Posts Tagged ‘inquisição’

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Os falsos demônios de Loudun

junho 12, 2016
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O padre Urbain Grandier

Na cidade de Loudun, no noroeste francês, um episódio de alegadas possessões demoníacas ocorreu em 1634 e chamou a atenção por conta de sua incrível situação e fabulosos detalhes. O pivô da trama diabólica foi Urbain Grandier, o carismático pároco da cidade. O padre Grandier era um sujeito rico e bonito pelo qual muitas jovens da comunidade se sentiam atraídas e sua conduta com elas não tardou a gerar comentários e polêmicas, pois o sacerdote mantinha relações amorosas com algumas de suas admiradoras. Além de seus hábitos galantes e sedutores, Grandier chegou mesmo a se manifestar contrário ao celibato dos padres e suas aventuras lhe renderam complicações com as leis e as autoridades. Em 1630 ele foi preso exatamente sob a acusação de comportamento lascivo e indecente para um homem do clero e mesmo tendo escapado de uma condenação (o padre Grandier era muito bem relacionado politicamente) algumas inimizades pesaram para a posteridade e entre os inimigos do padre estava Chasteigner de La Roche Posay, que era bispo de Poitiers. O bispo tomou como objetivo mandar Grandier para longe e para isso precisava de uma trama infalível. La Roche Posay articulou uma cilada para o padre sedutor e encontrou aliados no convento das feriras ursulinas, incluindo o padre Mignon, que era confessor das freiras, e a própria madre superiora do convento, a irmã Jeanne des Anges.

Os conspiradores passaram a espalhar boatos sobre Grandier, dizendo que ele sofria ataques enquanto falava línguas estranhas, também inventaram que a a irmã Jeanne des Anges era tentada pelo padre que lhe aparecia ardilosamente em sonhos e a possuía sexualmente. Jeanne dizia que por conta das investidas de Grandier ela recorria a penitências e flagelações e a madre superiora parecia ser tão convincente que várias outras freiras acabaram alegando que sofriam os mesmos assédios sobrenaturais do padre de Loudun. O confessor das freiras e seu assessor, o padre Pierre Barre, perceberam que esse estado de histeria das freiras seria uma ótima chance para se livrarem de Grandier e promoveram um grande espetáculo de encenações e fraudes para alarmar a todos e deixar o pároco em uma situação muito desconfortável. Os dois resolveram promover seções de exorcismo sobre a madre superiora e suas irmãs de convento e durante tais seções as mulheres entraram em convulsão, gemiam em tons sexuais, desmaiavam e falavam línguas desconhecidas. Jeanne disse que todas eram possuídas pelos demônios Asmodeus e Zabulon, ambos invocados pelo padre Grandier por meio de um feitiço. Percebendo os riscos que corria, Grandier procurou desmascarar seus acusadores, mas não teve apoio oficial para isso e enfim apelou para o arcebispo de Bordeaux, que enviou um de seus especialistas para examinar as alegadas possuídas sem encontrar quaisquer indícios de que eles tivessem algo errado sendo então ordenado o fim das seções de exorcismo forjadas e as freiras foram condenadas ao isolamento em suas celas. Parecia que Grandier teria se livrado de mais um problema, mas seus inimigos eram insistentes e recorreram a outro plano: Difamar o padre perante ninguém menis que o poderoso cardeal Richilieu.

Para executar essa nova trama foram envolvidas mais pessoas influentes no clero, inclusive um dos protegidos de Richilieu, que fizeram chegar ao cardeal falsas declarações de Grandier a seu respeito, o que fez com que o cardeal resolvesse nomear uma comissão para investigar o pároco por prática de bruxaria.

Um grupo de exorcistas foi enviado para Loudun e eles começaram a realizar as supostas apurações sobre as práticas heréticas de Grandier promovendo mais espetáculos públicos de manipulação de fé por meio de exorcismos públicos diante de uma multidão que chegava a ter cerca de 7 mil expectadores curiosos e ávidos por manifestações chamativas. A histeria tomou conta da cidade e, sugestionadas pelo que viam, outras mulheres acabavam também apresentando comportamentos que eram abordados como possessões malignas sexualizadas. Ex-amantes do padre se apresentavam para denunciá-lo, mais demônios eram acrescidos a uma farta lista de entidades do mal que atuavam por intermédio do padre e até uma falsa gravidez foi alegada pela irmã Jeanne.

