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Os jogos Olímpicos na Grécia Antiga II – Trapaças, fraudes e política

setembro 20, 2009

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Há menos diferenças entre os Jogos Olímpicos atuais as competições organizadas pelos gregos na Antiguidade do que se imagina. Tudo que aparenta ter sido criado no esporte no século XX  já era conhecido pelos filhos de Olímpia: treinamento intensivo, alimentação controlada, transferências, profissionalismo etc. E o dinheiro já ocupava um lugar central. Desde a organização dos primeiros Jogos os atletas foram remunerados. Quando tais competições se transformaram em disputas entre as cidades-estado, valendo o prestígio nacional ou local, elas assumiram o papel de verdadeiras patrocinadoras. Mantinham colégios de atletas e, quando não selecionavam um campeão, tratavam de comprá-lo no estrangeiro. Em Atenas, em 580 a.C., Sólon promulgou uma lei dispondo que cada vencedor olímpico .recebesse 500 dracmas. Levando em conta que um carneiro valia cerca de 1 dracma, a soma era considerável. À parte isso, os campeões adquiriam status e privilégios particulares como a dispensa de pagarem impostos.

A ambição das cidades passou a impelir os atletas à vitória. Eles contavam com a possibilidade de treinar continuamente e de se especializar a fim de multiplicar as chances de sucesso. E adotavam dietas especiais. Os lutadores sujeitavam-se a uma superalimentação perigosa. Muitos, como Mílon de Crotona, faziam uma dieta à base de carne. O corredor Astilo de Crotona preconizava, pelo contrário, alimentação leve. Treinadores célebres como Iço de Tarento (século IV) recomendavam tratamentos científicos e médicos.

Seguindo o exemplo de Atenas, as demais cidades começaram a oferecer aos seus campeões a soma considerável de 5 talentos (um talento valia 6 mil dracmas). O atleta laureado era sustentado vitaliciamente pela cidade. Na primeira metade do século IV a.C, o vencedor da corrida do estádio recebia 50 ânforas de azeite (que valiam aproximadamente R$ 12.500,00); o vencedor no pugilato (ancestral do boxe) ou no pancrácio (prova que combinava a luta com o pugilato) ganhava 30 ânforas (R$ 7.500,00); o vencedor no pentatlo (200 metros, 1.500 metros, salto em distância, lançamento de disco e de dardo), 40 ânforas (R$ 10 mil); e o vencedor da corrida de carros de dois cavalos, 140 ânforas (R$ 35 mil). Um campeão olímpico podia receber da cidade renda mensal de 200 dracmas.

QUATRO LENDAS SOBRE AS ORIGENS DOS JOGOS
Existem várias lendas sobre o nascimento dos Jogos Olímpicos. Contava-se que Zeus os criara quando de sua vitória sobre os titãs. Também se dizia que, no século IX a.C., a peste devastara o Peloponeso e Ifitos, rei de Elida, havia estabelecido os Jogos para apaziguar os deuses. Outros historiadores pretendiam que os Jogos tinham chegado de Creta pelas mãos do sacerdote Héracles, no século XV a.C. Héracles teria disputado a primeira corrida com seus três irmãos. Outros, enfim, consideravam Pélops o verdadeiro criador. Apaixonado por Hipodâmia, a filha do rei de Pisa, ele precisava escapar à desconfiança do rei, que matava todos os pretendentes da filha. Tendo subornado o cocheiro que sabotou o carro do rei, matando-o, instituiu os Jogos Atléticos em Olímpia para comemorar seu casamento.

SUBORNO

A importância das recompensas transformou o espírito dos Jogos. A introdução das corridas de carros nas provas olímpicas e o sustento dos cavalos, particularmente oneroso, implicavam a criação de estrebarias de propriedade dos cidadãos ricos. Os próprios atletas se vendiam a quem pagasse mais. O cretense Sotades, que venceu a corrida de daulichos (4.700 metros) nos XCIX Jogos Olímpicos (384 a.C), aceitou correr por Éfeso quatro anos depois. Os cretenses o puniram, exilando-o. Astilo, de Crotona, cidade habituada a conquistar a maior parte dos prêmios olímpicos, ganhou, em 488 a.C., a corrida de 600 pés e o diaulo (corrida de 400 metros) e se apresentou nos Jogos seguintes como cidadão de Siracusa.

Com o desenvolvimento do profissionalismo, as escolas de esporte e os ginásios multiplicaram-se. Os pedótribas (professores de educação física) descobriam as qualidades dos futuros campeões a partir dos 12 anos de idade. Esses treinadores particulares, às vezes ex-atletas, í eram cada vez mais bem remunerados. Assim, Hippomachos cobrava l 100 dracmas pelo curso. Os atletas i eram criteriosamente selecionados, e todos cobiçavam o título de periodônico, de vencedor dos Jogos Olímpicos. E por ele se dispunham a tudo. Em 388 a.C., na XCVIII Olimpíada, constatou-se o primeiro caso de corrupção: o pugilista Eupolos comprou três adversários, dentre os quais o portador do título. O senado de Olímpia impôs uma multa aos quatro homens e, com o dinheiro obtido, mandou erguer seis estátuas de bronze de Zeus, as chamadas zanes, que foram dispostas no bosque de Altis. Na base da primeira, inscreveu-se: “Não é com dinheiro, e sim com pernas rápidas e um corpo robusto que se alcança a vitória de Olímpia”. Em 332 a.C., Calipo, atleta ateniense, subornou seus adversários. Como eles se recusaram a pagar a multa, todos os atenienses foram excluídos dos Jogos.

Milênios antes de se tomar um espetáculo televisivo, a inauguração dos Jogos Olímpicos já era objeto de suntuoso cerimonial. Os atletas admitidos em Olímpia caminhavam dois dias de Elis a Olímpia, guiados pelos helanódices (juízes).

O cortejo se detinha diante do altar de Zeus, o mais venerado dos deuses. Os sacerdotes lhe ofereciam uma hecatombe (o sacrifício de 100 bois). Depois os gregos cantavam e dançavam em torno ao altar. Nos arredores, os mercadores anunciavam seus produtos à multidão; os turistas acampavam em barracas ou ao ar livre; as personalidades se mostravam. Faziam-se as apostas enquanto os atletas prestavam juramento, erguendo a mão sobre o altar, comprometendo-se a combater com dignidade e respeito às leis. Na cercania do estádio, instalavam-se os vendedores de suvenires e bebidas, as mulheres encarregadas da administração e as prostitutas.

No começo, o festival durava apenas um dia. A festa foi crescendo e, em 520 a.C., o programa dos Jogos Olímpicos estava constituído. O primeiro dia dedicado às cerimônias; o segundo, às provas eliminatórias de corrida a pé. Quarenta mil espectadores se acomodavam nas arquibancadas. O terceiro dia dedicava-se ao pentatlo; o quarto, à luta, ao pugilato, e ao pancrácio; o quinto, às finais das corridas a pé; o sexto, às corridas de cavalos. Nos séculos V e iy o vencedor não era mais o cocheiro, e sim o proprietário dos cavalos. No sétimo dia, realizavam-se as cerimônias de encerramento, com um cortejo formado pelos juízes, os vencedores, as autoridades de Elis e de Olímpia, seguido pelas estátuas dos deuses carregadas ao som das flautas e dos cânticos. O arauto anunciava o nome, a pátria e as façanhas dos vencedores perante a estátua de Zeus esculpida por Fídias. Os juízes cingiam-lhes a cabeça com uma coroa de oliveira silvestre trançada com ramos da árvore. Um banquete reunia os membros do senado, os vencedores e as personalidades. Os olímpicos (participantes dos jogos) ofereciam sacrifícios.

JOGOS E PAZ
Durante as Olimpíadas, cessavam os combates entre os gregos. Uma vez proclamada a trégua, os spondophores (mensageiros) iam anunciar os Jogos no norte da Grécia, nas ilhas, na Ásia Menor, no Egito e na Sicília. Nenhum exército podia pisar o solo de Olímpia. Era igualmente proibido impedir os atletas de participarem das provas. De forma pacífica, os Jogos se transformavam no símbolo da luta entre as cidades.

