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A crise de 1929

dezembro 12, 2010

Do livro “Nova História Crítica”, de Mario Schmidt (Ed. Nova Geração)

John Smith estava tranqüilo. Naquela quinta-feira, 24 de outubro de 1929, levantou cedo, comeu ovos mexidos e cereais, tomou um café forte. Depois, pegou o carro e estacionou no centro da cidade, perto da Quinta Avenida. Leu a manchete dos jornais que anunciavam a vitória seu time de beisebol, os Dodgers de Chicago. Olhou para as vitrines e se conteve para não comprar alguma coisa logo de manhã. Deu um sorriso e começou a assobiar. Não havia nada melhor do que viver naquele país e naquela cidade. Nova York era o centro do mundo. Do mundo que fazia dinheiro. E nada melhor do que ganhar dinheiro na Bolsa de Valores. John tinha muitas ações. Elas valiam cada vez mais.

Talvez o limite fosse o céu. John estava muito contente. Mas naquele dia algo aconteceu. De repente, a cotação (o valor) das ações começou a despencar. Assustados, os especuladores tentaram vender suas partes. Todos queriam vender e ninguém queria comprar. As ações caíram e caíram. Pessoas perderiam milhões de dólares e só lhes restariam uns pedaços de papel. Era a crise. A mais terrível que já tinha acontecido.

Meses depois, o ex-contente John Smith estava na fila dos desempregados. Ele ganhava alguns trocados como camelo, vendendo maçãs a cinco cents nas calçadas de Nova York. Seria o fim do sonho?

A euforia dos anos 1920

Terminada a Primeira Guerra, os EUA tinham se convertido na maior potência econômica do mundo. Apesar de uma pequena crise econômica em 1920-1921, chamada crise de reconversão, causada pela diminuição das exportações para a Europa – que se recuperava e voltava a produzir -, a economia continuava a crescer.

Os anos 1920 foram de euforia econômica. A agricultura norte-americana era a mais mecanizada do planeta, e as indústrias produziam bens em quantidades astronômicas. Parecia que todo mundo, do milionário ao humilde operário,  se tornaria um consumidor voraz. A claasse média, felicíssima por poder comprar tanta coisa, também investia suas economias na Bolsa de Valores. Todo mundo achava que iria ficar cada vez mais rico. Foi quando chegou a crise. Porque existia o outro lado da realidade, que não tinha a cor do ouro, mas da lama e do sangue.

Por trás dessa abundância de mercadorias havia o trabalho de milhões de assalariados que as produziam.A industrialização dos EUA tinha sido tão brutal quanto a européia. Em 1910, por exemplo, havia 2 milhões de crianças trabalhando nas fábricas. A abundante produção agrícola fazia os alimentos ficarem baratos no mercado, permitindo que os patrões pagassem salários baixíssimos. A distribuição de renda era péssima: os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres mais pobres.As famílias mais ricas, juntas, recebiam mais do que 60% do povo norte-americano. Os subúrbios operários das grandes cidades eram entulhados de cortiços, isto é, apartamentos aos pedaços, sujos, sem iluminação, infestados de ratos, escadas sebentas, janelas quebradas, banheiro único no final do corredor, duas ou três famílias amontoadas num quarto-e-sala. Também havia favelas horrorosas, com criancinhas nuas pegando vermes nos esgotos. Em suma, dezenas de milhões de pessoas estavam muito distantes dos sonhos de consumo. Elas eram operárias e produziam aquelas maravilhosas mercadorias, mas não tinham dinheiro para comprar muita coisa. Apenas sobreviviam.

Nos anos 1920, os empresários norte-americanos introduziram duas novas técnicas científicas que permitiam aumentar espetacularmente a produtividade do trabalho: o taylorismo e o fordismo.

O fordismo foi criado por Henry Ford em sua fábrica de automóveis. Cada operário passava a fazer um único tipo de tarefa dentro de uma seqüência na linha de montagem. A esteira rolante trazia o objeto sobre o qual ele iria trabalhar. Por exemplo, ele encaixava uma peça. Em seguida, a esteira deslizava e trazia outra peça igual. A tarefa era repetida milhares de vezes por dia. A esteira prosseguia e o operário seguinte fazia a sua parte, repetida monotonamente. Outra idéia de Ford era o pagamento de pequenos prêmios para os operários que produzissem além do limite.

O taylorismo era o estudo dos movimentos no trabalho As máquinas passaram a ser projetadas para evitar gestos “supérfluos” e aproveitar ao máximo a energia do corpo de operário. Equipadas com contadores, elas mediam a produtividade do operário.

As duas técnicas possibilitaram aumentar a produção sem precisar aumentar demais o salários. Muitos lucros para o patrão, enquanto os operários se tornavam apêndices da máquina. Afirmava-se a sociedade do trabalho: em viva trabalhar, trabalhar, trabalhar, para sobreviver, pan ganhar um pouco mais e consumir, e então estava pronto para trabalhar, trabalhar, trabalhar, incessantemente.

É claro que, desde o início, os trabalhadores foram à lua por seus direitos. A formação dos sindicatos e as greves eram reprimidas com violência pela polícia. Em Chicago, em maio de 1886, a polícia fuzilou uma multidão em passeata. Por incrível que pareça, os operários que lideravam o movimento foram considerados culpados. Morreram enforcados. A  partir daí, o Primeiro de Maio passou a ser lembrado como o Dia Internacional de Luta da Classe Operária.

Os grandes jornais apoiavam linchamentos de grevistas. O Congresso aprovou a Lei Sherman (1890), proibia associações que perturbassem o livre mercado. Em princípio essa lei serviria para combater os cartéis formados por grandes monopólios. Na prática, era utilizada contra os-sindicatos! O livre mercado não poderia ser perturbado meia dúzia de milhões de trabalhadores que se recusavam morrer de fome…

Anarquistas, socialistas e comunistas faziam agitação i meio operário e sindical, o que preocupava as autoridades. Em 1927, dois operários anarquistas, Sacco e Vanzetti. injustamente acusados de assassinato. O julgamento revelou uma aberração jurídica e provocou protestos mundiais. No final, o governo norte-americano, queria intimidar o movimento operário, executou os dois revolucionários na cadeira elétrica.

O processo de crise

A crise começou em 1929 e foi piorando nos anos seguintes. Por isso se fala dos anos seguidos da Grande Depressão (econômica). Nunca o mundo capitalista tinha sofrido uma crise assim. Mais de cem mil empresas faliram nos EUA. Um milhão de fazendeiros tiveram que vender seus bens. A produção industrial caiu em 50%. Quem mais sofreu com a foram os trabalhadores. Em 1933, um terço dos americanos não tinha emprego fero. Como a economia já vivia um nível alto de globalização, a crise começou nos EUA e se espalhou por todo o mundo.

O crack (quebradeira) da Bolsa de Nova York não foi a causa da crise, mas a conseqüência imediata. Nos anos 1920, a euforia econômica tinha feito subir o valor das ações na Bolsa de Valores. Ações são pedaços da propriedade da empresa. Se você tem 20% das ações de uma empresa, então você é dono de um quinto desta empresa e portanto tem direito a um quinto do lucro (ou dos prejuízos). Se uma empresa começa a dar muitos lucros, sobe o valor das ações dela. É óbvio: se você quiser ser sócio de uma empresa muito bem-sucedida, então vai ter que desembolsar mais para adquirir as ações dela. Nos anos 1920, o valor das ações subiu mais ainda porque as pessoas especulavam que haveria maiores lucros ainda em breve futuro. Portanto, as negociações eram baseadas em apostas, em avaliações exageradas, em vagos indícios. As especulações fizeram o valor das ações ultrapassar a realidade terrestre. E quando o sonho acabou, veio o pesadelo real. Quando veio a notícia que havia algumas empresas em dificuldades, porque não conseguiam vender o que esperavam, porque não tinham o lucro correspondente ao investimento, começou a intranqüilidade. Tinha chegado a hora de vender as ações (o ideal é comprar na baixa e vender na alta dos preços). Veio o alarme. Todos queriam vender, ninguém queria comprar. Os valores das ações despencaram.

O resultado foi a onda de falências de empresas e de bancos, os suicídios de ex-milionários, o desemprego em massa, o desespero. Ninguém entendia direito o que acontecia. O desespero tomava conta de todos.

Estranha crise. Havia as empresas instaladas e havia as pessoas dispostas a trabalhar. Mas as empresas continuavam paradas e as pessoas, desempregadas. O que tinha acontecido? Nas sociedades pré-capitalistas, as crises econômicas são causadas pela escassez. De repente, a sociedade não é capaz de produzir alimentos para todos e daí vem a fome generalizada. No capitalismo, que liberou forças produtivas fantásticas, as crises acontecem por causa do excesso, a abundância é que gera a miséria. Havia milhões de pessoas pobres e outro tanto que recebia apenas o suficiente para repor as energias e continuar trabalhando na linha de montagem. Em certo momento, explodiu a superprodução de mercadorias.

Acompanhemos a lógica do sistema. Os empresários precisam lucrar para não ir à falência. Na selva da competição capitalista, é preciso aumentar a produção sem parar e, se possível, abaixar os salários. O mercado é incontrolável, e cada um age por si, para maximizar seus lucros. Assim, a economia crescia mas a capacidade de consumo da sociedade não se desenvolvia com a mesma velocidade. A renda se concentrara nas mãos de parte da classe média alta e dos ricos, e os trabalhadores pobres não tinham dinheiro para comprar o que eles mesmos produziam. Até que estourou a superprodução: o país tinha produzido muito mais do que o mercado consumidor podia adquirir. Atenção: superprodução não significa que todo mundo já tem tudo. mas que as mercadorias encalham por falta de capacidade de consumo da sociedade. Como ninguém compra, é preciso diminuir ou parar a produção Diminuindo a produção, é necessário mandar gente embora. Vem o aumento do desemprego. Desempregados têm menos poder de compra. O que significa mais crise ainda. Um círculo infernal. A contradição beirava o absurdo: havia fome porque havia comida demais, havia pessoas esfarrapadas porque havia roupas demais, havia desemprego porque havia empresas demais.

