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Piratas da vida real

junho 29, 2012

Publicado originalmente na revista Época em agosto de 2006 [com adaptações]

As salas de cinema foram tomadas pelos piratas. Num assalto rápido às bilheterias, a série de filmes Piratas do Caribe obtiveram fantásticos índices de renda. As aventuras do capitão Jack Sparrow, vivido pelo ator Johnny Depp, misturam em doses certas emoção, aventura e suspense. Mas a vida dos piratas que efetivamente pilharam navios e cidades no Mar do Caribe era bem diferente. Brutais e sádicos, ingleses, holandeses e franceses se dedicavam a saquear, por iniciativa própria ou a mando de seus países, as riquezas que espanhóis tiravam da América. As ilhas do Caribe foram descobertas e colonizadas pela Espanha, em seguida à famosa viagem de Cristóvão Colombo em 1492. Pelo Tratado de Tordesilhas, celebrado com Portugal em 1494, toda a região ficava na área de domínio espanhol. Os outros países europeus não gostaram dessa partição do mundo que os deixava de fora. A resposta de franceses, ingleses e holandeses foi contrabando, guerra e pirataria. A Espanha proibia o comércio de seus súditos caribenhos com outros europeus. Mas não supria as colônias com tudo de que elas necessitavam. Marinheiros de outros países logo aproveitaram a chance de grandes lucros contrabandeando a mercadoria desejada. Mas corriam risco de morte se fossem apanhados por algum navio guarda-costa espanhol.

Teoricamente existe uma diferença clara e importante entre pirata e corsário. O pirata é um fora-da-lei que ataca qualquer navio. O corsário é um marinheiro que recebeu licença do governo de seu país para atacar e apresar somente navios de países inimigos e, obviamente, só em caso de guerra, para isso recebendo uma carta ou patente de corso. Mas no Caribe essa distinção demorou para ficar clara. A intransigência espanhola em não abrir seus mercados fez alguns países usar corsários – no caso, melhor seria chamá-Ios de piratas “semi-oficiais” – mesmo em tempo de paz na Europa. O exemplo mais famoso é o inglês Francis Drake, primeiro navegador inglês a dar a volta ao mundo, marinheiro sem igual e saqueador de várias cidades hispânicas, como Santo Domingo (na atual República Dominicana) e Cartagena de índias (na Colômbia). Drake era nada discretamente apoiado pela Coroa britânica, para quem obteve lucros enormes. Também foi o caso de Thomas Cavendish, que saqueou Santos em 1591. A partir de 1580 (e até 1640) Portugal esteve sob domínio espanhol, o que tomava o Brasil alvo legítimo de corsários inimigos da Espanha.

Esse surto de pirataria e corso foi estimulado pela guerra religiosa. O ódio entre espanhóis católicos e ingleses e holandeses protestantes se traduziu em maior ferocidade nas Américas. Para conter a depredação de seu comércio colonial, a Espanha tomou duas medidas, tanto para proteger suas cidades como os navios que escoavam o ouro e prata americanos. Uma delas foi reunir os navios mercantes em comboios anuais protegidos por navios de guerra. Aqueles que transportavam o metal precioso eram grandes galeões bem armados com canhões. Outra medida foi intensificar a fortificação das cidades, especialmente aqueles portos em que os comboios faziam escala.

Os primeiros piratas e corsários do Caribe não tinham bases na região. Mas aos poucos foram surgindo focos de colonização de ingleses, franceses e holandeses. Alguns deles se tornariam famosos por abrigar “ninhos” de piratas. O melhor exemplo foi a ilha de Tortuga (em espanhol), ou Tortue (em francês), conhecida pelas tartarugas que lhe deram o nome (além de ter forma parecida com o bicho). Trata-se de uma ilhota a norte da Ilha Hispaniola, hoje dividida entre Haiti (a oeste) e República Dominicana (a leste). Em Tortuga, a partir de 1630, e na parte não-espanhola da ilha maior, vivia um tipo original de “colono”. Eram sujeitos independentes, exímios atiradores que viviam da caça e pesca. Defumavam a carne sobre uma grelha de madeira chamada “boucan”, ganhando dela o nome de “bucaneiros” . Outra atividade à qual se dedicaram com gosto foi a pirataria.

A princípio os bandos de bucaneiros atacavam pequenos navios costeiros espanhóis a partir de simples canoas. Em um processo que caracterizou, a partir daí e até o fim, a pirataria no Caribe, eles usavam suas presas menores para conquistar embarcações maiores. De canoas eles tomavam escunas, com as escunas tomavam navios oceânicos de três mastros. Boa parte dos bucaneiros era de ascendência francesa, como mostra a origem do nome. Mas outro grande impulso à pirataria caribenha surgiu graças a um belo golpe inglês, a tomada da ilha de Jamaica em 1655. Sua localização estratégica, bem no centro do Mar do Caribe, fez da colônia inglesa o ninho de piratas ideal. Port Royal tornou-se a base perfeita para os ladrões do mar. Ali eles estavam protegidos, podiam vender as cargas que apresavam – açúcar, tabaco, escravos – e tinham acesso àquilo que os marinheiros mais ansiavam: bebida à vontade e mulheres.

