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A alimentação viking era a mais rica da Idade Média na Europa

abril 5, 2017
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Hákarl, uma típica comida islandesa herdeira de métodos vikings de preparo e conservação

Os vikings tinham fama de festeiros que gostavam de se empanturrar de comida e encher a cara de cerveja e hidromel, mas a dieta nórdica era mais rica do que muita gente pensa. Ele possuíam uma alimentação variada, rica em grãos, frutas, carne oriunda de animais criados para o abate, peixes, também de presas abatidas em caçadas e até baleias encalhadas e isso tudo era muito melhor do que outros povos contemporâneos na Europa dispunham.

Além dos registro documentais, pesquisadores encontraram vestígios sobre a nutrição viking em ossadas, antigos sistemas de esgotos e resíduos de lixo. Descobriram que eles também eram acometidos por vermes e intoxicação alimentar pelo consumo de itens inadequados ou contaminados.

Como a carne era muito presente nas refeições vikings, eles mantinham variados rebanhos animais com o propósito alimentar, sobretudo bovinos, caprinos, ovinos e também equinos, galinhas, patos e gansos para obtenção de carne e ovos era outra rica fonte nutricional também produzida nas fazendas vikings. Por meio da caça uma variedade também grande de animais forneciam fartura em carnes, sendo alces e javalis as presas mais estimadas (embora eles não dispensassem pequenas presas como coelhos ou esquilos). Na pescaria no Mar Báltico e no Oceano Atlântico eles obtinham bacalhau, cavala, arinca e várias outras espécies, mas também conseguiam múltiplas opções nos rios. Pratos mais especiais contavam com focas e toninhas (um parente próximo dos golfinhos). Os métodos de conservação de carnes eram feitos por meio de processos de desidratação, decapação (retirada de camadas superficiais das carnes ressecadas), fermentação e defumação ou simplesmente acondicionando o alimento no gelo do inverno.

O consumo de vegetais era intenso e eles dispunham de uma infinidade de opções de frutas, legumes e hortaliças, além dos grão inportantes para a produção de significativa parte da base alimentar, mas sobretudo para a produção da cerveja. Eles cultivavam em canteiros ou em roças nas fazendas e também praticavam coletas de vegetais no meio silvestre.

Na medida em que o vikings iram além da Escandinávia acabavam também se deparando com novas culturas agrícolas, condimentos, preparos e sabores.

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A incrível cirurgia com taxa de mortalidade de 300%

março 29, 2017
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Robert Liston em 1845

O médico escocês Robert Liston (1794-1849) iniciou a prática cirúrgica em seu país, mas sua carreira na terra natal chegou a uma condição crítica porque o dr. Liston era tão bom cirurgião quanto fazedor de intrigas e colecionou inimizades no meio médico de Edimburgo. Indo embora da Escócia, Liston passou a viver e trabalhar em Londres, onde seus talentos foram melhor acolhidos e se tornou famoso como cirurgião de altíssima habilidade.

Num tempo em que ainda não eram utilizados meios anestésicos eficazes, Liston concluiu que a forma mais prática de aliviar o sofrimento dos pacientes era realizar os procedimentos com rapidez. E ele era muito rápido! Cirurgiões que não conseguiam ser tão rápidos quanto Liston poderiam expor os pacientes a riscos maiores durante as cirurgias e a taxa de mortalidade durante os procedimentos era altíssima, mas Liston conseguia obter um índice de fatalidade muito menor. Diziam que ele conseguia amputar uma perna em menos de dois minutos e detinha uma série de outras proezas cirúrgicas realizadas em curtíssimo tempo de procedimento, o que fazia de suas cirurgias motivo de atração para estudantes de medicina, profissionais formados e também de curiosos, que se amontoavam nas galerias das salas de cirurgia para testemunhar o desempenho do dr. Liston.

Vaidoso e ciente de que chamava a atenção, Liston costumava ordenar antes de iniciar os procedimentos que os expectadores marcassem o tempo de duração das cirurgias e detinha o apelido de “A Faca Mais Rápida de West End”. Para garantir a velocidade, o manuseio dos instrumentos era frenético e frequentemente ele utilizava até os dentes para segurar a faca ainda ensanguentada enquanto utilizava uma serra, que depois era jogada de lado para que imediatamente iniciasse a sutura.

