Posts Tagged ‘Islamismo’

h1

A ciência preservada pelos islâmicos na Idade Média

novembro 8, 2014

e1ibvrqjrjasvi2kmyxj
Durante a Idade Média da Europa Ocidental muitos dos registros e conhecimentos científicos clássicos eram condenados em decorrência da postura da Igreja Católica, que renegava determinadas informações por conta de um julgamento fundamentalista a respeito do funcionamento de coisas e situações que já foram objetos dos estudos científicos. Por outro lado, os islâmicos passaram a tomar contato com o legado da produção científica clássica e resolveram preservar registros que eram destruídos na Europa. Mas os islâmicos não se interessaram apenas pela produção dos estudiosos europeus e também passaram a traduzir, reproduzir teses, teorias e métodos elaborados em diversas regiões também no Oriente. Obras em grego, em latim e em sânscrito versando sobre os mais variados temas das ciências eram traduzidas para o árabe e assimiladas por um novo público especializado ávido pelo imenso sortimento de conhecimento obtido por meio desse processo de busca, preservação e tradução de textos científicos. Enquanto o racionalismo perdia espaço na Europa, os islâmicos passaram a assimilar os trabalhos de expoentes como Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes, Euclides, Ptolomeu e diversos outros pensadores. Um rico acervo de obras aprimorou e enriqueceu a produção islâmica nos campos da matemática, da física, da engenharia, da medicina e de variados campos dos saberes humanos. Também foi notável o avanço tecnológico dos povos árabes em relação a muito do que ocorria na própria Europa que fora origem de muitas dessas bases científicas.

lfzua4rtx1tndzw8qacl

Detalhe de influente tratado sobre a construção e utilização de astrolábios feito por Abu al-Rayhan Mohammad ibn Ahmad al-Biruni (973-1048), que contém 122 diagramas.

qrns6cvifubskjm81ybe

A tradução de Almagesto, tratado matemático e astronômico de Ptolomeu.

Muitas obras em árabe reproduziram ou avançaram estudos de cientistas clássicos, a exemplo da obra O livro de conhecimento de dispositivos mecânicos engenhosos (de 1206), que traz esquemas de inúmeros inventos inspirados em ideias de Arquimedes. Também é interessante a tradução preservadora feita em 1334 da obra De Materia Medica, do romano Pedanius Dioscorides, que no século I realizou um importante inventário técnico sobre plantas medicinais.

lqx1cmi7eoejh8ibt70t

Versão árabe da obra De Materia Medica.

Obras como essas e diversos outros manuscritos em árabe estão acessíveis no site da Biblioteca Digital do Qatar.

h1

A artística caligrafia árabe

abril 21, 2014

734186_271390686319886_615544796_n

Proibidos de retratarem seres animados criados por Deus, o que poderia levar a alguma forma de adoração dessas imagens e/ou estatuetas, os artistas árabes-islâmicos desenvolveram a arte da caligrafia. Uma vez que a revelação da mensagem divina utilizou a palavra, ela também poderia ser utilizada para representar esses seres sem incorrer no risco do politeísmo. Vários estilos de caligrafia foram desenvolvidos ao longo dos séculos. A imagem aqui exibida, representando um leão, é do século XVI e as letras formam uma prece para o Iman Ali, primo e genro do Profeta e também o quarto califa do Islã.

Texto adaptado e imagem extraídos da revista Al Tawdih no. 1, editada pela Associação Beneficente Muçulmana do Rio Grande do Norte

h1

A História e fundamentos do islamismo

janeiro 19, 2011

Documentário que apresenta a formação, os princípios e aspectos do islamismo. Leia também um texto sobre as bases do islamismo – clique aqui.

h1

O tumultuado Oriente Médio

outubro 23, 2008

Acompanhar no varejo do dia-a-dia os desdobramentos dos vários conflitos simultâneos do Oriente Médio pode ser uma tarefa infrutífera do ponto de vista do aprendizado. Grupos se ramificam, interesses se sobrepõem, fronteiras tomam-se difusas, mocinhos e bandidos são papéis intercambiáveis. Quem está matando quem? E por que razão? Quem prestar atenção apenas aos últimos acontecimentos dificilmente terá a percepção do conjunto. Pelo simples motivo de que os problemas atuais se arrastam há décadas, mais precisamente desde o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Foi nessa época que uma intervenção franco-britânica selou o destino da região.