Uma busca de saída: o New Deal

Franklin Delano Roosevelt

Franklin Delano Roosevelt

Em 1932, um novo presidente, Franklin D. Roosevelt, assumiu o poder. Ele botou em prática o plano econômico de recuperação chamado New Deal. A principal característica era o fim do liberalismo econômico. O Estado passou a intervir diretamente na economia para evitar as crises. Essas práticas seriam justificadas pelas idéias do economista inglês John M. Keynes (1883-1946) e por isso mesmo chamadas de keynesianas.

John Maynard Keynes

John Maynard Keynes

O Estado passou a lazer obras públicas como hidrelétricas, estradas, reflorestamento, aeroportos. Isso gerava novos empregos e encomendas para a indústria particular, e ao mesmo tempo não estimulava a superprodução (você já ouviu falar de superprodução de praças ou de pontes?) O governo contraiu uma dívida alta para poder financiar o programa de obras públicas. Esperava-se que a economia iria se recuperar e então o volume de dinheiro arrecadado com os impostos cresceria e seria o suficiente para pagar as dívidas do governo.

Além disso, o governo passou a fiscalizar a Bolsa de Valores e os bancos, para tentar diminuir a especulação financeira. O remédio mais amargo contra a superprodução foi aplicado quando o governo dos EUA passou a comprar toneladas de alimentos para incendiá-los. Os agricultores eram pagos para não produzir! Toneladas de leite foram jogadas nos rios. Enquanto isso, milhões de desempregados faziam marchas de fome, engrossavam as filas para receber a caneca de sopa rala doada pelas associações de caridade. E por que não davam comida para os pobres? Porque isso teria reduzido mais ainda o mercado consumidor, e não há capitalismo que resista a uma crise no mercado.

Exatamente para tentar ampliar o mercado consumidor, o governo de Roosevelt adotou medidas de proteção social como a construção de casas populares e a aprovação,pelo Congresso, de leis de proteção social (salário mínimo, seguro-desemprego, previdência, etc.). Para que você tenha uma idéia,a aposentadoria dos idosos existia na Alemanha desde 1891, mas nos EUA a primeira lei a respeito só foi aprovada em 1935! Apesar disso, os empresários e políticos conservadores não queriam as leis sociais. Diziam que elas atrapalhariam a livre empresa, a base da liberdade americana. Chegaram a acusar Roosevelt de ser aliado dos comunistas, quando na verdade Roosevelt se esforçava para tirar o capitalismo do fundo do buraco!

De qualquer modo, o New Deal conseguiu evitar que a crise fosse mais violenta ainda. As receitas econômicas keynesianas (intervenção do Estado para evitar especulação, obras públicas e até criação de empresas estatais, aumento da dívida pública e dos impostos, leis de proteção social) foram seguidas por todos os países do mundo, com exceção da URSS (veja o quadro abaixo), e até hoje são a base da política econômica de muitas nações. No Brasil, especialmente a partir da Ditadura do Estado Novo (1937-1945) de Getulio Vargas, o Estado se tornou motor do desenvolvimento da economia e da indústria.

Entretanto, o que realmente acabou com a crise que começou em 1929 foi um fenômeno especial. Uma indústria única, numa circunstância bem particular que gera uma demanda (procura) quase inesgotável. Que indústria era essa? A de armas. Qual a circunstância? A guerra. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) pode ter matado muita gente e destruído muita coisa, mas foi maravilhosa para a economia capitalista. A destruição acabou com a superprodução, os milhões de mortes acabaram com o desemprego de maneira direta. Em termos humanos, a guerra seria desastrosa, em números frios da contabilidade das empresas, excelente negócio. A humanidade é que deve decidir miai dos valores é o mais importante.

Leia também: Pior que 1929?

Confira o vídeo:

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Os Cavaleiros Templários

outubro 2, 2008
Soldados de Deus? 

 

Soldados de Deus?

Muitos são os enigmas que envolvem a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Ainda hoje em dia, quase tudo o que se sabe sobre esses guerreiros monásticos se perde em um confuso emaranhado de lendas e suposições.

Mais conhecidos como Cavaleiros Templários, durante muito tempo eles foram vistos como homens de fé e coragem, que arriscavam a vida para proteger os cristãos na Terra Santa. Mas essa não foi a única imagem que deixaram: em sua trajetória, chegaram a ser apontados como negociantes oportunistas que negavam a moral cristã e estavam interessados apenas em consolidar seu poderio na Europa Medieval e, ainda, como sábios do ocultismo, iniciados nos princípios da alquimia e em milenares conhecimentos esotéricos.

Enquanto os estudiosos não encontram respostas definitivas, o acirrado debate sobre o verdadeiro propósito da Ordem do Templo desafia os séculos, ao lado de outras questões intrigantes, como a hipótese de que a reunião dos antigos cavaleiros teria se transformado em uma sociedade secreta e a suspeita de que ela guardaria tesouros de valor incalculável – como o Santo Graal (o cálice que recolheu o sangue de Jesus) ou a Arca Perdida (com, os mandamentos ditados por Deus a Moisés).

Cavaleiro templário

Cavaleiro templário

A Ordem dos Templários, que se tornou uma das mais poderosas e controversas organizações da história, foi fundada em 1119, quando nove cavaleiros franceses, entre eles Hugo de Payns e André de Montbard, anunciaram ao Rei Balduíno l de Jerusalém a intenção de criar uma ordem de monges guerreiros para escoltar e defender os peregrinos cristãos que viajavam a Terra Santa. Estávamos no tempo das Cruzadas, em que os cristãos tinham não apenas conquistado importantes cidades sagradas, como Jerusalém, Trípoli e Antioquia, mas também promovido uma verdadeira carnificina, matando milhares de seguidores de Maomé (chamados também de sarracenos, islâmicos, mouros ou muçulmanos), sem poupar nem mesmo mulheres e crianças. Em busca de vingança, agora era a vez de os sarracenos atacarem os cristãos, assaltando ou matando os peregrinos que se propunham a se aventurar nas estradas que levavam aos lugares santos. Nascia, assim, a justificativa ideal para a criação de uma ordem militar da Igreja Católica, que prometia se entregar de corpo e alma na luta contra os infiéis.

Tão logo a Ordem do Templo foi criada, instaurou-se a polêmica a seu respeito. Sendo a primeira organização militar da história da Igreja Católica, esbarrava em uma complicada contradição: como conciliar o derramamento de sangue com os ensinamentos de amor e não-violêneia de Jesus Cristo? A resposta estava na devoção religiosa. Ao entrar para a ordem, os cavaleiros faziam votos de castidade, obediência e pobreza, jurando abandonar as tentações do mundo em nome de uma verdade espiritual. Movidos pelo idealismo cristão, eles não tinham outro motivo para lutar senão combater as forcas do mal. Em uma época carente de heróis e imersa em conflitos políticos e religiosos, não demorou muito para que esses mordes guerreiros passassem a ser vistos como cavaleiros honrados e destemidos, dispostos a tudo para proteger sua fé.

Ao mesmo tempo em que tornavam suas vitórias e seu idealismo conhecidos, os templários passaram a receber um grande número de doações em dinheiro, terras ou propriedades. Em sua maior parte, as ofertas vinham de nobres e soberanos que, guiados pelo misticismo da época, acreditavam que com esse ato expiariam seus pecados e ganhariam a salvação no Reino dos Céus. Logo, castelos, terrenos, moinhos, aldeias e outros bens faziam parte da Ordem. Com isenção de impostos, os templários sabiam como fazê-los render: as terras e propriedades eram arrendadas e geravam ainda mais dinheiro. Perto do ano 1300, a Ordem dos Templários havia se transformado em uma das maiores redes de influência da Europa, algo como uma multinacional medieval, que envolvia bancos, transportadoras e uma série de outros serviços ligados à administração, finanças e comércio.

Enquanto o sucesso financeiro dos cavaleiros aumentava dia a dia, o mesmo não se podia dizer a respeito das suas ações militares, que cada vez amargavam mais derrotas contra o exército dos muçulmanos. Com a reputação abalada, os templários lutavam para se reerguer quando caíram nas garras do poderoso Rei Felipe, o Belo, da França, que decidiu se apoderar da fortuna da Ordem. Aliado ao papa Clemente V, o soberano tramou uma conspiração para acusar os cavaleiros de hereges, assassinos e adoradores do Diabo. Ao final de um processo cheio de irregularidades, os membros da Ordem foram queimados vivos em praça pública, e seus bens confiscados pelo rei francês. Jacques De Molay, o último grão-mestre dos templários, foi um dos quase 500 guerreiros levados à fogueira em Paris. Acabava, com ele, todo o esplendor e glória da linhagem original dos cavaleiros templários.

Cruz e espada

Cruz e espada

Entre os muitos símbolos dos cavaleiros templários, a cruz vermelha aplicada sobre um esvoaçante manto branco se tornou o mais conhecido. Concedida à Ordem em 1148, pelo papa Eugênio III, a cruz devia ser colocada sempre acima do coração e, segundo alguns historiadores, seus quatro lados iguais representavam o equilíbrio perfeito entre a realidade material e espiritual.

O manto branco, por sua vez, simbolizava pureza e castidade, assim como uma pesada pele de carneiro que os cavaleiros eram obrigados a usar sob as roupas. Se um templário perdesse uma dessas vestes sagradas, imediatamente recebia uma rígida punição, que poderia chegar até a autoflagelação. Além da cruz e do manto, um dos mais famosos símbolos dos monges guerreiros era o emblema da Ordem, que trazia o desenho de um cavalo com dois cavaleiros, representando a irmandade e a humildade.