Claro que a velocidade também poderia favorecer a imprudência e algumas das cirurgias realizadas pelo dr. Liston terminaram das piores formas exatamente por isso. Um dos casos catastróficos foi extremo e incomum. Tendo que realizar uma rotineira amputação de perna com sua habitual agilidade, Liston encarou um paciente particularmente difícil de conter, pois o homem se debatia fortemente exigindo ainda mais agilidade do cirurgião, que acabou cometendo erros graves ao cortar acidentalmente – em virtude da velocidade de seus movimentos – um assistente e um espectador. O espectador sofreu uma hemorragia e morreu no local e o paciente e o assistente morreram dias depois, ambos infeccionados. O caso ganhou notoriedade, os críticos e detratores do dr. Liston logo passaram a anunciar o caso como o único exemplo de procedimento cirúrgico registrado com taxa de mortalidade de 300%

Só em 1846 o dr. Robert Liston realizou sua primeira cirurgia com anestesia, inovação introduzida na medicina moderna em 1842, quando o dr. Crawford Long experimentou o uso de éter.

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Uma melodia de 1902 é a origem do icônico toque da Nokia

março 7, 2017

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As tecnologias corriqueiras que usamos todos os dias podem esconder surpresas. Esse é o caso do mais popular toque de celular do mundo, que virou característica da Nokia a partir de 1993 e ficou conhecido como “Nokia Tune”.

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O “Nokia Tune”

Trata-se da composição “Gran Vals”, feita pelo violonista clássico e compositor Francisco Tárrega. O trecho é famoso por causa dos toque telefônico e pouco conhecido como uma obra instrumental sofisticada, que Tárrega chegou a apresentar em concertos e apresentações íntimas.

No início da música está o trecho tão famoso, mas vale muito a pena ouvir até o final.

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Vestidos para morrer – Os uniformes de combate que matavam os soldados

março 3, 2017
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Reproduções de trajes de combate britânicos utilizados nas Guerras Napoleônicas

Uniformes militares não apenas identificam os combatentes como também devem ser aparatos práticos e funcionais para quem faz uso deles, mas alguns trajes utilizados em combate acabaram facilitando o trabalho dos adversários.

No século 18 os uniformes que colocavam os soldados em risco eram bem comuns, pois a identidade visual parecia ser mais útil do que a segurança daqueles que vestiam os trajes de combate. A rígida disciplina exigia dos soldados esmero quanto ao visual, disciplinando a aparência num extremo exercício de autoridade e controle. Os oficiais – geralmente nobres – pegavam no pé, cobravam detalhes e gostavam de usar as miudezas estéticas do alinho visual como motivos para demonstrar quem mandava. Soldados eram punidos porque os casacos não estavam perfeitamente cuidados, as botas não estavam lustradas ou qualquer acessório estava fora do lugar adequado e esse rigor visual acabou virando um obstáculo na hora do combate.

Entre os elementos do vestuário incômodos estavam uns colarinhos altos de couro que compunham fardamentos de tropas de diversos países, que atrapalhavam porque reduziam a agilidade e mobilidade no movimento do pescoço dos soldados, que também frequentemente prendiam os queixos nos inúteis colarinhos. Na prática um detalhe como esse poderia resultar em deficiência no campo de batalha.

O desconforto do traje também poderia ser péssimo e neste quesito o uniforme prussiano por ocasião da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) era um perfeito exemplo, pois era exageradamente apertado por economia de material têxtil e ficava ainda pior quando molhado. O uso de roupas muito justas como a prussiana restringia o movimento, podia atrapalhar a circulação, gerar incômodos pelo desconforto e também era péssimo para proteção contra o resfriamento do clima, sobretudo porque – também por economia – o exército não forneceu capas ou agasalhos para os combatentes e como resultado muitos chegaram a morrer por congelamento.

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Combatente hessiano com seu esplendoroso (e perigoso) chapéu 

Por ocasião da Revolução Americana (1775-1783) os britânicos recorreram ao reforço de mercenários alemães, que compunham a tropa hessiana (nome derivado da origem do contingente, já que muitos dos combatentes eram da região de Hessen-Kassel). Além dos uniformes vistosos, os hessianos usavam um exuberante chapéu ricamente ornamentado e este detalhe de beleza era justamente o ponto vulnerável da composição visual dos soldados, pois além de atrapalhar o movimento da cabeça, esbarravam em galhos e faziam com que os emblemas brilhantes reluzissem na claridade virando visíveis alvos para os atiradores americanos, que facilmente realizavam tiros nas cabeças dos oponentes, que viravam também vítimas da estética.

