Archive for the ‘Textos Especiais’ Category

h1

A Sociedade no formigueiro – Edward O. Wilson

março 11, 2013

Considerado o maior biólogo vivo, Edward O. Wilson, criador da sociobiologia, explica porque os homens possuem instinto natural para viver em grupo.

Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard

Formar grupos, extraindo conforto visceral e orgulho da associação familiar, e defender o grupo com entusiasmo contra grupos rivais — esses comportamentos estão entre os universais absolutos da natureza humana e, portanto, da cultura. Uma vez criado um grupo com um propósito definido, porém, suas fronteiras são maleáveis. Famílias costumam ser incluídas como subgrupos, embora se dividam com frequência pela fidelidade a outros grupos. O mesmo ocorre com aliados, recrutados, convertidos, membros honorários e traidores de grupos rivais que mudaram de lado. Uma identidade e certo grau de poder são concedidos a cada membro do grupo. Em retorno, qualquer prestigio e riqueza que este possa adquirir concedem identidade e poder a seus colegas.

Os grupos modernos são psicologicamente equivalentes às tribos da história antiga e da Pré-História. Como tais, descendem diretamente dos bandos de pré-humanos primitivos. O instinto que os mantém coesos é o produto biológico da seleção de grupo.

As pessoas precisam de uma tribo. Ela proporciona um nome, além de um sentido próprio e social num mundo caótico. Torna o ambiente menos desorientador e perigoso. O mundo social de cada ser humano moderno não é uma tribo única, e sim um sistema de tribos entrelaçadas, em meio às quais costuma ser difícil encontrar uma só bússola. As pessoas saboreiam a convivência com amigos afins e anseiam por estar com as melhores companhias: um regimento de fuzileiros navais, talvez, uma faculdade de elite, um comitê executivo de uma empresa, uma seita religiosa, uma república estudantil, um clube campestre, em suma, qualquer coletividade que possa levar a melhor na comparação com grupos concorrentes da mesma categoria.

Atualmente, as pessoas ao redor do mundo, cautelosas em relação às guerras e temendo suas consequências, têm se voltado cada vez mais para seu equivalente moral nos times esportivos.

Sua ânsia pela participação num grupo e pela superioridade dele pode ser satisfeita com a vitória de seus guerreiros nos embates em campos de batalha ritualizados. Como os cidadãos animados e bem-vestidos de Washington, que vieram testemunhar a Primeira Batalha de Bull Run durante a Guerra Civil, eles anteveem a experiência com prazer. Os torcedores ficam empolgados vendo os uniformes, símbolos e apetrechos de batalha de seu time, as taças de campeonatos e bandeiras, as garotas de torcida dançando em trajes sumários. Alguns dos torcedores trajam fantasias estranhas e pintam o rosto em homenagem a seu time, participam de comemorações após as vitórias. Muitos, especialmente os mais jovens, libertam-se de qualquer censura para aderir ao espírito de batalha e ao alegre caos que se segue a ela. Quando os Boston Celtics derrotaram os Los Angeles Lakers no campeonato da Associação Nacional de Basquete dos Estados Unidos, numa noite de junho de 1984, o time estava em êxtase, e seu grito de guerra foi: “Celts Supremos!”. O psicólogo social Roger Brown, que testemunhou as comemorações posteriores, comentou:

Não foram apenas os jogadores que se sentiram supremos, mas todos os seus torcedores. O North End ficou empolgado. Os torcedores irromperam do Madison Square Garden e dos bares próximos, dançando o break no ar, charutos acesos, braços elevados, vozes gritando. A capota de um carro foi abaixada, umas 30 pessoas alegremente se empilharam a bordo, e o motorista — um torcedor — sorriu feliz. Uma carreata circulou buzinando pelos arredores. Não me pareceu que aqueles torcedores estivessem apenas expressando simpatia ou empatia por seu time. Pessoalmente estavam nas nuvens. Naquela noite, a autoestima de cada torcedor foi suprema. Uma identidade social fez um grande bem a várias identidades pessoais.

Brown então acrescentou um detalhe importante:

A identificação com um time esportivo tem em si algo da arbitrariedade dos grupos mínimos. Para ser um torcedor dos Celtics, você não precisa ter nascido em Boston, nem mesmo morar lá, e o mesmo acontece com os membros do time. Como indivíduos, ou diante de membros de outros grupos, tanto os torcedores como os jogadores poderiam ser bem hostis. Mas, como participantes dos Celtics, todos comemoraram juntos.

Experimentos conduzidos durante vários anos por psicólogos sociais revelaram a rapidez e a decisão com que as pessoas se dividem em grupos e depois discriminam a favor do grupo a que pertencem. Mesmo quando os pesquisadores criaram os grupos arbitrariamente e depois os rotularam para que os membros pudessem se identificar, e mesmo quando as interações prescritas foram triviais, o preconceito logo dominou. Quer os grupos jogassem por alguns trocados ou se identificassem de forma grupai, como preferindo certo pintor abstrato em relação a outro, os participantes sempre classificavam os de fora do grupo como inferiores aos membros do grupo. Julgavam seus “oponentes” menos agradáveis, menos justos, menos confiáveis, menos competentes. Os preconceitos se manifestavam mesmo quando as cobaias eram informadas de que os membros do grupo e os forasteiros tinham sido escolhidos arbitrariamente. Numa dessas séries de testes, pediu-se que as cobaias dividissem pilhas de fichas de jogo entre membros anônimos dos dois grupos, e a mesma reação aconteceu. Um forte favoritismo se manifestou sistematicamente em relação àqueles rotulados simplesmente como membros do grupo, mesmo sem nenhum outro incentivo e nenhum contato anterior.

Em seu poder e universalidade, a tendência a formar grupos e depois favorecer seus membros tem a marca do instinto. Seria possível alegar que o viés a favor do grupo é condicionado pelo aprendizado prematuro de se associar aos membros da família e pelo incentivo a brincar com as crianças da vizinhança. Mas, mesmo que tal experiência desempenhe um papel, seria um exemplo do que os psicólogos denominam aprendizado preparado, a propensão inata a aprender algo de forma rápida e decisiva. Se a propensão ao viés a favor do grupo satisfaz todos esses critérios, é provável que seja herdada e, nesse caso, é de supor que tenha surgido por meio da evolução por seleção natural. Outros exemplos convincentes de aprendizado preparado no repertório humano incluem a linguagem, a rejeição ao incesto e a aquisição de fobias.

Se o comportamento pró-grupo for de fato um instinto expresso pelo aprendizado preparado e herdado, deveríamos encontrar seus sinais mesmo em crianças muito novas. E exatamente esse fenômeno foi descoberto por psicólogos cognitivos. Bebês recém-nascidos são mais sensíveis aos primeiros sons que ouvem, ao rosto da mãe e aos sons de sua língua nativa. Mais tarde, dão preferência às pessoas que ouviram antes de falar sua língua nativa. As crianças em idade pré-escolar tendem a selecionar como amigos falantes de sua língua nativa. As preferências começam antes que compreendam o significado da fala e se manifestam mesmo quando diferentes sotaques são plenamente entendidos.

O impulso elementar de participar com profundo prazer de grupos se traduz facilmente, num nível mais alto, em tribalismo. As pessoas tendem ao etnocentrismo. Constitui um fato incômodo que, mesmo quando podem escolher sem culpa, os indivíduos preferem a companhia de outros da mesma raça, nação, clã e religião. Confiam mais neles, relaxam mais com eles nos negócios e eventos sociais, e é comum que os prefiram como parceiros de casamento. Ficam com raiva mais rapidamente quando descobrem que alguém de fora do grupo está se comportando injustamente ou recebendo recompensas indevidas. E mostram-se hostis com qualquer forasteiro que invada o território ou recursos de seu grupo. A literatura e a história estão repletas de relatos do que acontece nos casos extremos, como na seguinte passagem de Juízes 12:5-6, do Antigo Testamento:

E tomaram os gileaditas aos efraimitas os vaus do Jordão. E, quando algum dos fugitivos de Efraim dizia: “Deixai-me passar”,  então os homens de Gileade lhe perguntavam: “És tu efraimita?”. E dizendo ele: “Não” então lhe diziam: “Dize, pois, Chibolete”: Porém ele dizia: “Sibolete”, porque não o podia pronunciar bem. Então o agarravam e degolavam nos vaus do Jordão. Caíram de Efraim naquele tempo 42 mil.

Quando, em experimentos, americanos negros e brancos viram de relance fotos da outra raça, suas amígdalas, o centro cerebral do medo e da raiva, foram ativadas de forma tão rápida e sutil que os centros conscientes do cérebro não perceberam a reação. A cobaia, na verdade, não conseguiu se controlar. Quando, por outro lado, contextos apropriados foram acrescentados digamos, o negro que se aproximava era um médico; e o branco, seu paciente —, dois outros locais do cérebro integrados com os centros de aprendizado superior, o córtex cingulado e o córtex preferencial dorsolateral, entraram em ação, silenciando os estímulos por meio da amígdala.

Desse modo, diferentes partes do cérebro evoluíram por seleção de grupo e criaram o sentimento de grupo. Elas mediam a propensão estrutural inata a subestimar membros de outros grupos ou se opunham a ela para dominar seus efeitos autônomos imediatos. Existe pouca ou nenhuma culpa no prazer quando se assiste a eventos esportivos violentos ou a filmes de guerra, desde que a amígdala governe a ação e a história se desenrole até a destruição satisfatória do inimigo.