Para azar dos piratas e sorte dos arqueólogos, um terremoto devastou Port Royal na manhã de 7 de junho de 1692, jogando dois terços da cidade debaixo d’água. Morreram cerca de 2 mil pessoas na hora, mais 3 mil nos dias seguintes. O sítio arqueológico de Port Royal tornou-se uma “Pompéia dos piratas”, segundo o arqueólogo Roger Smith, da Universidade Texas A & M, dos EUA. Para Smith, esse ninho de piratas “é talvez o mais importante sítio arqueológico inglês do século XVII no mundo”.

Alguns piratas mais espertos politicamente conseguiam se reabilitar e se tornar socialmente respeitáveis, como o velho bucaneiro inglês Henry Morgan, que se tornou vice-governador da Jamaica. Depois da pirataria “semi-oficial” do final do século XVI, surgiu essa “pirataria social” dos bucaneiros no século seguinte, uma expressão usada pelo pesquisador francês Philippe Jacquin. Deixava de ser o mero banditismo no mar para “se enraizar” nas comunidades marítimas e de colonos caribenhos, segundo Jacquin, da Universidade de Lyon, França.

Um dos maiores sucessos dos bucaneiros franceses ocorreu no final do século XVII, exatamente no fim de sua era. Foi a tomada de Cartagena (Colômbia) em 1697, então bem mais fortificada que a cidade colonial atacada por Drake um século antes. O ataque foi feito junto com forças navais francesas, mas o papel dos bucaneiros foi importante. Uma das testemunhas da vitória francesa foi o primeiro-tenente Louis de Chancel de Lagrange, que em 1711 também estaria a bordo de um dos navios da frota que entrou na Baía de Guanabara e tomou o Rio de Janeiro. Essa frota, comandada por um dos maiores heróis navais franceses, o corsário René Duguay-Trouin, era um misto de navios corsários e navios regulares da Marinha real.

Mas foram os ingleses – a partir de 1707 “britânicos”, depois da união das coroas escocesa e inglesa – que se tornaram os principais protagonistas da era “dourada” da pirataria caribenha, nas primeiras décadas do século XVIII. Foi por essa época que a bandeira negra – com ou sem crânios ou esqueletos – passou a ser símbolo da pirataria. Entre 1716 e 1726, o Caribe foi assolado por cerca de 5 mil piratas, dos quais três quartos eram britânicos ou de sua colônia americana – que se tornaria os Estados Unidos. Foi o caso de alguns dos piratas popularmente mais conhecidos graças ao cinema, como Edward Teach, o Barba Negra, e o capitão William Kidd.

Essa pirataria também não era apenas banditismo. Muitos piratas eram marinheiros comuns barbaramente explorados por seus capitães. Terminavam se amotinando e tomando o navio. Segundo Marcus Rediker, da Universidade Georgetown, EUA, autor de um clássico estudo sobre marinheiros e piratas no século XVIII, entre 1700 e 1750 houve 60 motins registrados a bordo de navios mercantes anglo-americanos – “talvez uma pequena parte dos que realmente ocorreram”. A lei era clara: os amotinados estavam condenados à morte pela rebeldia. Como resultado, muitos optavam por ser piratas.

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Idade Média – A dura vida no Primeiro Milênio

junho 29, 2012
Texto originalmente publicado na revista Veja, em julho de 1999 [com adaptações]

O escritor italiano Umberto Eco, autor do bestseller O Nome da Rosa, conta como o cultivo de leguminosas como feijão, ervilha e lentilha – salvou a Europa de morrer de desnutrição na virada do primeiro milênio da era cristã. Eram tempos duros, em que as pessoas morriam de fome ou viviam doentes por causa da alimentação precária. O desenvolvimento do cultivo das leguminosas mudou tudo. Fontes de proteína, elas substituíam a carne escassa, A pecuária praticamente não existia e caçar era um privilégio dos nobres. Com a nova dieta, os camponeses tornaram-se mais robustos e resistentes a doenças. A expectativa de vida aumentou significativamente e a mortalidade infantil decaiu. Os avanços na agricultura descritos por Eco não param por aí. Novas ferramentas agrícolas também começaram a ser usadas, entre elas um tipo de arreio que aumentava a eficiência dos cavalos ao puxar o arado. Em vez de ser presa no pescoço do animal, a armação de couro ficava sobre os músculos do peito, permitindo maior impulsão. Resultado: em apenas dois séculos, a partir do ano 1000, a produção agrícola multiplicou-se por cinco. Na França, a população triplicou. A circulação de pessoas e mercadorias acelerou-se, e as cidades, que não passavam de pequenos centros de artesãos, transformaram-se em grandes núcleos populacionais.