Os uniformes britânicos traziam detalhe mortal para seus soldados: uma aparentemente inofensiva (e inútil) faixa branca que se destacava sobre o casaco vermelho e pendia geralmente do alto do ombro direito, passando sobre o centro do tórax do combatente. Por que esse adereço era um problema? Por facilitar a pontaria do atirador, pois graças à faixa o oponente poderia mirar com melhor referência no coração do britânico elegantemente vulnerável.

De início os casacos vermelhos dos britânicos até chegavam a ser importantes como armas de intimidação, pois muitos inimigos tremiam diante dos pelotões que realmente causavam impressão com o grau de uniformidade que a visão dos soldados gerava. Mas não tardou e essa vantagem se converteu num problema. Ainda durante a Revolução Americana os casacos vermelhos se destacavam diante da paisagem e os soldados viravam alvos fáceis em virtude do destaque da cor de seus uniformes (que também contavam com a incômoda gola alta). Só no século 19 os britânicos se convenceram de que o vermelho não era uma cor adequada para uso em combate.

Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) uniformes também geravam problemas e a falta deles era algo ainda pior. No caso das tropas sulistas a situação de escassez era grande e a precariedade muitas vezes precisou contar com a reciclagem de itens. Durante a Batalha de Shiloh (1862) a situação foi desastrosa porque significativa parte dos soldados confederados foram colocados em combate usando uniformes que haviam sido recolhidos de adversários capturados, ou seja, lutaram usando uniformes inimigos. Durante as confusões típicas em combate, vários sulistas foram alvos de “fogo amigo” porque eram confundidos com soldados da União.

Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) uniformes continuavam causando estragos. Muitos dos exércitos dos países em combate já haviam abandonado seus uniformes tradicionais e nada práticos, recorrendo a cores neutras e com detalhes de camuflagem indispensáveis numa fase em que armas com mais precisão eram utilizadas, mas também eram usuais determinados detalhes que atrapalhavam os soldados. Os soldados franceses, por exemplo, entraram em guerra usando belos chapéus e não capacetes de aço – só durante a guerra trocaram a elegância pela funcionalidade, coisa que os alemães perceberam desde o início ao adotarem os stahlhelme, que protegiam bem as cabeças de seus soldados. Por insistência do ministro da guerra a França também não iniciou a guerra usando as tradicionais calças vermelhas da infantaria dos tempos de Napoleão e antes do conflito essa determinação foi duramente criticada na imprensa por representar um ultraje ao bom gosto e orgulho pátrio, mas o ministro estava certo, afinal, outras tropas combatentes de outros países resolveram apostar na tradição e seus soldados viraram alvos visualmente destacados nos campos de combate. O caso dos soldados romenos foi bem exemplificativo, pois eles entraram na guerra usando uniformes cheios de detalhes e destaques visuais nada discretos, ou seja, estavam na condição de alvos ambulantes bastante óbvios. Muitos morreram elegantemente trajados numa guerra que exigia trajes discretos.

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Os muros

fevereiro 28, 2017

Originalmente escrito para o jornal Humanitas (Ed. 57), Recife/PE

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Jornal Humanitas

“Precisamos de pontes, não de muros”, disse o papa Francisco, numa celebração dominical que evocava os 25 anos da queda do Muro de Berlim.

Esta alusão a muros e pontes é recorrente e tem variáveis em torno da mesma ideia: escolhemos insistentemente a divisão em vez da união.

Muros são personagens históricos quase vívidos, impondo-se firmes e verticalmente como opressores, separando aquilo que não se quer unido, dividindo aquilo que não se quer somado.

Muros remontam a nosso berçário civilizacional, quando grupos antigos montavam obstáculos físicos para deter inimigos e garantir seus domínios.

As cidades antigas eram muradas e também passaram a ser murados alguns limites mais amplos, demarcando mundos distintos de humanos distintos.

Entre os anos 122 e 126 o imperador romano Adriano mandou erigir o Vallum Aelium, que passou a ser reconhecido com naturalidade como a Muralha de Adriano e tinha propósito defensivo militar estratégico, mas também deixava clara a ideia de que do lado de lá da estrutura estava uma outra natureza de homens, os bárbaros, as tribos animalescas que não eram assemelhadas ao esplendor de Roma.