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Os imperadores de Roma – Parte 1

outubro 2, 2008

OTÁVIO

Otávio Augusto, o primeiro.

Gaius Octavianus nasceu em 23 de setembro de 63 a.C., filho do pretor Gaiuus Octavius e de Átia, sobrinha de Júlio César. Aos 18 anos, acompanhou César na campanha contra os filhos de Pompeu na Espanha. Em seu posto como comandante da 10a Cavalaria, o jovem teve papel decisivo na vitória, o que lhe valeu a atenção do tio-avô. Na volta para Roma, César ensinou-lhe os caminhos da política e do populismo. Em pouco tempo, Otávio foi enviado à Macedônia para continuar seus estudos. César adotou oficialmente o jovem e ambos iriam partir em campanha contra o Império Persa. Mesmo nunca tendo ocupado nenhum cargo público e ainda com menos de 20 anos, Otávio já tinha assegurado a segunda maior posição em Roma.

Com a morte de Júlio César em março de 44 a.C, Otávio voltou da Macedônia para garantir sua herança: três quartos das posses de César. Mas haveria mais, caso ele conseguisse a simpatia do povo e das legiões. O processo de aproximação ao poder foi tenso, com Marco António tentando ignorar a presença de Otávio em Roma. A partir de abril, Otávio passou a usar o nome Gaius Julius Caesar. No mesmo ano, ele ainda descobriu que sua amada, Livia Drusilla, havia se casado com Tiberius Nero, com quem teria um filho, Tiberius.

O Senado pendeu para o lado de Otávio, acreditando que o jovem seria facilmente manipulado. Para os senadores, o verdadeiro perigo para a República era Marco António e, embora ele e Lepidus estivessem reunindo legiões na Espanha enquanto Agrippa e Maecenas, amigos de Otávio, reuniam tropas na Macedônia, a guerra não era de interesse de ninguém.

O Segundo Triunvirato dividiu os territórios romanos entre Otávio, Marco António e Lepidus, dando aos três o status de ditadores e poder para sobrepujar o Senado a qualquer momento. Como prova de poder, o trio promoveu um expurgo, votando pela volta das temidas proscrições, assinando a sentença de morte de 300 senadores e milhares de outros cidadãos por motivos que iam de oposição política a simples confisco das posses dos condenados. O golpe final foi a morte de Brutus e Cassius, assassinos de César, nas batalhas de Philipi. A derrota deles foi o último suspiro da República Romana.

Em Roma, Lepidus usou seu cargo como Pontifex Maximus para declarar Júlio César um deus, o que levou Otávio a se auto-intitular “O Filho de Deus”. Os ânimos entre Marco António e Otávio eram apaziguados por Lepidus. Mesmo em meio a disputas entre os membros do Triunvirato e elementos externos, como Sextus Rompeu, e a preparação da campanha contra os persas, a reputação de Otávio era cada vez maior. Seu primeiro golpe contra o Triunvirato foi no elo mais fraco. Após a vitória sobre as forças navais de Sextus e a tomada da Sicília, Lepidus tentou assimilar as forças vencidas. Para Otávio, essa foi a deixa para destituí-lo do poder e tomar suas 18 legiões.

Na Roma Antiga, o termo latino Pontifex Maximus (“Sumo Pontífice”) designava o sumo sacerdote do colégio dos Pontífices, a mais alta dignidade na religião romana. Até 254 a.C., quando um plebeu foi designado para o cargo, somente patrícios podiam ocupá-lo. De início um posto religioso durante a República, foi gradualmente politizado até ser incorporado pelo imperador, a partir de César Augusto.

Cônsul (do latim consule) era o magistrado supremo na república romana. Na república romana, em número de dois, os cônsules eram os mais importantes magistrados; comandavam o exército, convocavam o Senado, presidiam os cultos públicos e, em épocas de “calamidade pública” (derrotas militares, revoltas dos plebeus ou catástrofes), indicavam o ditador que seria referendado pelo Senado e teria poderes absolutos por seis meses.Durante o Império Romano, o consulado, despido de poderes reais, tornou-se uma magistratura puramente honorífica e que exigia gastos enormes na realização de jogos, mas ainda abria caminho para certos cargos efetivos, como o exercício de certos governos provinciais (proconsulado). Com a divisão do Império, os cônsules (que continuavam a dar nome ao ano), passaram a ser cada um escolhido por um dos imperadores (o do Ocidente e do Oriente), até que Justiniano aboliu a magistratura em 541 da era cristã.  

Pax Romana, expressão latina para “a paz romana”, é o longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180.

Em 36 a.C., vários fatores levavam a uma iminente guerra entre Marco António e Otávio. O primeiro, ainda casado com a irmã do segundo, teve um filho com Cleópatra e passou a dominar o leste romano. A idéia era colocar os herdeiros no poder, mas Otávio consolidou sua popularidade no resto dos territórios, criando uma imagem anti-romana de Marco Antônio.

Sabiamente, Otávio declarou guerra a Cleópatra, esperando que António fosse ao auxílio da amada. Ao mesmo tempo em que a guerra se anunciava e os exércitos se posicionavam, Otávio atrasava seu início manobrando a armada naval e ganhando mais apoio do Senado. Encurralado, Marco António tentou furar o bloqueio marítimo, mas foi derrotado sumariamente na Batalha de Actium. Em terra, seus exércitos se renderam. Após 20 anos de guerra civil, Otávio, finalmente, era o único soberano político de Roma.

Cleópatra VII Thea Filopator (Alexandria, Dezembro de 70 a.C. ou Janeiro de 69 a.C. – 12 de Agosto? de 30 a.C.) foi a última farani (feminino de faraó) e rainha da dinastia ptolomaica (oriunda da Macedônia) que dominou o Egito após os gregos terem invadido aquele país. Era filha de Ptolomeu XII e de mãe desconhecida. O nome Cleópatra é grego e significa “Glória do pai”; o seu nome completo, “Cleópatra Thea Filopator” significa “A Deusa Cleópatra, Amada de Seu Pai”. É uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade e um dos governantes mais famosos do Antigo Egipto, sendo conhecida apenas por Cleópatra, ainda que tivessem existido outras Cleópatras a precedê-la, que permanecem desconhecidas do grande público. Nunca foi a detentora única do poder no seu país – de fato co-governou sempre com um homem ao seu lado: o seu pai, o seu irmão (com quem casaria mais tarde por sugestão de Júlio César, então seu amante) e, depois, com o seu filho. Contudo, em todos estes casos, os seus companheiros eram apenas reis titularmente, mantendo ela a autoridade de fato.

Otávio percebeu que a República Romana estava no fim, mas não se deixou levar imediatamente pelas honrarias da vitória. Em um trabalho contínuo de reconstrução e confiança, serviu como cônsul de 31 a 23 a.C. No campo militar, os laços de lealdade foram reformados, com o Estado mantendo 28 legiões próprias. Em 27 a.C., ele usou uma estratégia inédita. Declarando estar disposto a se aposentar da vida pública, o povo e o Senado em coro pediram que ele reconsiderasse. Sua saída poderia causar sérios distúrbios e guerras civis. Com isso, novos poderes e um outro título foram concedidos: Augustus. Otávio passou a ser chamado de Imperator Caesar Augustus. É bom lembrar que o título “Imperator” não é o mesmo que “Imperador”. O primeiro era um título mais similar a “Comandante”. Outras honrarias sucederam-se, como Princeps, que o colocava acima de todos os cidadãos romanos e, com a morte de Lepidus, Pontifex Maximus. O poder de Augustus era supremo, com direito a veto em qualquer matéria. Em 2 a.C., Augustus também foi nomeado Pater Patríae, o Pai da Pátria, como César.

Augustus promoveu a duradoura Pax Romana por meio de um misto de prudência e audácia. O exército não era mais de propriedade privada ou sujeito a reveses políticos. O sistema tributário foi reajustado e Roma foi praticamente reformada. As artes foram privilegiadas, a moral foi resgatada e a tranqüilidade civil restaurada. O casamento de Augustus com Lívia durou 52 anos e seu sucessor seria Tiberius. Ele regeu Roma e o Império por mais de 40 anos e, apesar de alguns tropeços econômicos, elevou a prosperidade e manteve a paz como nenhum outro antes ou depois dele.

Augustus e Lívia não tiveram filhos. Do primeiro casamento, ela trouxe Tibério, que foi adotado por Augustus. O rapaz, então, unia duas das mais tradicionais famílias patrícias: Júlia e Cláudia. Os sucessores imediatos de Tibério teriam o nome dos dois clãs, com Calígula (37-41) e Nero (54-68), filhos do primeiro casamento de Julia Caesaris com Nero Claudius Drusus, irmão de Tibério; e Claudius (41-54), filho de Octavia, irmã de Augustus. A dinastia Júlio-claudiana regeu o Império Romano de 27 a.C. a 68.

A DINASTIA JÚLIO-CLAUDIANA

TIBÉRIO (14-37)

Tibério, o perturbado.

Tibério, o perturbado.

Tiberius Claudius Nero nasceu em 16 de novembro de 42 a.C., filho de Tibério Nero e Livia Drusilla. De família tradicional e rica, o futuro de Tibério já estava aliado à vida pública. Quando o garoto tinha apenas 3 anos, sua mãe divorciou-se e casou-se com Augustus, uma paixão antiga. Tibério foi adotado e tornou-se herdeiro do Império Romano. Desde cedo; Augustus impeliu o jovem a posicionamentos e cargos públicos de importância, como na Batalha de Actium, na campanha contra os persas; o questorado aos 17 anos; e o consulado 5 anos antes da idade permitida.