Agricultura medieval

A curiosidade a respeito de como a humanidade vivia e enfrentou a virada do primeiro milênio nunca foi tão grande como agora. Às vésperas do ano 2000, dezenas de artigos, ensaios e livros foram publicadas sobre o assunto. Uma dessas novidades foi o livro O Ano 1000, escrito pelos jornalistas ingleses Robert Lacey e Danny Danziger. A população mundial na virada do milênio era de 300 milhões de pessoas. A maioria delas habitava lugares desconhecidos dos europeus, como a China, a África e a Índia. Noventa por cento dos europeus viviam no campo, subordinados aos senhores feudais. Na Inglaterra, as lOO palavras mais usadas na língua inglesa atual já faziam parte do vocabulário da população, que, no entanto, era completa mente analfabeta. Lia-se e escrevia-se apenas nos mosteiros, depositários dos pergaminhos gregos e latinos que sobreviveram às invasões bárbaras. Nesses conventos, as regras previam cinco banhos para cada monge – por ano. Em toda a Europa, só na Dinamarca havia o hábito de tomar banho aos sábados e escovar os cabelos. No fim do século X, a civilização medieval já tinha seu próprio Viagra. Era uma planta chamada agrimônia, cujas flores fervidas no leite combatiam a impotência. Se fossem fervidas na cerveja, o efeito era contrário.

Sobreviver nos anos finais do primeiro milênio não era tarefa fácil. Nos séculos anteriores, invasões de bárbaros, saques, epidemias, fome e miséria destruíram tudo o que os romanos haviam construído no maior império até então visto pela humanidade. Estradas, aquedutos e ci-dades viraram ruínas e foram tomados pelo• mato, da mesma forma que boa parte dos campos destinados ao cultivo voltou a ser floresta fechada. Vikings, húngaros, normandos e sarracenos invadiam de tempo a tempo a Europa Ocidental, a cavalo, a pé e até mesmo de barco pelos rios. Ninguém estava a salvo dos saques que atingiam indiscriminadamente castelos, mosteiros e cidades. Quando não eram os bárbaros, os senhores feudais e os membros do clero se encarregavam de explorar a imensa maioria da população. O povo vivia sob constante terror. Ninguém duvidava, naquela época, de que os mortos continuassem a viver em um mundo além-túmulo. Todos os povos, em especial na Europa, eram dominados pelas mesmas angústias. A cólera divina pesava sobre a humanidade e podia manifestar-se por este ou aquele flagelo. Era fundamental, portanto, garantir a graça de Deus, o que dava à Igreja um poder total sobre ricos e pobres.

A população acreditava piamente que o fim dos tempos estava próximo. O Livro do Apocalipse dizia que o demônio ficaria aprisionado por 1000 anos no abismo ao qual fora atirado pelo anjo de Deus e os padres medievais apregoavam essas escrituras pelos quatro ventos, associando o número da Bíblia à data mítica do novo milênio. Em 989, uma estrela dotada de uma imensa cauda assombrou os 38 milhões de pessoas que então habitavam a Europa. Aparecia no crepúsculo e sumia com os primeiros raios de sol. Em um dos raríssimos relatos da época que chegaram a nossos dias, o monge Radulphus Glaber, da Borgonha, conta que por três meses esse estranho corpo celeste ficou ali, no céu. Era apenas o cometa de Halley, aquele que a cada 76 anos circula nas vizinhanças da Terra. Para a população medieval, porém, pareceu o sinal inequívoco de que o fim dos tempos havia chegado. G1aber conta que, logo depois, incêndios devastaram cidades inteiras da Itália e da França atual, levando as pessoas a um pavor sem precedentes. Na prática, ocorreu o oposto do que muita gente temia. Já em 1003, segundo o cronista borgonhês, “parecia que a própria Terra, renovando a si mesma e atirando fora os tempos antigos, se vestia com um manto branco pontilhado de igrejas”. As cidades floresceram, enfeitadas por belos prédios, como palácios e catedrais.

As condições sanitárias nas cidades continuavam terríveis. Os esgotos a céu aberto tornavam o ar insuportável, principalmente no verão. Os ratos pululavam em meio ao lixo e era comum sentar à mesa de refeições acompanhado de um enxame de moscas. No século XIV, mais de 300 anos depois da passagem do cometa, chegou a verdadeira hecatombe que os europeus temiam. Uma epidemia de peste bubônica vinda do Oriente se instalou nos portos mercantis da Itália e dali se espalhou pelo resto do continente, ceifando um terço de toda a população. Pelo menos 25 milhões de mortos apenas no verão de 1348. A peste se propagava pelas pulgas e parasitas que viviam no pêlo dos ratos. Entre os relatos dessa época macabra, os cronistas registram que no convento de Montpellier, um daqueles onde os banhos eram escassos, não restou um único monge dos 45 que lá viviam.