Séculos e muros depois, na Alemanha (ou nas Alemanhas) o Muro de Berlim traçava os limites entre modelos sociais e projetos políticos que se afirmavam como opostos.

Este muro durou relativamente pouco, mas os simbolismos em torno dele são presentes e serão duradouros e por isso mesmo referenciam outras muralhas demarcatórias e divisionistas.

O Muro de Israel construído sobre a Palestina e sobre os palestinos é outra obra de nossa engenharia da truculência e está ainda em expansão, traçando uma abusiva fronteira tridimensional de concreto em terras tomadas dos palestinos por meio dos assentamentos israelenses irregulares que são fincados diante do silêncio omisso (ou conivente e até parceiro) do Ocidente.

Como a divisão é uma vocação que os poderosos exercem como uma missão, o novo muro em evidência é o ianque, que foi elevado a uma condição de obsessão pelo presidente Trump.

O presidente de franja quer que os mexicanos paguem pelo muro que é seu projeto populista de ludibriar os ianques, imputando aos estrangeiros pobres que cruzam a fronteira as mazelas que não foram produzidas por eles.

Mister Trump condena os mexicanos pelo narcotráfico que “invade” os EUA, mas não se atém ao fato de que seus compatriotas são os maiores consumidores de drogas do mundo e o maior mercado do mundo gera oferta.

O capitalismo que Trump segue como religião funciona assim: se há demanda abundante a oferta buscará satisfazer o mercado, logo, com muro ou sem mexicanos não faltarão depois fornecedores e estrangeiros a quem culpar pelo pecado pátrio.

O Muro de Trump é um projeto velho. É resultado de uma perspectiva antiga que também rotula e estabelece uma divisão fundada em poder e presunção.

Os bárbaros ao sul do muro são os mexicanos do México e os mexicanos genéricos até a Patagônia. Somos esses mexicanos também, embora muitos de nós não tenham percebido.

Que o Muro de Trump nos sirva como lição sobre o que queremos para a América Latina, pois ou o concreto nos subjuga ou nos faz entender que precisamos de um novo rumo para os americanos ao sul do Rio Bravo, um rumo nosso, integrado e próspero porque esta América Latina de veias abertas sobre a qual escreveu o uruguaio Eduardo Galeano precisa gerar riqueza também para os seus filhos.

O general nacionalista mexicano Porfírio Díaz governou seu país em duas oportunidades e proferiu uma sábia verdade sobre a situação de sua terra: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos EUA”.

Que o lamento de Díaz deixe de ser uma dolorida constatação para os mexicanos do México e para os demais mexicanos dos outros Méxicos da América Latina. E que nossas elites não tenham a cabeça, o coração e os interesses do outro lado do muro.

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A eterna peleja do general Abreu e Lima

fevereiro 22, 2017

Por Paulo Santos Oliveira, publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 6, em novembro de 2010

Abreu e Lima foi um defensor implacável das liberdades civis. Por elas, arriscou a vida e até a alma

general_abreu_e_limaQuando o jovem capitão de artilharia José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869) fugiu do cárcere da Fortaleza de São Pedro, em Salvador, em outubro de 1817, seu futuro era mais do que incerto. A revolução que deveria libertar o Brasil do domínio português, pela qual tanto havia trabalhado, acabara de ser sufocada, ao custo de mais de 1.500 mortos e feridos e cerca de 800 degredados, em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Centenas de outros patriotas também estavam presos, sua rica família tivera os bens sequestrados, e ele e seu irmão Luís foram obrigados a assistir ao fuzilamento do pai, o advogado e ex-sacerdote apelidado de “Padre Roma” (1768-1817), na Bahia, para onde fora enviado como agente secreto do Governo Provisório pernambucano.

Aos 23 anos, José Inácio tinha apenas uma certeza: jamais deixaria de lutar pela liberdade e pelo direito dos cidadãos de fazerem suas próprias escolhas, inclusive as religiosas. E depois de arriscar a vida em dezenas de batalhas pela América do Sul, ele, um católico praticante, ainda enfrentaria a ira da Igreja por estas mesmas causas, aos 74 anos, pondo em risco sua alma imortal.