COMPETIÇÕES

Dentre as provas das Olimpíadas, o pancrácio era a mais mortífera. Era uma luta na qual tudo se permitia, com exceção de golpes nos olhos. Os atletas combatiam na lama, e os perdedores erguiam a mão para interromper o combate.

Os Jogos Olímpicos incluíam a corrida de hoplitas (guerreiros gregos), na qual os participantes nus portavam capacete e escudo. Segundo o filósofo Filóstrato, essa prova simbólica que encerrava os Jogos indicava que “a trégua imposta aos gregos tinha chegado ao fim e cumpria retomar as armas”.

Durante sete dias, de oito a dez juízes presidiam os Jogos. Assumindo a função dez meses antes do evento, estabeleciam a escolha dos competidores, inspecionavam o estádio e o hipódromo e, se necessário, revisavam o regulamento. Excluíam todos os retardatários e todos os que haviam matado os adversários.

Ordenavam aos policiais que viam jogar do alto do monte Typée as mulheres que porventura pisassem o solo olímpico durante os jogos masculinos, já que seus próprios jogos, chamados Héréns, ocorriam no mês de setembro.

Entre as primeiras competições de 2500-2000 a.C. e as de 776 a. C., a história dos Jogos Olímpicos não passou, segundo o geógrafo Pausânias, de uma sequência ininterrupta de desaparecimentos e renovações. A partir de 776, sua periodicidade foi respeitada e mantida até 394 da era cristã. O intervalo de quatro anos passou a se chamar olimpíada. A partir dessa data, os gregos passaram a contar o tempo não por anos solares, mas sim por olimpíadas.

Nas primeiras 15 olimpíadas, todos os vencedores eram originários do Peloponeso. De 768 a.C. a 736 a.C., os messanenses, vindos da Sicília venceram regularmente, depois desapareceram da competição quando dominados pelos espartanos. A história dos Jogos era, pois, indissociável dos fatos políticos. De 720 a 576 a.C., Esparta participou ativamente deles. De 716 a 604 a.C., 29 espartanos venceram a corrida do estádio. Essa superioridade de Esparta coincidiu com sua hegemonia no Peloponeso. É verdade que a totalidade da educação espartana se centrava no desenvolvimento da capacidade física. O fim desse período arcaico ficou marcado pela superioridade dos atletas de Crotona, a começar pelo campeão Glaucos, e consagrou o início das vitórias das colônias. Os Jogos Olímpicos passaram a ser considerados uma festa nacional. Os atletas eram exaltados pelos poetas. Mílon de Crotona, cujas façanhas se estendem de 540 a 512 a.C., tornou-se uma celebridade – e uma lenda.

A Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) teve graves repercussões nos Jogos Olímpicos, diminuindo-lhes o prestígio. Em 420 a.C., Esparta, acusada de violar a trégua sagrada, foi excluída dos Jogos. Os espartanos invadiram Elis e lhe tomaram a metade do território. Restou Olímpia aos eleenses, que estavam fadados a se submeter a Esparta até a batalha de Leuctra (371 a.C.), na qual os te-banos venceram os espartanos.
As cerimônias já não tinham o esplendor do século V. Os atletas já não eram considerados heróis. O período helenístico (300-80 a.C.) representou uma verdadeira decadência para os Jogos. Após as conquistas de Alexandre, o Grande, eles tiveram um novo ímpeto; ao mesmo tempo, desenvolveu-se o gosto pelo espetacular, anunciando os jogos romanos do circo. O pugilato, o pancrácio, as corridas de carros ficaram cada vez mais brutais e, pouco a pouco, foram substituindo os combates atléticos.

Em 313 a.C., Telésforo, general do príncipe Antígono, invadiu Elis e pilhou o tesouro do templo de Olímpia para recrutar mercenários. Em 210 a. C, Olímpia foi novamente saqueada. Naquela época, os romanos participavam dos Jogos. Sila chegou a pensar em transferi-los para Roma. Por fim, Augusto confiou Olímpia a governadores provinciais e mandou um funcionário vigiar magistrados e sacerdotes. Tibério e Nero chegaram a participar dos Jogos. Nero acrescentou concursos de música e de poesia.

O último vencedor conhecido dos Jogos da Antiguidade foi um príncipe armênio de origem persa, Varazdates (373 ou 369). Por influência de santo Ambrósio, bispo de Milão, o imperador Teodósio, o Grande, proibiu todas às comemorações pagãs. A estátua de Zeus foi levada a Constantinopla, onde desapareceu num incêndio. Em 395, Alarico e os godos devastaram Olímpia. Em 426, Teodósio II mandou incendiar os templos e, por volta de 550, um terremoto destruiu a cidade.

A partir de 400, o esporte deixou de participar da educação ou do lazer do aluno grego. Em torno 390, são Gregório de Nizianzo denunciou a vaidade dos atletas que perdiam tempo e dinheiro no esporte-espetáculo.

Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, mas as competições esportivas parecidas com as Olimpíadas não chegaram a desaparecer totalmente. Na Gália havia competições parecidas: o bispo Sidônio Apolinário (430-489) explicou que os “hérulos triunfavam na corrida; os hunos, no arremesso; os francos, na natação”. Na Irlanda e na Escócia, sobreviveu um atletismo parecido com o dos antigos. No século XIV os escoceses criaram os Jogos de Ceres com lançamento de martelo, de pedra, de dardo e de tronco de lárix. Várias regiões tentaram restaurar as provas olímpicas com base no modelo antigo. Sem sucesso, até aparecer o barão de Coubertin, que em 1896 foi bem-sucedido ao criar, em Atenas, na mesma Grécia, os Jogos Olímpicos da Era Moderna.

CRONOLOGIA

  • 2500/2000 a. C. – Primeiras competições olímpicas
  • 580 a.C. – Sólon promulga uma lei em Atenas, dispondo que cada vencedor olímpico recebesse 500 dracmas
  • 520 a. C. – O programa dos Jogos Olímpicos se estabiliza, com sete dias de duração
  • 420 a. C. – Exclusão de Esparta dos Jogos Olímpicos
  • 388 a. C. – Na XCVIII Olimpíada, o primeiro caso de alteração de resultado: o pugilista Eupolos compra três adversários para ganhar o título
  • 313 a. C. e 210 a.C. – Saques contra a cidade de Olímpia
  • 395 – Os godos destroem Olímpia
  • 1896 – O barão de Coubertain recria em Atenas as Olimpíadas

Leia também: Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga – Parte 1

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Os mistérios da maçonaria

setembro 19, 2009

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A criação da primeira loja maçônica, em 1717, marca o nascimento da franco-maçonaria moderna. A origem dessa organização, porém, é muito mais remota e frequentemente imersa em mistérios,  alimentados  pelo costume de seus membros de investir em construções mais simbólicas que históricas.

Os adversários dos maçons, de seu lado, os vêem como herdeiros de tudo o que poderia atacar “o altar e o trono”. Em resumo, as pistas que levam aos primórdios do movimento ora são simplesmente confusas, ora misturadas a elementos não confiáveis.

Desde a constituição da primeira loja maçônica, tiveram início batalhas internas para eleger os “verdadeiros maçons”, ou seja, os mais autênticos, os mais tradicionais e os mais regulares. Nessa disputa, alguns se diziam ligados a uma tradição antiga, e, em seguida, outros reivindicavam uma ligação a um legado ainda mais longínquo.

Houve quem chegasse a afirmar que Adão havia sido o primeiro maçom. Talvez um dia alguém revele que, na verdade, foi o dinossauro! Falando sério, existem origens míticas, ou seja, não verificáveis historicamente, mas inscritas nos textos fundadores da organização. E existem também origens comprovada-mente históricas. É preciso separar uma coisa de outra e deter a imaginação das pessoas.

TEMPLÁRIOS

A suposta origem nos Templários é algo que suscita fantasias [leia mais sobre os Templários aqui]. Eles eram grandes construtores e montavam inúmeros canteiros de obras, nos quais os pedreiros exerciam seu ofício sem obrigações para com o rei.

