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O mistério de Atlântida

outubro 30, 2008

 

Atlantis ou Atlântida numa criação artistica

Atlantis ou Atlântida numa criação artística

As histórias sobre a Atlântida se multiplicaram ao longo dos séculos e impulsionaram historiadores e arqueólogos à procura de respostas a um dos mais antigos mistérios da humanidade. Ninguém até hoje, porém, conseguiu uma prova irrefutável para as dezenas de teorias sobre o continente perdido. Revirando as profundezas oceânicas, em busca de uma cidade submersa, exploradores de todo o mundo descobriram apenas pistas ou novas perspectivas desse fascinante enigma ainda não resolvido.

Platão

Platão

“Eu ouvi meu avô contar essa história, a qual ouvira de Sólon, o célebre filósofo”, disse Crítias nos diálogos de Timeu, escritos por Platão. Pois foi exatamente um dos mais influentes filósofos gregos, Platão (427-347 a.C.), que teria obtido, em uma visita ao Egito, o conhecimento sobre a existência e a destruição de Atlântida, ocorrida mais de 9 mil anos antes de seu tempo, e reproduzido a história nos diálogos de Timeu e Crítias. “Há um manuscrito com o relato de uma guerra lavrada entre atenienses e uma poderosa nação que habitava uma ilha de grandes dimensões situada no oceano Atlântico. Nas proximidades dela, existiam outras e, mais além, no extremo do oceano, um grande continente. A ilha chamava-se Posseidonis ou Atlantis e era governada pelos reis aos quais também pertenciam as ilhas próximas, assim como a Líbia e os países que cercam o mar Tirreno”, contam os sacerdotes egípcios ao filósofo Sólon no diálogo de Timeu.

“É questionável o fato de Sólon ter retornado à Grécia e transmitido lá o que ouviu dos sacerdotes. Ele teria ficado no Egito”, afirma o professor de História Antiga e Línguas Clássicas da Universidade Federal Fluminense, (UFF) Marcos Caldas. “Provavelmente, a história de Atlântida foi levada à Grécia por comerciantes de vasos que trabalhavam no porto de Naucratis no delta do Nilo”, diz. Segundo a narrativa de Platão, os atlantes invadiram a Europa pela cidade de Atenas que, por sua grandeza, venceu os inimigos e salvou a Grécia da opressão. Mas, o infortúnio dos atlantes não terminaria com essa derrota. Uma tragédia encomendada pelos deuses extinguiria essa civilização com elevados padrões culturais e artísticos.

O castigo de Atlântida

No início dos tempos, os deuses dividiram a Terra entre eles, conforme o nível hierárquico de cada um. Ao deus Posseidon coube Atlântida. No meio da ilha havia uma montanha, talvez um vulcão, onde moravam os humanos Evenor, sua mulher Leucipa e sua filha Clito. Após a morte de seus pais, Clito uniu-se a Posseidon e tiveram cinco pares de meninos. Atlas, o mais velho, governou os outros nove. “O termo Atlântida, ao contrário do que se pensa, é derivado do nome Atlas e significa ‘que pertence ao Atlas’, e não uma referência ao oceano Atlântico”, explica o professor Marcos Caldas.

Posseidon

Posseidon

Assim, Posseidon dividiu Atlântida em zonas concêntricas de terra e água: – duas de terra e três de água cercando a ilha central, a qual era irrigada por uma fonte de água quente e outra de água fria. Com recursos naturais aparentemente inesgotáveis, os atlantes domesticaram animais selvagens, mineraram metais preciosos e destilaram perfumes. Também ergueram palácios, templos, canais e docas (parte abrigada do porto). A rede de canais unia várias partes do reino. “O continente contava com quatro aquedutos distribuídos igualmente pela ilha de forma que todas as regiões tivessem acesso às duas fontes (de água quente e fria). Era uma sociedade igualitária”, afirma Caldas. Havia lugares públicos para prática de exercícios físicos e banhos e ainda um estádio para corridas. Todas as ilhas eram cercadas por fortificações, em cujas baias aportavam os navios de todo o mundo então conhecido.

Cada rei era soberano, mas deveria respeitar um código central gravado em uma coluna de oricalco (espécie de latão com mistura de ouro e prata) pelos dez primeiros reis. A principal lei de Atlântida proibia os reis de guerrearem entre si e estabelecia o dever de se defenderem mutuamente contra qualquer ataque externo. Em tempos de crise, as decisões finais ficavam com os descendentes diretos de Atlas.

Desenvolvida e igualitária, Atlântida foi destruída em razão do orgulho de seus cidadãos engajados em atacar Atenas e o Egito. Ao constatar que os habitantes da ilha se tornaram perversos e gananciosos e que os reis desobedeceram às leis, Posseidon enviou um maremoto seguido de um terremoto a Atlântida, e o continente foi encoberto por uma enorme onda de lama. “Até hoje, ninguém sabe sobre o destino dos descendentes dos atlantes depois, pois os diálogos de Crítias estão inacabados. Provavelmente se perderam no tempo”, afirma o professor Marcos Caldas.

Relato histórico ou alegoria platônica?

O mito da Atlântida começou com Platão. Posteriormente, filósofos, historiadores e arqueólogos tentaram desvendar seu destino e significado e buscaram provas de sua existência. Cerca de cem referências à Atlântida foram encontradas na literatura clássica pós-platônica,   mas   nenhuma   delas   acrescentou   novos   aspectos   ou facetas à lenda do filósofo grego.

A narrativa de Platão parece historicamente consistente até o ponto da queda do império, em um dia e uma noite que, de acordo com os sacerdotes egípcios, ocorreu por volta de 9600 a.C. Nessa época, Atenas não existia, nem a escrita e a metalurgia ainda tinham sido inventadas. As comunidades agrícolas datam por volta de 7000 a.C., e a arquitetura descrita por Platão, incluindo pirâmides, não existia antes de 4000 a.C.

Segundo Aristóteles, discípulo de Platão, Atlântida era uma alegoria para ilustrar as teorias políticas de seu mestre. “Pode ter sido uma alegoria. No entanto, a história de Atlântida não tem nada a ver com o dualismo platônico: o mundo das idéias, perfeito, e o mundo dos homens, imperfeito, finito”, ressalta Caldas. O professor explica que talvez, por não se encaixar no modelo da alegoria platônica, o mito da Atlântida tenha gerado especulações que perduram até os dias atuais. “Em Atlântida não há dualismo, o que existe é um escapismo – o continente não é perfeito, mas é muito rico e desenvolvido; um local onde tudo poderia dar certo”.