Ao retornar do Oriente, foi eleito cônsul, em 13 a.C. e casou-se com Vipsania Agrippina, filha de Marcus Vipsanius Agrippa, aliado de longa data de Augustus. O casamento, assim como o de sua mãe com Augustus, era baseado em afeto e não só em interesses futuros. Mas, quando Marcus Agrippa morreu, em 12 a.C., Tibério foi obrigado por Augustus a tomar a viúva Julia Caesaris como esposa, em uma união sem amor. As campanhas de Tibério ao lado de seu irmão Nero Claudius Drusus nos Alpes foram bem-sucedidas. Entre 12 e 6 a.C., Tibério comandou as forças de expansão, principalmente na Germânia. Apesar de vitoriosas, as campanhas dele tinham um ranso de tristeza.

Os eventos levavam Tibério cada vez mais ao centro do poder. Se antes da morte de Agrippa, o jovem já era cotado como sucessor de Augustus, naquele momento, casado com Julia, a sucessão era certa. Para surpresa geral, Tibério retirou-se para a ilha de Rodes em 6 a.C., quase como um auto-exílio. Essa atitude colocou-o em desgraça perante Augustus, que, após isso, nunca mais teve o mesmo carinho pelo enteado. É possível que Tibério só tenha escapado de uma execução sumária por conta de sua mãe. Mesmo aceitando-o novamente em Roma, Augustus não planejava mais que Tibério fosse seu sucessor, confiando muito mais nos filhos de Agrippa, Lucius e Gaius Caesar. Mas Lucius morreu em Massilia e, logo em seguida, Gaius Caesar foi ferido mortalmente em combate. Tibério voltou a ser o único nome disponível, mas Augustus não queria dar chance ao destino e adotou também Postumus Agrippa, o último filho de Agrippa, e forçou Tibério a adotar Germanicus. Assim, o Principado estaria assegurado e, talvez, novas tragédias não destruíssem toda a linha sucessória de Augustus.

Por dez anos, Tibério foi o braço direito de Augustus. A morte do soberano em 19 de agosto do ano 14 não foi surpresa e a posse de Tibério, apenas uma conseqüência prevista. O engajamento do novo governante de Roma não podia ser mais insólito. Sendo esta a primeira sucessão após a queda da República, ninguém parecia ter muita certeza de como proceder. Tibério atendeu às solenidades de deificação de Augustus e outras, onde o Senado lhe ofereceu as honrarias devidas a um sucessor de Augustus. Não se sabe se Tibério tentou imitar o padrasto, mas o fato é que o novo soberano refutou algumas das honrarias, como a Pater Patriae e as responsabilidades do principado.

O Senado, sem saber como proceder, tentou contornar a situação enquanto em outros rincões, como as legiões em Pannonia e Germânia, levantavam-se revoltas. Tibério enviou seus dois filhos, Drusus e Germanicus, para resolver os problemas. As legiões pediam a queda de Tibério e a posse de Germanicus, que precisou de muita dissuasão política para contornar a situação. Em um plano mais geral, os primeiros anos de Tibério como regente foram pacíficos. O novo imperador seguiu os passos de Augustus, assegurando os poderes de Roma, expandindo o Império e atendendo aos desígnios do povo e do Senado. Para a população, Germanicus era o melhor sucessor possível, e Tibério parecia concordar, dando glórias e novos postos de comando para o sobrinho em detrimento do filho, Drusus. Mesmo com o apoio explícito a Germanicus, Tibério foi acusado da morte do jovem. Porém, os fatos nunca foram provados.

A partir daí, Tibério desenvolveu uma paranóia constante que o levou à reclusão. Em muito, o mentor desse afastamento foi Lucius Aelius Sejanus, chefe da Guarda Pretoriana, que alimentou Tibério com teorias conspiratórias cada vez mais complexas. É provável que Sejanus tenha planejado a morte de Drusus em 23 e que isso tenha sido o começo do fim da linhagem Júlio-claudiana. O soberano, bastante manipulado por Sejanus, permitiu que o amigo ganhasse cada vez mais terreno na política.

Tibério, que nunca havia demonstrado sede pelo poder, preferiu retirar-se da vida pública em 26, isolando-se na Ilha de Capri e deixando o posto temporariamente nas mãos gananciosas de Sejanus. Enquanto isso, Agrippina, viúva de Germanicus e neta de Augustus, tentava fortalecer seus filhos (Calígula, Nero e Drusus) como sucessores e fazer frente ao usurpador Sejanus.

A ausência de Tibério quase determinou o fim da linhagem Júlio-claudiana. Drusus, Agrippina e Nero Caesar morreram coagidos ao suicídio ou de fome, exilados. Sejanus controlava o acesso do Senado a Tibério em Capri, onde o jovem Calígula lhe fazia companhia. Tibério promovia uma caça às bruxas por toda a cidade de Roma, compelido apenas pelas acusações de Sejanus. O poder de Sejanus e sua manipulação política quase fizeram Tibério nomeá-lo tribuno e co-imperador, mas Antonia Minor, a cunhada viúva de Tibério, despertou o Imperador sonolento em 31, com uma carta denunciando Sejanus. O impostor foi executado antes do final daquele ano. Um expurgo seguiu-se, amplificado pela paranóia de Tibério.

Nos anos finais do reinado de Tibério, foram eliminados vários traidores, fossem eles culpados ou não. Tibério nunca mais pisaria em Roma nos últimos 23 anos de regência e muitos de seus atos seriam descritos depois por historiadores como pífios. Ultimamente, Tibério tem sido resgatado como um regente satisfatório que deu prosseguimento aos desígnios de Augustus, entre eles a não-expansão e a continuidade da Pax Romana. Ele deixou clara sua vontade de que o Império fosse regido em conjunto por seu sobrinho Calígula e seu neto Gemellus.

CALÍGULA (37-41)

Caligula, o depravado

Calígula, o depravado

Nascido em 31 de agosto de 12, Gaius Julius Caesar Germanicus, ou Calígula, representou o ápice do desleixo com o Império Romano. Enquanto para Augustus era importante manter uma ilusão de que a República ainda tinha certo poder, Tíbério, ao deixar Sejanus subir tanto, foi obrigado a mostrar que seu posto era absoluto para abafar as conspirações.

Outro ponto negativo de Tibério, que despontou explicitamente em Calígula, foi a falta de preparo dos sucessores. O principado, cuidadosamente elaborado por Augustus, preparando os próximos soberanos de Roma, foi relegado ao segundo plano na regência de Tibério, trazendo péssimas conseqüências futuras. A falta de habilidade para governar ficou evidente já nos primeiros anos de Calígula como regente. Ainda garoto, era chamado de “botinhas” pelos legionários acampados na Germânia, que o tinham como mascote. O apelido vinha de seu costume de andar fantasiado de legionário desde criança. Calígula, em latim, significa “pequenas botas do soldado”.

Os curtos quatro anos de Calígula no poder foram documentados e mostram, principalmente, caprichos e sandices que o fizeram conhecido como um completo déspota. Cruel e indigno de confiança, colocou Roma em um período de promiscuidade e desmando, mantendo casos amorosos com suas próprias irmãs e deixando as legiões romanas em maus lençóis. Em uma invasão à Bretanha, mudou de idéia na última hora e ordenou que seus legionários “atacassem o mar” e colhessem conchas nas praias da França. As conchas foram levadas para Roma como saques de guerra.

Após a morte de Tibério, Calígula começou a praticar cada vez mais loucuras. Um de seus primeiros atos foi ordenar a morte do primo Tibério Gemellus, seu co-regente. Aos olhos do público, Calígula era um bom imperador, cancelando os exílios e processos de traição instaurados por seu avô, ajudando endividados pelas taxas e sendo um sucessor direto de Augustus e Julius Caesar, filho do bem-amado Germanicus.

As fontes históricas divergem sobre os motivos da loucura de Calígula, colocando em pauta um sem-número de incongruências autocráticas promovidas por ele. A mais conhecida talvez seja a idéia de fazer seu cavalo um membro do Senado e, depois, cônsul. Assim como Tibério, as fontes históricas são escassas, e todas são unânimes em evidenciar a inteligência ímpar do jovem imperador. Para historiadores modernos, Calígula pode não ter enlouquecido, mas perdido o controle sobre seus atos de forma sarcástica. Como um jovem com todo o poder disponível em suas mãos. Talvez tenha deixado seu bom humor reger, clamando para que as classes abaixo dele percebessem a insensatez de depositar tanto poder em apenas uma pessoa.

Os atos incontroláveis dele revelaram a verdade que ainda estava escondida sob o reinado de Tibério: Augusto havia instaurado uma monarquia autocrática, em que o soberano do Império tinha plenos poderes. Para a aristocracia, esse tipo de atitude era imperdoável e extremamente perigosa. A única forma de parar os abusos de um imperador romano seria seu assassinato, coisa que se tornaria praxe depois de Calígula. A vida pregressa de Calígula pode tê-lo ensinado a ver além dos padrões normais, e não foi por acaso que ele foi o único da linhagem a sobreviver. Por isso, sua visão para conspirações era um misto de paranóia e esperteza. O comandante das legiões na Germânia, Gnaeus Lentulus Gaetilicus foi descoberto quando ainda esboçava um motim das legiões contra o imperador. Até então, ninguém sabia ao certo porque o governante fez questão de se deslocar pessoalmente para o norte.

Calígula morreu aos 28 anos, assassinado por Cassius Chaerea, um antigo oficial que servira Germanicus. As razões são obscuras, mas parecem puramente pessoais. A esposa Caesonia e a filha Julia Drusilla também foram assassinadas. Ainda há suspeitas de que Cláudio, o sucessor, tenha desempenhado algum papel na morte do sobrinho. Fato é que Chaerea era oficial da Guarda Pretoriana e que Claudius foi nomeado imperador pela própria Guarda.