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O pacto que os acusadores utilizaram para incriminar Grandier constava assinaturas falsas do padre e incrivelmente de um grupo de demônios

O cúmulo das acusações contra Grandier foi uma prova escrita: Os acusadores chegaram a dizer que depois de firmar um acordo com um dos exorcistas, o demônio Asmodeus roubou de um armário do gabinete de Satanás um pacto assinado com sangue entre diversos demônios e o padre Grandier. O documento infernal foi apresentado como prova contundente contra o pároco. Posteriormente foi comprovado que, na verdade, o documento foi escrito pela madre superiora, mas já era tarde para o padre Grandier. Preso no Castelo de Angers, o sacerdote foi submetido a torturas, e foram inspecionadas as supostas incisões que eram citadas no pacto falso e através das quais sangue do padre teria sido drenado para oferta aos demônios.

Alguns defensores de Grandier protestaram contra todo o processo e a perícia física, apontando tudo como uma farsa perversa e absurda, contudo, os ânimos na comunidade eram desfavoráveis para o padre “amigo de demônios”. Até algumas freiras arrependidas das encenações se apresentaram para defender o acusado, mas foi tudo em vão porque o lado acusador alegou que elas estavam sendo manobradas por Satanás para salvar seu protegido e para piorar a situação foi ordenado que qualquer defesa a Grandier deveria ser considerada uma heresia e ato de traição ao rei sujeitas a rigorosas penas, o que fez muitas testemunhas fugirem da França.

Grandier foi então julgado por um comitê submetido a Richilieu e foi enfim condenado a morte na forca para depois ter seu corpo queimado na fogueira em 18 de agosto de 1634. Além da execução os bens do padre foram confiscado e uma placa de bronze contendo seus feitos malignos foi produzida para ser exposta no Convento das Ursulinas. Antes da execução – e para reforçar a sentença – o acusado foi submetido a torturas com o objetivo de se extrair uma confissão e diante da inevitabilidade de sua execução e para fazer as torturas serem encerradas Grandier acabou afirmando ter feito tudo do que fora acusado. No ato de sua execução em praça pública o executor resolveu descumprir o procedimento e acendeu a fogueira mesmo antes do condenado ser enforcado, o que fez com que Grandier acabasse morrendo queimado mesmo. Suas últimas palavras não foram ouvidas pelo público, pois a multidão foi incitada a gritar enquanto Grandier tentava falar.

Mesmo após a execução de Grandier supostas manifestações demoníacas continuaram sendo notificadas em Loudun até 1667, mas não tardaram as revelações de que tudo passou de fraude que levou um indivíduo inocente a uma provação extrema.

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O Massacre dos Valdenses

abril 17, 2014

Na Itália do século XVII ainda era grande a perseguição aos valdenses, adeptos do medieval segmento cristão difundido pelo francês Pedro Valdo (Pierre Vaudès, 1140–1218), que desafiou a Igreja Católica ao pregar diversas concepções e práticas que somente foram retomadas com efeito e força durante a Reforma Protestante. Os valdenses, muito antes de Lutero, já empregavam bíblias traduzidas em seus idiomas e defendiam a abolição do uso de imagens e do poder da hierarquia eclesiástica católica, tendo sido condenados pelo papa Lúcio III em 1184 e oficialmente excomungados em 1215, durante o IV Concílio de Latrão (1215). Eram desde então vistos como seguidores de movimento herético a ser combatido pelos católicos e por Roma e essa postura vigorou ao longo dos anos mesmo com a ocorrência de fases de maior perseguição e outras nas quais eram quase que ignorados. Ainda assim, os valdenses continuaram existindo, persistindo e defendendo suas concepções e práticas.

Desde o surgimento da Reforma Protestante os valdenses passaram a integrar o movimento que se opunha à Igreja Católica – mesmo sendo anteriores e precursores de muitas das teses e princípios do protestantismo mais conhecido. As perseguições que sofriam passaram até a ser reforçadas em função desse fato.

Em abril de 1655, sob as ordens de Carlos Emmanuel II, o Duque de Sabóia, um sangrento massacre ocorreu no Piermonte, Itália, região onde era concentrado um significativo contingente de valdenses, que constituíam comunidades isoladas do convívio com católicos e alheias às autoridades políticas aliadas ao papado. O duque simplesmente decidiu que deveria eliminar os valdenses de seus domínios e reuniu uma poderosa tropa para cumprir este propósito. E não houve limite para a realização deste extermínio, pois nem crianças ou pessoas idosas ou doentes eram poupadas da carnificina. Todos os métodos de torturas e execuções foram empregados para dar efeito à eliminação sangrenta dos valdenses e até persistiram relatos de que os exterminadores (a maioria deles constituída por mercenários de várias procedências) chegaram a praticar canibalismo, comendo partes de corpos que foram cozidos.