No livro Man, Myth and Magic, Edward Bacon sustenta que a Atlântida descrita por Platão é muito semelhante às descobertas arqueológicas sobre as civilizações da alta Idade do Bronze do Egeu (3300-1200 a.C.) e Oriente Próximo, assim como os minóicos, os micênicos, os hititas, os egípcios e os babilônios. “Havia algo de errado com a data de Platão? Os sacerdotes egípcios, ou Sólon, teriam confundido 900 com 9000? Em caso afirmativo, a data do desastre teria sido 1500 a.C. em vez de 9600 a.C.” constata Bacon.

Essa suposição torna a existência da Atlântida e sua subseqüente destruição mais verossímil. Um cataclismo vulcânico ocorreu durante o império da Creta minóica por volta do século 6° a.C. A civilização minóica caiu por uma série de desastres naturais, como incêndios,     inundações e terremotos. Nessa mesma época, a ilha de Santorini, anteriormente   chamada  Thera,  no Mar  Egeu,  sofreu  uma das explosões vulcânicas mais fortes da História humana.

As evidências históricas, no entanto, não esclarecem o que teria motivado Platão a relatar um desastre natural ou o que o filósofo pretendia com a narrativa sobre uma civilização altamente desenvolvida e superior aos padrões da época. Diversas teorias tentam explicar o recado de Platão com o continente perdido. “Acredito que Platão teria descrito Atlântida como uma realidade, não como um mito. Mas é preciso considerar que seus diálogos não eram dirigidos a um público comum. Ele falava para os acadêmicos, para seus alunos, ou seja, a um público conhecedor de suas teorias”, destaca o professor Marcos Caldas, da UFF.

Também se especula que a história dos atlantes tenha sido criada para enaltecer o povo ateniense. Na época em que Platão escreveu sobre Atlântida, Atenas havia perdido a guerra contra Esparta e estava sendo invadida. “Platão pode ter construído a idéia de que os atenienses teriam derrotado uma nação poderosíssima como um consolo. Ele engrandece os inimigos, pois quanto mais forte e grandioso é o oponente, maior é a vitória sobre ele”, explica Caldas.

Sonhos de um mundo perfeito

A série de erupções em Santorini, a pequena ilha situada cerca de 120 km ao norte de Creta, ocorrida por volta de 1645 a.C., foi relacionada à destruição da avançada civilização. A violência das explosões, que teriam causado danos potenciais a quilômetros de distância de Santorini, reacenderam o debate sobre a destruição de Atlântida. Escavações na ilha, na vila Akrotiri, realizadas na década de 60, sob a direção do professor Spiridion Marinatos, demonstraram que Santorini era parte ativa e culturalmente avançada da civilização minóica – um exemplo desse avanço é o palácio de Cnossos em Creta. Marinatos levantou a hipótese de que a explosão da capital causou tamanha inundação nas costas cretenses que segmentos inteiros de seu litoral foram destruídos. Ele também concluiu que a quantidade e densidade de cinzas e pomes cuspidas pelo vulcão teriam enterrado a civilização minóica, inclusive o palácio de Cnossos, e expulsado seus habitantes.

O professor afirmou, em 1969, ser muito improvável que a erupção de Santorini tivesse deixado Creta intocada. “É impossível ignorar a potência catastrófica dos tsunamis (ondas fortes e destruidoras) que teriam atingido o litoral cretense”. Marinatos constatou ainda que, além de Creta, outros locais no Egeu oriental foram atingidos pelos tsunamis e sofreram grandes danos por volta de 1500 a.C.

Além de Santorini, expedições marinhas em Bimini, no Caribe, apontaram para uma civilização submergida. Outras evidências associadas à Atlântida também foram levantadas nas costas da Espanha e da Irlanda no Mar do Norte.

Provavelmente, as descobertas submarinas não passam de pistas, e a verdade nunca será revelada. Mas é certo que as investigações sobre o continente perdido de Platão fazem com que muitos continuem a sonhar com o paraíso de Atlântida. Talvez seja justamente isso que, após milhares de anos, mantém e renova Atlântida no imaginário humano: a permanente necessidade de crer em um mundo ideal, em um exemplo a ser seguido.

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Dilúvio – a destruição através das águas na mitologia

outubro 28, 2008

De um lado pesquisadores, do outro, religiosos – ambos empenhados em conseguir provas para demonstrar que a Bíblia não é apenas um apanhado de lendas. E foi com esse espírito que muita coisa do tempo de Jesus e da antiga Jerusalém conseguiu sair do papel e ser provada. Porém, quando as pesquisas se voltam a algum episódio do Antigo Testamento, parte da Bíblia que também remete à história dos judeus, o caminho das pedras torna-se um pouco mais difícil. Para os cientistas apenas provas materiais os convenceriam de que aquelas personagens bíblicas realmente existiram, mas para os historiadores os registros escritos já são pistas preciosas, suficientes para investigar o que aconteceu no passado remoto das civilizações antigas.

Entre as figuras bíblicas do Antigo Testamento que mais chamam a atenção dos pesquisadores históricos, duas se sobressaem: Abraão e Noé. E mesmo entre esses dois há muito mais chance de descobrirmos a verdade sobre o primeiro do que sobre o segundo. O que se sabe basicamente sobre Noé é que ele construiu uma arca e tornou-se o último dos patriarcas antes do famoso dilúvio. Mas, ao contrário do que costumamos imaginar, o dilúvio não é uma histórica tipicamente hebréia. Até hoje foram obtidas cerca de cem narrativas místicas consagradas ao evento cataclísmico, a versão do Gênesis (capítulos 6 a 9), portanto, é apenas mais uma.