Texto extraído do livro “A c0nquista social da Terra” (Companhia das Letras)

h1

Nikola Tesla – O padroeiro dos nerds

fevereiro 17, 2013

Obscurecido em vida por Thomas Edison, o inventor Nikola Tesla volta a ser cultuado pelos jovens na internet como exemplo do cientista idealista

Danilo Venticinque – Revista Época Ed.769

pic1

Décadas depois da morte dos dois antagonistas, uma inusitada campanha na internet ressuscitou a maior rivalidade científica do século XIX. De um lado, estava o americano Thomas Edison (1847- 1931), eternizado como inventor da lâmpada e pai da segunda revolução industrial. De outro, o sérvio Nikola Tesla (1856-1943), responsável por importantes descobertas ligadas à transmissão de eletricidade e à comunicação sem fio. Apesar da relevância do trabalho de Tesla, e de algumas vitórias sobre seu rival, a história não deixou dúvidas quanto ao vencedor: Edison fez fortuna com suas invenções, recebeu homenagens em todas as partes do mundo e é conhecido até hoje por qualquer jovem que tenha tido aulas de física. Tesla morreu sozinho, falido, e sua importância só era reconhecida por estudiosos da história da ciência.

Indignado com a falta de popularidade de seu ídolo, o designer americano Matthew Inman decidiu iniciar uma campanha para reerguer a imagem de Tesla. Em agosto do ano passado, publicou, em seu popular blog de quadrinhos Oatmeal, urna enorme ilustração dedicada a provar a tese de que Nikola Tesla era “o maior nerd de todos os tempos». A imagem foi compartilhada mais de 600 mil vezes — marca impensada para uma publicação sobre história da ciência. Animado com os resultados, Inman passou a vender camisetas e adesivos com os dizeres “Tesla > Edison” (Tesla é maior que Edison) e a recrutar mais adeptos para sua causa. Ao descobrir que as instalações do antigo laboratório de Tesla, em Nova York, estavam à venda e poderiam ser destruídas para dar lugar a um centro comercial, Inman decidiu mobilizar os esforços dos novos admiradores de Tesla. Em outubro do ano passado, organizou uma campanha de arrecadação na internet para tentar comprar o imóvel e transformá-lo num museu.

Ao contrário da imensa maioria das campanhas on-line, que costumam murchar quando os usuários têm de trocar os diques por transferências bancárias, a mobilização dos fãs de Tesla superou as expectativas. Em seis dias, Inman conseguiu arrecadar US$ 850 mil para a causa. Com a ajuda de outra doação de US$ 850 mil, pelo Estado de Nova York, a soma chegou a US$ 1,7 milhão — o suficiente para comprar o imóvel e começar as reformas que o transformarão num museu.

tesla

Antigo laboratório de Tesla

“Assim que concluirmos as negociações, queremos restaurar o que sobrou do laboratório e transformar os outros espaços num tributo interativo a Tesla», afirma a pesquisadora Jane Alcorn, presidente do museu. “Nossa intenção é corrigir as injustiças históricas contra Tesla e reafirmar sua importância para a sociedade moderna.” A obra levará alguns anos para ficar pronta e começar a receber visitantes, mas o sucesso da campanha de arrecadação e sua grande repercussão na internet são indícios de uma importante mudança na percepção histórica de Tesla — e, consequentemente, na maneira como a sociedade julga o valor de um inventor.

No fim do século XIX e no início do século XX, quando Tesla e Edison estavam na ativa, todo inventor também era um homem de negócios. Com seus laboratórios espalhados por todo o mundo e um exército de engenheiros sob seu comando, Thomas Edison era um símbolo dessa geração. “Meu maior objetivo é ganhar dinheiro com minhas invenções e usá-lo para criar novas invenções”, dizia. Seu método de trabalho era baseado em inúmeras tentativas e erros, sem grande sofisticação teórica. A persistência e o dom para os negócios o ajudaram a prosperar, apesar da concorrência de cientistas mais talentosos.

Tesla tinha uma personalidade quase oposta à de Edison. Falava oito línguas fluentemente e tinha urna invejável formação científica, mas pouco tino para os negócios. Dizia que os inventores eram seres incompreendidos, que raramente recebiam recompensas. A maioria de suas invenções tinha pouca utilidade prática. Muitas delas só foram colocadas em uso por outros cientistas, que levaram o crédito por seu trabalho. Tesla também era tido como um homem excêntrico. Trabalhava das 3 horas da manhã às 11 da noite, com raras pausas para se alimentar. Pesava apenas 64 quilos, apesar de seus 2 metros de altura. Viveu em celibato, para evitar que os relacionamentos o afastassem do laboratório. Em sua autobiografia Minhas invenções, recém-publicada no Brasil pela editora Unesp, ele afirma que tinha memória fotográfica e que suas ideias vinham acompanhadas por alucinações e clarões de luz. Morreu aos 86 anos, falido e com fama de louco.

Se o século XX consagrou o homem de negócios e sua capacidade de transformar invenções num império, os jovens do século XXI parecem ter mais apreço pelo nerd recluso, que tenta transformar o mundo trancado em seu laboratório. Larry Page, cofundador do Google, costuma citar Minhas invenções, de Tesla, entre os livros que mais influenciaram sua carreira. Elon Musk, fundador da empresa de pagamentos on-line PayPal, decidiu homenageá-lo ao batizar de Tesla Motors sua montadora de carros elétricos. Tanto Page quanto Musk têm em comum o fato de terem feito fortuna com ideias que, inicialmente, tinham pouca viabilidade comercial. É a cultura dominante dos pequenos empreendedores de tecnologia, das redes sociais às empresas de robótica. Primeiro, cria- se algo inovador. Depois, pensa-se em como ganhar dinheiro. A homenagem tardia a Tesla pode ser um sinal de que, se ele tivesse nascido um século mais tarde, poderia ter tido mais admiradores, mais sorte e, quem sabe, mais dinheiro.

invtesla

h1

Para lembrar de não esquecer: Com a progressiva transição da materialidade para o virtual, como leremos a sociedade contemporânea a partir do material que produzimos hoje?

outubro 18, 2012

Nos tempos digitais nossos rastros são virtuais, suscetíveis ao puro e simples desaparecimento sem deixar pistas ou memórias. Isso certamente será um desafio para os historiadores do futuro, que precisarão vasculhar por restos de bytes ou por mídias digitais obsoletas e sem uso. Esse problema me veio fortemente à mente após a leitura de um ótimo texto do suplemento dominical Aurora, que o Diario de Pernambuco publica. O texto impresso foi então digitalizado para ser replicado aqui, o que é uma comprovação daquilo que ele aborda.

Para lembrar de não esquecer: Com a progressiva transição da materialidade para o virtual, como leremos a sociedade contemporânea a partir do material que produzimos hoje?

Felipe Fernandes – Para o suplemento Aurora, do Diario de Pernambuco de 14 de outubro de 2012

As fitas cassetes estão fora da caixa de origem: distribuídas em pilhas de tamanhos semelhantes sobre o piso de tacos. No dia anterior, Sarnarone Lima, 43 anos, escutava algumas delas naquele mesmo quarto. Uma amiga de sua mulher acabara de lhe devolver o aparelho de som, um gravador antigo. Ele nem se lembrava mais do empréstimo, achava que tinha perdido. Aproveitou o reencontro inesperado para ouvir os arquivos. São mais de cem entrevistas gravadas para o trabalho de conclusão de curso na universidade, que acabou originando seu primeiro livro, Zé (Editora Mazza, 1998).

Diante da quantidade de objetos espalhados pelo quarto, as fitas não chamam a atenção. O escritor e jornalista conta que, mesmo quando arruma, o cômodo volta à desordem original em pouco tempo. Numa dobra da parede, guarda cadernos usados como diários em estantes de ferro. A quantidade de Volumes atinge á casa das centenas. Não lembra quando começou a escrevê-los. Sabe apenas que a cada caderno finalizado, começa outro .e guarda ó anterior.. AS vezes escolhe um e se debruça durante a tarde inteira, viajando na lembrança.

Se antes da popularização do computador memória humana podia ser representada por uma torre com salas de arquivos parecidas com o quarto de Samarone, hoje ela é medida em bytes. Vasculhando com os olhos o ambiente onde o jornalista guarda Seus cadernos, é possível registrar quatro máquinas de escrever e nenhum computador. “Sou da civilização do papel”, confirma. Isso não significa que ele não bote os pés no mundo digital. Simplesmente não gosta. Usa quando necessário. Para postar textos nos seus blogs (estuario.com.br e quemerospoemas.blogspot.com.br), por exemplo. Ou na hora de redigir um livro. “Se bem que agora estou escrevendo um livro à mão mesmo”.

Entre as principais críticas ao computador e afins, Samarone cita a imaterialidade do que é produzido (ele gosta do toque, de manusear seus escritos) e a insegurança quanto à preservação do material. “Tudo pode desaparecer muito facilmente. Basta um dique e as coisas deixam de existir”. Confia mais na palavra impressa, na fotografia revelada, na pasta de arquivo e nas prateleiras da estante. O pé atrás se justifica, diz Daniela Osvald, professora de novas tecnologias da comunicação na Faculdade Cásper Líbero: “A maior parte das informações circula hoje no meio digital, através da internet. Inclusive a comunicação interpessoal. E as pessoas esquecem que as máquinas são finitas e suas capacidades de armazenamento também”. Diante do tamanho da produção de dados proporcionada pela web, ela pergunta: “O quanto de máquina vai ser necessário para armazenar 50 anos de uso da internet?”.