Assim, durante dois séculos, os Templários e as corporações de ofícios coabitaram. Por isso, é tão tentador imaginar que determinados membros da Ordem do Templo fugiram e encontraram refúgio, em especial na Escócia, junto de organizações fraternais de talhadores de pedra.

Essa ligação é fantasiosa. Na verdade, o desaparecimento dos Templários deu origem a inúmeras lendas, e a mais recorrente indica que os maçons são seus herdeiros – incluído aí um fabuloso tesouro. Também é comum a alusão a maçons que organizaram um complô para vingar a morte do último grão-mestre dos Cavaleiros do Templo, Jacques de Molay. Falso!

Essa mitologia foi forjada pela própria maçonaria. Por volta de 1730, quando os maçons decidiram abandonar o perfil de construtores para formar um clube secreto, procuraram carregar consigo os nobres. O convencimento não era fácil, pois persistia a ideia de que aquilo não passava de corporação de operários. Eles precisavam de uma filiação de maior prestígio.

Andrew Michael de Ramsay, grande orador da Ordem Maçônica da França, encontrou um recurso astucioso: fundou uma nova maçonaria, com base na simbologia das Cruzadas. Ele não se referia explicitamente à Ordem dos Cavaleiros do Templo, ainda condenada por Roma, mas a uma ordem construtora herdeira que teria ressurgido na Escócia. Por meio dessa lenda, construiu o chamado “rito escocês antigo e aceito”, no qual certos graus se referem aos Templários: Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro Rosacruz e Cavaleiro Kadosh.

Essas filiações simbólicas enriqueciam o debate e traziam contribuições. O problema é que, em alguns casos, foram assumidas como verdadeiras. Não que não haja coincidências ainda inexplicadas entre as tradições dos dois grupos. Existem, mas em história é preciso ser prudente.

EGÍPCIOS

Seria sedutor imaginar uma maçonaria atravessando os séculos para preservar os segredos dos primeiros construtores de pirâmides. Eis uma ideia bonita, mas nada mais que inventiva.

É verdade que papiros datando de 2000 a.C. antes de nossa era descrevem o que poderíamos chamar de corporações, com objetivos definidos: caridade, condições de trabalho, salários, privilégios. As referências maçônicas ao Egito e a seus mistérios, porém, são recentes. Surgiram nos séculos XVIII e XIX, quando a franco-maçonaria se estruturava. Os ritos chamados de egípcios, como o Rito de Mênfis-Misraim, se multiplicaram no século XIX. Atualmente, subsiste uma maçonaria egípcia que reivindica uma herança espiritual, mas é preciso refletir sobre o que os maçons do século XIX pensavam sobre o Egito. Para eles, trava-se do berço dos ritos iniciáticos, o que resultou em uma visão extremamente deformada, que foi bastante explorada   pelos   escritores românticos, que viam o país como um lugar onde tudo era possível. A única certeza que temos é que os mitos, sejam egípcios, maçônicos ou de qualquer outra cultura, expressam verdades primeiras e universais. Se a forma muda e se adapta, os conhecimentos que eles transformam são sempre os mesmos.

A LENDA DO COMPLÔ MAÇÔNICO

Não há dúvida de que a Revolução Francesa foi deflagrada em nome dos valores defendidos pelos maçons no fim do século XVIII. A luta contra o despotismo real e a defesa da liberdade eram temas recorrentes nas lojas francesas da época. Há, no entanto, quem acredite que o levante de 1789 teria sido a primeira etapa de um complô mundial orquestrado pelos maçons para destruir todas as religiões. Inúmeros historiadores já demonstraram quão absurda é essa teoria, mas até hoje ela sobrevive entre os amantes de teorias da conspiração.

É interessante acompanhar a história dessa tese. Tudo começou depois da execução de Luís XVI, em 1793, quando um livro intitulado Mémoires pour servir l’histoire du jacobinisme (Memórias a serviço da história do jacobinismo) foi discretamente introduzido na França, vindo de Londres. Segundo o autor da obra, o abade Augustin Barruel, a franco-maçonaria havia organizado um vasto complô contra a monarquia e a Igreja que teria culminado na Revolução Francesa.

Nascido em 1741, Augustin Barruel estudou com os jesuítas e posteriormente se tomou padre. Depois da Revolução, foi obrigado a fugir para a Inglaterra. Lá, foi acolhido por um político e advogado londrino, Edmund Burke, que em 1790 publicou um importante estudo sobre as transformações políticas no país vizinho intitulado Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução na França).

Assim, foi de Londres que Barruel escreveu suas Memórias a serviço da história do jacobinismo. Um trecho desse livro resume bem a visão do abade: “Nessa Revolução Francesa tudo foi previsto, meditado, combinado, decidido, estabelecido – até os mais espantosos crimes: tudo foi resultado da mais profunda maldade, pois tudo foi preparado, dirigido por homens que tinham como único objetivo as conspirações há muito urdidas em sociedades secretas, e que espreitaram e souberam esperar pelo momento propício para o complô”.

O abade ainda explica que membros de outra sociedade secreta, os Illuminati da Bavária, teriam se infiltrado na maçonaria francesa. Dessa fusão teria nascido uma organização ainda mais secreta, reservada à elite da elite, e no seio dessa “supermaçonaria” é que a Revolução Francesa havia sido cuidadosamente preparada. Barruel chega a descrever o complô em detalhes. Segundo ele, em 1785 um emissário partiu da Bavária levando às lojas parisienses o plano secreto para desencadear a Revolução.

Apesar de toda a criatividade de Barruel, ele não foi o pai da ideia do complô. Já em 1791, outro abade, chamado Lefranc, tentava provar que o objetivo da maçonaria era derrubar o trono e o altar em um livro chamado Lê Voile leve pour lês curieux ou le Secret de Ia Révolution revele à l’aide de La franc-maçonneríe (Retirando o véu para os curiosos ou o Segredo da Revolução revelado com a ajuda da franco-maçonaria). Mesmo sem fornecer nenhuma prova para sustentar a tese do complô, o livro de Lefranc expõe com precisão como os maçons e os filósofos iluministas tinham “mudado os costumes da França”.

A terceira obra célebre que difundiu o tal complô foi publicada em 1796 por um certo Charles-Louis Cadet de Gassicourt, filho bastardo de Luís Xy com um título interminável: Lê Tombeau de Jacques Molay ou Histoire secrète abrégée des initiés andais et modernes, des Templiers, Franc-Maçons, Illuminés (A tumba de Jacques Molay ou História secreta resumida dos iniciados antigos e modernos, Templários, franco-maçons, Illuminati). No livro, Charles-Louis defendia a tese de que os maçons, herdeiros dos Templários, tinham voltado à Escócia para desencadear a Revolução Francesa! Uma vez mais, nada de provas.

A primeira refutação séria da ideia da conspiração maçônica foi elaborada em 1801 pelo prefeito de uma cidade da região de Ille-et-Vilaine, na França, chamado Jean-Joseph Mounier. Em seu livro De ttnfluence attríbuée aux philosophes, aux franc-maçons et aux illuminés sur Ia Révolution en France (Sobre a influência atribuída aos filósofos, maçons e Illuminati na Revolução na França), ele contesta ponto por ponto os argumentos de Barruel.

Mounier demonstra que, se os franco-maçons contribuíram efetivamente para a difusão de ideais que alimentaram os revolucionários, não existe nenhuma prova de que eles tenham organizado um complô. Na verdade, o autor explica que as lojas maçônicas eram pouco organizadas na época. Talvez fossem revolucionárias em suas crenças, mas eram muito pouco articuladas no plano da ação concreta e, além disso, movidas por concepções filosóficas extremamente variadas entre si.

De fato, a diversidade no interior da maçonaria francesa era enorme no fim do século XVIII. A sociedade secreta havia chegado ao país graças aos viajantes e negociantes vindos da Grã-Bretanha, berço da organização. A primeira loja maçônica foi instalada na cidade de Dunquerque, em 1721, e em meados do século XVIII a França já contava com cerca de 200 lojas, 22 apenas em Paris. Na aurora da Revolução, elas eram cerca de mil, e seus membros giravam em torno da casa dos 30 mil.

