Archive for the ‘Pré-História’ Category

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Massacre da idade da pedra oferece evidência mais antiga da ocorrência guerras

janeiro 21, 2016

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Esqueleto de homem contendo diversas lesões cranianas

Em Nataruk, perto do Lago Turkana, no Quênia, foram encontradas evidências seguras e comprovadas da ocorrência de uma batalha entre caçadores-coletores nômades pré-históricos. O conflito ocorreu por volta de 10.000 anos atrás e atos brutais fizeram parte da luta, pois diversos crânios com fraturas graves, incluindo ferimentos faciais, além de ossos quebrados de mãos, joelhos, costelas e pontas de flechas ainda cravadas em ossos foram descobertos no cenário da guerra. Uma mulher nos últimos estágios de gravidez foi encontrada com antebraços e pernas cruzados (porque estavam provavelmente presos), tendo joelhos fraturados. Um esqueleto de homem foi descoberto contendo no crânio um fragmento de lâmina de obsidiana – um tipo de vidro vulcânico forte e cortante – e, além desse ferimento, com esmagamento facial provavelmente causado por uma clava de madeira.

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Esqueleto feminino com fraturas e indícios de que a vítima pode ter sido amarrada antes de morrer

Os restos mortais fossilizados foram preservados em uma antiga área pantanosa que secou há milhares de anos, indicando que por ocasião do conflito a região era fértil e com favoráveis meios e condições para sobrevivência. Por conta disso cientistas avaliam que o Massacre de Nataruk pode ter sido resultado de de disputas por recursos e territórios, além da possibilidade de uma ação de pilhagem de alimentos armazenados em potes.

Os pesquisadores da Universidade de Cambridge envolvidos nas escavações concluem que o Massacre de Nataruk é um indício de que a violência é mesmo uma prática comum entre os humanos desde tempos remotos.

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Indícios mais antigos de uma decapitação nas Américas

setembro 24, 2015

1444637561193128335Aqui no Brasil, na Lapa do Santo (MG), foi encontrada aquele que é o mais antigo registro de decapitação das Américas. A ossada de cerca de 9.000 anos é caracterizada por conter um crânio, mandíbula, algumas vértebras e duas mãos decepadas de um homem adulto.

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A condição dos restos mortais indicam que a disposição das partes humanas consistiu em um ritual e os arqueólogos consideram que o indivíduo era membro do grupo. O ritual deveria fazer parte dos tratamentos mortuários empregados pela comunidade primitiva que habitou a região.
1444637561338012047Há indícios de que a cabeça decepada não foi separada do corpo por um corte e sim por meio do ato de torcer e puxar até ocorrer a decapitação. Essa conclusão deve-se ao fato de que entre o grupo não eram utilizados instrumentos cortantes e muito menos produzidos por metais.

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Mais um ancestral pré-histórico identificado?

março 8, 2015

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Paleontólogos que trabalham na Etiópia estão analisando uma recente descoberta que pode indicar mais uma nova revisão sobre o que se sabe sobre nossa ancestralidade. Uma queixada pré-histórica de cerca de 2,8 milhões de anos pode representar a identificação de uma outra espécie, talvez a mais antiga do gênero homo.

A mandíbula que encontrada por pesquisadores da Universidade do Arizona, EUA, está em boas condições – o que é incomum em achados do tipo – e traz características de transição evolutiva entre os gêneros australopithecus e o homo.

“É o fóssil mais antigo que pode ser atribuído ao nosso gênero”, afirma com entusiamo o paleontólogo Brian A. Villmoare, da Universidade de Nevada, EUA. Análises indicam que o achado não traz restos que pertenceram a um indivíduo da espécie Homo habilis e outras pesquisas indicam a a possibilidade, pois pesquisas do respeitado Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, concluíram que as origens do habilis podem demonstar mesmo a um período anterior ao que se convencionou até agora.

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As tatuagens mais antigas do mundo

fevereiro 27, 2015

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O famoso Ötzi, o Homem de Gelo, descoberto em 1991 por turistas alemães em Ötzal, nos Alpes entre a Áustria e a Itália, é uma múmia natural de um homem que viveu por volta de 5.300 anos atrás. Conforme os registros disponíveis, a múmia congelada de Ötzi traz os mais antigos registros de tatuagens conhecidos, sendo 61 identificadas em seu corpo.

Fotos e análises de imagens eletrônicas processadas por meio de softwares especiais permitiram a identificação das tatuagens que não puderam ser identificadas a olho nu.