CLÁUDIO (41-54)

Cláudio, o "deformado"

Cláudio, o deformado

Nascido Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus, Cláudio mudou seu nome para Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus quando assumiu o posto de quarto imperador de Roma. Era um figura ímpar. Gago e coxo desde a infância, a família tentava ao máximo deixá-lo à margem da vida pública. Mas ele foi alçado ao posto de cônsul por Calígula em 37, talvez em mais um sinal de deboche ao Império.

A reclusão favoreceu o lado intelectual de Cláudio, que se tornou um grande historiador. Escreveu 43 livros sobre o Império Romano, 20 sobre o Império Etrusco e outros 8 sobre os cartagineses. O valor real desse esforço nunca poderá ser medido, pois as obras foram perdidas. A falta de sucessores e o torvelinho em que se encontrava a nobreza romana à época levaram Cláudio ao poder. Com a morte de Calígula, assassinado por um membro da Guarda Pretoriana, o Senado ficou de mãos atadas quando a própria Guarda proclamou Cláudio imperador. Essa entrada, por assim dizer, forcada, fez com que o novo imperador não fosse visto com bons olhos por todos.

Esperava-se uma performance pífia e bondosa de Cláudio, mas sua passagem pelo poder teve grandes vitórias. A mais expressiva foi a tomada final da Bretanha em 47, após décadas de combate, domínio romano na ilha duraria mais 350 anos. Cláudio foi o primeiro imperador romano a receber o título de Caesar. Como o título “Imperador” é uma invenção prática de tempos mais contemporâneos, até a ocasião o soberano de Roma era chamado pelo nome ou por um de seus títulos (Pater Patríae, por exemplo). César transformou-se em um título pelo qual os mais altos comandantes da nação romana passaram a ser chamados desde então. Cláudio morreu naturalmente aos 64 anos.

NERO (54-69)

Nero, o louco

Nero, o louco

Lucius Domitius Ahenobarbus nasceu em 15 de dezembro de 37, filho de Agrippina, a Jovem, irmã de Calígula, e Gnaeus Domitius Ahenobarbus. Agrippina casaria-se depois com seu tio Cláudio. Adotando o nome de Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus e mais conhecido como Nero, foi o último membro da dinastia Júlio-claudiana. Sua subida ao poder foi uma sucessão de desencontros e mortes prematuras. Quando nasceu, seu tio Calígula regia o Império aos 25 anos e não se esperava que o jovem regente morresse tão cedo, uma vez que seus antecessores haviam chegado perto dos 80 anos.

Segundo historiadores, como Suetonius e Tacitus, as relações íntimas entre Calígula e suas irmãs Drusilla, Agrippina e Julia Livilla, assegurariam a sucessão de seus próprios filhos. Os outros concorrentes ao posto de Augusto eram seus tios por parte de mãe. Com Calígula morrendo sem deixar filhos e expurgando suas irmãs traidoras e outros próximos ao trono, o caminho para Lucius estava aberto. Cláudio trouxe Agrippina e Livilla de volta do exílio, casou-se com a primeira e adotou Lucius sob o nome de Nero Claudius Caesar Drusus.

Aos 17 anos, com a morte de Cláudio, Nero tornou-se o mais jovem imperador de Roma. Os primeiros anos de regência foram expressivos, com o rapaz tendo ao seu lado a mãe e os dois tutores, Sêneca e Burrus. Mas problemas pessoais acabaram por influenciar nos negócios de Estado. Sexo, violência e conspirações seguiram-se. Britannicus foi envenenado, Agrippina foi assassinada, Poppaea tornou-se uma amante influente e Tigellinus voltou do exílio para ser o braço direito de Nero. Sem herdeiros, Nero teve de armar uma fraude para divorciar-se de Octavía e assumir o filho de Poppaea. Em julho de 64, com sua reputação em frangalhos, Nero foi acusado pelo incêndio que consumiu Roma em uma semana.

No ano seguinte, uma conspiração armada por velhos amigos, entre eles o próprio Sêneca, foi descoberta e os envolvidos obrigados a cometer suicídio. Outras execuções sumárias seguiram-se, contribuindo para o dissabor do povo, dos militares e dos senadores. A cada ano, a situação de Nero tornava-se menos sustentável, até que revoltas e motins em territórios, como o Egito, levaram o Senado a depor Nero, que cometeu suicídio em 9 de junho de 68. A balbúrdia iniciada por Nero e a falta de sucessores levaram Roma a outra guerra civil, quando em um período de menos de um ano sucederam-se quatro imperadores.

CRISE: QUATRO IMPERADORES EM UM ANO!

O novo sistema de governo romano já demonstrava sinais de fragilidade desde a subida de Tibério ao poder. A negligência com o Principado e outros preparativos para a sucessão apenas aceleraram o fim da dinastia Júlio-claudiana e, em 68, com o suicídio de Nero, seguiu-se uma guerra civil. A transição da dinastia anterior para a Flaviana foi confusa e teve 3 imperadores nesse hiato, até a posse de Vespasiano. Entre junho de 68 e dezembro de 69, Roma viu três imperadores ambiciosos subirem ao poder para serem depostos ou assassinados logo em seguida. Galba, Otho e Vitellius tentaram assumir o posto máximo, mas o futuro estava nas mãos dos bondosos imperadores flavianos.

Galba, um imperador breve e instável

Galba, um imperador breve e instável

Os reais problemas começaram enquanto Nero ainda estava vivo. Suas atitudes favoreceram a ambição de Caius Julius Vindex a liderar uma rebelião para colocar o governador da Hispânia Tarraconensis, Servius Sulpicius Galba, no lugar de Nero. Embora tropas fiéis a Nero na Germânia tenham enfrentado, vencido e matado Vindex, o destino do imperador déspota já estava selado pelo Senado. Caiba foi aclamado imperador. O revés colocou em cheque os comandos dos territórios germânicos que, de uma hora para outra, tornaram-se traidores. Rufus, o comandante da legião germânica, foi retirado do cargo. A situação na Germânia tornou-se insustentável em pouco tempo e mesmo o novo governador Aulus Vitellius, aliado de Galba, não pôde conter a rebelião na Batávia.

Vitélio, derrotado por uma conspiração

Vitélio, autoritarismo derrotado

Em Roma, Galba provou sertão instável emocionalmente quanto Nero. Seus primeiros atos como soberano foram contra várias benfeitorias anteriores. Promessas não-cumpridas e extorsões rapidamente fizeram de Caiba um imperador malvisto. A rebelião das legiões germânicas culminou na aclamação de Vitellius como imperador. Quando os rumores chegaram a Roma, Galba saiu em desespero pelas ruas convocando a população para ficar a seu lado. O erro foi ter iniciado precipitadamente sua linha sucessória nomeando Lucius Calpu Piso Licianus. Com isso, Marcus Salvius Otho aliou-se à Guarda Pretoriana. Galba foi assassinado no Fórum e, no mesmo dia Otho foi proclamado imperador pelos senadores.

Otho, um reinado curto até o suicidio

Otho, um reinado curto até o suicídio

Pouco mais de três meses depois, Otho cometeu suicídio. Seu reinado foi curto porque Vitellius e as legiões da Germânia se dirigiam para Roma. Não eram apenas legiões romanas, mas as melhores e mais respeitadas de todas, com bastante poder político desde os tempos de Tibério. O máximo que Otho pôde fazer foi oferecer-se como pai adotivo de Vitellius. Otho não teve escolha a não ser acabar com a própria vida e deixar o caminho livre p novo imperador.

Em pouquíssimo tempo, Vitellius mostrou-se um completo déspota. Esbanjando as riquezas de Roma com banquetes e comemorações em sua própria homenagem, passou a perseguir qualquer um que cobrasse as despesas e, com as finanças em crise e o juízo claramente afetado, ordenou a morte de credores, de rivais potenciais ao trono e até mesmo de pessoas que haviam colocado o nome do imperador em seus testamentos.

Com tanto desmando em um tempo de delicado equilíbrio político, não demorou para que revoltas se consumassem, principalmente na Judéia, onde Vespasiano foi declarado imperador pelas legiões do Oriente Médio. As legiões do Danúbio tomaram o partido de Vespasiano e marcharam em direção à Itália, cercando a cidade. Vespasiano tomou a Síria e trouxe o Egito para o seu lado. Vitellius foi assassinado e Vespasiano nomeado imperador pelo Senado no dia seguinte, 21 de dezembro de 69.

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A Revolução Russa

outubro 2, 2008

 

O czar Nicolau II

O czar Nicolau II

A Rússia consolidou-se como Estado no final do século XVI, com Ivan IV, o Terrível, que adotou o título de czar. Com ele teve início o absolutismo e a expansão territorial do país. Essa expansão se prolongou até o final do século XIX, quando a Rússia se transformou em uma das maiores nações do planeta, com mais de 22 milhões de quilômetros quadrados. Por volta de 1914, sua população chegava a 174 milhões de pessoas. Apesar desses números, até o começo do século XX a economia russa continuava predominantemente rural. Enquanto a Inglaterra e outros países europeus contavam com sólidos parques industriais e encontravam-se em plena Segunda Revolução Industrial, a Rússia dispunha de poucos centros fabris. Ali, os operários trabalhavam em ambientes insalubres, com salários extremamente baixos e enfrentavam jornadas de até catorze horas diárias. No campo, a situação era ainda pior: 85% da população total do país era constituída por camponeses pobres. A maioria deles vivia sob o regime feudal de servidão. A abolição do regime servil, em 1861, não contribuiu para melhorar sua situação, pois eles continuaram a viver sob o jugo dos grandes proprietários rurais.