Quem eram os franco-maçons franceses daquela época? Essencialmente burgueses, aristocratas, militares e, surpreendentemente, eclesiásticos. A maçonaria fez um grande sucesso na França, pois as aspirações da sociedade estavam em sintonia com as da fraternidade: reação contra o despotismo real, desejo de liberdade, gosto pelas ciências e pela filosofia & curiosidade pela Inglaterra, país de origem da organização.

Foram sobretudo as ideias defendidas pelo Iluminismo, a liberdade de expressão e uma relativa tolerância religiosa que atraíram as pessoas às lojas. Como escreveu Daniel Momet em seu Lês Origines intellectuelles de Ia Révolution française (As origens intelectuais da Revolução Francesa), publicado em 1933, “os franco-maçons não eram revolucionários de coração, o eram apenas da boca para fora, acostumando-se às fórmulas com as quais a Revolução transformou a realidade”.

Ao contrário do que defendiam os adeptos do complô contra a monarquia e a Igreja, depois de 1789 a franco-maçonaria chegou a ser qualificada como uma espécie de guardiã dos valores culturais do Antigo Regime. A maioria dos aristocratas maçons, mesmo esclarecidos, não deixava de se agarrar a seus privilégios.

O duque de Orléans, Philippe Egalité, ex-grão-mestre do Grande Oriente, por exemplo, foi guilhotinado em 6 de novembro de 1793. A partir de 1792, as lojas se recolheram, e foi preciso esperar pela queda de Robespierre, em março de 1794, para que elas retomassem progressivamente as atividades. Tudo isso mostra que, ao passar pelo crivo da verificação histórica, a tese do abade Barruel não se sustenta.

O ESTRANHO MUNDO DOS SÍMBOLOS

Pesquisar o significado dos símbolos maçônicos é o cerne do desenvolvimento iniciático. Essa busca começa no dia da iniciação e não para nunca mais. Não existem maçons que sabem e maçons que ainda não sabem, só existem os que buscam. Mas o que significam, afinal, tantos signos? A resposta é: “Se você quer saber, torne-se um deles e descubra por si mesmo”.

O objetivo da fraternidade é permitir que o homem “construa” a si próprio nos planos intelectual, moral e espiritual. Por isso, as ferramentas inspiradas no mundo da construção são importantes se entendidas no nível simbólico. Os ritos, por sua vez, não podem ser resumidos a dicionários para ser compreendidos. O que eles propõem são pistas de reflexão. Os iniciados vão explorá-las sozinhos ou em grupo.

A evolução de um maçom é organizada em graus. Cada grau corresponde a um conjunto de símbolos, e há mais de 90 diferentes originários dos ofícios ligados à construção civil: malho, cinzel, compasso, esquadro, avental e luvas, nível, fio de prumo, trolha, régua, alavanca etc.

Há ainda elementos do Velho Testamento e da tradição de construtores de catedrais. O terceiro grau, por exemplo, põe em cena Hiram, construtor do primeiro Templo de Jerusalém no século XI a.C, o Templo de Salomão. Hiram foi assassinado por três companheiros.

As imagens não contêm mistérios nem magia: são utilizadas para fazer a mente trabalhar. Nada é sagrado nem há culto de adoração aos elementos. Você jamais verá um irmão se prosternar diante do que quer que seja.

Cada um deve se apropriar dos signos maçônicos e procurar em sua própria vida o que eles representam e acrescentam. Assim, o esquadro, símbolo da retidão, provoca a reflexão sobre o que se pode construir com probidade. Os elementos são utilizados para designar os conceitos complexos de modo simples.

Aqui, entramos no mundo do imaginário, no qual a razão desaparece. A esse respeito, os maçons costumam dizer que não sabem nem ler nem escrever, pois as coisas do imaginário não se prestam à linguagem escrita ou falada. Eles reabilitam o pensamento simbólico e o colocam no mesmo plano que o pensamento racional. Isso requer um aprendizado lento e rigoroso.

SEM DOGMAS

O primeiro olhar que o franco-maçom deve alterar é aquele que ele tem a seu próprio respeito. A abordagem iniciática pode ser resumida pela fórmula de Sócrates, “Conhece-te a ti mesmo”. Mas a frase completa é: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”.

Para reunir pessoas de religiões e culturas diferentes, os franco-maçons tomaram emprestada de Voltaire a ideia de um Grande Relojoeiro, mas permanecendo fiel à tradição de construtor – a expressão franco-maçon quer dizer “pedreiro-livre”, em francês. Daí a concepção do Grande Arquiteto do Universo, traduzida pelo princípio criador que não se opõe nem aos deuses das religiões nem ao materialismo científico.

Na maçonaria não há doutrina nem dogma, o que permite a todos,crentes, ateus ou agnósticos, compartilhar uma concepção de mundo. O Grande Arquiteto do Universo é representado pelo triângulo no centro do qual se localiza um olho, o olho da consciência, o Princípio Criador. É o olho que tudo vê, que protege ou julga, dependendo do caso. Esse símbolo já podia ser visto antes do surgimento da maçonaria, como representação divina nas pinturas pré-renascentistas e na antiga arte egípcia – no caso, aludindo a Hórus, filho de Ísis e Osíris.

O mais conhecido dos símbolos maçônicos, o esquadro e o compasso associados, apareceu em 1725. O esquadro remete à terra, ao número quatro e ao quadrado. O compasso alude ao céu, à unidade e ao círculo. Combinados, encontra-se a matéria (esquadro) e o espírito (compasso) indissociavelmente ligados.

Frequentemente se critica certo caráter “secreto” da maçonaria, a esconder talvez boa dose de perigo. Percepção errada. Desde a criação da primeira grande loja maçônica, em 1717, em Londres, começaram a circular textos detalhando seus ritos. O conhecimento verdadeiro, porém, está inscrito na vivência de cada maçom e é dificilmente transmissível.

Iniciado em 1750, Casanova exprimiria com perfeição a ideia: “O segredo da franco-maçonaria é inviolável por sua própria natureza, já que o maçom que o conhece, só o conhece por tê-lo adivinhado. Ele não o aprendeu de ninguém, ele o descobriu à força de ir à loja, de observar, raciocinar e deduzir”.

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Guia de dicas para o ENEM

setembro 18, 2009

A hora do ENEM está chegando e mais dicas e orientações são sempre úteis. Baixe um interessante material que certamente ajudará na preparação para as provas.

ENEM 2009 – Um guia de como se preparar para as provas
Reta Final: O que fazer no dia D
Conteúdo: Temas que podem cair
Redação: Dicas para escrever bem
Pontuação: Correção detecta chutes
Amigos: Estudar em grupo é legal

Links: Megaupload / Easyshare

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As Cruzadas – o renegado Renaud de Châtillon

setembro 7, 2009

Por Marie-Adélaide Nielsen, escritora e conservadora dos Asquivos Nacionais da França – Texto publicado na revists História Viva (edição especial)

Não há episódio na história medieval que tenha levado ao máximo o ideal cavalheiresco como as Cruzadas. A “peregrinação armada” impunha abandonar bens, família e terra por uma vida errante e de aventuras, em troca da salvação eterna e de um retorno financeiro incerto. Havia, contudo, uma aura particular nessa missão, e alguns cavaleiros viam as Cruzadas como ocasião de compensar seus erros, colocando suas espadas a serviço do mais poderoso dos senhores: o próprio Deus.

Várias figuras heróicas inspiraram os cruzados ao longo de dois séculos de aventuras no Oriente, entre elas, o pioneiro de todos os cruzados, Godo-fredo de Bouillon, que viveu no século XI. Louvado tanto pela bravura como pela piedade, admirado pela generosidade e temperança, ele foi modelo para todos os cruzados e pintado como alguém humilde a ponto de recusar a honra suprema, a coroa de Jerusalém, que seu irmão Baldulno aceitou.