A reflexão nos faz pensar na fragilidade dos arquivos virtuais e na possibilidade dessa fragilidade representar um problema para a futura análise histórica de nosso tempo. Daniela lembra, por exemplo, de quando a faculdade onde trabalha reformulou o próprio site. “Migramos de servidor e não havia como compatibilizar os arquivos antigos. Por conta disso, cerca de sete anos de produção dos alunos do curso de jornalismo foram perdidos”.

Diariamente, Samarone Lima lê mais de três jornais. Costuma recortar as matérias que estão ligadas às suas áreas de interesse, como a ditadura militar ou Cuba, temas de alguns de seus quatro livros. Antes, costumava guardar as matérias em pastas, separadas por ordem alfabética. Até que descobriu que colá-las nas páginas de um caderno é mais eficiente porque facilita a leitura. “E é mais prazeroso, passo horas recortando e colando”, confessa. Uma pilha de folhas pautadas com artigos colados se acumula ao pé da bancada. Só neste ano, já foram dois cadernos inteiros. Em contraste com a seriedade dos assuntos, as capas são coloridas e infantis: um grupo de porquinhos jogando futebol americano em um, um casal de crianças tocando instrumentos musicais no outro. “Acabei criando um grande arquivo sobre os temas que pesquiso. Quando preciso de qualquer coisa é só abrir os cadernos. Pode ser mais simples que pesquisar no Google”.

Como engavetar websites

Um estudo feito pela universidade norte- americana Old Dominion, da Virgínia, mostrou que um ano depois de sua primeira publicação na internet 11% dos links compartilhados no Twitter já não estão mais disponíveis. Depois desse período, a cada dia 0,02% dos sites desaparecem. Guiada pelos pesquisadores Hany Salah Eldeen e Michael Nelson, o levantamento analisou mais de onze mil links publicados no microblog sobre seis assuntos de grande repercussão nos últimos três anos. Chegou à conclusão de que 25% dos Sites postados em 2009 sobre a revolução no Egito, os protestos no Irã, o surto da gripe H1N1 e a morte de Michael Jackson, por exemplo, já estão fora do ar.

Desenvolvida pelo engenheiro de computação norte-americano Brewster Kahle, a biblioteca digital Internet Archive, com sede na Califórnia (EUA), tem arquivado websites desde 1996 com o intuito de promover “o acesso universal ao conhecimento”, como explicitam na própria homepage. A organização não governamental faz snapshots de sites do mundo inteiro, que ficam disponíveis para consulta através do serviço chamado de Wayback Machine. Armazena, ainda, imagens e livros digitais livres de direitos autorais. Instituições que desejam ter seus acervos preservados podem tornar-se parceiras da organização através do projeto Archive it, que armazena sites para empresas. Atualmente, o Internet Archive guarda 2 petabytes de dados, o que equivale a cerca de dois milhões e cem mil gigabytes. Para quem quiser criar seu próprio arquivo, existem softwares de leituras offline que podem armazenar o website no seu disco rígido, gerando um espelho do endereço desejado. A prática de armazenar páginas da internet, entretanto, é pouco difundida. “As pessoas acham que o que está na internet vai durar para sempre”, observa Daniela.

Compartilhar é viver – Ou recordar é hábito ultrapassado

Em caixas da última prateleira está escrito “Negativos”. Samarone Lima conta que eles foram contrabandeados da casa da família, em Fortaleza. Desde que os pais se separaram, os negativos ficaram esquecidos num quarto qualquer da casa da mãe. Aos poucos, ele foi trazendo os registros para seu apartamento. De tão desprezados, ninguém reclamou sua falta. “Essa é uma possibilidade que as mídias digitais não permitem: você encontrar num canto qualquer uma caixa com diversas imagens de sua família. Hoje tem até casais que se divorciam e deletam as fotos juntos”, comenta Samarone. Antes da câmera digital, ainda que houvessem fotografias queimadas ou rasgadas, sempre sobrava uma ou outra esquecida no fundo da gaveta. Com a alternativa de “enviar todos os arquivos para a lixeira”, fica difícil sobrar um.

“À medida que uma fotografia vai ganhando longevidade, ela vai se tornando documento”, explica Rubens Fernandes Junior, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado. Sempre que possível, ele compra fotografias antigas (às vezes álbuns inteiros) de pessoas desconhecidas. Além de curador e crítico de fotografia, é pesquisador das relações humanas através da imagem. Seu diagnóstico sobre a maneira com que a sociedade contemporânea lida com a preservação de arquivos é preocupante. “Estamos caminhando para desconstrução da memória”, anuncia.

O maior problema, segundo ele, está no cerne da relação estabelecida com a imagem. “Não se fotografa mais para guardar, apenas pra compartilhar. Guardar implica em materialidade, durabilidade. Já compartilhar implica em algo efêmero: aparece e some num dique”. O importante não é preservar, mas colocar a imagem nas redes sociais. Os problemas, segundo Rubens, vão aparecer a longo e médio prazo. A compatibilidade de arquivos é uma das &meças dos acervos digitais. “Não vamos guardar e manter ativas traquitanas ultrapassadas apenas para garantir o acesso às imagens. O que nos garante, então, que os arquivos produzidos hoje serão compatíveis com as máquinas do futuro?”. Se pensarmos que a imagem é uma das principais bases de comunicação da sociedade contemporânea, o cenário fica ainda mais assustador. “É uma grande contradição. Vivemos numa-profusão de imagens. No entanto, basta acontecer um problema, um boom, e tudo se perde num instante”.

Minhas cartas, seus e-mails

John Lennon faria 72 anos na semana passada. Para marcar a data, o biógrafo oficial dos Beatles, Hunter Davies, idealizou As cartas de John Lennon (Planeta do Brasil, 2012), livro que apresenta uma compilação de todas as correspondências do ex-beatle. Sua relação com a família, com as mulheres, a intimidade do ídolo exposta em trocas de mensagens. Esse é um privilégio que passa longe dos fãs de artistas contemporâneos. “Primeiro a popularização do telefone já quebrou o registro dessa intimidade. Hoje, o e-mail e as redes sociais tornam ainda mais difícil a existência das cartas “íntimas”, diz Rubens Fernandes Junior. Na pequena caixa de madeira em cima da bancada, Samarone Lima guarda o que considera ser um de seus tesouros. Um carimbo para data, outro para o seu endereço e outro para classificar a correspondência. Até um dia desses ele costumava mandar cartas para os amigos. Geralmente, compartilhava artigos que lia e lembrava do destinatário. Até que desistiu dos Correios. “Ninguém me respondia com cartas. No máximo enviavam uma resposta por e-mail ou telefone”, reclama.

Ainda que fiquem registradas na internet, as mensagens trocadas por e-mail ou redes sociais estão sujeitas a uma senha — ao contrário das cartas, sempre disponíveis para aqueles que as encontrem. Por isso, sem acordo prévio, informações da conta pessoal são condicionadas à existência do autor. Em caso de morte, todo o conteúdo corre o risco de ficar inacessível — apesar de continuar ocupando espaço na web. Para evitar a perda do conteúdo, existem empresas especializadas em gerenciar a vida após a morte na web, que gravam as senhas das contas dos usuários e programam os destinos delas. As redes sociais também oferecem, cada uma a seu modo, opções para que o arquivo seja preservado. O Twitter, por exemplo, envia à família do morto uma cópia de todas as publicações dele — desde que o parentesco seja comprovado. “A partir da análise do que fomos conseguimos entender melhor quem somos. Por isso é importante manter os registros de intimidade, seja nas fotos ou nas mensagens”, explica Rubens.

A engenharia da memória

As informações presentes na rede estão sempre situadas num servidor. Vinícius Cardoso Garcia, coordenador da graduação em tecnologia da informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que os arquivos costumam ser replicados sete vezes para garantir um mínimo de segurança. Sendo assim, para cada giga disponível na rede, são necessários sete de espaço no servidor. “E cada réplica dessa é guardada num local diferente para garantir que ao menos uma esteja sempre preservada’:

Para o Internet Archive, por exemplo, são necessários 86 servidores. O projeto é subsidiado por parte das instituições cujos acervos são armazenados. “O armazenamento de dados é bastante caro. Além do custo da tecnologia envolvida, é preciso dar conta também do espaço para instalação desses servidores, que geralmente são bem grandes, e as despesas referentes a refrigeração das máquinas”, afirma Vinícius, que dá aulas de engenharia de software.

Para baratear custos, as empresas costumam construir datacentros em lugares frios, como na Finlândia. “O Google instalou um desses próximo a uma cachoeira justamente por isso”, aponta o professor. Na medida em que os usuários consomem apenas o espaço necessário à sua demanda, compartilhando servidores, a computação em nuvem também surge como uma alternativa para atenuar o preço do armazenamento de dados. “É o uso racional da tecnologia. E o bom é que você não precisa se preocupar onde estão os arquivos, só se são acessíveis”, atesta Vinícius.