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Os pesquisadores especulam sobre hipóteses que expliquem as várias tatuagens de Ötzi. Inicialmente suspeitavam de que procedimentos médicos e terapéuticos poderiam explicar as marcas, pois a maioria delas estavam em áreas sobre ou próximas de articulações, mas a identificação de tatuagens também nas costas levantou outras possibilidades. Agora discute-se que as tatuagens pré-históricas poderiam então ter outras finalidades, inclusive religiosas.

O método para realização das tatuagens encontradas no Homem de Gelo foi o emprego de cortes sobre os quais carvões foram esfregados.

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Os neandertais eram tão inteligentes quanto os Homo sapiens

abril 30, 2014
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Crânio de um neandertal e de um Homo sapiens

O Homem de Neandertal não era exatamente o troglodita que se imaginava. Ele era tão inteligente quanto os homens modernos e esta é a conclusão foi confirmada por mais um estudo (de pesquisadores da Universidade de Leiden, Holanda) sobre esta espécie humana primitiva – e não é a primeira investigação a concluir isso.

Os neandertais surgiram aproximadamente entre 350.000 a 400.000 anos atrás e foram extintos por volta de 30.000 passados, tendo se espalhado por várias partes da Europa e Ásia. As razões para o desaparecimento da espécie são controvertidas e por muito tempo cogitava-se que a extinção dos neandertais ocorreu em função da desvantagem cognitiva que sofriam em relação aos seus parentes “mais evoluídos”, os Homo sapiens.

Já os pesquisadores C. Michael Barton (Universidade do Arizona State) e Julien Riel-Salvatore (Universidade do Colorado) concluíram que as aproximações entre os neandertais e nossa espécie eram mais intensas do que muitos imaginavam. Os cientistas desenvolveram estudos que indicaram que traços genéticos entre as duas espécies são compartilhados porque os cruzamentos entre elas eram comuns. Eles sugerem que os neandertais foram sendo extintos por terem chegado a ponto no qual a sua população passou a ser significativamente inferior. Os estudiosos acreditam que o processo de miscigenação pode ter sido o destino de nossos primos ancestrais, que teriam minguado através de um processo no qual sua presença foi sendo diluída pela mistura com indivíduos de uma espécie que se tornou numericamente muito superior, enfim, eles não aceitam uma ideia que durante muito tempo se propaga que trata da extinção como um processo no qual os neandertais quase que simplesmente desapareceram.

E eles não encerram aí suas conclusões: Avaliando resquícios materiais deixados pelos neandertais, os especialistas também não acham que eles fossem “inferiores” ou menos hábeis e capazes que nossa espécie.

Wil Roebroeks (da Universidade de Leiden) e Paola Villa (Universidade do Colorado) concordam com outras possibilidades a respeito do que se imaginava sobre os neandertais e sua suposta inferioridade. Eles defendem a tese de que as pesquisas mais antigas e até mais conhecidas acabaram induzindo a um importante erro de avaliação porque os pesquisadores costumavam comparar restos de espécimes de neandertais com esqueletos de Homo sapiens do paleolítico superior, quando, na verdade, deveriam realizar as comparações com homens modernos contemporâneos dos neandertais. Segundo Paola Villa “isso é como dizer que as pessoas no século 21 são mais inteligentes do que as do 19 porque estas últimas não tinham laptops nem realizavam viagens espaciais” e conclui afirmando: “O que estamos dizendo é que a visão convencional de neandertais não é verdade”.

As pesquisas mais recentes também recorrem a novos métodos e exploram as potencialidades dos estudos genéticos.

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Ainda utilizamos instrumentos inventados pelos neandertais?

agosto 13, 2013

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Quando os Homo sapiens chegaram à Europa os neandertais já haviam feito do continente o seu lar e adotavam comportamentos e práticas que mais tarde foram associados aos sapiens.

Foram os neandertais quem inventaram um instrumento chamado de lissoir (polidor) – uma ferramenta das mais antigas localizadas na Europa e que era constituído por flexíveis pedaços de costelas de veados e servia para trabalhar peles, tornando-as macias e resistentes, sendo uma ferramenta (evidentemente adaptada) utilizada até hoje em cortumes. Trata-se de um artefato especializado e de uso sofisticado que os neandertais tiveram plena capacidade de desenvolver, associando as características específicas do material às possibilidades de seus usos e aplicações.