De acordo com o livro Terras e Povos Desconhecidos, da Time-Life americana, as narrações do dilúvio bíblico não contêm nenhuma descrição completa. Nesse sentido, a passagem bíblica seria apenas um conto um tanto quanto confuso, complexo e heterogêneo, que traria a compilação de duas versões conhecidas, uma de origem javeísta (mais tradicional e mais antiga) e outra sacerdotal (mais acessível e recente). Para os estudiosos isso não seria de se espantar, já que os hebreus passaram um longo tempo como escravos na Babilônia. “É muito difícil você passar qualquer período de tempo em um lugar sem absorver, consciente ou inconscientemente, seus hábitos”, diz Armando Calvo Laslis, do Departamento de Estudos Históricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Se a linha de raciocínio de Laslis estiver correta, a tarefa de descobrir a primeira matriz histórica sobre esse tema torna-se mais árdua ainda, pois lendas sobre o dilúvio são encontradas na literatura e na tradição oral de povos do mundo inteiro.

Para se ter uma idéia, a catástrofe aquática tem registro entre os nativos de Gales, do Ira, da índia, da Austrália e até mesmo dos Mares do Sul. Isso sem falar das versões nórdica, lituana, inuíte, apache e indonésia – muitas origens para um mesmo      * assunto. Seria esse um indicador de que o dilúvio é muito mais do que uma lenda? Pouco se sabe sobre o mundo antes dessa catástrofe, mas o fascínio pela história encanta os arqueólogos  e  cientistas do mundo inteiro.

Noé

 Antes de seguirmos o rastro de todas essas lendas, vale relembrar a versão do dilúvio que é mais conhecida pelo mundo Ocidental, a de Noé. Pesquisadores, como o historiador Renée Noorberger, acreditam tanto  em sua veracidade que o  estabelecem como ponto de partida em busca do chamado mundo ante-diluviano (época anterior ao registro bíblico) que estaria misturado a relatos de   civilizações   perdidas, afogadas nas águas, como Atlântida e as terras de Mu e Lemúria.

A história bíblica conta que, após o estabelecimento dos patriarcas do período, o ser humano caiu em pecado. Deus então decidiu eliminar a raça humana e escolheu Noé para que salvasse não só a sua família, como também todos os animais da Terra. Então, Noé recebeu orientações para a construção de uma arca que os manteria em segurança e, assim que a embarcação ficou pronta e um casal de cada espécie animal subiu a bordo, as águas irromperam e dominaram a Terra por quarenta dias e quarenta noites. Quando finalmente a situação se acalmou, Noé conduziu sua arca para o monte Ararat e de lá recebeu novas instruções de Deus para construir uma sociedade mais justa que a anterior. Após um breve período de calmaria, os descendentes do patriarca se reuniram na Torre de Babel que depois de muito se desentenderem, espalharam-se pelos quatro cantos da Terra.

Livre adaptação

Uma prova de que o mito do dilúvio pode ter sido assimilado pelos hebreus de seus captores babilônicos é a antiga lenda de Gilgamesh. Trata-se de uma história que não deve nada aos poemas épicos de Homero e que é considerada um dos textos mais antigos já preservados. Nessa história há uma passagem que conta como um patriarca babilônico, de nome Utnapishtim, recebeu também o aviso de seus deuses sobre uma catástrofe iminente que destruiria toda a humanidade. Assim, ele construiu uma embarcação que salvou sua família, alguns animais e diversos artesãos. A tempestade durou aqui sete dias e, quando as coisas se acalmaram, o patriarca enviou três pássaros em busca de terra seca. Uma pomba, que voltou para ele; uma andorinha, que também retornou e um corvo, que não voltou, o que foi considerado um sinal de que já era seguro desembarcar.

Estudiosos britânicos e alemães, que se envolveram com escavações arqueológicas em terras turcas e nos arredores do que seria o Monte Ararat, mostraram-se intrigados com alguns restos de madeira encontrados no cume que seriam, segundo eles, da Arca de Noé. Porém as autoridades do local não cedem autorizações para estudos mais conclusivos, o que só faz aumentar a polêmica. E esses mesmos pesquisadores afirmam que a incidência em diversas culturas lenda sobre o dilúvio deve ser levada em alta consideração, pois não se trata mais de uma coincidência, já que as variações encontradas podem ter se originado de uma única fonte, ou seja, do episódio da Torre de Babel. Renée Noorbergen é um dos pesquisadores que mais defendem essa tese, principalmente depois que estudou a tradição chinesa e descobriu uma lenda que narrava os esforços de Nuwah, progenitor daquele povo que havia escapado de um dilúvio com sua mulher e filhos.

Outro acadêmico, o russo Immanuel Velikovsky, divulgou em 1955 registros de fósseis que comprovavam que a Terra já havia sofrido um cataclismo como o dilúvio, nos moldes do descrito nas lendas. Cardumes inteiros de peixes foram encontrados em amplas áreas com sinais de morte em estado de agonia. Mas, para o pesquisador, o cataclismo teria sido originado quando um cometa proveniente de Júpiter passou rente ao planeta, o que teria mexido com o eixo terrestre e provocado o transbordamento de rios, mares e oceanos, “assim não há como falar em intervenção divina”, explicou.

O mito nórdico

 Odin era filho de Bôer e da giganta Besta e neto de um homem chamado Buri, que era feito de um bloco de sal. Ele tinha dois irmãos, Vila e Vá, com os quais dava-se maravilhosamente bem e com os quais realizava as maiores aventuras possíveis. Um dia, cansados de tantas artimanhas em que estavam constantemente envolvidos, os três resolveram formar o globo terrestre e chegaram à conclusão de que tudo que necessitavam para criar o Inundo estava contido no corpo de um gigante.

Com esse objetivo, os filhos de Bôer e Besta mataram o gigante Ymer e com seu corpo formaram o globo terrestre assim: os ossos originaram as montanhas, os dentes os rochedos, o crânio a abóbada celeste. Mas ao morrer o gigante espalhou sobre a terra todo o seu sangue, que se tornou um imenso dilúvio e fez com que toda a raça dos gigantes morresse afogada, exceto Belgemer e sua mulher, que conseguiram se salvar agarrados a uma arca de pão.

Odin e seus irmãos resolveram então criar um casal humano com os troncos de um freixo e com uma faia do norte que crescia no mar Báltico, dessa forma, garantiram o repovoamento do planeta.