Na casa de Samarone Lima, o material armazenado preenche o cômodo inteiro. Das fitas cassetes no chão, do lado dos cadernos sobre a ditadura, às caixas de negativos que tocam o teto em cima da última prateleira. “Não quero nem pensar como vai ser se eu tiver que me mudar daqui, algum dia”. As vezes ele não consegue encontrar um artigo ou página que procura. Mas não faz tanta diferença, ele gosta de procurar. “Eu gosto disso. Por isso não faço questão do mundo digital. Nada contra o computador, mas nada supera uma ida à papelaria”.

Há uns três anos, o jornalista recebeu uma proposta: Marcos Galindo, professor da graduação em Ciências da Informação da UFPE, digitalizou todas as fitas cassetes de Samarone com as entrevistas feitas na década de 1990. Graças ao projeto, as cem entrevistas sobre a ditadura, que serviram de base para o livro sobre o militante José Carlos Novais da Mata Machado sobreviveram. “Quando fui escuta- Ias agora, acabei descobrindo que boa parte está estragada”.

Marcos coordena o projeto de pesquisa Preservação da memória digital: um panorama brasileiro. E garante que a memória da sociedade contemporânea não está tão ameaçada quanto alardeiam. “A matriz do sistema de informação, seja ele digital ou não, é a redundância. Ou seja, a realização de cópias é que garante a segurança do sistema. Com os arquivos digitais a gente perde em durabilidade, mas ganha em plasticidade e, com isso, uma capacidade quase infinita de reprodução”.

O grande problema que o pesquisador enxerga está na maneira como lidamos com as informações. “As pessoas não imaginam que os arquivos são perecíveis. Ninguém zela com o mesmo cuidado um livro e um arquivo digital”. Essa falta de cuidado deve ser corrigida com o tempo. “Até aprendermos lidar com esse novo tipo de memória é provável que existam alguns lapsos na nossa história. Estamos vivendo um período de transição”.

O desenvolvimento tecnológico, revela Marcos, está nós levando em direção a um cenário muito mais complicado. A nanotecnologia, a computação quântica e a capacidade de armazenar dados em átomos de carbono, anunciam a complexidade do que vem por aí. “Os problemas que a gente vive hoje são fichinhas. Temos que nos preparar para o que está por vir: uma alta capacidade de armazenamento, transmissão e processamento por um-custo menor”. Ele lembra de Platão, que usou a palavra pharmakon para—se referir, à linguagem. Como o filósofo grego, Marcos, não sabe dizer se a tecnologia para o armazenamento e produção de dados é o remédio ou o veneno da nossa sociedade.

h1

Historiador contesta origens e formação do islamismo

setembro 10, 2012

O historiador britânico Tom Holland apresenta conclusões que contestam fatos consagrados sobre as origens e desenvolvimento do islamismo. Suas teses são apresentadas em um documentário e no livro intitulado À sombra da espada.

Aqui está uma entrevista que Holland concedeu à Revista Época (Edição 747, de setembro de 2012):

Tom Holland recebeu críticas e ameaças em função de suas conclusões contidas no livro À sombra da espada

Como surgiram as dúvidas em relação à história d islamismo?
Tom Holland – Nos anos 1950 e 1960, historiadores começaram a estudar os hadiths, as citações de Maomé, e a questionar se eram realmente do tempo do profeta. Quando ficou claro que, nesse caso, as “provas” que a tradição islâmica oferecia eram fracas, a estrutura toda começou a ruir. As biografias do profeta, os comentários ao Corão, as informações sobre o surgimento do islamismo, tudo ficou sob suspeita. Recentemente, os historiadores começaram a se perguntar se aquilo que os historiadores islâmicos dos séculos IX e X escreveram sobre o começo de sua fé era historicamente verdadeiro. A conclusão tem sido que, para entender o islamismo, as fontes islâmicas não são suficientes. Assim como se questiona se as narrativas sobre a vida de Cristo, escritas dois ou três séculos depois que as coisas aconteceram, correspondem aos fatos, o mesmo começa a ser feito com o islã.

Corno surgiu a historia do islã que conhecemos hoje?
Holland – Os bispos que triunfaram no Concilio de Niceia, no século IV, reescreveram a história do cristianismo para assegurar que houvesse uma única narrativa, linear, desde os tempos de Cristo. Provavelmente ocorreu o mesmo no islamismo. Existem diferentes interpretações dentro do islã, que parecem recuar no tempo até o século VII. Aquilo que conhecemos hoje como islamismo demorou pelo menos tanto tempo quanto o cristianismo para se consolidar. A história mostra que religiões e grandes civilizações não emergem formadas. Elas surgem pela confluência de circunstâncias e influências. Evoluem lentamente.

O senhor diz que o Corão é composto de várias influências – inclusive mitologia grega -, mas afirma que como documento histórico ele é sólido. Como é isso?
Holland – Quando se estudam as citações atribuídas a Maomé (os hadiths), percebe-se nitidamente que foram moldadas pelo período em que foram escritas. Elas contêm alusões claras a eventos históricos que tiveram lugar décadas e mesmo séculos depois da morte do profeta. Com o Corão, não é assim. Tanto quanto podemos perceber pelas cópias mais antigas, parece que todos aqueles que o copiaram agiram como se estivessem lidando com algo extremamente sagrado. Eles tentavam não mudar nada. Mesmo quando havia problemas entre o texto do Corão e rituais e leis islâmicas correntes, o texto foi preservado. Por exemplo, os muçulmanos rezam cinco vezes ao dia, e isso parece ter origem nas práticas do zoroastrismo, a religião dos persas. Mas o Corão diz que se deve rezar três vezes. Não se tentou alterar o texto do Corão para adequá-lo à realidade, embora isso pudesse facilmente ter sido feito. Ao que tudo indica, o Carão foi tratado como o livro mais sagrado, com que não se podia brincar. Portanto, o texto que temos hoje parece ser algo original, que veio de um período remoto e foi preservado através dos séculos.

O Corão foi escrito quando se diz que ele foi escrito?
Holland – Um de nossos desafios é descobrir precisamente de que período veio esse documento. A tradição islâmica diz que esse texto emergiu pronto da boca de alguém chamado Maomé, que viveu num certo período (570-632 d.C.). O peso das evidências dá apoio à tradição. O Corão parece aludir a episódios que tiveram lugar no início do século VII, um dos quais é uma derrota romana para os persas, que ocorreu na Palestina, exatamente no período em que a tradição diz que o profeta viveu. Há também uma passagem referente a Alexandre, o Grande. Ela ecoa, quase palavra por palavra, um texto escrito no Irã em 630 por um sírio ligado ao Império Romano. Essa é a data mais antiga em que podemos identificar uma fonte no Corão, e ela corresponde ao que nos informa a tradição. Uma vez que você aceita isso, pode aceitar o Corão como uma fonte de informação legítima, primária, capaz de nos dar pistas sobre onde, como e por que Maomé agia.

O senhor diz que Meca talvez não tenha sido o lugar onde Maomé nasceu e deu origem ao islamismo. Por quê?
Holland – Meca é um problema. De acordo com a tradição islâmica, ela era uma cidade pagã, sem traços de comunidades cristãs ou judaicas, e estava localizada num deserto. Maomé, vivendo ali, era analfabeto, porque não poderia ter aprendido a ler. Entretanto, no Corão há centenas de referências a profecias judaicas e cristãs. A Virgem Maria aparece no Corão mais que no Novo Testamento. Não só o profeta parece familiarizado com essas citações, como parece contar com uma audiência igualmente familiarizada com as tradições bíblicas – embora a tradição afirme que em Meca havia apenas pagãos. Algo ainda mais problemático é Meca ser mencionada uma única vez no Corão, de uma forma ambígua. Pode ser uma referência a um vale tanto como a uma vila. Não está claro. E nenhuma outra fonte do período menciona a cidade. De nenhuma forma. A primeira vez que o nome da cidade aparece é em 741. Quase um século depois da morte de Maomé. Mesmo assim, a cidade é localizada num deserto no interior do atual Iraque, não na Arábia. Não acho que Maomé seja originário de Meca. Ele provavelmente veio mais do norte. As evidências do Carão sugerem isso.

Por que a tradição islâmica situa o nascimento da religião em Meca?
Holland – Justamente porque ela é tão remota, tão isolada. Se você acredita que o Corão veio direto de Deus, você tem de deixar claro que não poderia ter vindo de nenhuma fonte mortal. O paralelo é com a virgindade de Maria, na tradição cristã. Se os cristãos acreditam que Jesus é o filho de Deus, divino, eles não podem tolerar que Jesus seja filho de um pai terreno. Logo, Maria tem de ser virgem. Então, se o Corão é divino, se vem diretamente de Deus, os muçulmanos não podem tolerar nenhuma menção de que ele possa ter vindo de influências judaicas ou cristãs. Eles precisavam situar sua origem num lugar o mais remoto possível. Esse lugar é Meca.

Qual sua conclusão sobre Maomé? Ele existiu ou é apenas uma lenda?
Holland – Tenho certeza de que existiu. A dificuldade está em saber quanto mais do que isso podemos dizer. Sabemos que ele existiu porque há um texto de propaganda cristã, em 634, que descreve os árabes num ataque à Palestina sob a liderança de um “profeta dos sarracenos”. Quem poderia ser senão Maomé? Isso parece demonstrar, no mínimo, que alguém muito parecido com Maomé estava ativo na Palestina durante aquele período. Mas Maomé, de acordo com a tradição islâmica, morreu em 632. O mesmo texto que confirma a existência do profeta contradiz a tradição sobre a data de sua morte.