O Oriente Médio

O Oriente Médio é uma das regiões mais conflituosas do globo, aquela que há mais tempo domina os noticiários internacionais. Qual o motivo de tanto conflito? Uma das razões da tensão é capital: a intervenção franco-britânica na região após a Primeira Guerra Mundial, que selou seu destino. E nesse momento da história que devemos buscar a gênese dos conflitos e, assim, compreender a situação atual. Tentar entender as turbulências da região a partir exclusivamente dos fatos contemporâneos é tarefa inglória.

Neste espaço, vamos nos ater a um panorama genérico dos dois principais conflitos da região: a questão palestina e a guerra no Iraque.

Como os demais conflitos que ocorrem no Oriente Médio, a origem do problema palestino está no início do século XX. Em 1917, enquanto eram escritos os últimos capítulos da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra, já sabedora da herança do espólio otomano e de seu futuro domínio na região, concedeu a Palestina ao movimento sionista, na famosa Declaração Balfour.

O organizado sionismo, que contava com forte retaguarda financeira de banqueiros judeus de Londres, tratou de patrocinar a migração de milhares de judeus para a Terra Prometida, com o claro objetivo de construir ali o seu Estado. Acontece que a Palestina era habitada: árabes palestinos lá estavam havia séculos. Ou seja, a Inglaterra concedeu uma terra habitada, e que não era dela, a um povo que vivia na Europa, mas que, por razões religiosas e históricas, sonhava em construir um Estado nacional na Palestina. Eis as primeiras sementes da discórdia.

Logo começaram as tensões entre aquele judeu que chegava e a população local. A situação não tardou a sair do controle dos britânicos, que se desvencilharam do imbróglio nos anos 40, quando transferiram a questão para uma recém-criada ONU.

Na ordem que se iniciou após a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos fortalecidos e a Europa enfraquecida, a tentativa de solução ficou a cargo da ONU, que realizou, em 1947, a Partilha da Palestina, criando dois Estados: um judeu, com 14 mil quilômetros quadrados, e outro árabe, com 11 mil quilômetros quadrados.

Em maio de 1948, com a retirada das últimas tropas britânicas da Palestina, David Ben Gurion proclamou a independência de Israel. Os árabes não aceitaram aquilo que denunciavam como “um corpo estranho no mundo árabe”, e declararam guerra ao recém-criado país; seria a primeira de muitas derrotas árabes para Israel. A verdade é que os judeus eram poucos, mas fortes, enquanto os árabes eram muitos, mas frágeis e desunidos. Outras guerras viriam, e outras vitórias israelenses. A mais importante delas seria a de 1967, quando Israel não apenas venceu simultaneamente três países árabes em menos de uma semana (Egito, Síria e Jordânia), como lhes tomou territórios. Alguns deles se encontram sob seu domínio até hoje. E foi além. Conclamou judeus de todo o mundo a vir ocupar terras “disponíveis.” Iniciava-se, então, a colonização da Palestina por Israel. Os palestinos foram sendo expropriados de suas terras: primeiro, em 1948, depois, em 1967. É da indignação palestina que nasceria a violenta revolta que se estende aos dias atuais. Catalisados pela OLP (Organização pela Libertação da Palestina), surgida em 1964, nasceram movimentos que buscavam a pátria perdida, sonho ainda não realizado.

Em 1994, os acordos de Oslo (Plano de Paz) viriam criar a Autoridade Palestina (AP). O primeiro presidente da AP foi o legendário líder Yasser Arafat. Como a OLP, a Autoridade Palestina luta pela criação do Estado Palestino. No entanto, o recente acirramento da disputa entre o Al Fatah e o Hamas ameaça jogar os palestinos numa guerra civil que pode dificultar ainda mais a criação do seu Estado.