O mito védico

Manú, filho semi-humano dos deuses, considerado o pai da raça humana, era tão bom que o deus Vishnu o salvou do ‘dilúvio, uma catástrofe que feriu todos os semidivinos que se tornaram ruins. Manú, como agradecimento, ofereceu a Vishnu um bolo de leite coalhado, creme e manteiga depois de esse deus o haver salvo do dilúvio universal. Vishnu em retribuição fez surgir desse bolo uma mulher, bela e doce chamada Ida (ou lia). Os Acvins, elegantes cavaleiros, filhos do Sol e da Égua Saranyou, que as nuvens simbolizavam quando corriam ligeiras pelos céus, apaixonaram-se por ela e desejaram-na. Mas Ida repeliu-os violentamente exclamando: “Eu sou daquele que me criou”. Assim a criação da mulher está intimamente ligada ao dilúvio, e, o repovoamento do mundo, da união de Manú e Ida.

O mito mexicano

 Mesmo no Novo Mundo podem ser encontradas lendas que falam sobre um dilúvio, como a de Coxcox Tezpi. Tezpi era um homem muito justo e bom, temente a Deus e que via com olhos tristes a corrupção dos homens, seus irmãos. Estes puseram de lado os princípios com que tinham sido criados, que pertenciam a seus antepassados, e não queriam compartilhar os benefícios de Deus na Terra – desde as águas que refrescavam seus corpos até a companhia de seus irmãos. A ganância dos homens e a mesquinhez das mulheres eram características comuns, assim a humanidade caminhava para um fim pouco animador.

Tezpi começou a compreender que alguma coisa de anormal estava por acontecer e, temendo a justiça divina, começou a fazer uma embarcação para sua salvação. Aqui temos uma diferença: não há intervenção divina no sentido de que Tezpi tenha sido avisado da catástrofe nem que tenha tido qualquer intenção de salvar os animais. Mas escavações mexicanas recentes nos arredores da Cidade do México descobriram pinturas antigas que retratavam a cena surpreendente de uma arca flutuando sobre as águas com Tezpi, suas mulheres, filhos e alguns animais. Essas mesmas pinturas contam que, depois que as águas baixaram, Tezpi soltou um beija-flor para que fosse verificar se era seguro sair da embarcação. Assim, quando a ave retornou com um ramo verde de planta no bico, Tezpi e sua família acompanhado dos animais saíram da arca e começaram o processo de repovoamento do mundo.

O mito hindu

 Quando o deus Brama saiu de sua imobilidade para animar o universo, a princípio criou os Devas, os espíritos e os anjos que * iriam povoar o céu. Alguns deles, porém, ao chegarem lá em cima, viram lugares na Terra muito bonitos, cheios de frutos, flores, águas límpidas e lagoas. Começaram, então, a imaginar como seria viver em tais paisagens. Assim tornaram-se Rclasas, gênios malfeitores que se ocupam em perturbar os humanos. Essas entidades maldosas corromperam-se tanto que se dividiram em diversas e poderosas categorias de malfeitores. Tornaram o Mal o domínio absoluto sobre a humanidade corrompida. Brama, entretanto, era bom e ficou perturbado com o trabalho daqueles espíritos. Mas ele guardava em segredo um outro mundo, desconhecido dos demônios. O objetivo do deus era transportar os homens e os anjos do primeiro mundo para o segundo, mais perfeito. Porém não queria que o antigo mundo ficasse contaminado e assim aconteceu o dilúvio. Apenas um homem bom, chamado Waivaswata, foi prevenido da catástrofe iminente. Ele construiu um navio e juntou sua família e um casal de todos os animais disponíveis para, depois, repovoar o mundo.

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Quem foi Pedro Álvares Cabral?

outubro 27, 2008
Cabral, um ilustre desconhecido

Cabral, um ilustre desconhecido

Quem foi Pedro Álvares Cabral? Pergunte-se a qualquer escolar e a resposta virá na ponta da língua: o descobridor do Brasil. E só. Nos livros de história, o navegador português não costuma ganhar mais do que poucas linhas. Não mereceu, tampouco, ter seu nome incluído na mais fantástica celebração das conquistas marítimas portuguesas. Os Lusíadas, de Luís de Camões. Enquanto as grandes navegações do final do século XV e início do XVI transformaram Vasco da Gama, Bartolomeu Dias e Fernão de Magalhães em heróis, Cabral morreu no ostracismo. Mais de 508 anos depois de realizar seu maior feito, aos olhos do mundo o navegador continua um ilustre desconhecido. Ele empreendeu uma das mais importantes navegações portuguesas, voltou a Lisboa festejado pelo rei e subitamente desapareceu das crônicas, morrendo por volta de 1520, quase no anonimato, numa casa modesta em Santarém, ao norte de Lisboa. Na lápide tumular, nenhuma referência a qualquer de seus feitos. Depois de tanto tempo, ainda vale a pergunta: quem foi mesmo Pedro Álvares Cabral?

O jornalista gaúcho Walter Galvani que, enfim, escreveu um livro que deu contornos mais definidos ao perfil do navegador (clique AQUI e informe-se sobre o livro). Depois de cinco anos de pesquisa, lidos mais de 300 livros relacionados ao Descobrimento, ele finaliza a primeira biografia do descobridor. Foram seis meses em Portugal, conhecendo os lugares por onde Cabral passou e vasculhando velhos arquivos, como o da Torre do Tombo e o Ultramarino, os dois em Lisboa. Galvani também percorreu Espanha, Itália e França, conferindo documentos desgarrados. Com lançamento pela editora Re-cord previsto para o segundo semestre deste ano. o trabalho revela um Cabral de carne e osso, muito mais admirável e interessante do que se imaginava.

Mau humor

Durante séculos cultivou-se a idéia de Cabral como um personagem menor na história das navegações. Como compará-lo ao grande Cristóvão Colombo, ou aos heróis lusitanos? Talvez a proverbial baixa estima brasileira tenha ajudado a pregar na biografia do descobridor a pecha de burocrata bajulador, um sujeitinho que comandou a maior frota portuguesa de seu tempo sem sequer ser um navegador de verdade, apenas graças à proximidade do rei dom Manuel e demais poderosos da corte. Agora se descobre que os maiores inimigos da biografia de Cabral foram ele mesmo e uma sorte madrasta.