O que os muçulmanos acham de seu livro e de suas conclusões?
Holland – Isso depende. Alguns estão furiosos. Outros reconhecem que o debate é parte do processo de que emergirá uma forma ocidental de islamismo. Na tradição ocidental, é natural que a religião seja alvo de investigação intelectual e acadêmica. Agora que o islã está se tornando uma religião europeia, ele será alvo do mesmo tipo de abordagem histórica que foi feita em relação ao cristianismo e ao judaísmo. Quase todos os muçulmanos com quem conversei foram muito generosos e abertos a respeito de minhas ideias.

O senhor não tem medo de sofrer perseguições por causa de seus pontos de vista?
Holland – Acredito que até mesmo o mais fanático muçulmano aceitaria o direito de alguém que não e muçulmano duvidar que o Corão tenha vindo de Deus. A presunção muito difundida de que questionar a origem do islamismo significa receber automaticamente uma sentença de morte e que barbudos furiosos atacarão quem fizer isso está muito distante da verdade. A islamofobia assume que os muçulmanos são tão violentos e irracionais que, se você apenas questionar sua religião, eles virão matá-lo.. Não acredito nisso. Essa imagem não corresponde a nenhum muçulmano que conheço.

O escritor Salmam Rushdie talvez discordasse dessa afirmação.
Holland – Bem, Salmam Rushdie era originalmente muçulmano. No caso dele, havia uma acusação de apostasia (trocar uma religião por outra). Mas ele também estava fazendo um esforço deliberado de provocar. Defendo seu direito de fazer isso como artista, mas insultar propositalmente a figura do profeta é muito diferente de questionar as bases históricas do que sabemos a respeito dele.

h1

Os mistérios da maçonaria

setembro 19, 2009

Legends_of_Masonry

A criação da primeira loja maçônica, em 1717, marca o nascimento da franco-maçonaria moderna. A origem dessa organização, porém, é muito mais remota e frequentemente imersa em mistérios,  alimentados  pelo costume de seus membros de investir em construções mais simbólicas que históricas.

Os adversários dos maçons, de seu lado, os vêem como herdeiros de tudo o que poderia atacar “o altar e o trono”. Em resumo, as pistas que levam aos primórdios do movimento ora são simplesmente confusas, ora misturadas a elementos não confiáveis.

Desde a constituição da primeira loja maçônica, tiveram início batalhas internas para eleger os “verdadeiros maçons”, ou seja, os mais autênticos, os mais tradicionais e os mais regulares. Nessa disputa, alguns se diziam ligados a uma tradição antiga, e, em seguida, outros reivindicavam uma ligação a um legado ainda mais longínquo.

Houve quem chegasse a afirmar que Adão havia sido o primeiro maçom. Talvez um dia alguém revele que, na verdade, foi o dinossauro! Falando sério, existem origens míticas, ou seja, não verificáveis historicamente, mas inscritas nos textos fundadores da organização. E existem também origens comprovada-mente históricas. É preciso separar uma coisa de outra e deter a imaginação das pessoas.

TEMPLÁRIOS

A suposta origem nos Templários é algo que suscita fantasias [leia mais sobre os Templários aqui]. Eles eram grandes construtores e montavam inúmeros canteiros de obras, nos quais os pedreiros exerciam seu ofício sem obrigações para com o rei.

Assim, durante dois séculos, os Templários e as corporações de ofícios coabitaram. Por isso, é tão tentador imaginar que determinados membros da Ordem do Templo fugiram e encontraram refúgio, em especial na Escócia, junto de organizações fraternais de talhadores de pedra.

Essa ligação é fantasiosa. Na verdade, o desaparecimento dos Templários deu origem a inúmeras lendas, e a mais recorrente indica que os maçons são seus herdeiros – incluído aí um fabuloso tesouro. Também é comum a alusão a maçons que organizaram um complô para vingar a morte do último grão-mestre dos Cavaleiros do Templo, Jacques de Molay. Falso!

Essa mitologia foi forjada pela própria maçonaria. Por volta de 1730, quando os maçons decidiram abandonar o perfil de construtores para formar um clube secreto, procuraram carregar consigo os nobres. O convencimento não era fácil, pois persistia a ideia de que aquilo não passava de corporação de operários. Eles precisavam de uma filiação de maior prestígio.

Andrew Michael de Ramsay, grande orador da Ordem Maçônica da França, encontrou um recurso astucioso: fundou uma nova maçonaria, com base na simbologia das Cruzadas. Ele não se referia explicitamente à Ordem dos Cavaleiros do Templo, ainda condenada por Roma, mas a uma ordem construtora herdeira que teria ressurgido na Escócia. Por meio dessa lenda, construiu o chamado “rito escocês antigo e aceito”, no qual certos graus se referem aos Templários: Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro Rosacruz e Cavaleiro Kadosh.

Essas filiações simbólicas enriqueciam o debate e traziam contribuições. O problema é que, em alguns casos, foram assumidas como verdadeiras. Não que não haja coincidências ainda inexplicadas entre as tradições dos dois grupos. Existem, mas em história é preciso ser prudente.

EGÍPCIOS

Seria sedutor imaginar uma maçonaria atravessando os séculos para preservar os segredos dos primeiros construtores de pirâmides. Eis uma ideia bonita, mas nada mais que inventiva.

É verdade que papiros datando de 2000 a.C. antes de nossa era descrevem o que poderíamos chamar de corporações, com objetivos definidos: caridade, condições de trabalho, salários, privilégios. As referências maçônicas ao Egito e a seus mistérios, porém, são recentes. Surgiram nos séculos XVIII e XIX, quando a franco-maçonaria se estruturava. Os ritos chamados de egípcios, como o Rito de Mênfis-Misraim, se multiplicaram no século XIX. Atualmente, subsiste uma maçonaria egípcia que reivindica uma herança espiritual, mas é preciso refletir sobre o que os maçons do século XIX pensavam sobre o Egito. Para eles, trava-se do berço dos ritos iniciáticos, o que resultou em uma visão extremamente deformada, que foi bastante explorada   pelos   escritores românticos, que viam o país como um lugar onde tudo era possível. A única certeza que temos é que os mitos, sejam egípcios, maçônicos ou de qualquer outra cultura, expressam verdades primeiras e universais. Se a forma muda e se adapta, os conhecimentos que eles transformam são sempre os mesmos.

A LENDA DO COMPLÔ MAÇÔNICO

Não há dúvida de que a Revolução Francesa foi deflagrada em nome dos valores defendidos pelos maçons no fim do século XVIII. A luta contra o despotismo real e a defesa da liberdade eram temas recorrentes nas lojas francesas da época. Há, no entanto, quem acredite que o levante de 1789 teria sido a primeira etapa de um complô mundial orquestrado pelos maçons para destruir todas as religiões. Inúmeros historiadores já demonstraram quão absurda é essa teoria, mas até hoje ela sobrevive entre os amantes de teorias da conspiração.

É interessante acompanhar a história dessa tese. Tudo começou depois da execução de Luís XVI, em 1793, quando um livro intitulado Mémoires pour servir l’histoire du jacobinisme (Memórias a serviço da história do jacobinismo) foi discretamente introduzido na França, vindo de Londres. Segundo o autor da obra, o abade Augustin Barruel, a franco-maçonaria havia organizado um vasto complô contra a monarquia e a Igreja que teria culminado na Revolução Francesa.

Nascido em 1741, Augustin Barruel estudou com os jesuítas e posteriormente se tomou padre. Depois da Revolução, foi obrigado a fugir para a Inglaterra. Lá, foi acolhido por um político e advogado londrino, Edmund Burke, que em 1790 publicou um importante estudo sobre as transformações políticas no país vizinho intitulado Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução na França).

Assim, foi de Londres que Barruel escreveu suas Memórias a serviço da história do jacobinismo. Um trecho desse livro resume bem a visão do abade: “Nessa Revolução Francesa tudo foi previsto, meditado, combinado, decidido, estabelecido – até os mais espantosos crimes: tudo foi resultado da mais profunda maldade, pois tudo foi preparado, dirigido por homens que tinham como único objetivo as conspirações há muito urdidas em sociedades secretas, e que espreitaram e souberam esperar pelo momento propício para o complô”.

O abade ainda explica que membros de outra sociedade secreta, os Illuminati da Bavária, teriam se infiltrado na maçonaria francesa. Dessa fusão teria nascido uma organização ainda mais secreta, reservada à elite da elite, e no seio dessa “supermaçonaria” é que a Revolução Francesa havia sido cuidadosamente preparada. Barruel chega a descrever o complô em detalhes. Segundo ele, em 1785 um emissário partiu da Bavária levando às lojas parisienses o plano secreto para desencadear a Revolução.

Apesar de toda a criatividade de Barruel, ele não foi o pai da ideia do complô. Já em 1791, outro abade, chamado Lefranc, tentava provar que o objetivo da maçonaria era derrubar o trono e o altar em um livro chamado Lê Voile leve pour lês curieux ou le Secret de Ia Révolution revele à l’aide de La franc-maçonneríe (Retirando o véu para os curiosos ou o Segredo da Revolução revelado com a ajuda da franco-maçonaria). Mesmo sem fornecer nenhuma prova para sustentar a tese do complô, o livro de Lefranc expõe com precisão como os maçons e os filósofos iluministas tinham “mudado os costumes da França”.

