As 16 datas que mudaram o mundo: 16- O 11 DE SETEMBRO EM NOVA YORK

 

Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês
Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês

O antes de 11 de setembro de 2001 é para o mundo a pax americana, definida e aceita após a guerra do Golfo pelo concerto das potências que estão empenhadas em manter o mundo num estado de direito em conformidade com os direitos do homem.

O depois de 11 de setembro é o perigo que se instala no santuário americano, é a vitória do terrorismo cego no campo ocidental dos direitos do homem, é a entrada da História em uma zona de turbulência que dá de forma brutal a palavra a todos os excluídos da ordem mundial. Essa instabilidade questiona a eficácia da repressão e o retorno à ordem sob a égide do “concerto das nações”.

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Em 11 de setembro de 2001, em Nova York, aviões de linha que estão nas mãos de piratas do ar são desviados. Dois deles aparecem nos céus de Manhattan e chocam-se, como em um filme-catástrofe, contra as célebres duas torres gêmeas do World Trade Center.

São nove horas da manhã. Os empregados chegam para trabalhar. As torres logo desabam em uma nuvem de pó. Serão contados mais de 3.000 mortos, queimados, asfixiados, esmagados. Alguns se jogam pelas janelas. Os bombeiros chamados para socorrer lutam com todas as suas forças e são as vítimas heróicas da luta contra o desastre.

Quiseram atacar o coração das transações mundiais. Outro alvo simbólico, o Pentágono, o centro da defesa americana, foi também esmagado por um avião.

A CIA (Agência Central de Inteligência) não soube de nada, não antecipou nada. Como prever essa nova forma de terrorismo praticada por fanáticos suicidas? Nenhuma defesa militar é possível para um Estado. Descobriu-se, após as investigações, que os pilotos eram pessoas tranqüilas, desconhecidas dos serviços de informação, que se formaram discretamente em técnicas de pilotagem.

Passado o momento da emoção e do desespero, veio o ela patriótico. O povo norte-americano sai com bandeiras estreladas e manifesta sua solidariedade. O mundo inteiro o apóia e condena o ato. O horror do crime é forte demais.

Sabe-se que Bin Laden, um saudita bilionário, terrorista e reincidente, seria o instigador do atentado. Ele declara que esse ato de guerra é somente o começo de uma luta mortal das forças do Islã radical contra o Ocidente. Ele pretende atacar o líder da globalização imperialista e culpado de impiedade, de provocação assassina e de opressão ideológica. Inspirado por sua religião, ele é — garante em uma mensagem televisiva difundida no mundo inteiro — o executor da guerra santa. Ele matou somente os inimigos.

A reprovação da qual ele é alvo permite aos norte-americanos ativar os elementos para uma resposta, que o recém-eleito presidente republicano George W. Bush apresenta como um castigo. Uma intervenção é organizada no Afeganistão, onde os talibãs, islâmicos extremistas que estão no poder, admitiram e encorajaram a formação de campos de terroristas. Uma procura coordenada de redes com potências associadas é logo posta em andamento pelos aliados dos Estados Unidos em um clima de cruzada mundial. Tal intervenção permite ocupar o conjunto do país e erradicar o terrorismo, mesmo se Bin Landen continua foragido.

 

Primeira lição do 11 de setembro

 

A resposta norte-americana não tem mais nada a ver com a cruzada organizada anteriormente no Golfo. Um Estado agressor, o Iraque, havia atacado um emirado petroleiro utilizando toda a sua força militar. Uma cruzada internacional apoiada pela ONU foi reunida pelos Estados Unidos, principal força interventora, para fazer com que o Estado culpado devolvesse o que havia tomado e sobre o qual sabia-se que constituía em segredo um armamento atômico e bacteriológico. O considerável avanço tecnológico norte-americano, do qual o Golfo seria a vitrine, permitiria o desenvolvimento da doutrina da morte zero (americana) e também o desarmamento do Iraque sem sequer trocar seus dirigentes, que foram colocados sob vigilância. E no caso de recidiva, tanto as batidas aéreas quanto o embargo seriam suficientes para a manutenção da paz.

Os mesmos princípios haviam sido aplicados no momento da intervenção aliada na Bósnia e na Sérvia; a tecnologia e os princípios políticos dos norte-americanos permitiam impor o fim provisório dos conflitos nesta área, e mesmo a prisão e o julgamento diante de um tribunal internacional do presidente sérvio Milosevitch. A cruzada, mais uma vez, interveio contra um Estado culpado de ultrajar a ordem mundial e os direitos do homem.

O atentado de Nova York não era obra de um Estado, mas de uma organização. A resposta só poderia ser dada com a implantação de uma rede antiterrorista que permitisse encontrar e punir os culpados. A intervenção no Afeganistão só deveria ser prevista para eliminar um regime cuja única culpa foi ter abrigado e apoiado o terrorismo. Ela guardou no armário a tese da morte zero. Os norte-americanos deveriam guerrear contra um adversário implacável, sem se preocupar com os sacrifícios.

 

Segunda lição do 11 de setembro

 

O santuário mundial da paz estava em perigo. As armas dos pobres, desconhecidas até agora, como aviões seqüestrados, culturas de bacilos, questionavam em seu próprio território o único país capaz de intervir no mundo para manter a paz.

Um processo que ultrapassa a América foi engajado. É claro que todos os países que condenam o terrorismo encontram-se também ameaçados. O mundo entra em uma configuração de guerra, na qual a zona de perigo situa-se, entre tantas outras, no Oriente Médio, às portas dos dois países mais povoados do planeta, a índia e a China, mas também às portas do Paquistão e da instável Rússia que ainda cuida das feridas do comunismo. O 11 de setembro colocou em evidência a precariedade da paz mundial. Como conseqüência, ele tornou difícil a procura da paz no Oriente Próximo, que entrou em uma fase dramática de atentados e repressões, os radicais tomando o lugar dos moderados nos dois campos.

Com a imensidão dos riscos sofridos pelos direitos do homem, o mundo entra em uma nova fase de sua história. Nessa batalha engajada, é claro que todos os países estão envolvidos. Espera-se que a Europa esteja presente no encontro marcado. Que ela possa contribuir maciçamente, com os países mais desenvolvidos, com a América do Norte, com todas as democracias do mundo, para esta pacífica valorização do planeta por meio da erradicação da miséria na qual o terrorismo encontra sua morada, erradicação que deve guiar e que pode, sozinha, tornar durável um novo equilíbrio.

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