Dono de um caráter irascível, famoso por suas crises de mau humor (alguns estudiosos creditam-nas às febres intermitentes, provocadas pela malária contraída ainda aos 17 anos, quando lutava no Marrocos), Cabral desentendeu-se com todo mundo que importava em seu tempo. A começar pelo próprio rei, passando por aquele que se acredita ter sido o maior de todos os navegadores portugueses, Vasco da Gama. No quesito “sorte madrasta” entra a verdadeira tragédia em que se converteu sua viagem à índia, a mesma em que o Brasil foi descoberto. O navegador partiu de Lisboa com destino à Índia com treze navios e retornou com apenas seis. Os azares renderam má fama a Cabral. O resultado: logo depois de voltar de sua viagem, o navegador brigão e desafortunado partiu para um exílio voluntário em Santarém e caiu no esquecimento. Para piorar, as novas terras que ele balizara como Ilha de Vera Cruz não teriam serventia para Portugal durante várias décadas.

“Os portugueses tinham mais interesse na Ásia do que na América”, afirma o historiador José Jobson de Andrade Arruda, da Universidade de São Paulo. E aí vem, de novo, o fado cabralino: quem encontrou o caminho marítimo para a índia, de onde provinham as especiarias que rendiam lucros à coroa, foi Vasco da Gama, justamente o maior adversário do nosso descobridor.

Criados juntos na cosmopolita corte lisboeta de então, Cabral e Gama tiveram formação muito parecida. Ambos estavam animados pelo forte espírito português que se sucedeu a cinco séculos de domínio muçulmano do país. “Era natural que os dois disputassem o comando das grandes armadas”, conta Galvani. Em uma minuta de 1499, que preparava a expedição que viria a descobrir o Brasil, consta o nome do comandante-mor da frota: Vasco da Gama. Vasco da Gama? Mais tarde, esse nome seria riscado e substituído pelo de Cabral, naquele tempo conhecido g como Pedro Álvares Gouveia. Apenas ao primogênito de cada família era dada a honra de usar o sobrenome paterno S e Pedro Álvares era o segundo filho. 5 Foi só na carta que dom Manuel escreveu aos reis da Espanha, em 151 que o sobrenome “Cabral” foi associado ao descobridor do Brasil.

Desgraça

O auto-exílio de Cabral em Santarém, logo após realizar sua maior façanha, possivelmente foi produto da antiga rivalidade com Vasco da Gama. Enquanto o navegador ainda percorria águas indianas, depois de descobrir o Brasil, a corte lisboeta já organizava uma nova frota a ser comandada por Cabral. Com catorze navios, seria ainda maior do que a enviada para confirmar a existência das leiras brasileiras. Mas Vasco da Gama ficou encarregado de organizar a empreitada, desta vez destinada apenas à índia. Gama selecionou os marinheiros e escolheu os capitães de sua confiança. Ainda por cima, nomeou o irmão de sua mãe, Vicente Sodré, para comandar cinco dos navios da expedição. Sodré vigiaria a entrada do Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, vias de acesso dos árabes ao Oriente. Enquanto isso, os outros nove navios, sob o comando de Cabral, seriam abastecidos com especiarias. Mas Cabral não aceitou dividir o comando da nova expedição com o tio de Vasco da Gama. Passados quatro meses de impasse, em dezembro de 1501 a recusa oficial foi encaminhada. Nesse momento, Cabral caía em desgraça.

A explicação para a atitude suicida pode estar no relato de um dos maiores cronistas quinhentistas portugueses, João de, Barros, para quem o descobridor do Brasil era homem de “muitos primores de honra”. O significado mais forte da palavra “honra” estava associado à idéia de um sentimento de dignidade com brios. Cabral tinha motivos para não aceitar dividir o comando da expedição. Não foram pequenos os serviços prestados por ele a Portugal. Sua expedição de 1500 foi a primeira de caráter comercial a chegar à índia. Vasco da Gama chegou antes, levou a fama, mas conseguiu apenas se indispor com o governante de Calicute, a mesma cidade que Cabral canhoneou quando esteve por lá. Só quando Cabral estabeleceu a feitoria em Cochin, no sul da índia, é que a rota se tornou lucrativa.

Tais façanhas, no entanto, não comoveram o rei. Cabral mudou-se para Santarém no final de 1502 e não recebeu mais notícias da corte. No ano seguinte, compareceu a uma reunião da Ordem de Cristo, a organização religioso-militar que financiava as grandes navegações. Há quem aponte o fato como uma tentativa de reaproximação, já que dom Manuel presidia o encontro. Não surtiu efeito. Anos mais tarde, Cabral escreveu ao rei pedindo a “renovação dos privilégios de fidalgo” — em outras palavras, desejava abandonar o exílio voluntário e servir a Portugal novamente. Recebeu uma resposta encorajadora, em que o monarca dizia que a carta do navegador “lhe fez prazer”. Mas nada aconteceu.

O rei brioso

Em 1514, Afonso de Albuquerque, governador da Índia e tio de Isabel de Casco, mulher de Cabral, escreveu ao rei pedindo que ele pusesse fim ao afastamento do navegador. Teceu grandes elogios ao descobridor, a quem chamou de “mui bom fidalgo”, “merecedor de honras”, e referiu-se a “sua bondade e cavalaria”. Apesar das recomendações de um dos homens mais importantes do império português, Cabral morreria dali a alguns anos sem voltar ao mar.

Não se sabe exatamente o que fez dom Manuel abandonar um de seus mais importantes navegadores, a quem havia recebido com festejos no retorno da expedição de 1500. “Talvez o rei fosse tão brioso quanto o próprio Cabral e nunca tenha aceitado a recusa do navegador em participar da nova expedição à Índia”, acredita Galvani. A hipótese de que Cabral não passava de um nobre de poucos talentos é refutada pelos fatos. O descobridor foi apontado para comandar aquela que, até 1500, foi a maior armada já saída de Portugal. A frota que Vasco da Gama comandou até a índia, entre 1497 e 1499, não tinha mais que quatro navios. Dificilmente se colocaria tamanho aparato sob as ordens de alguém que não fosse externamente respeitado, inclusive como navegador — embora não existam provas de viagens marítimas suas anteriores ao descobrimento do Brasil. “Não se colocaria a vida de 1.500 homens nas mãos de alguém sem experiência”, acredita Galvani.