 

NO LÍBANO, HEZBOLLAH ENFRENTA ISRAEL

Em julho de 2006, uma ação do grupo xiita Hezbollah contra soldados israelenses desencadeou uma violenta reação de Israel com trágicas conseqüências para o Líbano. Sob pretexto de resgatar dois soldados seqüestrados pelo Hezbollah e eliminar a sua capacidade de lançar mísseis contra o norte do país, tropas de Israel invadiram o Líbano. Durante pouco mais de um mês aviões e tanques realizaram incontáveis bombardeios contra supostas posições militares do Hezbollah e também contra alvos civis, como o aeroporto de Beirute, edifícios, estradas, pontes e até uma base da ONU, onde quatro de seus observadores morreram.

O Hezbollah atacava lançando mísseis sobre cidades do norte de Israel, como Haifa e Nazaré, fazendo algumas vítimas civis. Nos combates no sul do Líbano o grupo conseguia impor também algumas baixas militares aos israelenses. No total, cerca de 120 israelenses morreram no conflito.

Mas o saldo da guerra refletiu a superioridade militar e a força com que Israel atacou o Líbano: mais de mil libaneses mortos, a maioria civis, muitas cidades e a infra-estrutura do país quase totalmente destruídas.

Em 14 de agosto teve início o cessar-fogo e os preparativos para a retirada das tropas israelenses, que se completaria com a chegada da missão de paz da ONU (a Força Interina das Nações Unidas no Líbano). Enquanto ambos os lados declaravam-se vitoriosos, grupos de direitos humanos e observadores das Nações Unidas denunciavam possíveis excessos cometidos por Israel contra a população do Líbano, certamente o grande perdedor.

 

Aiatolá Khomeini

Aiatolá Khomeini

Na outra ponta do Oriente Médio, um cenário não menos desolador se desenvolve no Golfo Pérsico: a guerra no Iraque. Vejamos sua trajetória. Em 1979, no mesmo ano em que ocorria a Revolução Islâmica no Irã, Saddam Hussein chegava ao poder no Iraque. Entendendo aquele movimento no país vizinho como ameaçador, pois poderia se alastrar para o Iraque, de maioria xiita, Saddam tratou logo de produzir uma guerra para, em sua perspectiva, cortar o mal pela raiz. Ele acreditava quê seria uma guerra rápida. Ledo engano/Usando o velho litígio no estuário de Chat el Arab (a foz dos rios Tigre e Eufrates) como pretexto para o ataque, em 1980 iniciava-se a longa guerra Irã-Iraque. Aquilo que parecia ser presa fácil na visão iraquiana tornou-se um verdadeiro tormento. Para equacionar sua inferioridade militar naquele momento, Khomeini, o líder iraniano, utilizou-se de um ingrediente que Saddan não esperava: a Jihad (“Guerra Santa”). A guerra prolongou-se então por oito anos, arrasando a economia e as estruturas dos dois países. 

A Revolução Islâmica é o movimento xiita que depôs o regime secular iraniano e levou ao poder o Aiatolá Khomeini. O Ira se tornaria uma República Islâmica. A Jihad é a resistência santa, recurso que os fiéis muçulmanos utilizam em tempos de guerra. Para convocar uma Jihad, é preciso ter legitimidade espiritual, coisa que o Aiatolá Khomeini, de fato, possuía.

Durante a guerra, os países do golfo torciam pelo Iraque, mas não tornavam isso claro; todos temiam a ameaça xiita. Apenas um deles ousou apoiar explicitamente o Iraque: o Kuwait, país contra o qual, em retaliação, o Irã declarou guerra. O apoio do Kuwait ao Iraque tomou forma concreta com o financiamento da compra de armas dos Estados Unidos. Pois bem, após o término da guerra, com a economia destruída, endividado e não podendo saldar sua dívida, Saddam Hussein invade justamente o pequeno vizinho, em agosto de 1990. O argumento era o de que o Kuwait seria uma unidade inventada pela Inglaterra para atender seus interesses e do imperialismo. Na visão iraquiana; o Kuwait nada mais seria que um prolongamento do Iraque, ou seja, uma de suas províncias.

