fotografia via satélite que a NASA está utilizando atualmente para ajudar aos arqueólogos a desvendar os secretos da civilização Maya ou de da civilização Khemer em Angkor-Watt.
    Finalmente os estudos de Ropero revelam que muitos acontecimentos extremamente importantes como a Grande Extinção do Pleistoceno, o aumento súbito do nível dos oceanos e a extinção da avançada civilização Clovis em América aconteceu exatamente na data que Platão forneceu para a destruição da civilização atlante. Somente no ano passado, com o reajuste realizado por cientistas das datas de Carbono 14, Ropero conseguiu chegar às anteriores conclusões, o que demonstra um conhecimento extremamente atualizado da arqueologia. Quero parabenizar de novo ao professor Ropero

  2. Caros Colegas,

    Faz sete anos instalei o “Google Earth” no meu computador. Na hora que a esfera do mundo no Google Earth começou a aumentar de tamanho fiquei perplexo quando vi um imenso retângulo ao Sul de Porto Rico com as Ilhas Antilhas ao Oeste. O lado direito do retângulo estava perfeitamente alinhado em direção Norte-Sul e o lado superior em direção Leste-Oeste. Passou um ano e fui ler uma matéria sobre a Atlântida. Segundo Platão o território da Atlântida era retangular e media 3000 estádios de comprimento e 2000 de largura. Conferi no território que encontrei e “puxa vida” as medidas coincidiam totalmente com as fornecidas pelo Platão. Aí comecei a pesquisar mais sobre a Atlântida e anos depois coloquei algumas das minhas deduções no site que acabei de terminar de escrever a semana passada:

    http://www.w-book .info

    Sugiro entrar depois no Google Earth e ver como esse retângulo é impossível de ignorar uma vez que você ve ele pela primeira vez.

  3. Sou estudante do ensino médio e curto muito história principalmente classica e mitológia,gostária de saber mais detalhes sobre essa lenda.

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