Sem título nobiliárquico, a família de Cabral tinha terras, o que significava riqueza suficiente para freqüentar a corte. Aos 10 anos, Cabral e o irmão mais velho mudaram-se para Lisboa. Lá, aprendeu a manejar armas e a montar. Estudou geometria, astronomia, geografia, aritmética e latim. Passou a adolescência e o início da vida adulta no Castelo de São Jorge, aquele de onde os turistas têm uma ampla visão de Lisboa. Isso fez com que Cabral se inscrevesse no círculo íntimo do rei, o que certamente colaborou para sua indicação como comandante da expedição à índia, Nada, porém, comprova que tenham sido essas credenciais as únicas responsáveis por sua escolha para o comando da grande armada. Os Cabral estavam muito longe em prestígio e fama, por exemplo, dos nobilíssimos Bragança, que chegariam ao trono português mais tarde.

Foi na corte que Cabral conheceu Isabel de Castro — ela, sim, pertencente a uma das famílias mais importantes de Portugal. O casamento não pode ser considerado um golpe do baú, embora fosse movido por interesses, como era comum naquele tempo. “Pelo contrário. Há registros de que o próprio Afonso de Albuquerque, tio de Isabel, se teria preocupado em aumentar o dote da sobrinha, o que tornaria o casamento ainda mais interessante para Cabral”, conta Galvani. “É uma evidência de que ele era um fidalgo respeitável.” A data provável do matrimônio é 1503. A vida do casal em Santarém limitou-se aos cuidados com as propriedades, o tempo dividido entre a casa na cidade e as quintas. Tiveram seis filhos. Cabral morreu possivelmente em 1520, aos 52 anos, talvez em conseqüência da malária contraída na África, sem que tenha realizado coisa alguma digna de registro nas últimas duas décadas de vida. Enquanto isso, seu rival Vasco da Gama recebia o título de “dom” e era consagrado “almirante”.

O descanso e o esquecimento de Cabral duraram quase três séculos e meio, quando historiadores brasileiros e portugueses começam a estudar o descobrimento. Seu túmulo, na Igreja da Graça, em Santarém, foi reaberto. Buscava-se confirmar se o corpo dele estava de feto enterrado ali. Era o início de uma viagem que parece estar finalmente chegando ao fim: o descobrimento de Pedro Álvares Cabral. Faltará apenas Camões para cantar-lhe as glórias, como fez com — sempre ele — Vasco da Gama.

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Prova de História – Vestibular UPE/2008

outubro 23, 2008

A hora está chegando… para treinar um pouco, confira a prova da UPE do ano passado.

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O tumultuado Oriente Médio

outubro 23, 2008

Acompanhar no varejo do dia-a-dia os desdobramentos dos vários conflitos simultâneos do Oriente Médio pode ser uma tarefa infrutífera do ponto de vista do aprendizado. Grupos se ramificam, interesses se sobrepõem, fronteiras tomam-se difusas, mocinhos e bandidos são papéis intercambiáveis. Quem está matando quem? E por que razão? Quem prestar atenção apenas aos últimos acontecimentos dificilmente terá a percepção do conjunto. Pelo simples motivo de que os problemas atuais se arrastam há décadas, mais precisamente desde o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Foi nessa época que uma intervenção franco-britânica selou o destino da região.

O Oriente Médio

O Oriente Médio é uma das regiões mais conflituosas do globo, aquela que há mais tempo domina os noticiários internacionais. Qual o motivo de tanto conflito? Uma das razões da tensão é capital: a intervenção franco-britânica na região após a Primeira Guerra Mundial, que selou seu destino. E nesse momento da história que devemos buscar a gênese dos conflitos e, assim, compreender a situação atual. Tentar entender as turbulências da região a partir exclusivamente dos fatos contemporâneos é tarefa inglória.

Neste espaço, vamos nos ater a um panorama genérico dos dois principais conflitos da região: a questão palestina e a guerra no Iraque.

Como os demais conflitos que ocorrem no Oriente Médio, a origem do problema palestino está no início do século XX. Em 1917, enquanto eram escritos os últimos capítulos da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra, já sabedora da herança do espólio otomano e de seu futuro domínio na região, concedeu a Palestina ao movimento sionista, na famosa Declaração Balfour.

O organizado sionismo, que contava com forte retaguarda financeira de banqueiros judeus de Londres, tratou de patrocinar a migração de milhares de judeus para a Terra Prometida, com o claro objetivo de construir ali o seu Estado. Acontece que a Palestina era habitada: árabes palestinos lá estavam havia séculos. Ou seja, a Inglaterra concedeu uma terra habitada, e que não era dela, a um povo que vivia na Europa, mas que, por razões religiosas e históricas, sonhava em construir um Estado nacional na Palestina. Eis as primeiras sementes da discórdia.

Logo começaram as tensões entre aquele judeu que chegava e a população local. A situação não tardou a sair do controle dos britânicos, que se desvencilharam do imbróglio nos anos 40, quando transferiram a questão para uma recém-criada ONU.

Na ordem que se iniciou após a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos fortalecidos e a Europa enfraquecida, a tentativa de solução ficou a cargo da ONU, que realizou, em 1947, a Partilha da Palestina, criando dois Estados: um judeu, com 14 mil quilômetros quadrados, e outro árabe, com 11 mil quilômetros quadrados.

Em maio de 1948, com a retirada das últimas tropas britânicas da Palestina, David Ben Gurion proclamou a independência de Israel. Os árabes não aceitaram aquilo que denunciavam como “um corpo estranho no mundo árabe”, e declararam guerra ao recém-criado país; seria a primeira de muitas derrotas árabes para Israel. A verdade é que os judeus eram poucos, mas fortes, enquanto os árabes eram muitos, mas frágeis e desunidos. Outras guerras viriam, e outras vitórias israelenses. A mais importante delas seria a de 1967, quando Israel não apenas venceu simultaneamente três países árabes em menos de uma semana (Egito, Síria e Jordânia), como lhes tomou territórios. Alguns deles se encontram sob seu domínio até hoje. E foi além. Conclamou judeus de todo o mundo a vir ocupar terras “disponíveis.” Iniciava-se, então, a colonização da Palestina por Israel. Os palestinos foram sendo expropriados de suas terras: primeiro, em 1948, depois, em 1967. É da indignação palestina que nasceria a violenta revolta que se estende aos dias atuais. Catalisados pela OLP (Organização pela Libertação da Palestina), surgida em 1964, nasceram movimentos que buscavam a pátria perdida, sonho ainda não realizado.