Mais tarde, Luís IX, rei da França a partir de 1226 até sua morte e mais tarde canonizado como São Luís, foi reconhecido como outro modelo do cruzado ideal. Corajoso no combate, ardente na oração, generoso com os pobres e órfãos, perdeu a vida a serviço de Deus, em 1270, perto de Cartago. Para o espírito da época, ninguém poderia sonhar com um fim mais honroso.

O ideal cavalheiresco se firmou durante as Cruzadas, entre os séculos XI e XIII. Ao lado da lenda dourada dos cruzados santificados, porém, se desenhou uma lenda negra, a dos cavaleiros desleais. Traidores de seu rei e, pior, de Deus, eles eram traidores de juramentos, sedentos de poder e^ riquezas e covardes diante do inimigo. Alguns mostravam os piores defeitos que um cavaleiro poderia ter, o que não os impediu de protagonizar grandes aventuras e de se tomarem figuras lendárias.

O objetivo oficial da operação armada era, em 1096, liberar da dominação pagã o Santo Sepulcro, em Jerusalém, onde a tradição indica ter sido o local do sepultamento de Jesus e de sua ressurreição. Assim, o caminho da peregrinação ficaria livre para os cristãos.

Alguns cruzados viram na aventura uma forma de ganhar fortuna. Os mais informados tinham grande fascínio pela antiga Bizâncio, e o mundo muçulmano, pouco conhecido, era imaginado cheio de riquezas, pedras preciosas, produtos exóticos, ouro, dinheiro e seda.

Entre os cruzados estavam os normandos da Itália, como Bohé-mond de Taranto. Descendente do intrépido Tancrède de Hauteville, vindo da Normandia, pertencia à família que conquistou todo o sul da Itália e a Sicília. Seu pai, Robert Guiscard, planejara nada menos que conquistar Bizâncio, atravessando a Grécia.

Em 1096, Bohémond soube de uma grande expedição ao Oriente — um bom meio para conseguir um feudo maior e mais rico que seu condado de Amalfi, na Itália. Ele se pôs a caminho. Foi recebido com fausto em Bizâncio pelo imperador Alexis I Comneno e aceitou prestar antecipadamente o juramento de vassalagem ao soberano para suas futuras conquistas.

A homenagem lhe permitiu partir com o apoio imperial e se apoderar de Antioquia (hoje na Turquia). No início, ao sitiar o lugar, ameaçou voltar à Itália em busca de reforços. Mas os cruzados lhe imploraram que ficasse, prometendo-lhe tudo o que quisesse. Em seguida, depois de conseguir um aliado no interior da cidade cercada – uma garantia de acesso -, fez com que os outros chefes cruzados lhe prometessem que o primeiro a entrar na cidade iria possuí-la como feudo.

Assim, em 3 de junho de 1098, quando a cidade sucumbiu, apenas a bandeira de Bohémond tremulava. Ele e seus descendentes reinaram no principado de Antioquia por quase dois séculos. Ninguém podia negar as qualidades da coragem e da inteligência a Bohémond.

A busca de poder e fortuna resultou em casos menos bemsucedidos, como o de Hugo de Puiset, senhor de Jaffa, hoje território de Israel. Ele e muitos outros se colocaram sob a proteção dos inimigos da Igreja, os egípcios, para escapar da punição por suas traições aos propósitos das Cruzadas. Tais deserções, seguidas de alianças, frequentemente davam ao lado oposto o pretexto para atacar.

No domínio da patifaria, contudo, nenhum cavaleiro rivalizou com Renaud de Châtillon, um espinho no pé de Saladino, sultão do Egito, e ao mesmo tempo do reino de Jerusalém, que, fundado em 1099, na Primeira Cruzada, por esse tempo era governado por Balduíno IV.

Imagem que retrata uma execução ordenada por Chântillon

Imagem que retrata uma execução ordenada por Chântillon

Renaud de Châtillon foi um personagem ambíguo da Segunda Cruzada: oportunista e traidor para uns,modelo de bravura para outros e, para muitos, campeão da estupidez e da crueldade. “Sem fé e sem lei” é a definição que melhor o caracteriza. A lista de suas maldades é aterradora. A maioria dos especialistas o considera responsável pelo fracasso de 1187, na Batalha de Hattin, quando os muçulmanos retomaram Jerusalém e houve a queda dos Estados. latinos do Oriente.

Oriundo de uma família nobre, nada se sabe de sua juventude e de sua chegada à Terra Santa, que alcançou talvez em 1147. Logo seduziu uma jovem e rica viúva, Constan-ce de Antioquia, neta de Bohémond e herdeira do principado. Com o casamento, Renaud se tomou regente do principado, em nome do filho de Constance, Bohémond III, e, portanto, um dos principais líderes políticos da região.

Brutal e ávido de riquezas, contumaz em massacres e invasões a territórios inimigos, provocou ódio crescente nos muçulmanos e até nos bizantinos, que em teoria eram aliados dos cruzados, apesar de numerosas dissensões. Renaud participou de uma expedição na Síria, onde caiu prisioneiro em novembro de 1160. Foi levado ao cativeiro na cidadela de Alepo (hoje na Síria) e só ganhou a liberdade em 1176, graças a uma troca de prisioneiros e, provavelmente, ao pagamento de um colossal resgate de 120 mil dinares de ouro.

O filme Cruzada retrata algumas das "proezas" de Renaud de Châtillon

O filme Cruzada retrata algumas das "proezas" de Renaud de Châtillon

Voltou glorificado, com o prestígio de quem conseguira sobreviver a longos anos de prisão em cárcere inimigo. Fluente em árabe e turco, Renaud se tornou indispensável. Ofereceu, então, seus serviços a Balduíno IV, jovem rei de Jerusalém, que fez dele o senhor de Hebron, na hoje Cisjordânia.

Com a morte de Constance durante seu cativeiro, ele desposou outra viúva rica e jovem, Étien-nette de Milly, herdeira da senhoria de Além-Jordão. Situadas em pleno deserto, as terras ficavam nos confins das rotas comerciais que vinham da Arábia, do lêmen e do Egito, do mar Vermelho e da índia, mas por ali as mercadorias do Oriente subiam em direção aos portos do Mediterrâneo no Oriente Médio. Renaud logo percebeu a vantagem de estar em uma região estratégica. Graças aos pedágios pagos pelos caravaneiros, acrescidos do comércio de trigo, índigo, bálsamo, açúcar de cana e vinho, sua propriedade senhorial se tornou uma das mais prósperas do reino.

Renaud de Châtillon também retomou as pilhagens, sem deixar de enfrentar – é preciso reconhecer – as tropas islâmicas. Em 1181, ele rompeu pela primeira vez uma trégua entre Balduíno IV e Saladino, roubando um comboio na rota para Meca. Louco de raiva, Saladino teria dito que mataria Renaud com as próprias mãos.

Em 1183, ousou atacar as cidades sagradas de Medina e Meca. Montou uma expedição em direção ao mar Vermelho, transportando barcos no dorso de camelos pelo deserto até o porto de Eilat. Durante mais de um ano, semeou o terror, saqueando todas as cidades à beira do mar Vermelho até o lêmen e Áden. No caminho, afundou, por pura crueldade, um navio de peregrinos muçulmanos que seguia para Jedá. Consciente de seu valor militar e de ser indispensável ao rei de Jerusalém, gozava de total impunidade.

No plano político, sua influência aumentava. Aliado dos Templários [leia mais aqui], Renaud era partidário de uma política de conquista enérgica diante dos muçulmanos. Além disso, o moderado e sábio Balduíno IV morrera de lepra, e seu sucessor, Guy de Lusignan, não tinha forças para enfrentá-lo. Essas operações audaciosas, que poderiam ter influenciado o curso dos acontecimentos em favor dos cruzados, careciam, no entanto, de meios e preparação.

Em 1186, uma nova trégua foi penosamente assinada, para alívio do rei Guy, senhor de um reino debilitado. Mas Renaud não tinha jeito e atacou uma caravana que ia do Egito para Damasco. Massacrou os soldados, aprisionou os comerciantes e os caravaneiros e, ao que tudo indica, até a irmã de Saladino. Este se mostrou paciente e tentou negociar. Pediu a Renaud que soltasse os prisioneiros, devolvesse o saque e respeitasse a trégua. Renaud, com desprezo, o aconselhou a pedir a Maomé para salvá-los. Ao rei de Jerusalém, replicou que era o senhor de sua terra como o rei era da dele, forma de dizer que se recusava a obedecer.