Esquema de uso de um lissoir

Esquema de uso de um lissoir

Peças desse tipo foram localizadas no sudoeste da França e datam de cerca de 50.000 anos. Responsável pela identificação do instrumento, a arqueóloga Marie Soressi conclui que este achado confirma o fato de que várias criações e hábitos dos Homo sapiens podem ter sido reproduzidos a partir do que os neandertais já faziam, reforçando a ideia de que foi intensa a interação entre essas duas espécies. A pesquisadora disse que “esta é a primeira evidência evidente sobre transmissão da cultura de neandertais para os nossos antepassados diretos …. Pode ser uma ou talvez mesmo a única herança dos tempos de Neanderthal que a nossa sociedade ainda está usando hoje”.

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Há um neandertal dentro de nós

janeiro 17, 2011

Peter Moon (publicado na Revista Época, Edição 655 – 10 de maio de 2010)

Nossos primos mais próximos não se extinguiram por completo. Humanos e neandertais acasalaram. Os europeus e asiáticos são seus descendentes.

Uma das mais importantes questões da antropologia foi respondida. Desde o século XIX se discute a identidade do homem de Neandertal. Quem era esse nosso primo em primeiro grau na família evolutiva humana? Os neandertais, ou Homo neandertha-lensis, eram maiores e mais fortes que os Homo sapiens, os homens modernos que evoluíram na África há 200 mil anos.

Já os neandertais habitaram a Europa e o Oriente Médio por 300 mil anos. Eles conheciam o fogo, caçavam mamutes com lanças sofisticadas e se protegiam do frio com peles dos animais abatidos. Os neandertais eram inteligentes. Seu cérebro era maior que o nosso. Era uma espécie magnificamente adaptada à sobrevivência nas duríssimas condições da Europa glacial. Mesmo assim, desapareceram. Após ceder progressivamente um continente inteiro aos invasores de nossa espécie, há 22 mil anos os últimos bandos remanescentes refugiaram-se nas cavernas do rochedo de Gibraltar, no extremo sul da Espanha. Era um beco sem saída. Do alto do rochedo avista-se a África, do outro lado do Estreito de Gibraltar. Só 13 quilômetros de mar separavam os neandertais da sobrevivência. Mas essa não era uma opção. Eles nunca inventaram barcos. A espécie se extinguiu.  Mas era só o primeiro volume.

O segundo volume da história dos neandertais começou a ser escrito na semana passada, com a divulgação do mapeamento do genoma da espécie na revista Science. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que, se um deles entrar aqui barbeado e vestido, ninguém notará a diferença”, disse o geneticista sueco Svante Pààbo, de 55 anos, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha. Ao comparar o DNA neandertal com o nosso, veio a surpresa. Os neandertais não desapareceram totalmente. Uma pequena fração de seu material hereditário continua viva em nós, incorporada no DNA de cada célula dos bilhões de humanos com raízes na Europa e na Ásia.

Todos têm genes neandertais. Seus antepassados comuns pertenceram à primeira leva humana que saiu da África. Eles acasalaram com os neandertais. A miscigenação, diz Pàãbo, deu-se no Oriente Médio, entre 80 mil e 50 mil anos atrás. A contribuição genética neandertal não é universal. Os descendentes dos humanos que ficaram na África não se misturaram. Seu DNA não tem genes neandertais. Entender as causas que teriam levado os neandertais à extinção foi motivo de um debate acalorado que começou em 1856, quando seus primeiros fósseis foram retirados de uma caverna no Vale do Rio Neander, na Alemanha. Na época, o planeta estava partilhado pelas potências coloniais européias. Seus monarcas creditavam esse domínio à superioridade biológica, moral e tecnológica da civilização branca, cristã e européia.

Identificar os neandertais como os ancestrais diretos dos europeus foi um passo imediato. Era a prova cabal de que o homem surgiu na Europa e, por isso, era superior aos asiáticos, aborígines e africanos. Não contavam com Charles Darwin. Em 1871, ao afirmar que chimpanzés e humanos evoluíram de um ancestral comum, Darwin apontou a África como o provável berço da humanidade. De uma hora para outra, os neandertais foram destituídos de sua primazia e rebaixados a primitivos “homens das cavernas”. A queda social dos neandertais não moveu o foco do debate sobre as causas de sua extinção. Arqueólogos, antropólogos e paleontólogos discutiram por 150 anos.