Em 1994, os acordos de Oslo (Plano de Paz) viriam criar a Autoridade Palestina (AP). O primeiro presidente da AP foi o legendário líder Yasser Arafat. Como a OLP, a Autoridade Palestina luta pela criação do Estado Palestino. No entanto, o recente acirramento da disputa entre o Al Fatah e o Hamas ameaça jogar os palestinos numa guerra civil que pode dificultar ainda mais a criação do seu Estado.

 

NO LÍBANO, HEZBOLLAH ENFRENTA ISRAEL

Em julho de 2006, uma ação do grupo xiita Hezbollah contra soldados israelenses desencadeou uma violenta reação de Israel com trágicas conseqüências para o Líbano. Sob pretexto de resgatar dois soldados seqüestrados pelo Hezbollah e eliminar a sua capacidade de lançar mísseis contra o norte do país, tropas de Israel invadiram o Líbano. Durante pouco mais de um mês aviões e tanques realizaram incontáveis bombardeios contra supostas posições militares do Hezbollah e também contra alvos civis, como o aeroporto de Beirute, edifícios, estradas, pontes e até uma base da ONU, onde quatro de seus observadores morreram.

O Hezbollah atacava lançando mísseis sobre cidades do norte de Israel, como Haifa e Nazaré, fazendo algumas vítimas civis. Nos combates no sul do Líbano o grupo conseguia impor também algumas baixas militares aos israelenses. No total, cerca de 120 israelenses morreram no conflito.

Mas o saldo da guerra refletiu a superioridade militar e a força com que Israel atacou o Líbano: mais de mil libaneses mortos, a maioria civis, muitas cidades e a infra-estrutura do país quase totalmente destruídas.

Em 14 de agosto teve início o cessar-fogo e os preparativos para a retirada das tropas israelenses, que se completaria com a chegada da missão de paz da ONU (a Força Interina das Nações Unidas no Líbano). Enquanto ambos os lados declaravam-se vitoriosos, grupos de direitos humanos e observadores das Nações Unidas denunciavam possíveis excessos cometidos por Israel contra a população do Líbano, certamente o grande perdedor.

 

Aiatolá Khomeini

Aiatolá Khomeini

Na outra ponta do Oriente Médio, um cenário não menos desolador se desenvolve no Golfo Pérsico: a guerra no Iraque. Vejamos sua trajetória. Em 1979, no mesmo ano em que ocorria a Revolução Islâmica no Irã, Saddam Hussein chegava ao poder no Iraque. Entendendo aquele movimento no país vizinho como ameaçador, pois poderia se alastrar para o Iraque, de maioria xiita, Saddam tratou logo de produzir uma guerra para, em sua perspectiva, cortar o mal pela raiz. Ele acreditava quê seria uma guerra rápida. Ledo engano/Usando o velho litígio no estuário de Chat el Arab (a foz dos rios Tigre e Eufrates) como pretexto para o ataque, em 1980 iniciava-se a longa guerra Irã-Iraque. Aquilo que parecia ser presa fácil na visão iraquiana tornou-se um verdadeiro tormento. Para equacionar sua inferioridade militar naquele momento, Khomeini, o líder iraniano, utilizou-se de um ingrediente que Saddan não esperava: a Jihad (“Guerra Santa”). A guerra prolongou-se então por oito anos, arrasando a economia e as estruturas dos dois países. 

A Revolução Islâmica é o movimento xiita que depôs o regime secular iraniano e levou ao poder o Aiatolá Khomeini. O Ira se tornaria uma República Islâmica. A Jihad é a resistência santa, recurso que os fiéis muçulmanos utilizam em tempos de guerra. Para convocar uma Jihad, é preciso ter legitimidade espiritual, coisa que o Aiatolá Khomeini, de fato, possuía.

Durante a guerra, os países do golfo torciam pelo Iraque, mas não tornavam isso claro; todos temiam a ameaça xiita. Apenas um deles ousou apoiar explicitamente o Iraque: o Kuwait, país contra o qual, em retaliação, o Irã declarou guerra. O apoio do Kuwait ao Iraque tomou forma concreta com o financiamento da compra de armas dos Estados Unidos. Pois bem, após o término da guerra, com a economia destruída, endividado e não podendo saldar sua dívida, Saddam Hussein invade justamente o pequeno vizinho, em agosto de 1990. O argumento era o de que o Kuwait seria uma unidade inventada pela Inglaterra para atender seus interesses e do imperialismo. Na visão iraquiana; o Kuwait nada mais seria que um prolongamento do Iraque, ou seja, uma de suas províncias.

A ONU deu um ultimato ao Iraque, mas Saddam Hussein se recusou a retirar suas forcas do país invadido. E tentou uma jogada: comprometeu-se a sair do Kuwait tão logo Israel se retirasse dos territórios ocupados em 1967. E agora, ONU? O Conselho de Segurança ignorou a chantagem de Saddam e tratou logo de resolver a questão. Assim, lideradas pelos Estados Unidos, tropas da ONU atacaram as forças iraquianas, libertando o Kuwait. Derrotado, o Iraque foi colocado sob embargo em 1991. A partir de então, gradativamente sua economia foi sendo estrangulada. O país debilitou-se com a generalizada queda da qualidade de vida. A maior vítima do intenso embargo foi a população civil. Já no século XXI, no mundo pós-11 de Setembro e no contexto da guerra ao terror levada a cabo pelos Estados Unidos, o regime de Saddam Hussein foi posto na mira. Acusado de apoiar o terrorismo internacional e de produzir armas de destruição em massa (nunca encontradas), o país foi atacado pela coalizão anglo-americana em 2003. Convém lembrar que os Estados Unidos decidiram atacar o Iraque sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. O regime – e o próprio Estado – foram arrasados: destruiu-se um Estado, uma nação, fazendo do “novo” Iraque um dos mais instáveis lugares do mundo. As forças de ocupação permanecem no país até hoje.

 

 

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Movimentação da Segunda Guerra Mundial em PowerPoint

outubro 22, 2008

Interessante arquivo em PowerPoint que ilustra as movimentações e posicionamentos territoriais dos blocos envolvidos nos conflitos europeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Clique AQUI para baixar o arquivo (2,6 MB), que terá sua visualização completa com os movimentos que fazem desta apresentação uma interessante e útil ferramenta didática.