A ONU deu um ultimato ao Iraque, mas Saddam Hussein se recusou a retirar suas forcas do país invadido. E tentou uma jogada: comprometeu-se a sair do Kuwait tão logo Israel se retirasse dos territórios ocupados em 1967. E agora, ONU? O Conselho de Segurança ignorou a chantagem de Saddam e tratou logo de resolver a questão. Assim, lideradas pelos Estados Unidos, tropas da ONU atacaram as forças iraquianas, libertando o Kuwait. Derrotado, o Iraque foi colocado sob embargo em 1991. A partir de então, gradativamente sua economia foi sendo estrangulada. O país debilitou-se com a generalizada queda da qualidade de vida. A maior vítima do intenso embargo foi a população civil. Já no século XXI, no mundo pós-11 de Setembro e no contexto da guerra ao terror levada a cabo pelos Estados Unidos, o regime de Saddam Hussein foi posto na mira. Acusado de apoiar o terrorismo internacional e de produzir armas de destruição em massa (nunca encontradas), o país foi atacado pela coalizão anglo-americana em 2003. Convém lembrar que os Estados Unidos decidiram atacar o Iraque sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. O regime – e o próprio Estado – foram arrasados: destruiu-se um Estado, uma nação, fazendo do “novo” Iraque um dos mais instáveis lugares do mundo. As forças de ocupação permanecem no país até hoje.

 

 

h1

As 16 datas de mudaram o mundo: 3- A HÉGIRA

outubro 17, 2008
Pierre Miquel (1930-2007)

Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês

 

O antes da Hégira, o ano I da era muçulmana, o ano 622 da era cristã, representa a divisão do mundo conhecido entre os reinos bárbaros do oeste da Europa, fragmentados, divididos e ainda submetidos às invasões, e o império bizantino cristão que sobrevive a leste do Mediterrâneo.

O após a Hégira é a conquista muçulmana, a guerra santa, mantida pela fé de uma nova religião que deixa subsistir no Oriente um império bizantino enfraquecido e que estende seus avanços no Ocidente até a Espanha e ao sul da Gália, cortando em dois o Mediterrâneo durante quatro séculos.

 *****

No dia 16 de julho de 622, quando o profeta Maomé emigra de Meca, onde é perseguido, para encontrar refúgio em Medina, ele começa então uma aventura espiritual que será seguida pelo estabelecimento, sobre uma parte do mundo conhecido, da nova religião, o Islã, de quem ele é o iniciador e o propagador.

Ele inicia suas predicações em 613, quando se dirige aos árabes nômades, adoradores das árvores e das pedras, e em particular da pedra negra de Meca, a Caaba. A esse politeísmo tradicional ele opõe um Deus único chamado Alá, cujo maior representante era Abrão, ancestral mítico dos árabes por intermédio de Ismael.

Maomé, que nasceu em Meca na prolífera tribo dos coraixitas e no seio da respeitável família de Hachim, é um caravaneiro pobre que se casa com a rica viúva Cadija. Ele recebe aos quarenta anos a visita do arcanjo Gabriel, que lhe revela sua missão como profeta. “Alá é um Deus eterno único, ao lado do qual não há outro deus”, e acrescenta “que Alá não tem nem esposa, nem filho”. Alá não desce sobre a terra, nem envia mensageiro do céu. Ele dirige-se ao mundo exclusivamente pela boca de seu profeta.

A primeira tarefa desse profeta é a de reunir os árabes. Os sermões de Maomé começam em Meca onde ele não é bem acolhido pelos mercadores politeístas. Ele deixa então a capital para encontrar refúgio em Yatribe, que se tornou Medina el-Nabi — Medina, a cidade do profeta. É a hégira (fuga), ponto de partida para a conquista.