A terceira obra célebre que difundiu o tal complô foi publicada em 1796 por um certo Charles-Louis Cadet de Gassicourt, filho bastardo de Luís Xy com um título interminável: Lê Tombeau de Jacques Molay ou Histoire secrète abrégée des initiés andais et modernes, des Templiers, Franc-Maçons, Illuminés (A tumba de Jacques Molay ou História secreta resumida dos iniciados antigos e modernos, Templários, franco-maçons, Illuminati). No livro, Charles-Louis defendia a tese de que os maçons, herdeiros dos Templários, tinham voltado à Escócia para desencadear a Revolução Francesa! Uma vez mais, nada de provas.

A primeira refutação séria da ideia da conspiração maçônica foi elaborada em 1801 pelo prefeito de uma cidade da região de Ille-et-Vilaine, na França, chamado Jean-Joseph Mounier. Em seu livro De ttnfluence attríbuée aux philosophes, aux franc-maçons et aux illuminés sur Ia Révolution en France (Sobre a influência atribuída aos filósofos, maçons e Illuminati na Revolução na França), ele contesta ponto por ponto os argumentos de Barruel.

Mounier demonstra que, se os franco-maçons contribuíram efetivamente para a difusão de ideais que alimentaram os revolucionários, não existe nenhuma prova de que eles tenham organizado um complô. Na verdade, o autor explica que as lojas maçônicas eram pouco organizadas na época. Talvez fossem revolucionárias em suas crenças, mas eram muito pouco articuladas no plano da ação concreta e, além disso, movidas por concepções filosóficas extremamente variadas entre si.

De fato, a diversidade no interior da maçonaria francesa era enorme no fim do século XVIII. A sociedade secreta havia chegado ao país graças aos viajantes e negociantes vindos da Grã-Bretanha, berço da organização. A primeira loja maçônica foi instalada na cidade de Dunquerque, em 1721, e em meados do século XVIII a França já contava com cerca de 200 lojas, 22 apenas em Paris. Na aurora da Revolução, elas eram cerca de mil, e seus membros giravam em torno da casa dos 30 mil.

Quem eram os franco-maçons franceses daquela época? Essencialmente burgueses, aristocratas, militares e, surpreendentemente, eclesiásticos. A maçonaria fez um grande sucesso na França, pois as aspirações da sociedade estavam em sintonia com as da fraternidade: reação contra o despotismo real, desejo de liberdade, gosto pelas ciências e pela filosofia & curiosidade pela Inglaterra, país de origem da organização.

Foram sobretudo as ideias defendidas pelo Iluminismo, a liberdade de expressão e uma relativa tolerância religiosa que atraíram as pessoas às lojas. Como escreveu Daniel Momet em seu Lês Origines intellectuelles de Ia Révolution française (As origens intelectuais da Revolução Francesa), publicado em 1933, “os franco-maçons não eram revolucionários de coração, o eram apenas da boca para fora, acostumando-se às fórmulas com as quais a Revolução transformou a realidade”.

Ao contrário do que defendiam os adeptos do complô contra a monarquia e a Igreja, depois de 1789 a franco-maçonaria chegou a ser qualificada como uma espécie de guardiã dos valores culturais do Antigo Regime. A maioria dos aristocratas maçons, mesmo esclarecidos, não deixava de se agarrar a seus privilégios.

O duque de Orléans, Philippe Egalité, ex-grão-mestre do Grande Oriente, por exemplo, foi guilhotinado em 6 de novembro de 1793. A partir de 1792, as lojas se recolheram, e foi preciso esperar pela queda de Robespierre, em março de 1794, para que elas retomassem progressivamente as atividades. Tudo isso mostra que, ao passar pelo crivo da verificação histórica, a tese do abade Barruel não se sustenta.

O ESTRANHO MUNDO DOS SÍMBOLOS

Pesquisar o significado dos símbolos maçônicos é o cerne do desenvolvimento iniciático. Essa busca começa no dia da iniciação e não para nunca mais. Não existem maçons que sabem e maçons que ainda não sabem, só existem os que buscam. Mas o que significam, afinal, tantos signos? A resposta é: “Se você quer saber, torne-se um deles e descubra por si mesmo”.

O objetivo da fraternidade é permitir que o homem “construa” a si próprio nos planos intelectual, moral e espiritual. Por isso, as ferramentas inspiradas no mundo da construção são importantes se entendidas no nível simbólico. Os ritos, por sua vez, não podem ser resumidos a dicionários para ser compreendidos. O que eles propõem são pistas de reflexão. Os iniciados vão explorá-las sozinhos ou em grupo.

A evolução de um maçom é organizada em graus. Cada grau corresponde a um conjunto de símbolos, e há mais de 90 diferentes originários dos ofícios ligados à construção civil: malho, cinzel, compasso, esquadro, avental e luvas, nível, fio de prumo, trolha, régua, alavanca etc.

Há ainda elementos do Velho Testamento e da tradição de construtores de catedrais. O terceiro grau, por exemplo, põe em cena Hiram, construtor do primeiro Templo de Jerusalém no século XI a.C, o Templo de Salomão. Hiram foi assassinado por três companheiros.

As imagens não contêm mistérios nem magia: são utilizadas para fazer a mente trabalhar. Nada é sagrado nem há culto de adoração aos elementos. Você jamais verá um irmão se prosternar diante do que quer que seja.

Cada um deve se apropriar dos signos maçônicos e procurar em sua própria vida o que eles representam e acrescentam. Assim, o esquadro, símbolo da retidão, provoca a reflexão sobre o que se pode construir com probidade. Os elementos são utilizados para designar os conceitos complexos de modo simples.

Aqui, entramos no mundo do imaginário, no qual a razão desaparece. A esse respeito, os maçons costumam dizer que não sabem nem ler nem escrever, pois as coisas do imaginário não se prestam à linguagem escrita ou falada. Eles reabilitam o pensamento simbólico e o colocam no mesmo plano que o pensamento racional. Isso requer um aprendizado lento e rigoroso.

SEM DOGMAS

O primeiro olhar que o franco-maçom deve alterar é aquele que ele tem a seu próprio respeito. A abordagem iniciática pode ser resumida pela fórmula de Sócrates, “Conhece-te a ti mesmo”. Mas a frase completa é: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”.

Para reunir pessoas de religiões e culturas diferentes, os franco-maçons tomaram emprestada de Voltaire a ideia de um Grande Relojoeiro, mas permanecendo fiel à tradição de construtor – a expressão franco-maçon quer dizer “pedreiro-livre”, em francês. Daí a concepção do Grande Arquiteto do Universo, traduzida pelo princípio criador que não se opõe nem aos deuses das religiões nem ao materialismo científico.

Na maçonaria não há doutrina nem dogma, o que permite a todos,crentes, ateus ou agnósticos, compartilhar uma concepção de mundo. O Grande Arquiteto do Universo é representado pelo triângulo no centro do qual se localiza um olho, o olho da consciência, o Princípio Criador. É o olho que tudo vê, que protege ou julga, dependendo do caso. Esse símbolo já podia ser visto antes do surgimento da maçonaria, como representação divina nas pinturas pré-renascentistas e na antiga arte egípcia – no caso, aludindo a Hórus, filho de Ísis e Osíris.

O mais conhecido dos símbolos maçônicos, o esquadro e o compasso associados, apareceu em 1725. O esquadro remete à terra, ao número quatro e ao quadrado. O compasso alude ao céu, à unidade e ao círculo. Combinados, encontra-se a matéria (esquadro) e o espírito (compasso) indissociavelmente ligados.

Frequentemente se critica certo caráter “secreto” da maçonaria, a esconder talvez boa dose de perigo. Percepção errada. Desde a criação da primeira grande loja maçônica, em 1717, em Londres, começaram a circular textos detalhando seus ritos. O conhecimento verdadeiro, porém, está inscrito na vivência de cada maçom e é dificilmente transmissível.

Iniciado em 1750, Casanova exprimiria com perfeição a ideia: “O segredo da franco-maçonaria é inviolável por sua própria natureza, já que o maçom que o conhece, só o conhece por tê-lo adivinhado. Ele não o aprendeu de ninguém, ele o descobriu à força de ir à loja, de observar, raciocinar e deduzir”.

h1

7 de setembro: um dia que entrou para a História

setembro 4, 2009

Todos os brasileiros aprendem na escola que d. Pedro I proclamou a Independência nas “margens plácidas” do Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822. A data, porém, não foi reconhecida imediatamente como o dia da Independência. Havia outras, mais apropriadas para um Império, principalmente o dia 12 de outubro, data da aclamação do primeiro imperador e também seu aniversário. Até 1826, esta foi mais importante do que a do Grito do Ipiranga. Naquele ano, o novo parlamento imperial designou cinco dias de festividade nacional, entre eles, Sete de Setembro e Doze de Outubro, que durante alguns anos foram considerados datas de igual importância.