Politicamente vigorava no país uma espécie de monarquia absolutista – o czarismo -, que reprimia qualquer manifestação contrária ao governo. Ai forças que davam sustentação política ao czar eram formadas pelos donos de terras (nobreza), pelos militares e pela Igreja ortodoxa. A repressão e o autoritarismo provocaram o surgimento de grupos clandestinos de oposição, defensores de mudanças econômicas, sociais e políticas. Entre esses grupos destacavam-se os anarquistas, os narodniks (populistas) e os socialistas. Tanto os anarquistas quanto um setor dos populistas preconizavam o emprego de ações terroristas contra membros do governo. Em uma dessas ações, foi morto o czar Alexandre II (1818-1881).

Atrasada em relação à Europa ocidental, a Rússia só começou a se industrializar no final do século XIX. Dois fatores foram decisivos nesse processo: a ação do governo, que investiu sobretudo na construção de ferrovias; e a intervenção do capital estrangeiro, por meio de empréstimos e investimentos diretos. Além desses fatores, a produção industrial foi favorecida pelo baixo custo da mão-de-obra, formada por trabalhadores de origem rural, recém-chegados às grandes cidades. Outra característica da industrialização russa foi sua concentração em três pontos do território: Moscou, a capital São Petersburgo e a região do rio Don. Nesses lugares formaram-se grandes unidades industriais – como a usina siderúrgica Putilov, em São Petersburgo, por exemplo -, que reuniam milhares de operários. Assim, no começo do século XX a Rússia era um país camponês com algumas ilhas de alta concentração industrial.

Lênin

Lênin

O crescimento industrial refletiu no desenvolvimento das cidades: entre a década de 1860 e 1914, a população urbana passou de 6 milhões para quase 19 milhões de pessoas. Pressionados pelas péssimas condições de vida e de trabalho, os operários russos começaram a se organizar em associações. Em 1898, intelectuais e ativistas da classe trabalhadora formaram o Partido Operário Social-Democrata Russo, POSDR, grupo clandestino de orientação marxista. Em 1903 o POSDR se dividiu em duas tendências. Uma delas era a dos bolcheviques. Liderada por Lenin (pseudônimo de Vladimir Ilitch Ulianov), essa facção propunha a formação de uma aliança operário-camponesa para lutar pelo poder, como primeiro passo para se chegar ao socialismo, o que, segundo Lenin, só seria possível por meio de uma revolução. A outra tendência era a dos mencheviques. Mais moderados do que os bolcheviques, eles argumentavam que era preciso apoiar a burguesia, pois esta deveria liderar a luta contra o czarismo em uma revolução democrática. Só então se poderia organizar a classe operária para a revolução socialista. 

Trotsky

Trotsky

Em 1905 a Rússia foi derrotada na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) pela posse da Manchúria e da Coréia. A derrota contribuiu para aumentar a insatisfação que se tornava cada vez maior em todo o país. Em janeiro de 1905, ainda durante o conflito, cerca de 200 mil pessoas, lideradas pelo padre Georg Gapon, saíram às ruas de São Petersburgo, capital do país, em manifestação pacífica por uma Assembléia Constituinte e por melhores condições de vida e de salário. Forças do governo dispararam contra a multidão, matando cerca de mil pessoas. Conhecido como domingo sangrento, o massacre repercutiu em toda a Rússia, levando à radicalização dos protestos. Greves, saques e manifestações eclodiram por toda parte. No mar Negro, os marinheiros do encouraçado Potenkim se sublevaram. Em outubro, uma greve geral paralisou o país. Nas grandes cidades foram criados sovietes, conselhos formados por representantes dos trabalhadores para tomar decisões políticas na luta contra o czarismo. O soviete mais importante era o da capital São Petersburgo, presidido por Lev Davidovich Bronstein, conhecido como Leon Trotski. Encurralado pela revolução, o czar Nicolau II cedeu a algumas das exigências dos revolucionários. Assim, legalizou os partidos políticos e concedeu poderes legislativos à Duma, uma espécie de Parlamento. Ao mesmo tempo, no entanto, reprimiu duramente os sovietes e o movimento grevista. Trotski e outros líderes foram presos.

Manifestação na cidade de Petrogrado

Manifestação na cidade de Petrogrado

O governo russo entrou na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com um exército numeroso (mobilizou cerca de 15 milhões de soldados durante o conflito), mas despreparado: muitas vezes, seus combatentes iam para a frente de batalha desprovidos de botas e fuzis. Milhares de soldados morreram ou desertaram. A guerra desorganizou completamente a economia do país: houve fome, desemprego, inflação. No dia 27 de fevereiro de 1917 (12 de março no calendário ocidental) a população de São Petersburgo e de outras cidades se revoltou. O czar foi obrigado a abdicar e o poder passou para as mãos de um governo provisório eleito pela Duma e composto de liberais e mencheviques. Ao mesmo tempo, operários, camponeses, soldados e marinheiros organizaram sovietes por todo o país. Os novos governantes aboliram a censura à imprensa, legalizaram os partidos e libertaram os presos políticos. Os exilados puderam retornar, enquanto o czar e sua família eram presos. Mas o país continuou envolvido na guerra, e a principal reivindicação dos camponeses – a reforma agrária – não foi atendida.

Em abril de 1917, depois de voltar da Suíça, onde se encontrava exilado, Lenin lançou violentos ataques contra o governo provisório, proclamando os lemas “Paz, pão e terra” e “Todo o poder aos sovietes!”. Enquanto isso, Trotski, que também havia retornado do exterior, era eleito presidente do soviete de Petrogrado (novo nome da capital, a antiga São Petersburgo), o mais importante da Rússia, e aderia ao Partido Bolchevique. Com sua política de “Paz, pão e terra”, os bolcheviques conquistaram rapidamente a liderança da maioria dos sovietes e, na noite de 24 para 25 de outubro de 1917 (6 para 7 de novembro no calendário ocidental), derrubaram o governo provisório por meio de uma insurreição organizada e dirigida por Trotski.

Ato politico de rua durante a Revolução

Ato político de rua durante a Revolução

Com a Revolução de Outubro, a Presidência do pais foi entregue a Lenin, que proclamou a formação da República Soviética Russa. O novo governo estatizou fábricas, estradas de ferro e bancos e confiscou os bens da Igreja. As grandes propriedades foram expropriadas e distribuídas aos camponeses. No plano externo, russos e alemães assinaram um acordo de paz em separado, o Tratado de Brest-Litovsky (1918). Em seguida, porém, o país mergulhou em uma sangrenta guerra civil que colocou em confronto o Exército Vermelho, organizado e comandado por Trotski, e o Exército Branco, mobilizado pelas antigas classes dominantes (senhores de terras, grandes empresários, generais do exército czarista) e apoiado pelas potências ocidentais. Durante a guerra civil, que seria vencida pelo Exército Vermelho, Lenin adotou medidas de centralização do poder em torno do Partido Bolchevique, agora chamado de Partido Comunista. Assim, foi implantada uma rígida disciplina nas fábricas, cujos cargos principais foram ocupados por burocratas do governo; a imprensa passou a ser controlada, os partidos políticos foram postos na ilegalidade e a própria liberdade de discussão no interior do Partido Comunista foi restringida. Muitos opositores do novo regime foram presos. 

Stalin

Stalin

O czar Nicolau II e sua família foram executados. Conforme o Partido Comunista, único autorizado a funcionar, passava a controlar todas as esferas da sociedade, os sovietes deixaram de ser um espaço para a discussão democrática e transformaram-se em meros executores das ordens do Partido. Em 1922 Lenin sofreu um ataque cardíaco e afastou-se pouco a pouco do poder, até morrer, em 1924. O secretário-geral do Partido Comunista, Josef Stalin, passou a disputar com Leon Trotski a liderança da União Soviética. Os dois tinham opiniões antagônicas a respeito dos caminhos da revolução. Para Trotski, a revolução socialista deveria ser difundida para outros países como forma de garantir a sobrevivência do socialismo na União Soviética. Já Stalin acreditava que a revolução deveria ser consolidada primeiro no próprio país (teoria do Socialismo em um só país). Trotski também criticava a burocratização do Estado, a extinção da vida democrática no interior dos sovietes e o excesso de poder concentrado nas mãos de Stalin. Stalin tinha a seu serviço a burocracia do Estado e do Partido.

Vencedor da disputa com Trotski, passou a dominar o país com mão-de-ferro, levando ao extremo as tendências autoritárias já reveladas na época de Lenin. Seu governo deu grande impulso à industrialização por meio de planos quinqüenais. Ao mesmo tempo, estabeleceu um regime totalitário e passou a eliminar todos os seus adversários, que eram presos ou executados.

Bandeira comunista soviética

Trotski foi expulso da União Soviética em 1929 e obrigado a exilar-se no México, onde morreu assassinado a mando de Stalin em 1940. Todos os outros líderes da Revolução de Outubro, à exceção de Lenin e de Sverdlov, que morreram de morte natural, foram presos e executados em processos sumários. Sob o governo de Stalin, a União Soviética isolou-se do resto do mundo e se transformou em uma potência mundial. No entanto, o projeto da formação de uma sociedade igualitária, um dos ideais dos primeiros marxistas, foi abortado. Em lugar do socialismo, surgiu uma sociedade burocratizada, controlada por uma elite de funcionários privilegiados – a burocracia soviética -, enquanto a massa da população vivia em condições precárias e se via excluída dos órgãos de decisão. No topo dessa sociedade estava o Partido Comunista, que controlava integralmente todos os órgãos do Estado. O chefe desse partido, Stalin, era considerado infalível e seus opositores invariavelmente reprimidos.

