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O Código de Hamurábi

fevereiro 26, 2013
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Monolito que contém as inscrições do Código de Hamurábi

Atribui-se ao rei babilônio Hamurábi a autoria de um dos mais antigos códigos de leis do qual se tem notícia – Existiram na região mesopotâmica registros anteriores, como o Código Ur Nammu, Código de Eshnunna e o Código de Lipit-Ishtar. O Código de Hamurábi trazia uma série de procedimentos jurídicos e determinações de penas para uma ampla gama de crimes previstos e reconhecidos até então. A principal marca do conjunto de normas e punições era fundamentado no princípio que os romanos posteriormente reconheciam como lei de talião (lex talionis, ou seja, “lei idêntica”), que previa que a punição deveria ser proporcional ao dano causado pelo criminoso.

A edição do Código era uma necessidade para a sociedade que então se constituía. Hamurábi unificou os reinos sumérios, consagrando-se como primeiro imperador mesopotâmico e a constituição desta situação política exigia que as regras de conduta pudessem ser aplicadas de forma unificada nas extensões do império, uma vez que as leis possuem também esse caráter de efetivação do Estado.

O Código foi enfim estabelecido por volta do ano 1.700 aC, contudo, seu princípio do “olho por olho, dente por dente”, que indicava a equivalência entre crime e castigo, não se aplicava igualmente entre todos os indivíduos que integravam a sociedade babilônica. Na verdade, a lei distinguia pessoas conforme suas classes sociais e as punições variavam conforme a posição social do criminoso. Pessoas livres e escravos, por exemplo, não eram reconhecidos igualmente nas regras firmadas por Hamurábi o mesmo ocorria em relação a indivíduos livres de classes sociais distintas. Eis uns exemplos:

“Se um homem livre destruiu o olho de outro homem livre, destruirão seu olho. (…) Se destruiu o olho de um escravo, ou quebrou o osso de um escravo, pagará uma mina de prata.

(…) Se um homem livre bater na face de um homem outro homem livre que lhe é superior, será açoitado 60 vezes. (…) Se um homem livre bater na face de um homem livre que lhe é igual, pagará uma mina de prata.”

Mesmo diante do desequilíbrio entre pessoas conforme suas condições sociais, o Código de Hamurábi tem o importante mérito de representar um importante passo no processo de estabelecer regras de conduta e relação entre as pessoas mediante a mediação e acompanhamento do Estado.

Clique aqui para conferir o Código de Hamurábi na íntegra.

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Nikola Tesla – O padroeiro dos nerds

fevereiro 17, 2013

Obscurecido em vida por Thomas Edison, o inventor Nikola Tesla volta a ser cultuado pelos jovens na internet como exemplo do cientista idealista

Danilo Venticinque – Revista Época Ed.769

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Décadas depois da morte dos dois antagonistas, uma inusitada campanha na internet ressuscitou a maior rivalidade científica do século XIX. De um lado, estava o americano Thomas Edison (1847- 1931), eternizado como inventor da lâmpada e pai da segunda revolução industrial. De outro, o sérvio Nikola Tesla (1856-1943), responsável por importantes descobertas ligadas à transmissão de eletricidade e à comunicação sem fio. Apesar da relevância do trabalho de Tesla, e de algumas vitórias sobre seu rival, a história não deixou dúvidas quanto ao vencedor: Edison fez fortuna com suas invenções, recebeu homenagens em todas as partes do mundo e é conhecido até hoje por qualquer jovem que tenha tido aulas de física. Tesla morreu sozinho, falido, e sua importância só era reconhecida por estudiosos da história da ciência.

Indignado com a falta de popularidade de seu ídolo, o designer americano Matthew Inman decidiu iniciar uma campanha para reerguer a imagem de Tesla. Em agosto do ano passado, publicou, em seu popular blog de quadrinhos Oatmeal, urna enorme ilustração dedicada a provar a tese de que Nikola Tesla era “o maior nerd de todos os tempos». A imagem foi compartilhada mais de 600 mil vezes — marca impensada para uma publicação sobre história da ciência. Animado com os resultados, Inman passou a vender camisetas e adesivos com os dizeres “Tesla > Edison” (Tesla é maior que Edison) e a recrutar mais adeptos para sua causa. Ao descobrir que as instalações do antigo laboratório de Tesla, em Nova York, estavam à venda e poderiam ser destruídas para dar lugar a um centro comercial, Inman decidiu mobilizar os esforços dos novos admiradores de Tesla. Em outubro do ano passado, organizou uma campanha de arrecadação na internet para tentar comprar o imóvel e transformá-lo num museu.