Como se comemorava então os dias de festejo nacional na Corte, a capital do Império? Havia comemorações oficiais: uma grande parada das Forças Armadas (Exército, milícias e, depois de 1831, Guarda Nacional); um Te Deum (ofício religioso de ação de graças) na capela imperial; um cortejo e beija-mão no Paço da cidade. À noite, os habitantes costumavam iluminar as janelas das suas casas com velas ou lâmpadas de azeite, enquanto o imperador e boa parte da sociedade assistia a um espetáculo de gala em um dos teatros da cidade. O espetáculo sempre começava logo após a chegada do imperador e da imperatriz, saudados pela orquestra ou a companhia que tocava ou cantava o Hino da Independência ou o Hino Nacional, que tinha uma letra diferente da atual e nem sempre cantada nos eventos. Durante a parada e no início do espetáculo, dava-se vivas à Independência e ao monarca e, no teatro, poetas liam sonetos e outros versos comemorativos do dia durante os intervalos.

Estes festejos tinham fins políticos específicos. A parada mostrava o poder do Estado e arregimentava publicamente os cidadãos alistados na Guarda Nacional (composta de homens cuja renda alcançava a mínima requerida pela Constituição para o exercício da cidadania). No Te Deum, dava-se graças ao Todo-pode-roso. No cortejo, o corpo diplomático, as altas autoridades e boa parte da elite cumprimentavam o imperador e, ao beijar-lhe a mão (antigo costume português), mostravam seu respeito e reverência. No teatro, o imperador e a elite aproximavam-se, unidos no patriotismo. Os elogios reiteravam esta interpretação: Pedro I, segundo José Pedro Fernandes, um dos poetas “oficiais” do Primeiro Reinado:

“Fez abrolhar no solo Brasileiro
Todos os dons, os elementos todos
Da glória, do Heroísmo, e da Fortuna”

O aparente consenso em torno das duas datas de festejo nacional foi rompido em 1830 pela atuação dos Moderados e dos Exaltados, os grupos de liberais que contestavam as tendências cada vez mais autoritárias do imperador. Como parte da sua campanha, eles organizaram uma comemoração do Sete de Setembro na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, “onde um luzido e numerosíssimo concurso de homens, e senhoras se detiveram desde o anoitecer do dia 7 até a madrugada do dia seguinte”. Ao insistir que Pedro havia meramente seguido os desejos de todos os brasileiros no Grito do Ipiranga, e, portanto, “tornou-se digno de reinar sobre os brasileiros”, a retórica deste festejo oposicionista contestou a interpretação oficial da Independência. Depois da abdicação de d. Pedro I, em 7 de abril de 1831, com os Moderados assolados pela ameaça da violência popular que tomava as ruas do Rio de Janeiro, a Regência – que assumiu o poder em nome de d. Pedro II, então com cinco anos – se esforçou para manter as comemorações sob controle. Limitavam-se os ritos oficiais, e Evaristo da Veiga, o porta-voz dos Moderados, recomendou que “todos os Brasileiros que amam a pátria, sejam quais forem os seus princípios políticos” se abraçassem no Sete de Setembro. Não foi tão fácil manter a ordem, e durante estes anos conturbados as autoridades reclamavam da atuação dos “agitadores” que provocavam violência contra – portugueses ou adversários políticos. A morte de d. Pedro I, em 1834, tirou-o do cenário político e possibilitou seu retorno ao centro das comemorações como o fundador do Império, o príncipe liberal que deu os primeiros passos para a liberdade da nação.

Em 1854, durante o auge do Império, começou a campanha para o monumento a d. PedroI fundido na França e inaugurado com muita pompa no dia 30 de março de 1862, na Praça da Constituição, a estátua equestre comemorava tanto a proclamação da Independência como a Constituição, outorgada pelo imperador em 1824. Liderada por um grupo de homens intimamente associados a d. Pedro II e ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a campanha fazia parte dos esforços do Instituto no sentido de criar uma história oficial do Império.

Um ano após o começo da campanha da estátua, fundou-se a Sociedade Ipiranga na cidade do Rio de Janeiro para “arrancar da indiferença o aniversário da nossa emancipação política”. Contando com a participação de alguns dos homens envolvidos na campanha do monumento, a nova sociedade convidou os habitantes a restaurar o costume antigo de iluminar janelas e contratou bandas de música para tocar na Praça da Constituição, no lugar onde se erigiria o monumento. Logo surgiram outras sociedades patrióticas que, como a Ipiranga, financiaram fogos de artifício, construíram monumentos efêmeros e, durante alguns anos, libertavam escravos para comemorar o Sete de Setembro. A imprensa concordou que elas transformaram as comemorações. Um jornal descreveu “três noites de iluminação, salvas, girândolas e foguetes a mais não poder, músicas em coretos e pelas ruas, jantares  e  reuniões patrióticas”.  Em 1859, “milhares de cidadãos de todas as classes e posições” levantaram-se cedo “para saudarem o alvorecer do primeiro dia nacional”. Na Praça da Constituição, uma sociedade havia mandado construir um chafariz representando os quatro grandes rios do Brasil (o Amazonas, o Prata, o Tocantins e o São Francisco), que sustentavam um busto de d. Pedro I, rodeado por vinte colunas que representavam as províncias.

Os jornais enfatizavam que nestes festejos “populares” não havia nenhum indício dos “anárquicos exageros de mal-entendido patriotismo”, embora registrassem a prisão de capoeiras durante as comemorações. A libertação de escravos pela Sociedade Ipiranga, realizada pela primeira vez em 1856, foi recebida por alguns como “um pensamento muito nobre”, mas neste mesmo ano corriam boatos “pelas classes ínfimas” que todos os escravos iam “ficar forros nesse dia”. Era perigoso demais ligar o patriotismo à libertação de escravos, e apenas poucos foram alforriados nas comemorações da segunda metade da década. Só na década de 1880, em plena campanha abolicionista, a libertação de escravos se tornaria um ato patriótico comum no Sete de Setembro.

A onda de entusiasmo patriótico diminuiu tão rápido quanto surgiu. “Triste, desanimado, desceu ao abismo do passado o primeiro dia brasileiro” em 1862, ano da inauguração da estátua. D. Pedro II também reparou a “frieza” das comemorações deste ano, “atento o entusiasmo de há poucos anos”. Já na época da Guerra do Paraguai (1864-1870), os “ruidosos festejos” eram considerados uma coisa do passado.

Todavia, a forma das comemorações mantinha-se inalterada, como demonstra uma crônica em quadrinhos de 1883. Acordado de madrugada pelas salvas de artilharia, o caricaturista explicou que não pertencia à alta sociedade e, portanto, não foi ao Paço para assistir ao cortejo. Na Praça da Constituição, viu a estátua equestre de d. Pedro I embandeirada e os dois coretos construídos na forma de castelos. Grupos de “brava gente brasileira” se reuniam na praça, onde um poeta animado recitava versos patrióticos.

Nas décadas de 1870 e 1880, a Sociedade Comemorativa da Independência do Império coordenava esses festejos, pagava as bandas, e organizava uma vigília de 24 horas durante as quais o monumento estava iluminado. Em 1883, “uma formidável massa enchia a praça”, mas Cari von Koseritz, um viajante alemão, “não compreendeu realmente o que toda essa gente fazia ali, pois além da iluminação não havia absolutamente nada a não ser a música”.

Cada vez mais, o monumento tornou-se o símbolo de um regime a ser criticado. As charges publicadas nos jornais ilustrados da capital no dia Sete de Setembro chamavam atenção para as falhas do regime imperial. Mesmo a estátua parecia cansada da retórica oficial das comemorações. Em 1888, segundo Raul Pompéia, houve pouca animação. O “louvável empenho dos festejadores” da Sociedade Comemorativa não inspirou a população; apenas um punhado de “curiosos” se levantou cedo para ver a alvorada no morro de Santo António e poucos foram “suar a canícula no saguão do Paço” para assistir ao cortejo.

À medida que o Império entrava em decadência, também decaía o ritual cívico associado a ele. Já na época da inauguração da estátua equestre, liberais radicais contestavam a história oficial da Independência, que destacava o papel do primeiro imperador. Teófilo Otoni, líder da ala radical do Partido Liberal, publicamente recusou participar da inauguração, pois a estátua representava a Independência como “uma doação do monarca”. Ao contrário disso, Otoni traçou uma história da Independência que passava pela Inconfidência Mineira, o suplício de Tiradentes, e a revolta republicana de Pernambuco em 1817. O imperador meramente respondia ao desejo dos brasileiros pela Independência e, depois, traiu a nação quando fechou a Assembleia Constituinte em 1823. Depois da Guerra do Paraguai, republicanos levaram adiante este argumento. Em vez de conquistar a liberdade no dia Sete de Setembro, lamentou um jornal em 1882, os brasileiros ficaram sob “o odioso poderio da família brangantina” que tramou um bem-sucedido “apartamento de bens” em 1822. Rejeitou, com algum exagero, a “pompa faraônica” do dia Sete e argumentou que uma comemoração digna da Independência seria a construção de escolas, fábricas e museus. Não foi por acaso que, para os republicanos, Tiradentes tornou-se símbolo predileto; em 1890, a Praça da Constituição mudou de nome para homenagear o inconfidente, com alguns dos mais exaltados exigindo a remoção da estátua equestre de d. Pedro.