A maioria afirmava que os neandertais, supostamente dotados de uma capacidade cognitiva inferior à nossa, nunca tiveram condição intelectual para concorrer com o Homo sapiens pelo domínio dos territórios de caça. Outra grande facção creditava o fim dos neandertais na conta de nossa espécie, naquele que teria sido o primeiro genocídio. Havia ainda uma minoria defensora de uma hipótese inusitada. Os neandertais não teriam desaparecido por completo. Teriam acasalado com indivíduos de nossa espécie. Se namoros (ou estupros) tivessem ocorrido, e a prole resultante mantivesse a fertilidade (ao contrário de burros e mulas, filhotes estéreis da cruza de cavalos e jumentas), abrir-se-ia a possibilidade de neandertais terem irrigado seus genes no DNA humano.  O DNA é uma molécula complexa e frágil. Poucas horas após a morte de um indivíduo, o DNA começa a fragmentar. Por isso, os geneticistas achavam impossível extraí-lo de cadáveres.

Em 1985, o jovem Svante Pàãbo provou o contrário, ao extrair genes de múmias egípcias. Nos anos seguintes, ele foi pioneiro na extração de DNA de animais extintos (leia no quadro). Em 1997, voltou-se aos neandertais. Mapeou o DNA de suas mitocôndrias (órgãos celulares com genes transmitidos só da mãe) sem achar nada humano. Decretou: “Nunca houve acasalamento entre as espécies”.De lá para cá, o avanço da tecnologia genética fez o que era impossível tornar-se corriqueiro. “A precisão atual dos equipamentos era impensável há 15 anos.” Ainda assim, mapear o DNA neandertal demorou três anos.

A equipe extraiu genes de três ossos de fêmeas de 38 mil anos, de uma caverna na Croácia. Seus fragmentos genéticos foram remontados num só genoma. Quando comparado ao DNA do chimpanzé, o DNA neandertal exibiu semelhança de 98,5%, a mesma que guardamos com os chimpanzés. Confrontando o DNA humano com o neandertal, a diferença caiu para 0,5%. É mínima. A mesma que existe entre mim, você e qualquer ser humano. Seriam os neandertais humanos? “Tomamos cuidado para não usar nenhuma definição de espécie,” diz Pãábo. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que nenhuma definição serve.”

O grande feito de Páábo e sua equipe não foi mapear o DNA neandertal. Foi compará-lo ao nosso. Ao fazê-lo, detectou aquele 0,5% que nos é exclusivo. Lá residem os enigmas de nossa espécie. “Detectamos várias regiões e identificamos alguns genes. Há 78 mutações”, diz o americano Richard Green, co-autor do estudo. São só 78 mutações num universo de 20 mil genes. Três delas, já se sabe, estão relacionadas à pigmentação da pele. Outras quatro são ruins. Estão associadas a doenças como o diabetes do tipo 2, o autismo, a síndrome de Down e a esquizofrenia. A comparação com os neandertais poderá nos ajudar a detectar quais mutações foram as responsáveis pelos aspectos mais básicos que definem o ser humano: nossa consciência e o dom da fala.

Desde o século XIX se discute a identidade do homem de Neandertal. Quem era esse nosso primo em primeiro grau na família evolutiva humana? Os neandertais, ou Homo neandertha-lensis, eram maiores e mais fortes que os Homo sapiens, os homens modernos que evoluíram na África há 200 mil anos. Já os neandertais habitaram a Europa e o Oriente Médio por 300 mil anos. Eles conheciam o fogo, caçavam mamutes com lanças sofisticadas e se protegiam do frio com peles dos animais abatidos. Os neandertais eram inteligentes. Seu cérebro era maior que o nosso. Era uma espécie magnificamente adaptada à sobrevivência nas duríssimas condições da Europa glacial. Mesmo assim, desapareceram. Após ceder progressivamente um continente inteiro aos invasores de nossa espécie, há 22 mil anos os últimos bandos remanescentes refugiaram-se nas cavernas do rochedo de Gibraltar, no extremo sul da Espanha. Era um beco sem saída. Do alto do rochedo avista-se a África, do outro lado do Estreito de Gibraltar. Só 13 quilômetros de mar separavam os neandertais da sobrevivência. Mas essa não era uma opção. Eles nunca inventaram barcos. A espécie se extinguiu.

Mas era só o primeiro volume. O segundo volume da história dos neandertais começou a ser escrito na semana passada, com a divulgação do mapeamento do genoma da espécie na revista Science. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que, se um deles entrar aqui barbeado e vestido, ninguém notará a diferença”, disse o geneticista sueco Svante Pààbo, de 55 anos, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha. Ao comparar o DNA neandertal com o nosso, veio a surpresa. Os neandertais não desapareceram totalmente. Uma pequena fração de seu material hereditário continua viva em nós, incorporada no DNA de cada célula dos bilhões de humanos com raízes na Europa e na Ásia. Todos têm genes neandertais. Seus antepassados comuns pertenceram à primeira leva humana que saiu da África. Eles acasalaram com os neandertais. A miscigenação, diz Pàãbo, deu-se no Oriente Médio, entre 80 mil e 50 mil anos atrás.