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As 16 datas que mudaram o mundo: 16- O 11 DE SETEMBRO EM NOVA YORK

outubro 22, 2008

 

Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês

Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês

O antes de 11 de setembro de 2001 é para o mundo a pax americana, definida e aceita após a guerra do Golfo pelo concerto das potências que estão empenhadas em manter o mundo num estado de direito em conformidade com os direitos do homem.

O depois de 11 de setembro é o perigo que se instala no santuário americano, é a vitória do terrorismo cego no campo ocidental dos direitos do homem, é a entrada da História em uma zona de turbulência que dá de forma brutal a palavra a todos os excluídos da ordem mundial. Essa instabilidade questiona a eficácia da repressão e o retorno à ordem sob a égide do “concerto das nações”.

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Em 11 de setembro de 2001, em Nova York, aviões de linha que estão nas mãos de piratas do ar são desviados. Dois deles aparecem nos céus de Manhattan e chocam-se, como em um filme-catástrofe, contra as célebres duas torres gêmeas do World Trade Center.

São nove horas da manhã. Os empregados chegam para trabalhar. As torres logo desabam em uma nuvem de pó. Serão contados mais de 3.000 mortos, queimados, asfixiados, esmagados. Alguns se jogam pelas janelas. Os bombeiros chamados para socorrer lutam com todas as suas forças e são as vítimas heróicas da luta contra o desastre.

Quiseram atacar o coração das transações mundiais. Outro alvo simbólico, o Pentágono, o centro da defesa americana, foi também esmagado por um avião.

A CIA (Agência Central de Inteligência) não soube de nada, não antecipou nada. Como prever essa nova forma de terrorismo praticada por fanáticos suicidas? Nenhuma defesa militar é possível para um Estado. Descobriu-se, após as investigações, que os pilotos eram pessoas tranqüilas, desconhecidas dos serviços de informação, que se formaram discretamente em técnicas de pilotagem.

Passado o momento da emoção e do desespero, veio o ela patriótico. O povo norte-americano sai com bandeiras estreladas e manifesta sua solidariedade. O mundo inteiro o apóia e condena o ato. O horror do crime é forte demais.

Sabe-se que Bin Laden, um saudita bilionário, terrorista e reincidente, seria o instigador do atentado. Ele declara que esse ato de guerra é somente o começo de uma luta mortal das forças do Islã radical contra o Ocidente. Ele pretende atacar o líder da globalização imperialista e culpado de impiedade, de provocação assassina e de opressão ideológica. Inspirado por sua religião, ele é — garante em uma mensagem televisiva difundida no mundo inteiro — o executor da guerra santa. Ele matou somente os inimigos.

A reprovação da qual ele é alvo permite aos norte-americanos ativar os elementos para uma resposta, que o recém-eleito presidente republicano George W. Bush apresenta como um castigo. Uma intervenção é organizada no Afeganistão, onde os talibãs, islâmicos extremistas que estão no poder, admitiram e encorajaram a formação de campos de terroristas. Uma procura coordenada de redes com potências associadas é logo posta em andamento pelos aliados dos Estados Unidos em um clima de cruzada mundial. Tal intervenção permite ocupar o conjunto do país e erradicar o terrorismo, mesmo se Bin Landen continua foragido.

 

Primeira lição do 11 de setembro

 

A resposta norte-americana não tem mais nada a ver com a cruzada organizada anteriormente no Golfo. Um Estado agressor, o Iraque, havia atacado um emirado petroleiro utilizando toda a sua força militar. Uma cruzada internacional apoiada pela ONU foi reunida pelos Estados Unidos, principal força interventora, para fazer com que o Estado culpado devolvesse o que havia tomado e sobre o qual sabia-se que constituía em segredo um armamento atômico e bacteriológico. O considerável avanço tecnológico norte-americano, do qual o Golfo seria a vitrine, permitiria o desenvolvimento da doutrina da morte zero (americana) e também o desarmamento do Iraque sem sequer trocar seus dirigentes, que foram colocados sob vigilância. E no caso de recidiva, tanto as batidas aéreas quanto o embargo seriam suficientes para a manutenção da paz.

Os mesmos princípios haviam sido aplicados no momento da intervenção aliada na Bósnia e na Sérvia; a tecnologia e os princípios políticos dos norte-americanos permitiam impor o fim provisório dos conflitos nesta área, e mesmo a prisão e o julgamento diante de um tribunal internacional do presidente sérvio Milosevitch. A cruzada, mais uma vez, interveio contra um Estado culpado de ultrajar a ordem mundial e os direitos do homem.

O atentado de Nova York não era obra de um Estado, mas de uma organização. A resposta só poderia ser dada com a implantação de uma rede antiterrorista que permitisse encontrar e punir os culpados. A intervenção no Afeganistão só deveria ser prevista para eliminar um regime cuja única culpa foi ter abrigado e apoiado o terrorismo. Ela guardou no armário a tese da morte zero. Os norte-americanos deveriam guerrear contra um adversário implacável, sem se preocupar com os sacrifícios.

 

Segunda lição do 11 de setembro

 

O santuário mundial da paz estava em perigo. As armas dos pobres, desconhecidas até agora, como aviões seqüestrados, culturas de bacilos, questionavam em seu próprio território o único país capaz de intervir no mundo para manter a paz.

Um processo que ultrapassa a América foi engajado. É claro que todos os países que condenam o terrorismo encontram-se também ameaçados. O mundo entra em uma configuração de guerra, na qual a zona de perigo situa-se, entre tantas outras, no Oriente Médio, às portas dos dois países mais povoados do planeta, a índia e a China, mas também às portas do Paquistão e da instável Rússia que ainda cuida das feridas do comunismo. O 11 de setembro colocou em evidência a precariedade da paz mundial. Como conseqüência, ele tornou difícil a procura da paz no Oriente Próximo, que entrou em uma fase dramática de atentados e repressões, os radicais tomando o lugar dos moderados nos dois campos.

Com a imensidão dos riscos sofridos pelos direitos do homem, o mundo entra em uma nova fase de sua história. Nessa batalha engajada, é claro que todos os países estão envolvidos. Espera-se que a Europa esteja presente no encontro marcado. Que ela possa contribuir maciçamente, com os países mais desenvolvidos, com a América do Norte, com todas as democracias do mundo, para esta pacífica valorização do planeta por meio da erradicação da miséria na qual o terrorismo encontra sua morada, erradicação que deve guiar e que pode, sozinha, tornar durável um novo equilíbrio.