O mundo no qual Maomé vive é ainda dominado pela potência bizantina, cujo poder, é verdade, diminuiu. O imperador, em 476, ainda reinava sobre os príncipes da Ásia, sobre o Egito, a Síria, a Palestina, a Mesopotâmia do norte, sobre uma parte do nordeste da África, e, na Europa, sobre os Bálcãs. O império que contava com sete dioceses e sessenta e quatro províncias era ainda o Estado mais poderoso do mundo conhecido. Possuía os meios, sob Justiniano em 527-568, para começar uma reconquista do Ocidente.

O imperador de Constantinopla havia afirmado sua superioridade espiritual sobre os bispos intervindo na luta teológica dos monofisistas, poderosos na Síria e no Egito; ele procurava tratá-los com diplomacia para evitar uma secessão, entrando assim em conflito com o papa.

O cesaropapismo oriental era muito diferente do papismo ocidental, que se mantinha fora dos Estados, reivindicando a integralidade do poder espiritual. O imperador do Oriente detinha o poder temporal, mas intervinha também, por razões políticas, nas questões de fé. Considerava como seu dever impor em todos os lugares a ortodoxia, mas também se harmonizar, em caso de necessidade, com as seitas dissidentes para preservar a unidade do império.

Desde o começo do século VII, o império estava ameaçado por novas invasões. Os eslavos espalhavam-se nos Bálcãs, juntamente com os avaros. Mas principalmente a dos persas sassânidas, que pretendiam dominar, de um ponto a outro, a principal fonte de riqueza do Oriente, a rota da seda em direção à China e à índia, cujas caravanas embarcavam seus produtos nos portos da Síria e da Palestina.

O chefe de guerra, Heráclio, senhor do império em 610, havia mantido uma guerra santa contra os sassânidas, expulsando-os da costa síria. Em 630, havia restaurado a cruz de Cristo em Jerusalém. Ele não manifestava nenhuma pretensão na Arábia, cujo comércio de caravanas era secundário a seus olhos.

Quando Maomé pretendera pregar sua religião entre os judeus, estes o rejeitaram, considerando sua fé incompatível com a Bíblia; porém, ele havia conseguido reverter sua posição em Meca, transformando-a, em 630, na capital do Islã. Maomé começou a unificação política e religiosa da Arábia, mas toda expansão em direção ao norte lhe era proibida pelas portas de Jerusalém, fechadas. Uma outra religião monoteísta do Livro, apoiando-se sobre uma sociedade fortemente organizada, fazia-lhe obstáculo.

Depois da morte de Maomé, em 632, o Islã ainda era uma religião regional, limitada no espaço às tribos árabes do Hedjaz, e nada anunciava que ela assumiria uma missão universal. Ainda não dispunha de um livro, o Corão, uma coletânea de textos transcritos por Maomé e revelados pelo arcanjo Gabriel (Djabrail). O Corão será redigido somente a partir de 633, com uma versão oficial em 650.

Mas esse monoteísmo simples possuía meios para seduzir imediatamente as massas orientais. Ou seja, um Deus único, sem complicações teológicas como na religião cristã, práticas rituais pouco exigentes: a prece, o jejum, a leitura do Corão, a peregrinação a Meca, a esmola e a profissão da fé. A religião possuía um igualitarismo absoluto, que chegava até a afirmar que um escravo podia ser um califa; uma visão concreta de moral, do bem e do mal, e a recompensa do céu, o paraíso dos eleitos.

Os persas, os gregos, os egípcios e os orientais hostis ao cesaropapismo podiam acolher sem demora a mensagem de Maomé. Era bem mais fácil ao Islã instalar-se, pois por razões financeiras (somente os não-muçulmanos pagavam tributos) a nova fé mostrava-se tolerante para com as outras religiões do Livro, a cristã e a hebraica.