Isso foi demais para Saladino. Ele armou um exército de 12 mil homens, fez o cerco a Kérak e seguiu para Jerusalém. O encontro decisivo entre o exército do sultão e o do rei de Jerusalém aconteceu em Hattin, em 4 de julho de 1187, próximo ao lago de Tiberíades.

A fina flor da cavalaria cruzada foi destruída nesse combate, travado sob sol implacável. Muitos cavaleiros acabaram decapitados. Um cronista de Damasco anotou: “Todos os dias vemos chegar cabeças dos cristãos, numerosas como melancias”.

Capturados, Guy de Lusignan e Renaud de Châtillon foram recebidos por Saladino em sua tenda, e o sultão ofereceu bebida ao rei Guy. Depois de beber, este estendeu a taça a Renaud, mas Saladino a tomou e lembrou o juramento que fizera de matá-lo com as próprias mãos.
Fanfarrão, Renaud respondeu com desdém, recusando-se a se converter ao islamismo. Saladino, então, golpeou-lhe o ombro com a cimitarra, espada típica dos muçulmanos. A guarda do sultão liquidou o prisioneiro, cortando-lhe a cabeça.

A sequência dos fatos é bem conhecida: houve a marcha de Saladino à Cidade Santa, que tomou para o Egito, a queda em cadeia dos Estados latinos e o desencadeamento da Terceira Cruzada. Por sua estupidez, suas ações impensadas e seu gosto pelo lucro, Renaud de Châtillon provocou, ou pelo menos acelerou, a destruição do reino latino de Jerusalém.

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Vestibular seriado da UPE/2009

setembro 4, 2009

Os estudantes que participarão do vestibular seriado da UPE (SSA – Sistema Seriado de Avaliação) precisam ficar atentos. As provas ocorerão no dia 15 de novembro (isto mesmo, num feriado!) . Os editais já estão disponíveis no site www.upenet.com.br e também podem ser conferidos abaixo:

Os programas das provas de História são:

1ª Fase:

  1. Cultura e História; a diversidade do fazer e do pensar humanos e sua relação com a Natureza. As relações entre poder e saber na Antiguidade Oriental e Ocidental e a busca pela compreensão e superação das dificuldades históricas.
  2. As relações de poder na Idade Média Ocidental e Oriental e a importância da Igreja Católica na construção das suas concepções de mundo. Resistências e heresias.
  3. A Modernidade com projeto histórico da sociedade européia. A formação do mundo moderno: Renascimento, Reforma e a conquista e colonização dos povos da América . Violência e dominação cultural nas relações políticas entre colonizados e colonizadores.
  4. A escravidão e sua inserção no mundo moderno. A luta contra o seu domínio e sua contribuição para o crescimento do poderio europeu na gestão das riquezas e das concepções culturais de mundo.

2ª Fase

  1. HISTÓRIA MODERNA – As crises do feudalismo. O Renascimento e as reformas religiosas. O Estado moderno e o Absolutismo monárquico. A expansão do comércio e a chegada dos europeus a América.
  2. A CONSTRUÇÃO DA AMÉRICA PORTUGUESA – A colonização da América portuguesa. A organização administrativa colonial.As riquezas coloniais e o trabalho escravo. As disputas entre as metrópoles européias e as ameaças aos domínios portugueses na América. A presença holandesa em Pernambuco. A expansão e as novas fronteiras da colônia portuguesa na América. As manifestações culturais no período colonial. A Igreja Católica e a colonização
  3. A FORMAÇÃO DO MUNDO COTEMPORÂNEO – A Revolução Industrial. O Iluminismo e a construção da modernidade. As Revoluções burguesas na Inglaterra e na França. A independência das colônias européias da América.
  4. A CRISE DO SISTEMA COLONIAL E O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA – As resistências à dominação colonial e os levantes contra a Metrópole. A transferência do governo português para o Brasil. Pernambuco insurgente. A Insurreição Pernambucana de 1817. O rompimento com Portugal.
  5. O IMPÉRIO DO BRASIL – A montagem do Estado Imperial. A Confederação do Equador em Pernambuco. O Período Regencial e as ameaças à unidade imperial. O Segundo Reinado e a consolidação do Estado Imperial. A Revolução Praieira. O advento da lavoura cafeeira e a reafirmação do escravismo.
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7 de setembro: um dia que entrou para a História

setembro 4, 2009

Todos os brasileiros aprendem na escola que d. Pedro I proclamou a Independência nas “margens plácidas” do Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822. A data, porém, não foi reconhecida imediatamente como o dia da Independência. Havia outras, mais apropriadas para um Império, principalmente o dia 12 de outubro, data da aclamação do primeiro imperador e também seu aniversário. Até 1826, esta foi mais importante do que a do Grito do Ipiranga. Naquele ano, o novo parlamento imperial designou cinco dias de festividade nacional, entre eles, Sete de Setembro e Doze de Outubro, que durante alguns anos foram considerados datas de igual importância.

Como se comemorava então os dias de festejo nacional na Corte, a capital do Império? Havia comemorações oficiais: uma grande parada das Forças Armadas (Exército, milícias e, depois de 1831, Guarda Nacional); um Te Deum (ofício religioso de ação de graças) na capela imperial; um cortejo e beija-mão no Paço da cidade. À noite, os habitantes costumavam iluminar as janelas das suas casas com velas ou lâmpadas de azeite, enquanto o imperador e boa parte da sociedade assistia a um espetáculo de gala em um dos teatros da cidade. O espetáculo sempre começava logo após a chegada do imperador e da imperatriz, saudados pela orquestra ou a companhia que tocava ou cantava o Hino da Independência ou o Hino Nacional, que tinha uma letra diferente da atual e nem sempre cantada nos eventos. Durante a parada e no início do espetáculo, dava-se vivas à Independência e ao monarca e, no teatro, poetas liam sonetos e outros versos comemorativos do dia durante os intervalos.

Estes festejos tinham fins políticos específicos. A parada mostrava o poder do Estado e arregimentava publicamente os cidadãos alistados na Guarda Nacional (composta de homens cuja renda alcançava a mínima requerida pela Constituição para o exercício da cidadania). No Te Deum, dava-se graças ao Todo-pode-roso. No cortejo, o corpo diplomático, as altas autoridades e boa parte da elite cumprimentavam o imperador e, ao beijar-lhe a mão (antigo costume português), mostravam seu respeito e reverência. No teatro, o imperador e a elite aproximavam-se, unidos no patriotismo. Os elogios reiteravam esta interpretação: Pedro I, segundo José Pedro Fernandes, um dos poetas “oficiais” do Primeiro Reinado:

“Fez abrolhar no solo Brasileiro
Todos os dons, os elementos todos
Da glória, do Heroísmo, e da Fortuna”

O aparente consenso em torno das duas datas de festejo nacional foi rompido em 1830 pela atuação dos Moderados e dos Exaltados, os grupos de liberais que contestavam as tendências cada vez mais autoritárias do imperador. Como parte da sua campanha, eles organizaram uma comemoração do Sete de Setembro na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, “onde um luzido e numerosíssimo concurso de homens, e senhoras se detiveram desde o anoitecer do dia 7 até a madrugada do dia seguinte”. Ao insistir que Pedro havia meramente seguido os desejos de todos os brasileiros no Grito do Ipiranga, e, portanto, “tornou-se digno de reinar sobre os brasileiros”, a retórica deste festejo oposicionista contestou a interpretação oficial da Independência. Depois da abdicação de d. Pedro I, em 7 de abril de 1831, com os Moderados assolados pela ameaça da violência popular que tomava as ruas do Rio de Janeiro, a Regência – que assumiu o poder em nome de d. Pedro II, então com cinco anos – se esforçou para manter as comemorações sob controle. Limitavam-se os ritos oficiais, e Evaristo da Veiga, o porta-voz dos Moderados, recomendou que “todos os Brasileiros que amam a pátria, sejam quais forem os seus princípios políticos” se abraçassem no Sete de Setembro. Não foi tão fácil manter a ordem, e durante estes anos conturbados as autoridades reclamavam da atuação dos “agitadores” que provocavam violência contra – portugueses ou adversários políticos. A morte de d. Pedro I, em 1834, tirou-o do cenário político e possibilitou seu retorno ao centro das comemorações como o fundador do Império, o príncipe liberal que deu os primeiros passos para a liberdade da nação.