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A Primeira Guerra Mundial

outubro 2, 2008

Europa antes da guerra

Europa antes da guerra

 

A guerra travada entre a França e a Prússia em 1870 foi o último grande conflito verificado na Europa no século XIX. A partir de então, o continente europeu atravessou um período de quase meio século de relativa paz. Nesse período, a partilha da Ásia e da África e o acelerado processo de industrialização das nações européias estabeleceram um novo equilíbrio de forças na Europa. Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, Império Austro-Húngaro e Itália projetaram-se como as grandes potências do continente, ao passo que o outrora poderoso Império Turco-Otomano entrava em declínio. Para garantir o equilíbrio e assegurar-se de que nenhuma nação rival ameaçaria seus domínios, as potências começaram a modernizar e fortalecer seus exércitos: investiram em armas cada vez mais sofisticadas, adotaram o serviço militar obrigatório e fortificaram suas fronteiras. Fortemente armadas, essas nações evitavam guerrear entre si, preferindo resolver suas disputas por meio de acordos diplomáticos e alianças. Em 1882, por exemplo, os governos da Alemanha, do Império Austro-Húngaro e da Itália formaram a Tríplice Aliança. Em resposta, em 1907 os governos da Inglaterra, da França e da Rússia criaram a Tríplice Entente.

Guilherme II, monarca alemão

Guilherme II, monarca alemão

Embora evitassem o confronto direto, o clima de tensão entre as potências européias era muito grande. Na verdade, vigorava entre elas uma paz tensa e instável. Por isso esse período ficou conhecido como o da paz armada. O forte nacionalismo dos povos europeus – outra importante característica do período – acentuava antigos ressentimentos e instigava a rivalidade entre as nações. Os franceses, por exemplo, não se conformavam com o fato de terem perdido a Alsácia e a Lorena para os alemães no fim da Guerra Franco-Prussiana (1870) e nutriam desejo de vingança. Os alemães, por sua vez, alimentavam o desejo de ampliar seu império colonial. Por terem chegado tarde à corrida imperialista – já que a unificação do país só ocorrera em 1871 -, eles se sentiam insatisfeitos com o que lhes coubera na partilha da África e da Ásia. Tão ressentidos quanto eles encontravam-se os italianos, cujo país também se unificara tardiamente e que pouco havia obtido na divisão imperialista do mundo.

Francisco Ferdinando, arquiduque austro-húngaro

Francisco Ferdinando, arquiduque austro-húngaro

Nos Bálcãs viviam povos de diversas etnias e culturas, como gregos, eslavos, sérvios, croatas, turcos, búlgaros, etc. Esses povos estavam sob o domínio do Império Turco-Otomano desde tempos remotos. Animados por fortes sentimentos nacionalistas, no século XIX eles passaram a se mobilizar contra o jugo turco-otomano. Os primeiros a se emancipar foram os gregos, cuja independência foi conquistada em 1821; em 1878, contando com o apoio dos russos, que buscavam aumentar sua influência nos Bálcãs, Sérvia, Montenegro e Romênia também obtiveram a autonomia, enquanto a Bósnia-Herzegovina era colocada sob a tutela do Império Austro-Húngaro. Em 1908 a Bósnia-Herzegovina foi formalmente anexada ao Império Austro-Húngaro. A medida reacendeu o nacionalismo dos povos da península. Os sérvios -interessados no território – foram os principais opositores da anexação. As rivalidades explodiram no dia 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, em visita à cidade de Sarajevo, na Bósnia, foram assassinados por um estudante bósnio simpatizante da Sérvia. 

George V, monarca britânico

George V, monarca britânico

O atentado seria o estopim da Primeira Guerra Mundial. No dia 28 de julho o governo do Império Austro-Húngaro, contando com o apoio do governo alemão, seu parceiro na Tríplice Aliança, declarou guerra à Sérvia, acusando suas autoridades de conivência com o assassino do arquiduque. Os russos, aliados dos sérvios, colocaram suas tropas de sobreaviso. Fiéis à sua aliança com o governo da Áustria, os alemães declararam guerra aos russos e franceses, que integravam a Tríplice Entente juntamente com os ingleses. No dia 4 de agosto, o governo da Inglaterra juntou-se a seus parceiros da Entente e entrou no conflito contra austro-húngaros e alemães. Em pouco tempo, outros povos, como os japoneses, interessados nas possessões alemãs do Pacífico, e os turco-otomanos, adversários dos russos, também entraram no conflito: os primeiros ao lado da Tríplice Entente; os segundos, em a poio às potências centrais (isto é, Alemanha e Áustria). O governo italiano, cujo país fazia parte da Tríplice Aliança, preferiu manter neutralidade até 1915, quando entrou na guerra ao lado da França, Inglaterra e Rússia. 

Georges Clemenceau, presidente da França

Georges Clemenceau, presidente da França

Inicialmente, os líderes europeus acreditavam que a guerra não duraria muito tempo. O conflito, porém, revelou-se muito mais difícil e demorado do que eles imaginavam: durou quatro anos, envolveu muitas nações e foi de uma brutalidade sem precedentes. Todos os avanços tecnológicos da indústria bélica foram utilizados no conflito. Outros equipamentos sofisticados foram desenvolvidos no próprio curso da guerra. Pela primeira vez na História, utilizaram-se armas químicas, submarinos e lança-chamas, além de armamentos mais antigos, como morteiros, granadas, canhões e metralhadoras. Até mesmo aviões foram empregados para bombardear tropas em terra. As rivalidades entre as nações foram acirradas pelas campanhas publicitárias, muitas delas enganosas, criadas nos dois lados do front. Cartazes e pôsteres procuravam retratar o inimigo como “selvagem” ou “bárbaro” e estimular o nacionalismo da população. Nos primeiros meses, o conflito caracterizou-se pela chamada guerra de movimento: as tropas procuravam se mobilizar rapidamente em campo aberto, com o propósito de conquistar territórios. A tática, porém, revelou-se infrutífera: os avanços territoriais eram pequenos e o número de baixas, muito grande.

vitima de gás tóxico

Arma química: vítima de gás tóxico

Woodrow Wilson, Presidente dos EUA

Woodrow Wilson, Presidente dos EUA

Diante do equilíbrio de forças, os chefes militares passaram a adotar uma nova tática: a guerra deposições ou de trincheiras. Nessa forma de combate, utilizada durante quase todo o conflito, eram abertas no terreno valas estreitas, profundas e de grande extensão, protegidas por rolos de arame farpado – as trincheiras. Ali, os combatentes mantinham fogo permanente contra o inimigo e se defrontavam com novas adversidades: lama, frio, ratos, doenças. No período final da guerra, dois fatos cruciais mudaram o rumo dos combates. Um deles foi a entrada dos norte-americanos no conflito, em abril de 1917, ao lado dos países da Entente, chamados genericamente de aliados. O outro ocorreu em março de 1918, quando o governo da Rússia decidiu sair da guerra. Pouco depois da entrada norte-americana, os beligerantes retomaram a guerra de movimento. Dessa vez, graças principalmente ao grande número de soldados enviados pelo governo dos Estados Unidos, os aliados tiveram êxito, obrigando seus adversários a recuar. Em 30 de outubro de 1918, o governo turco-otomano se rendeu, pouco depois, em 3 de novembro, foi a vez de o governo austro-húngaro firmar sua rendição; no dia 11 de novembro, finalmente, os alemães também se renderam, reconhecendo a derrota. 

Combatentes em uma trincheira

Combatentes em uma trincheira

A Primeira Guerra Mundial chegou ao fim depois de ter provocado a morte, segundo estimativas, de 8 milhões de pessoas e ter deixado 20 milhões de inválidos e milhões de órfãos, desempregados e desabrigados. Além disso, milhares de jovens combatentes voltaram para casa com neurose de guerra, distúrbio psíquico que provoca alucinações e pode levar à loucura. Terminados os combates, tiveram início os acordos diplomáticos para definir o novo mapa europeu e os termos da paz mundial. O mais conhecido dentre esses acordos foi o Tratado de Versalhes, firmado em junho de 1919.

uma nova máquina de guerra

Avião: uma nova máquina de guerra

Considerados em seu conjunto, os acordos de paz alteraram substancialmente a configuração geopolítica da Europa:

  •  O Império Austro-Húngaro desintegrou-se, originando três países – Áustria, Hungria e Tchecoslováquia; 
  • O Império Turco-Otomano também desapareceu, dando origem à Turquia. Seu território foi desmembrado e boa parte dele passou para o controle de franceses e ingleses; 
  • A Alemanha foi o país que mais sofreu sanções. Seu governo foi obrigado a devolver a Alsácia e a Lorena à França, suas colônias passaram a pertencer aos vencedores e suas forças armadas sofreram importantes restrições: não poderiam ultrapassar mais de 100 mil homens nem ter armamentos estratégicos, como canhões e submarinos. Além disso, o governo alemão teve de pagar uma indenização de 132 milhões de marcos; 
  • Por proposta do presidente norte-americano Woodrow Wilson, em 1920 foi criada a Liga das Nações, associação de países com sede em Genebra, na Suíça, destinada a garantir a paz e a segurança mundial; 
  • A guerra de 1914-1918 deixou a economia alemã arrasada. Já para os norte-americanos, ela trouxe vantagens econômicas importantes. Durante o período em que se mantiveram neutros, eles obtiveram lucros enormes com a venda de armas e alimentos aos governos beligerantes. Ao mesmo tempo, fizeram vultosos empréstimos aos governos da França e da Inglaterra. Dessa forma, ao terminar o conflito os Estados Unidos haviam se transformado na maior potência econômica do mundo, passando a ocupar o posto que até então pertencera à Inglaterra.
O Brasil na Primeira Guerra Mundial 
A partir de outubro de 1917, pouco mais de um ano antes do fim da guerra, o Brasil entrou no conflito, ao lado da França, da Inglaterra, dos Estados Unidos e de outras nações aliadas. Foi modesta a participação do Brasil na guerra: o patrulhamento do Atlântico Sul e o envio de um corpo médico à Europa foram as maiores contribuições brasileiras.
Europa após a guerra

Europa após a guerra

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Imperialismo e Neocolonialismo no século XIX

outubro 2, 2008

Na segunda metade do século XIX, países europeus como a Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica e Itália, eram considerados grandes potências industriais. Na América, eram os Estados Unidos quem apresentavam um grande desenvolvimento no campo industrial. Todos estes países exerceram atitudes imperialistas, pois estavam interessados em formar grandes impérios econômicos, levando suas áreas de influência para outros continentes. Com o objetivo de aumentarem sua margem de lucro e também de conseguirem um custo consideravelmente baixo, estes países se dirigiram à África, Ásia e Oceania, dominando e explorando estes povos. Não muito diferente do colonialismo dos séculos XV e XVI, que utilizou como desculpa a divulgação do cristianismo; o neocolonialismo do século XIX usou o argumento de levar o progresso da ciência e da tecnologia ao mundo. 