Os descendentes de Maomé se encarregaram de veicular a mensagem por meio de uma explosão guerreira única na história, pois ela não foi somente um fogo de palha como tantas outras conquistas fulgurantes: ela realmente criou um mundo muçulmano durável em alguns anos de guerra santa.

Primeiro o Oriente: o sogro de Maomé, Abu Bakr, proclamado califa (sucessor do profeta) em 632, estabeleceu solidamente a religião em toda a Arábia, suprimindo toda dissidência. Seu sucessor Ornar conquista o Oriente em dez anos, de 634 a 644. A Pérsia sassânida esgotada pela guerra cai em seus braços: eis os árabes donos da rota da seda. Damasco é conquistada em 635, Jerusalém em 638. Alexandria do Egito em 642. O celeiro de trigo do Oriente está nas mãos dos vencedores.

O império bizantino, dividido por questões teológicas e coalhado de bárbaros, não reage. Deixa-se pilhar, mesmo se Bizâncio conserva seus territórios da Ásia Menor e se os árabes, na seqüência, fracassam diante das sólidas muralhas de Constantinopla (cerco de 674 a 677).

A conquista recomeça sob o califado de Othman, o genro do profeta, de 644 a 656. A Pérsia é inteiramente conquistada e os guerreiros levam o estandarte verde até o Cáucaso, ao norte, e em direção à índia, ao sul. Uma guerra civil após o assassinato de Othman, em 656, retarda a guerra santa durante alguns anos. O califa Ali, outro genro do profeta, um muçulmano intransigente, é por sua vez assassinado em 661, abandonado por uma parte de seus fiéis xiitas.

Moawiya o sunita, poderoso parente de Othman, retoma então a guerra santa, torna o califado hereditário, funda a dinastia dos omíadas e reina em Damasco até 750. Ele pensa que a Morada do Islã deve fazer triunfar a fé em todo o mundo graças à Morada da Guerra.

Ele termina em 710 a conquista do Magreb, invade a Espanha a partir de 711, atravessa os Pireneus em 720, espalha-se na Aquitânia, na região de Narbona e no vale do Ródano. Somente em 732 ele é impedido pelo franco Carlos Martel diante de Poitiers. A invasão recua no Ocidente, mas a Espanha será ocupada durante sete séculos.

No Oriente, a conquista não é menos espetacular: no começo do século VIII, os árabes conquistam o Sind, ocupam o Afeganistão e uma parte do Pendjabe, as províncias romanas da Transoxiana e do Sogdiane na Ásia Central.

A dinastia dos omíadas desaparece. Mas ela é logo substituída pela dos abácidas, que reinarão por cinco séculos. Trata-se ao mesmo tempo de uma conquista e de uma ocupação permanente da parte mais rica do antigo império, aquela que está em contato com a índia e com a China. A resistência de Constantinopla é corajosa, porém desesperada.

Em 750, cento e vinte e oito anos após a Hégira, a religião de Maomé conquistou uma parte do mundo, estabeleceu uma dominação durável, sem forçar em nada a conversão dos povos ocupados. Religião de conquista, mas não sectária como a cristã. Ninguém obriga um grego, um judeu, um egípcio ou um visigodo da Espanha a se converter.

Mas, para conservar sua religião, eles devem pagar um tributo e não contestar em nada a dominação do Islã. O poder dos califas é ao mesmo tempo político e religioso; os dois poderes se confundem. A lei à qual estão submetidos os povos é ditada pela religião e não pode ser questionada.

Dessa forma pouco importa que, no período pós-Hégira, o Islã tenha se dividido em sunitas, ortodoxos do Corão e da Suna (os atos do profeta), e em xiitas (sobretudo iranianos), discípulos de Ali, legitimistas do Islã, e em outros integralistas: por mais tolerante que ele seja, o Islã impõe uma dominação política, se apossa dos bens dos outros cleros e de seus tesouros, às vezes de seus lugares de culto, como os lugares santos de Jerusalém.