Em 1854, durante o auge do Império, começou a campanha para o monumento a d. PedroI fundido na França e inaugurado com muita pompa no dia 30 de março de 1862, na Praça da Constituição, a estátua equestre comemorava tanto a proclamação da Independência como a Constituição, outorgada pelo imperador em 1824. Liderada por um grupo de homens intimamente associados a d. Pedro II e ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a campanha fazia parte dos esforços do Instituto no sentido de criar uma história oficial do Império.

Um ano após o começo da campanha da estátua, fundou-se a Sociedade Ipiranga na cidade do Rio de Janeiro para “arrancar da indiferença o aniversário da nossa emancipação política”. Contando com a participação de alguns dos homens envolvidos na campanha do monumento, a nova sociedade convidou os habitantes a restaurar o costume antigo de iluminar janelas e contratou bandas de música para tocar na Praça da Constituição, no lugar onde se erigiria o monumento. Logo surgiram outras sociedades patrióticas que, como a Ipiranga, financiaram fogos de artifício, construíram monumentos efêmeros e, durante alguns anos, libertavam escravos para comemorar o Sete de Setembro. A imprensa concordou que elas transformaram as comemorações. Um jornal descreveu “três noites de iluminação, salvas, girândolas e foguetes a mais não poder, músicas em coretos e pelas ruas, jantares  e  reuniões patrióticas”.  Em 1859, “milhares de cidadãos de todas as classes e posições” levantaram-se cedo “para saudarem o alvorecer do primeiro dia nacional”. Na Praça da Constituição, uma sociedade havia mandado construir um chafariz representando os quatro grandes rios do Brasil (o Amazonas, o Prata, o Tocantins e o São Francisco), que sustentavam um busto de d. Pedro I, rodeado por vinte colunas que representavam as províncias.

Os jornais enfatizavam que nestes festejos “populares” não havia nenhum indício dos “anárquicos exageros de mal-entendido patriotismo”, embora registrassem a prisão de capoeiras durante as comemorações. A libertação de escravos pela Sociedade Ipiranga, realizada pela primeira vez em 1856, foi recebida por alguns como “um pensamento muito nobre”, mas neste mesmo ano corriam boatos “pelas classes ínfimas” que todos os escravos iam “ficar forros nesse dia”. Era perigoso demais ligar o patriotismo à libertação de escravos, e apenas poucos foram alforriados nas comemorações da segunda metade da década. Só na década de 1880, em plena campanha abolicionista, a libertação de escravos se tornaria um ato patriótico comum no Sete de Setembro.

A onda de entusiasmo patriótico diminuiu tão rápido quanto surgiu. “Triste, desanimado, desceu ao abismo do passado o primeiro dia brasileiro” em 1862, ano da inauguração da estátua. D. Pedro II também reparou a “frieza” das comemorações deste ano, “atento o entusiasmo de há poucos anos”. Já na época da Guerra do Paraguai (1864-1870), os “ruidosos festejos” eram considerados uma coisa do passado.

Todavia, a forma das comemorações mantinha-se inalterada, como demonstra uma crônica em quadrinhos de 1883. Acordado de madrugada pelas salvas de artilharia, o caricaturista explicou que não pertencia à alta sociedade e, portanto, não foi ao Paço para assistir ao cortejo. Na Praça da Constituição, viu a estátua equestre de d. Pedro I embandeirada e os dois coretos construídos na forma de castelos. Grupos de “brava gente brasileira” se reuniam na praça, onde um poeta animado recitava versos patrióticos.

Nas décadas de 1870 e 1880, a Sociedade Comemorativa da Independência do Império coordenava esses festejos, pagava as bandas, e organizava uma vigília de 24 horas durante as quais o monumento estava iluminado. Em 1883, “uma formidável massa enchia a praça”, mas Cari von Koseritz, um viajante alemão, “não compreendeu realmente o que toda essa gente fazia ali, pois além da iluminação não havia absolutamente nada a não ser a música”.

Cada vez mais, o monumento tornou-se o símbolo de um regime a ser criticado. As charges publicadas nos jornais ilustrados da capital no dia Sete de Setembro chamavam atenção para as falhas do regime imperial. Mesmo a estátua parecia cansada da retórica oficial das comemorações. Em 1888, segundo Raul Pompéia, houve pouca animação. O “louvável empenho dos festejadores” da Sociedade Comemorativa não inspirou a população; apenas um punhado de “curiosos” se levantou cedo para ver a alvorada no morro de Santo António e poucos foram “suar a canícula no saguão do Paço” para assistir ao cortejo.

À medida que o Império entrava em decadência, também decaía o ritual cívico associado a ele. Já na época da inauguração da estátua equestre, liberais radicais contestavam a história oficial da Independência, que destacava o papel do primeiro imperador. Teófilo Otoni, líder da ala radical do Partido Liberal, publicamente recusou participar da inauguração, pois a estátua representava a Independência como “uma doação do monarca”. Ao contrário disso, Otoni traçou uma história da Independência que passava pela Inconfidência Mineira, o suplício de Tiradentes, e a revolta republicana de Pernambuco em 1817. O imperador meramente respondia ao desejo dos brasileiros pela Independência e, depois, traiu a nação quando fechou a Assembleia Constituinte em 1823. Depois da Guerra do Paraguai, republicanos levaram adiante este argumento. Em vez de conquistar a liberdade no dia Sete de Setembro, lamentou um jornal em 1882, os brasileiros ficaram sob “o odioso poderio da família brangantina” que tramou um bem-sucedido “apartamento de bens” em 1822. Rejeitou, com algum exagero, a “pompa faraônica” do dia Sete e argumentou que uma comemoração digna da Independência seria a construção de escolas, fábricas e museus. Não foi por acaso que, para os republicanos, Tiradentes tornou-se símbolo predileto; em 1890, a Praça da Constituição mudou de nome para homenagear o inconfidente, com alguns dos mais exaltados exigindo a remoção da estátua equestre de d. Pedro.

Nas páginas dos jornais e nas ruas da capital do Império, no dia Sete de Setembro, brasileiros discutiam o significado da Independência. Os festejos tornaram-se um espaço político onde se lutava pelas interpretações do passado para influenciar o rumo futuro do Estado e da nação. Todos (menos os escravos e, em determinadas épocas, os naturais de Portugal) eram brasileiros e comemoravam a Independência, mas ainda se discutia o significado tanto de ser brasileiro como o da própria Independência.

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Gripes históricas – a História das gripes

setembro 4, 2009

Por Álvaro Oppermann para a revista Aventuras na História (ed. 71 – junho de 2009)

Em setembro de 1918, o mundo descobriu, atemorizado, um inimigo mortífero. Já não bastassem os horrores da Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas foram dizimadas por outra causa. A humanidade estava sendo atacada pela gripe espanhola — pelo menos um quinto da população mundial contraiu a doença —, e não sabia como se defender. Os sintomas eram violentos. O doente sentia dor de cabeça e era tomado por calafrios tão intensos que os cobertores se tornavam inúteis. Depois começava a tossir sangue e os pés ficavam pretos. Quando os pulmões se enchiam de uma mistura de secreções, era o fim. E tudo isso ocorria com velocidade assustadora: da saúde ao óbito, passavam-se poucos dias, ou mesmo horas. “Pessoas saíam de manhã para trabalhar e não retornavam”, escreve a jornalista americana Gina Kolata em Gripe: a História da Pandemia de 1918. Sozinha, a gripe matou de 30 milhões a 100 milhões de pessoas. Mais que a Primeira Guerra, que deixou 10 milhões de vítimas fatais.