Após a fuga da prisão, os irmãos Abreu e Lima embarcaram clandestinamente para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde, no início de 1818, se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas, e de lá partiram para a Venezuela. Luís ficou pelo caminho, pois conseguiu emprego em Porto Rico. José Inácio seguiu adiante, e no começo de 1819 chegou a Angostura, cidade erguida no meio da selva amazônica, às margens do Rio Orenoco, onde Simón Bolivar (1783-1830) havia montado o seu quartel-general. Lá, o pernambucano se tornou colaborador do Correo del Orinoco, porta-voz dos rebeldes bolivarianos, e polemizou com o jornalista Hipólito da Costa (1774-1823), que, de Londres, editava mensalmente o Correio Braziliense, no qual defendia uma monarquia constitucional no Brasil e atacava a revolução nordestina de 1817.

Em Angostura, o capitão também assistiu ao congresso de fundação da Terceira República venezuelana. Em seguida, engajado no Estado-Maior de um exército de dois mil homens comandado por Bolívar, atravessou a América do Sul numa marcha duríssima: primeiro, cruzando a Amazônia; depois, a vasta região pantanosa dos llanos debaixo de chuva; e, finalmente, escalando os Andes em pleno inverno. Em cinco meses chegou ao altiplano boyacaense com uma tropa desfalcada, doente e desarmada. Mas com o auxílio da população local, o Libertador derrotou a Terceira Divisão, um dos melhores corpos militares da Espanha, e libertou o vice-reino de Nova Granada — o Panamá e a Colômbia atuais.

Abreu e Lima acompanhou Bolivar nessa jornada épica, participando de todas as batalhas e ganhando várias condecorações, além da fama de valente. Também esteve nas campanhas dos três anos seguintes, que decretaram a libertação de Quito, atual Equador; da Venezuela e do antigo Peru, que se dividiria nos atuais Peru e Bolívia. Mas, consolidadas as independências, explodiram as intrigas e as disputas pelo poder. À maior parte das elites venezuelanas, granadinas e quitenses não interessava que suas nações permanecessem unidas numa só, a Grã-Colômbia, como queria Bolívar, e também não aprovavam vários de seus projetos, como abolição da escravatura, reforma agrária, educação popular, etc.

Em 1825, o já coronel Abreu e Lima se viu envolvido em outros confrontos de natureza política. Passou a ser atacado por gente que queria atingir o Libertador, de quem era fiel escudeiro, e o fato de ser estrangeiro – pior ainda, brasileiro – fazia dele um alvo fácil. Ora, o Brasil acabara de se separar de Portugal, mas, ao contrário dos seus vizinhos, transformara-se em império, não em república. E o imperador D. Pedro I era tido como um absolutista ferrenho, ligado às monarquias europeias mais conservadoras, inclusive pelo casamento com uma princesa austríaca, D. Leopoldina. Caluniado pela imprensa por Antônio Leocadio Guzmán (1801-1884), o coronel, de temperamento exaltado, feriu o rosto do desafeto com o sabre em plena rua. Por esse gesto foi submetido a Conselho de Guerra e enviado para o deserto de Bajo Seco, onde ficou encarcerado por seis meses.

No final de 1826, Abreu e Lima deu baixa do exército, mas Bolívar o chamou de volta, em 1828, e o incumbiu, junto com o abade Dominique Dufor de Pradt (1759-1837) de defendê-lo, no Courrier Français, dos ataques que o filósofo Benjamin Constant (1767-1830) lhe fazia em outros jornais franceses. A guerra política declarada contra as ideias bolivaristas havia cruzado o Atlântico.

Desgastado pelas campanhas difamatórias e sofrendo de tuberculose já em estágio avançado, o Libertador renunciou à Presidência dois anos depois, e saiu de Bogotá rumo ao litoral colombiano, de onde pretendia partir para o exílio na Europa. Abreu e Lima, promovido a general, também o acompanhou nesse derradeiro trajeto.

Bolívar morreu em Santa Marta, na Colômbia, no dia 17 de dezembro de 1830. Poucos meses depois, o pernambucano e outros militares estrangeiros foram expulsos de lá por inimigos políticos do antigo líder que haviam ocupado o poder. Depois de uma viagem pela Europa, onde se encontrou com o rei Luís Felipe, da França, e com D. Pedro I, que já havia abdicado do trono brasileiro em 1831, o general voltou para o Brasil no ano seguinte. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro e alinhou-se aos conservadores do Partido Caramuru, abraçando as mesmas ideias de Hipólito da Costa, com quem polemizara na juventude. Decepcionado com o esfacelamento da Grã-Colômbia, Abreu e Lima passou a ver na monarquia constitucional o único sistema capaz de manter a nação brasileira coesa. Por isso, pós de lado seus ressentimentos com os Bragança, que tanto mal haviam causado à sua província e à sua família. Para ele, o estabelecimento de uma República no Brasil levaria ao poder os donos de terras, que também eram donos da maioria dos votos. E esses “senhores feudais” – como Abreu se referia aos grandes proprietários de terras – certamente não se preocupariam com o bem-estar das massas.