Assim, uma guerra de religião interminável aponta o Mediterrâneo como um lugar de afrontamentos com, tanto para o Islã quanto para o cristianismo, religiões guerreiras, avanços e recuos: à guerra santa sucede, a partir do século XI, a cruzada, que não é em sua origem uma guerra de reconquista. Ela torna-se rapidamente uma guerra de reconquista quando os príncipes e os mercadores de Veneza se interessam.

A cruzada permite a criação de Estados latinos permanentes no Oriente, defendidos pelos monges Hospitaleiros e Templários. Uma colonização que permite alimentar um comércio marítimo, que beneficia, sobretudo, os produtos com alto valor de troca trazidos pelas caravanas vindas do Extremo Oriente. Mas as vitórias de Saladino rapidamente obrigam os cruzados a retornar. E elas reconstituem no Oriente o eixo Síria-Egito que gerava então a riqueza dos Estados.

De Bagdá a Kairouan e até Córdoba, o Islã garante o desenvolvimento de uma civilização na qual nada é negligenciado para difundir a cultura filosófica, literária, científica, artística, graças ao encorajamento de talentos de toda espécie, médicos judeus e letrados gregos. O Islã propicia o florescimento de focos culturais dos quais os árabes estão freqüentemente ausentes, mesmo se sua língua, tornada literária, assegura o elo dessa nova civilização.

Esse desabrochar dá ao Oriente um avanço sensível: o Ocidente, dilacerado pelas guerras e pelas crises, constrangido em seu comércio, atormentado pela escassez de moeda e pelas dificuldades das trocas, reduzido às rendas das terras e das minas, parece enfraquecido pela guerra santa, conseqüência da Hégira. O Ocidente conhece horas sombrias entre o V e o X séculos. Ele deve esperar o século XI para se beneficiar do renascimento do pensamento, das artes, do conhecimento, e recuperar seu atraso cultural. Cabe então às cidades italianas, nos séculos XIV e XV, restabelecer os laços com o Oriente, apesar das guerras otomanas. O Mediterrâneo não é mais um mar seguro. Não existe mais um mare nostrum.

 