Ainda é cedo para saber como será o desdobramento do atual surto de gripe suína. Mas, a cada nova pandemia, o fantasma de 1918 retorna. E com bons motivos: os métodos de transmissão só foram identificados há poucas décadas, e ainda não se conhece a receita para interromper uma crise da doença, que parece ter se tornado mais fatal no século 20.

A primeira referência à gripe na História foi feita por Hipócrates. O médico grego relatou em 412 a.C. que uma doença respiratória atacou de forma epidêmica a Grécia e em poucas semanas matou centenas. Foram os gregos que cunharam a palavra “epidemia” para as doenças infecciosas que se abatem sobre grande número de pessoas em uma localidade. A expressão vinha de epidemos, indivíduos que não moravam nas cidades. “O médico [Hipócrates] fez tal comparação porque as doenças infecciosas não eram da região e iam embora”, escreve o médico Stefan Cunha Ujvari em A História e suas Epidemias.

A epidemia de gripe só reapareceu em 1173 e o primeiro caso sério veio no século 16. Em 1580, uma pandemia se alastrou pela Europa a partir da Espanha. Os agentes do contágio teriam sido os soldados do rei Felipe II (1527-1598). No século 18, três novos grandes surtos provocaram o surgimento do termo “influenza”. Muitas teorias versam sobre a origem do nome, da influência dos astros à interferência do frio (já que a gripe é mais comum no inverno). Em 1837, a combinação de doença e baixas temperaturas foi tão séria em Berlim que, em janeiro, o número de mortos pela gripe excedeu o de recém-nascidos.

As pandemias de gripe atravessaram o tempo, os vírus sofreram mutações e os tratamentos também mudaram muito desde a época de Hipócrates, que, no século S, prescrevia sangrias. Adepto da teoria clássica dos humores (secreções do corpo), ele dizia que a sangria eliminaria o fluxo sanguíneo excessivo, o suposto causador da doença. Tal tratamento foi amplamente utilizado pelos médicos até o fim do século 19. Porém, ele nem de longe era o mais bizarro. No século 18, médicos franceses garantiam que a gripe era causada pelo excesso de relações sexuais e recomendavam a castidade. Em Londres, do fim do século 19 até a década de 1920, os banhos quentes e o vinho eram recomendados como tratamento certeiro. No Brasil, em 1918, ficou popular o uso do quinino e purgantes. Nem um nem outro tinham efeito algum sobre a doença. O quinino era usado para a malária, que, sabe-se hoje, é causada por protozoário, não por vírus. Os purgantes, por sua vez, só funcionavam para causar uma bela dor de barriga no doente, que já estava debilitado. A Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1918, também indicava canja de galinha. Resultado: grandes armazéns no Rio de Janeiro e em São Paulo foram saqueados pela população em busca do frango salvador. A primeira vacina surgiria em 1945, nos Estados Unidos, feita de vírus mortos. As vacinas se popularizaram nos anos 1960, mas só em 2003 foi aprovado o uso de vírus vivos.

A descoberta do vírus

Graças ao microscópio, o estudo das causas e dos tratamentos só ganhou rigor científico no século 20. No século 19, já se conheciam as bactérias, mas o vírus da influenza A seria isolado apenas em 1933, pelos cientistas Wilson Smith, Christopher Andrews e Patrick Laidlaw.
A versão B foi identificada em 1939, e a C em 1950. Essas letras, A, B e C, foram criadas nos anos 1950 para identificar os três tipos que existem: a C é a comum, a B é a típica gripe de inverno, que ataca especialmente as crianças, e a A é selvagem e perigosa — um verdadeiro peso-pesado.

O habitat natural do vírus A, causador das grandes pandemias, como a espanhola e a gripe atual, é o mesmo dos patos e de outras aves aquáticas. Ele também pode viver em mamíferos como porcos, cavalos, baleias e leões-marinhos. Isso explica por que se costuma dizer que uma gripe é “suína” ou “aviária”. O apelido indica a origem do vírus A.

Gripes do porco

Quando Smith isolou o microorganismo, na década de 1930, notou que ele tinha uma estrutura muito simples. “É constituído apenas do seu material genético, seja DNA, seja RNA. Ao contrário das bactérias, não tem o maquinário necessário para reprodução”, diz Stefan Cunha Ujvari. Por isso, precisa, necessariamente, viver dentro de um hospedeiro. Ele invade as células e lá dentro faz cópias exatas de si mesmo. É a forma de se replicar.

Os vírus têm extrema dificuldade de saltar de uma ave para um ser humano. Porém, conseguem fazer essa migração utilizando os porcos como “escala”. Foi isso que aconteceu em 1918, segundo a teoria de dois eminentes professores de virologia, Robert Webster e Kennedy Shortridge. O causador da gripe espanhola,  dizem eles, começou provavelmente em uma ave e foi transmitido a um porco, que por sua vez infectou pessoas — razão qual os sobreviventes da epidemia tinham anticorpos da gripe suína.

De acordo com Shortridge, foi na China, um milênio antes da era atual, que os plantadores de arroz começaram a criar porcos junto com patos. “Foi a oportunidade ideal para o vírus saltar para nós”, diz o cientista. Devemos ficar bravos com os porcos? Bem, se eles pudessem entender de virologia, também teriam motivo para ficar irritados conosco. Afinal, esses bichos também pegam gripe dos seres humanos. No início de maio de 2009, cientistas investigavam o caso de um fazendeiro de Alberta, no Canadá, que teria transmitido a gripe para sua criação de porcos: 200 animais foram contaminados após ele passar uma temporada no México, onde contraiu o vírus originado em outros porcos. Se a suspeita se confirmar, o ciclo se fechará.

Vírus mortais – As cinco maiores epidemias de gripe da História

A Gripe Russa (1889-1890)

  • Sintomas: febre e pneumonia
  • Propagação: foi gcarregada pelo vento e pelas linhas de trens, como o Expresso Transiberiano. Em 15 dias atravessou aRússia inteira, da Sibéria a São Petersburgo. A epidemia atingiu toda a Europa, norte da África, a China, países do sudeste asiático, EUA, América Central e América do Sul.
  • Mortos: 1,5 milhão
  • Tratamentos usados na época: acreditava-se que banhos quentes e vinho eram remédios. Durante o surto, casas de banho ficaram populares em Londres.

A Gripe Espanhola (1918-1919)

  • Sintomas: pneumonia viral, sangramentos e calafrios
  • Propagação: a gripe atingiu todos os continentes
  • Mortes: 30 milhões a 100 milhões
  • Tratamentos: NA Europa, cidades inteiras ficaram de quarentena. No Brasil, receitava-se bromo-quinino, sulfato de quinino, limonada purgativa, chá de canela e canja de galinha.

A Gripe Asiática (1957-1958)

  • Sintomas: febre alta, dor de cabeça e cansaço
  • Propagação: alastrou-se devagar, principalmente por terra e por mar, com surtos localizados. Além da Ásia, atingiu também a Europa, a África, a Oceania e os EUA.
  • Mortos: 2 milhões
  • Tratamentos: a tecnologia da época possibilitou a fabricação de vacinas, porém em quantidade insuficiente.

A Gripe de Hong Kong (1968-1969)

  • Sintomas: febre alta, dor nas articulações e cansaço
  • Propagação: Pessoas infectadas espalharam a doença através de deslocamentos entre várias partes do mundo e a epidemia atingiu a Ásia, a Oceania, a Europa e os EUA.
  • Mortos: 1 milhão
  • Tratamentos: antibióticos e vacina

A Gripe Aviária  (1997-2004)

  • Sintomas: febre, tosse e dores na garganta
  • Propagação: em 1997, 18 pessoas foram infectadas por frangos. Depois o vírus ganhou uma mutação, o subtipo H9N2, e se espalhou através das aves. A epidemia atingiu o sudeste asiático, a Europa e a África.
  • Mortes: 300
  • Tratamentos: sacrifício de 1,5 milhões de aves em Hong Kong. O grupo farmacêutico Novartis tem um projeto de vacina contra o vírus.