Na verdade, o que estes países realmente queriam era o reconhecimento industrial internacional, e, para isso, foram em busca de locais onde pudessem encontrar matérias-primas e fontes de energia. Os países escolhidos foram colonizados e seus povos desrespeitados. Um exemplo deste desrespeito foi o ponto culminante da dominação neocolonialista, quando países europeus dividiram entre si os territórios africano e asiático, sem sequer levar em conta as diferenças éticas e culturais destes povos. Devido ao fato de possuírem os mesmo interesses, os colonizadores lutavam entre si para se sobressaírem comercialmente. O governo dos Estados Unidos, que já colonizava a América Latina, ao perceber a importância de Cuba no mercado mundial, invadiu o território, que, até então, era dominado pela Espanha. Após este confronto, as tropas espanholas tiveram que ceder lugar às tropas norte-americanas. Em 1898, as tropas espanholas foram novamente vencidas pelas norte-americanas, e, desta vez, a Espanha teve que ceder as Filipinas aos Estados Unidos. Um outro ponto importante a se estudar sobre o neocolonialismo, é à entrada dos ingleses na China, ocorrida após a derrota dos chineses durante a Guerra do Ópio (1840-1842). Esta guerra foi iniciada pelos ingleses após as autoridades chinesas, que já sabiam do mal causado por esta substância, terem queimado uma embarcação inglesa repleta de ópio. Depois de ser derrotada pelas tropas britânicas, a China, foi obrigada a assinar o Tratado de Nanquim, que favorecia os ingleses em todas as clausulas. A dominação britânica foi marcante por sua crueldade e só teve fim no ano de 1949, ano da revolução comunista na China. 

Como conclusão, pode-se afirmar que os colonialistas do século XIX, só se interessavam pelo lucro que eles obtinham através do trabalho que os habitantes das colônias prestavam para eles. Eles não se importavam com as condições de trabalho e tampouco se os nativos iriam ou não sobreviver a esta forma de exploração desumana e capitalista. Foi somente no século XX que as colônias conseguiram suas independências, porém herdaram dos europeus uma série de conflitos e países marcados pela exploração, subdesenvolvimento e dificuldades políticas.

Liberalismoinspirado em alguns princípios do Iluminismo e da Revolução Francesa, era a ideologia dominante entre a burguesia industrial; opunha-se ao absolutismo monárquico e à intervenção do Estado na vida econômica; e seus seguidores lutavam pela adoção de uma Constituição que estabelecesse limites para a ação dos governantes, garantisse os direitos civis e políticos e assegurasse o respeito às liberdades individuais, juntamente com a liberdade de mercado.

Nacionalismo – forte entre os povos de mesma origem e cultura mas ainda não unificados ou sob dominação estrangeira; seus adeptos lutavam pela afirmação da idéia de nação, pela unidade política e pela independência nacional.

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Ideologias operárias no século XIX

outubro 2, 2008

 O contraste entre a miséria em que viviam os trabalhadores e a riqueza proporcionada pela produção industrial despertava revolta entre escritores, políticos e pensadores de origem burguesa. Indignados com o que viam, alguns deles propunham reformas que instaurassem a justiça social e abrissem caminho para a formação de uma sociedade mais humana e igualitária. As doutrinas e os princípios defendidos por esses reformadores constituíram uma ideologia que se tornou conhecida como socialismo. Seu ponto de partida era a crítica às desigualdades sociais criadas ou acentuadas pelo sistema capitalista. Entretanto, havia entre os socialistas muitas diferenças de opinião, o que originou vários grupos e diversas ideologias. Alguns socialistas argumentavam que só a luta político-eleitoral e parlamentar das classes trabalhadoras poderia conduzir a uma reforma da sociedade capitalista e à instauração do socialismo. Outra corrente de pensadores socialistas preocupava-se mais em idealizar um novo tipo de sociedade do que propor uma forma concreta para os trabalhadores conquistarem o poder.  Esses pensadores ficaram conhecidos depois como socialistas utópicos, expressão derivada de Utopia, título de um livro famoso que o inglês Thomas Morus escreveu no século XVI.

Charles Fourier defendia a criação dos Falantérios, comunidades autônomas que seriam também unidades produtoras administradas pelos próprios operários.

Charles Fourier defendia a criação dos Falantérios, comunidades autônomas que seriam também unidades produtoras administradas pelos próprios operários.

Claude Saint-Simon argumentava que as camadas sociais integradas pelos altos membros da burguesia eram parasitárias.

Claude Saint-Simon argumentava que as camadas sociais integradas pelos altos membros da burguesia eram parasitárias.

Os socialistas utópicos de maior destaque foram o inglês Robert Owen e os franceses Charles Fourier e Claude Saint-Simon. Owen, por exemplo, acreditava na “revolução pela razão”: para transformar o ser humano, melhorar seu destino e curar seus vícios, era necessário primeiro questionar os valores impostos pela sociedade nas áreas religiosa, econômica, moral, familiar etc. Num segundo momento, porém, defendia uma ação transformadora mais efetiva. Ele mesmo serviu de exemplo para comprovar sua teoria. Aprendiz de um fabricante de tecidos e diretor de indústria têxtil, aos 28 anos Owen comprou quatro fiações de algodão que ficavam na usina de New Lanark, perto de Glasgow Inglaterra. As fábricas empregavam 1800 operários, dos quais 450 eram crianças. O socialista, patrão esclarecido, pôs em. prática suas idéias: racionalizou a produção, aumentou os salários e a produtividade, ampliou os alojamentos dos trabalhadores e combateu, entre eles, o alcoolismo e o roubo, dedicando especial atenção à regeneração moral. Além disso, construiu escolas para os filhos dos operários e proibiu o trabalho das crianças de pouca idade nas fiações. Sua experiência foi uma das mais bem-sucedidas da época.  

Robert Owen - Filantropia e oferecimento de boas condições para operários.

Robert Owen - Filantropia e oferecimento de boas condições para operários.

As idéias socialistas, contudo, tomariam novo rumo com dois pensadores de origem germânica, que procederiam a uma crítica radical do capitalismo, procurando criar uma doutrina que fosse, ao mesmo tempo, científica e revolucionária. Esses pensadores eram Karl Marx e Friedrich Engels. Eles fundaram uma corrente de pensamento à qual deram o nome de socialismo científico ou comunismo. Em 1848, lançaram o Manifesto do Partido Comunista, que teve profundas e duradouras repercussões no movimento operário e socialista internacional. Para Marx e Engels, o capitalismo estava condenado à extinção, assim como haviam desaparecido também o feudalismo e o escravismo, e o agente dessa extinção seria o proletariado. classe oposta à burguesia. Para a vitória do proletariado, era necessário organizar os trabalhadores e promover uma insurreição armada que levasse o partido comunista ao poder e criasse um Estado que destruísse a principal estrutura da sociedade burguesa: a propriedade privada dos meios de produção. No seu lugar, seria instituída a propriedade coletiva de todos os meios de produção. Esse Estado dos trabalhadores seria o primeiro estágio sara a formação de uma sociedade sem classes e sem governo, a sociedade comunista.      

Friedrich Engels e Karl Marx - Referências do Socialismo Cientifico e autores do "Manifesto Comunista".

Friedrich Engels e Karl Marx - Referências do Socialismo Científico e autores do

anarquismo radical e ações violentas

Bakunin: anarquismo radical e ações violentas

Outra corrente ideológica importante entre os operários do século XIX foi o anarquismo, que lutava por um tipo de sociedade sem Estado e sem propriedade privada. Os mais importantes teóricos anarquistas foram os russos Mikhail Bakunin e Peter Kropotkin. Bakunin era partidário da violência revolucionária e aconselhava seus adeptos a recorrerem até aos atentados individuais contra a vida dos governantes, enquanto Kropotkin recomendava a utilização de métodos mais pacíficos. Tanto os anarquistas quanto os marxistas lutavam por uma sociedade sem classes e sem Estado. Mas havia profundas divergências entre eles. Os partidários de Marx sustentam que para se chegar ao comunismo era necessário criar primeiro um Estado que esmagasse as resistências burguesas instaurasse a igualdade entre as classes.

russo de origem nobre, era defensor do anarquismo e da classe operária

Kropotkin: russo de origem nobre, era defensor do anarquismo e da classe operária

A forma de governo desse Estado seria a ditadura do proletariado. Já os anarquistas, conhecidos também como libertários, opunham-se a todo tipo de governo, inclusive à ditadura do proletariado, preconizando a liberdade geral e a supressão imediata do Estado. Uma variante expressiva do anarquismo foi o anarco-sindicalismo, que defendia a união entre as idéias libertárias e o movimento sindical. Essa tendência foi particularmente forte na Espanha. No Brasil, o movimento operário do começo do século XX seria liderado majoritariamente por adeptos do anarco-sindicalismo.