Pequena Cronologia

Maomé e o Islã

  • 570: Nascimento de Maomé, profeta árabe, em Meca, em uma família de aristocratas da cidade. Órfão logo cedo, ele é recolhido por seu tio Abu-Talib. Conduz caravanas por conta própria. Casa-se com Cadija, uma rica mulher. Eles têm uma filha, Fátima, que se casará com seu primo, o filho do tio Abu Talib, o jovem Ali.
  • 613: Começo do apostolado de Maomé. O arcanjo Gabriel lhe apareceu sobre o monte de Hira. Ele pediu a Maomé para pregar a palavra divina. Maomé se diz profeta como Abrão, Moisés e Jesus. Ele está dentro da tradição judaico-cristã.
  • 16 de julho de 622: A Hégira. Maomé rompe radicalmente com sua tribo.
  • 624: Maomé ordena que a prece seja dita em direção a Meca e não a Jerusalém. Ele rompeu com os judeus. Naquele ano, ele obtém em Badr sua primeira vitória militar contra a cidade de Meca.
  • Janeiro de 630: Maomé e seus discípulos apoderam-se de Meca, destroem os ídolos e transformam a Caaba num santuário muçulmano.
  • 632: Após uma última peregrinação a Meca, Maomé morre de uma pleurisia.
  • 633: Primeira reunião de Abu Bakr e de Ornar, sucessor do profeta, para redigir o Corão. O jovem Zaid ben Tsabit é o encarregado. Antigos companheiros do profeta têm seus próprios textos, bem diferentes.
  • 650: O califa Othman impõe uma versão oficial do Corão. Os xiitas, muçulmanos partidários de Ali, protestam contra as supressões, no texto, de passagens relativas à família de Ali e ao próprio Ali.
  • 661: Assassinato de Ali. Os sunitas, seguidores da sunna (a tradição), separam-se violentamente dos xiitas. Eles reconhecem como legítima a transmissão do califado aos omíadas. Os xiitas compreendem atualmente 10% dos muçulmanos, principalmente no Ira, mas também no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão. Eles consideram que o califado deve ser hereditário dentro da família do profeta e que esse direito é de Ali e de seus dois filhos, Hassan e Hussein, e aos filhos destes, os doze imams legítimos.
  • Chama-se de imame o condutor da caravana, e, por extensão, o guia da prece. O imame supremo é o califa, o representante de Deus sobre a terra. Maomé foi o primeiro imame. Para a maioria dos xiitas, o décimo segundo imame, Mohamed el-Muntazar, não morreu. Ele sairá um dia de seu retiro e o imame escondido (ghaib) instaurará a justiça divina.
  • 661: Golpe de estado dos omíadas. Moawiya exclui os imames descendentes de Ali da sucessão do profeta e torna o califado hereditário dentro de sua própria família.
  • 750: Fim da dinastia dos omíadas. Golpe de estado dos abatidas, que reinam até 1258, com os brilhantes califados de Mansur (754-775), Mahdi (775-785), Harun-el-Rachid (786-809) e Mamun(813-833).
  • 753: Fundação do califado de Córdoba, independente dos abácidas,  por Abd-el-Rahman III, um sobrevivente dos omíadas.
  • Século IX: Desenvolvimento dos Estados independentes do Magreb, no Marrocos e na Tunísia, com a conquista muçulmana da Sicília.
  • 969: A dinastia dos fatímidas, xiita, instala-se no Egito e na Síria.
  • 945-1055: Sucessão dos emires (prefeitos do palácio) Buyides, originários da Pérsia, em Bagdá. Poder dividido dos emires nas províncias da Ásia Central.
  • 1055: Os turcos seljúcidas, sunitas, tomam o poder em Bagdá e colocam o califa sob tutela. Eles se opõem aos fatímidas xiitas do Egito.
  • 1082: Os almorávidas e, mais tarde, os almôades conquistam o Maghreb e a Espanha muçulmana. Esses monges guerreiros são intransigentes e puristas.

Bizâncio

  • 395: Divisão do império. Constantinopla torna-se a capital do império do Oriente.
  • 457: O imperador do Oriente é o eleito de Deus e, conseqüentemente, do povo e do exército, e sagrado pela Igreja. Ele é o chefe da Igreja ortodoxa. Reza-se por ele e inclina-se diante dele.
  • 474-491: Reino de Zenão, que entra em conflito com o papa a respeito da discussão dos monofisistas. O patriarca Dióscuros de Alexandria do Egito e o monge Eutíquio são os pais dessa doutrina, afirmando a natureza unicamente divina de Cristo e rejeitando a Reencarnação. Seus discípulos assassinam o patriarca ortodoxo de Alexandria e o substituem por um dos seus. Zenão intervém para impor a união. O resultado é o cisma entre o Oriente e o Ocidente. No Egito, na Etiópia, na Armênia, na Síria constituem-se igrejas monofisistas, que existem até hoje.
  • 527-565: Reino de Justiniano, que realiza uma reconquista parcial do Ocidente.
  • 610-641: Reino de Heráclio e a guerra santa contra os sassânidas do Ira.
  • 629: O imperador toma o nome grego de basileus e Bizâncio torna-se Constantinopla.
  • 674-677: Primeiro cerco de Constantinopla pelos árabes. 717-867: Dinastia isauriana fundada pelo sírio Leão, e a dinastia amoriana fundada por Miguel II, o Gago, em 820. Os imperadores guerreiam contra os árabes e os búlgaros. 867-1057: A dinastia macedônica é instaurada por Basílio I. Reconquista contra os árabes (Mesopotâmia, Armênia, Síria). 1054: Ruptura definitiva entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. O grande cisma estabelece duas Igrejas cristãs separadas e hostis. Os cruzados tomam Constantinopla por duas vezes, em 1203 e em 1204. Não há uma atitude cristã única contra o perigo árabe.