A contribuição genética neandertal não é universal. Os descendentes dos humanos que ficaram na África não se misturaram. Seu DNA não tem genes neandertais. Entender as causas que teriam levado os neandertais à extinção foi motivo de um debate acalorado que começou em 1856, quando seus primeiros fósseis foram retirados de uma caverna no Vale do Rio Neander, na Alemanha. Na época, o planeta estava partilhado pelas potências coloniais européias. Seus monarcas creditavam esse domínio à superioridade biológica, moral e tecnológica da civilização branca, cristã e européia. Identificar os neandertais como os ancestrais diretos dos europeus foi um passo imediato. Era a prova cabal de que o homem surgiu na Europa e, por isso, era superior aos asiáticos, aborígines e africanos. Não contavam com Charles Darwin.Em 1871, ao afirmar que chimpanzés e humanos evoluíram de um ancestral comum, Darwin apontou a África como o provável berço da humanidade. De uma hora para outra, os neandertais foram destituídos de sua primazia e rebaixados a primitivos “homens das cavernas”.

A queda social dos neandertais não moveu o foco do debate sobre as causas de sua extinção. Arqueólogos, antropólogos e paleontólogos discutiram por 150 anos.A maioria afirmava que os neandertais, supostamente dotados de uma capacidade cognitiva inferior à nossa, nunca tiveram condição intelectual para concorrer com o Homo sapiens pelo domínio dos territórios de caça. Outra grande facção creditava o fim dos neandertais na conta de nossa espécie, naquele que teria sido o primeiro genocídio. Havia ainda uma minoria defensora de uma hipótese inusitada. Os neandertais não teriam desaparecido por completo. Teriam acasalado com indivíduos de nossa espécie. Se namoros (ou estupros) tivessem ocorrido, e a prole resultante mantivesse a fertilidade (ao contrário de burros e mulas, filhotes estéreis da cruza de cavalos e jumentas), abrir-se-ia a possibilidade de neandertais terem irrigado seus genes no DNA humano.

O DNA é uma molécula complexa e frágil. Poucas horas após a morte de um indivíduo, o DNA começa a fragmentar. Por isso, os geneticistas achavam impossível extraí-lo de cadáveres. Em 1985, o jovem Svante Pàãbo provou o contrário, ao extrair genes de múmias egípcias. Nos anos seguintes, ele foi pioneiro na extração de DNA de animais extintos (leia no quadro). Em 1997, voltou-se aos neandertais. Mapeou o DNA de suas mitocôndrias (órgãos celulares com genes transmitidos só da mãe) sem achar nada humano. Decretou: “Nunca houve acasalamento entre as espécies”.De lá para cá, o avanço da tecnologia genética fez o que era impossível tornar-se corriqueiro. “A precisão atual dos equipamentos era impensável há 15 anos.” Ainda assim, mapear o DNA neandertal demorou três anos.

A equipe extraiu genes de três ossos de fêmeas de 38 mil anos, de uma caverna na Croácia. Seus fragmentos genéticos foram remontados num só genoma. Quando comparado ao DNA do chimpanzé, o DNA neandertal exibiu semelhança de 98,5%, a mesma que guardamos com os chimpanzés. Confrontando o DNA humano com o neandertal, a diferença caiu para 0,5%. É mínima. A mesma que existe entre mim, você e qualquer ser humano. Seriam os neandertais humanos? “Tomamos cuidado para não usar nenhuma definição de espécie,” diz Pãábo. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que nenhuma definição serve.”

O grande feito de Páábo e sua equipe não foi mapear o DNA neandertal. Foi compará-lo ao nosso. Ao fazê-lo, detectou aquele 0,5% que nos é exclusivo. Lá residem os enigmas de nossa espécie. “Detectamos várias regiões e identificamos alguns genes. Há 78 mutações”, diz o americano Richard Green, co-autor do estudo. São só 78 mutações num universo de 20 mil genes. Três delas, já se sabe, estão relacionadas à pigmentação da pele. Outras quatro são ruins. Estão associadas a doenças como o diabetes do tipo 2, o autismo, a síndrome de Down e a esquizofrenia. A comparação com os neandertais poderá nos ajudar a detectar quais mutações foram as responsáveis pelos aspectos mais básicos que definem o ser humano: nossa consciência e o dom da fala