Ao contrário da imensa maioria das campanhas on-line, que costumam murchar quando os usuários têm de trocar os diques por transferências bancárias, a mobilização dos fãs de Tesla superou as expectativas. Em seis dias, Inman conseguiu arrecadar US$ 850 mil para a causa. Com a ajuda de outra doação de US$ 850 mil, pelo Estado de Nova York, a soma chegou a US$ 1,7 milhão — o suficiente para comprar o imóvel e começar as reformas que o transformarão num museu.

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Antigo laboratório de Tesla

“Assim que concluirmos as negociações, queremos restaurar o que sobrou do laboratório e transformar os outros espaços num tributo interativo a Tesla», afirma a pesquisadora Jane Alcorn, presidente do museu. “Nossa intenção é corrigir as injustiças históricas contra Tesla e reafirmar sua importância para a sociedade moderna.” A obra levará alguns anos para ficar pronta e começar a receber visitantes, mas o sucesso da campanha de arrecadação e sua grande repercussão na internet são indícios de uma importante mudança na percepção histórica de Tesla — e, consequentemente, na maneira como a sociedade julga o valor de um inventor.

No fim do século XIX e no início do século XX, quando Tesla e Edison estavam na ativa, todo inventor também era um homem de negócios. Com seus laboratórios espalhados por todo o mundo e um exército de engenheiros sob seu comando, Thomas Edison era um símbolo dessa geração. “Meu maior objetivo é ganhar dinheiro com minhas invenções e usá-lo para criar novas invenções”, dizia. Seu método de trabalho era baseado em inúmeras tentativas e erros, sem grande sofisticação teórica. A persistência e o dom para os negócios o ajudaram a prosperar, apesar da concorrência de cientistas mais talentosos.

Tesla tinha uma personalidade quase oposta à de Edison. Falava oito línguas fluentemente e tinha urna invejável formação científica, mas pouco tino para os negócios. Dizia que os inventores eram seres incompreendidos, que raramente recebiam recompensas. A maioria de suas invenções tinha pouca utilidade prática. Muitas delas só foram colocadas em uso por outros cientistas, que levaram o crédito por seu trabalho. Tesla também era tido como um homem excêntrico. Trabalhava das 3 horas da manhã às 11 da noite, com raras pausas para se alimentar. Pesava apenas 64 quilos, apesar de seus 2 metros de altura. Viveu em celibato, para evitar que os relacionamentos o afastassem do laboratório. Em sua autobiografia Minhas invenções, recém-publicada no Brasil pela editora Unesp, ele afirma que tinha memória fotográfica e que suas ideias vinham acompanhadas por alucinações e clarões de luz. Morreu aos 86 anos, falido e com fama de louco.

Se o século XX consagrou o homem de negócios e sua capacidade de transformar invenções num império, os jovens do século XXI parecem ter mais apreço pelo nerd recluso, que tenta transformar o mundo trancado em seu laboratório. Larry Page, cofundador do Google, costuma citar Minhas invenções, de Tesla, entre os livros que mais influenciaram sua carreira. Elon Musk, fundador da empresa de pagamentos on-line PayPal, decidiu homenageá-lo ao batizar de Tesla Motors sua montadora de carros elétricos. Tanto Page quanto Musk têm em comum o fato de terem feito fortuna com ideias que, inicialmente, tinham pouca viabilidade comercial. É a cultura dominante dos pequenos empreendedores de tecnologia, das redes sociais às empresas de robótica. Primeiro, cria- se algo inovador. Depois, pensa-se em como ganhar dinheiro. A homenagem tardia a Tesla pode ser um sinal de que, se ele tivesse nascido um século mais tarde, poderia ter tido mais admiradores, mais sorte e, quem sabe, mais dinheiro.

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