Nas páginas dos jornais e nas ruas da capital do Império, no dia Sete de Setembro, brasileiros discutiam o significado da Independência. Os festejos tornaram-se um espaço político onde se lutava pelas interpretações do passado para influenciar o rumo futuro do Estado e da nação. Todos (menos os escravos e, em determinadas épocas, os naturais de Portugal) eram brasileiros e comemoravam a Independência, mas ainda se discutia o significado tanto de ser brasileiro como o da própria Independência.

h1

Gripes históricas – a História das gripes

setembro 4, 2009

Por Álvaro Oppermann para a revista Aventuras na História (ed. 71 – junho de 2009)

Em setembro de 1918, o mundo descobriu, atemorizado, um inimigo mortífero. Já não bastassem os horrores da Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas foram dizimadas por outra causa. A humanidade estava sendo atacada pela gripe espanhola — pelo menos um quinto da população mundial contraiu a doença —, e não sabia como se defender. Os sintomas eram violentos. O doente sentia dor de cabeça e era tomado por calafrios tão intensos que os cobertores se tornavam inúteis. Depois começava a tossir sangue e os pés ficavam pretos. Quando os pulmões se enchiam de uma mistura de secreções, era o fim. E tudo isso ocorria com velocidade assustadora: da saúde ao óbito, passavam-se poucos dias, ou mesmo horas. “Pessoas saíam de manhã para trabalhar e não retornavam”, escreve a jornalista americana Gina Kolata em Gripe: a História da Pandemia de 1918. Sozinha, a gripe matou de 30 milhões a 100 milhões de pessoas. Mais que a Primeira Guerra, que deixou 10 milhões de vítimas fatais.

Ainda é cedo para saber como será o desdobramento do atual surto de gripe suína. Mas, a cada nova pandemia, o fantasma de 1918 retorna. E com bons motivos: os métodos de transmissão só foram identificados há poucas décadas, e ainda não se conhece a receita para interromper uma crise da doença, que parece ter se tornado mais fatal no século 20.

A primeira referência à gripe na História foi feita por Hipócrates. O médico grego relatou em 412 a.C. que uma doença respiratória atacou de forma epidêmica a Grécia e em poucas semanas matou centenas. Foram os gregos que cunharam a palavra “epidemia” para as doenças infecciosas que se abatem sobre grande número de pessoas em uma localidade. A expressão vinha de epidemos, indivíduos que não moravam nas cidades. “O médico [Hipócrates] fez tal comparação porque as doenças infecciosas não eram da região e iam embora”, escreve o médico Stefan Cunha Ujvari em A História e suas Epidemias.

A epidemia de gripe só reapareceu em 1173 e o primeiro caso sério veio no século 16. Em 1580, uma pandemia se alastrou pela Europa a partir da Espanha. Os agentes do contágio teriam sido os soldados do rei Felipe II (1527-1598). No século 18, três novos grandes surtos provocaram o surgimento do termo “influenza”. Muitas teorias versam sobre a origem do nome, da influência dos astros à interferência do frio (já que a gripe é mais comum no inverno). Em 1837, a combinação de doença e baixas temperaturas foi tão séria em Berlim que, em janeiro, o número de mortos pela gripe excedeu o de recém-nascidos.

As pandemias de gripe atravessaram o tempo, os vírus sofreram mutações e os tratamentos também mudaram muito desde a época de Hipócrates, que, no século S, prescrevia sangrias. Adepto da teoria clássica dos humores (secreções do corpo), ele dizia que a sangria eliminaria o fluxo sanguíneo excessivo, o suposto causador da doença. Tal tratamento foi amplamente utilizado pelos médicos até o fim do século 19. Porém, ele nem de longe era o mais bizarro. No século 18, médicos franceses garantiam que a gripe era causada pelo excesso de relações sexuais e recomendavam a castidade. Em Londres, do fim do século 19 até a década de 1920, os banhos quentes e o vinho eram recomendados como tratamento certeiro. No Brasil, em 1918, ficou popular o uso do quinino e purgantes. Nem um nem outro tinham efeito algum sobre a doença. O quinino era usado para a malária, que, sabe-se hoje, é causada por protozoário, não por vírus. Os purgantes, por sua vez, só funcionavam para causar uma bela dor de barriga no doente, que já estava debilitado. A Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1918, também indicava canja de galinha. Resultado: grandes armazéns no Rio de Janeiro e em São Paulo foram saqueados pela população em busca do frango salvador. A primeira vacina surgiria em 1945, nos Estados Unidos, feita de vírus mortos. As vacinas se popularizaram nos anos 1960, mas só em 2003 foi aprovado o uso de vírus vivos.

A descoberta do vírus

Graças ao microscópio, o estudo das causas e dos tratamentos só ganhou rigor científico no século 20. No século 19, já se conheciam as bactérias, mas o vírus da influenza A seria isolado apenas em 1933, pelos cientistas Wilson Smith, Christopher Andrews e Patrick Laidlaw.
A versão B foi identificada em 1939, e a C em 1950. Essas letras, A, B e C, foram criadas nos anos 1950 para identificar os três tipos que existem: a C é a comum, a B é a típica gripe de inverno, que ataca especialmente as crianças, e a A é selvagem e perigosa — um verdadeiro peso-pesado.

O habitat natural do vírus A, causador das grandes pandemias, como a espanhola e a gripe atual, é o mesmo dos patos e de outras aves aquáticas. Ele também pode viver em mamíferos como porcos, cavalos, baleias e leões-marinhos. Isso explica por que se costuma dizer que uma gripe é “suína” ou “aviária”. O apelido indica a origem do vírus A.

Gripes do porco

Quando Smith isolou o microorganismo, na década de 1930, notou que ele tinha uma estrutura muito simples. “É constituído apenas do seu material genético, seja DNA, seja RNA. Ao contrário das bactérias, não tem o maquinário necessário para reprodução”, diz Stefan Cunha Ujvari. Por isso, precisa, necessariamente, viver dentro de um hospedeiro. Ele invade as células e lá dentro faz cópias exatas de si mesmo. É a forma de se replicar.

Os vírus têm extrema dificuldade de saltar de uma ave para um ser humano. Porém, conseguem fazer essa migração utilizando os porcos como “escala”. Foi isso que aconteceu em 1918, segundo a teoria de dois eminentes professores de virologia, Robert Webster e Kennedy Shortridge. O causador da gripe espanhola,  dizem eles, começou provavelmente em uma ave e foi transmitido a um porco, que por sua vez infectou pessoas — razão qual os sobreviventes da epidemia tinham anticorpos da gripe suína.

De acordo com Shortridge, foi na China, um milênio antes da era atual, que os plantadores de arroz começaram a criar porcos junto com patos. “Foi a oportunidade ideal para o vírus saltar para nós”, diz o cientista. Devemos ficar bravos com os porcos? Bem, se eles pudessem entender de virologia, também teriam motivo para ficar irritados conosco. Afinal, esses bichos também pegam gripe dos seres humanos. No início de maio de 2009, cientistas investigavam o caso de um fazendeiro de Alberta, no Canadá, que teria transmitido a gripe para sua criação de porcos: 200 animais foram contaminados após ele passar uma temporada no México, onde contraiu o vírus originado em outros porcos. Se a suspeita se confirmar, o ciclo se fechará.

Vírus mortais – As cinco maiores epidemias de gripe da História

A Gripe Russa (1889-1890)

  • Sintomas: febre e pneumonia
  • Propagação: foi gcarregada pelo vento e pelas linhas de trens, como o Expresso Transiberiano. Em 15 dias atravessou aRússia inteira, da Sibéria a São Petersburgo. A epidemia atingiu toda a Europa, norte da África, a China, países do sudeste asiático, EUA, América Central e América do Sul.
  • Mortos: 1,5 milhão
  • Tratamentos usados na época: acreditava-se que banhos quentes e vinho eram remédios. Durante o surto, casas de banho ficaram populares em Londres.

A Gripe Espanhola (1918-1919)

  • Sintomas: pneumonia viral, sangramentos e calafrios
  • Propagação: a gripe atingiu todos os continentes
  • Mortes: 30 milhões a 100 milhões
  • Tratamentos: NA Europa, cidades inteiras ficaram de quarentena. No Brasil, receitava-se bromo-quinino, sulfato de quinino, limonada purgativa, chá de canela e canja de galinha.

A Gripe Asiática (1957-1958)

  • Sintomas: febre alta, dor de cabeça e cansaço
  • Propagação: alastrou-se devagar, principalmente por terra e por mar, com surtos localizados. Além da Ásia, atingiu também a Europa, a África, a Oceania e os EUA.
  • Mortos: 2 milhões
  • Tratamentos: a tecnologia da época possibilitou a fabricação de vacinas, porém em quantidade insuficiente.

A Gripe de Hong Kong (1968-1969)

  • Sintomas: febre alta, dor nas articulações e cansaço
  • Propagação: Pessoas infectadas espalharam a doença através de deslocamentos entre várias partes do mundo e a epidemia atingiu a Ásia, a Oceania, a Europa e os EUA.
  • Mortos: 1 milhão
  • Tratamentos: antibióticos e vacina

A Gripe Aviária  (1997-2004)

  • Sintomas: febre, tosse e dores na garganta
  • Propagação: em 1997, 18 pessoas foram infectadas por frangos. Depois o vírus ganhou uma mutação, o subtipo H9N2, e se espalhou através das aves. A epidemia atingiu o sudeste asiático, a Europa e a África.
  • Mortes: 300
  • Tratamentos: sacrifício de 1,5 milhões de aves em Hong Kong. O grupo farmacêutico Novartis tem um projeto de vacina contra o vírus.