A repercussão dos massacre foi péssima e até mesmo o protestante Oliver Cromwell, líder da república revolucionária inglesa, chegou a ameaçar os domínios do agressor e a articular uma retaliação aos aliados do Duque de Sabóia, como era o caso do jovem rei Luís XIV, da França.

As imagens a seguir foram retiradas da obra “The history of the evangelical churches of the valleys of Piemont” (1658), de autoria de Samuel Morland, um inglês protestante que ressaltou o lado dos valdenses.

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Tortura Medieval – O “pônei”

abril 16, 2014
Cavalo de Madeira, Pônei ou Burro Espanhol

Cavalo de Madeira, Pônei ou Burro Espanhol

Variação de dispositivos de tortura que já eram utilizados no Império Romano e que, por meio de “melhorias”, passou a ser empregado com maior intensidade durante a Idade Média, chegando a ser utilizado por colonizadores nas Américas e tendo uso registrado até na Guerra Civil Americana. Sua estrutura básica era formada por um segmento de tronco serrado de maneira que sua extensão tomasse forma triangular e era utilizado principalmente para torturar mulheres, que ficavam sentadas sobre o aparelho e usualmente recebiam pesos nos tornozelos para propiciar desconforto ainda maior.

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Tortura Medieval: Pera da Angústia

abril 12, 2014

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Esta tormentosa e sofisticada peça de tortura também era conhecida como “Pera da Confissão”, “Pera do Papa” (nomes atribuídos em função do fato de ter sido dispositivo utilizado durante a Inquisição) ou ainda poderia ser identificada como “Pera Bucal”, “Pera Vaginal”, “Pera Anal” ou simplesmente como “A Pera”.

Tratava-se de um instrumento em forma de pera composto por quatro faces que eram lentamente separadas umas das outras a partir da engenhosa articulação acionada por um parafuso giratório disposto na parte superior da geringonça. O artefato foi utilizado durante a Idade Média como instrumento de tortura empregado preferencialmente contra mulheres que realizaram abortos, contra os mentirosos, os blasfemos e muitos homossexuais. O aparelho costumava ser inserido em um dos orifícios da vítima: a vagina para as mulheres, o ânus para aqueles considerados homossexuais masculinos e a boca no caso dos mentirosos e blasfemos.

A pera provocava insuportáveis dores e lesões ao se expandir no interior das vítimas, mas geralmente não era letal e costumava ser empregada em seções que envolviam usos de outros instrumentos. Há casos nos quais o dispositivo foi empregado como uma espécie de mordaça mecânica (há quem acredite até que este foi o objetivo inicial de sua invenção).

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Tortura Medieval: Berço ou Cadeira de Judas

abril 12, 2014

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O Berço ou Cadeira de Judas era um dispositivo em formato piramidal feito de madeira sobre o qual ficava exposta a vítima, que era amarrada, suspensa e progressivamente baixada até que o ânus, a vagina ou testículos entrasse em contato com a ponta do instrumento. A intensidade da dor infligida pelo sistema de tortura poderia ser alterada de várias maneiras: A vítima poderia ser balançada sobre a pirâmide, repetidamente deixada cair sobre o dispositivo, poderia ter azeite espalhado sobre a pirâmide para proporcionar um deslizamento no contato com a pele ou ainda poderiam ser utilizados pesos de latão presos nas pernas do(a) infeliz que viesse a ser submetido(a) a este horror.

Era comum deixar a vítima suspensa sobre o aparato torturante durante uma noite inteira para prolongar o sofrimento até que as seções com movimentos e contatos fossem reiniciadas no dia seguinte – a agonia poderia se estender por vários dias. O aparelho geralmente não era submetido a limpeza e as vítimas não morriam necessariamente em decorrência de ferimentos sofridos, mas podiam contrair infecções motivadas pelo tempo prolongado de contato com dispositivo. Sempre que a vítima desmaiava de dor, o torturador a erguia até que voltasse a despertar e novamente para que fosse retomado o processo. Além da dor agonizante, a humilhação era outro fator de “utilidade” do aparelho, além do justificável desespero que significava a mera ameaça de uso do equipamento.

O Berço de Judas foi utilizado pela Inquisição em vários países diferentes e possuía nomes variáveis em cada lugar. Na Itália, ele era conhecido como “Culla di Giuda”, na Alemanha “Judaswiege”, e na França “La Veille”, mas foi na Espanha que seu uso foi mais praticado.