Essas convicções fizeram com que Abreu e Lima entrasse em conflito com vários liberais, como o jornalista Evaristo da Veiga (1779-1837), de quem recebeu injúrias e até ameaças de morte, e o cônego Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838. Em 1836, ele lançou um jornaleco, O Raio de Júpiter, para defender a regência de D. Januária, irmã do futuro imperador Pedro II. Em 1843, publicou uma História do Brasil e foi novamente atacado pelo cônego Januário, dessa vez como “plagiador”. Desencantado com a Corte, o general voltou para Recife, onde fundou o jornal A Barca de São Pedro, e em 1848 se envolveu em outra das muitas revoltas libertárias pernambucanas, a Praieira. Considerado um dos cabeças do movimento, Abreu e Lima passou dois anos preso na ilha de Fernando de Noronha. Anistiado, ele se retirou da política, mas não se afastou das polêmicas. Em 1855, publicou O Socialismo, no qual criticava os principais defensores dessa linha de pensamento anteriores a Karl Marx (1818-1883), que não foi citado. Embora reconhecesse o conflito de classes, ele não defendia a superioridade de nenhuma delas. Para ele, “o socialismo não era uma ciência, nem uma doutrina, nem uma religião, nem uma seita, nem um sistema, nem um projeto, nem uma ideia”, mas “um desígnio da Providência”.

Mesmo tendo se assumido politicamente como conservador, continuou a ser um defensor de todas as liberdades – inclusive a religiosa -, o que lhe acarretou novos transtornos. Ao distribuir entre amigos algumas Bíblias que ganhara de protestantes ingleses, ele enfureceu o monsenhor Joaquim Pinto de Campos, um sertanejo bravo e extremamente reacionário, que passou a atacá-lo violentamente no Diário de Pernambuco ao longo de 1868. E o velho artilheiro disparava seus obuses de volta pelo Jornal do Recife.

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Túmulo de Abreu e Lima no Cemitério dos Ingleses, Recife

Em meio a esse debate, José Inácio de Abreu e Lima morreu, no dia 8 de março de 1869, sem abjurar suas ideias, e isso fez com que o bispo de Olinda, D. Francisco Cardoso Ayres, lhe negasse sepultura em campo-santo brasileiro. Seus restos só puderam ser inumados em terras estrangeiras, no Cemitério dos Ingleses de Recife, debaixo de uma cruz celta. Mas o “General das Massas” não perdeu sua última batalha. A repercussão desse caso criou tanta polêmica em âmbito nacional que, dois anos depois, a administração dos cemitérios públicos foi retirada da Igreja, e o país deu mais um passo rumo às liberdades civis defendidas por ele ao longo de toda a vida.

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Registros arqueológicos medievais feitos por uma criança

fevereiro 20, 2017

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Em Novgorod, na Rússia, em pleno século XIII crianças também gostavam de se expressar. Era o caso do pequeno Onfim que tinha por volta dos 6 ou 7 anos de idade quando resolveu rabiscar por toda parte utilizando um objeto com ponta afiada, criando sem querer um lindo registro arqueológico da vida medieval em Novgorod a partir da perspectiva infantil.

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Desenhos e uma lição de gramática

O menino foi registrando em tábuas várias coisas que eram de seu interesse por meio de desenhos e textos. Lições aprendidas em sua experiência educacional também foram gravadas para a posteridade e para a curiosidade de intrometidos arqueólogos no futuro a exemplo de seu estudo sobre o alfabeto e sobre um salmo bíblico.

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Desenho de um cavaleiro chamado Onfim golpeando uma vítima que está no chão. A projeção do desejo do menino para seu futuro?

Onfim tinha sonhos. Ele gostaria de ser um cavaleiro e expressou isso num de seus desenhos, no qual o próprio Onfim era retratado como um cavaleiro. Cenas de guerras e de mortes não eram estranhas para o menino, pois elas também foram retratadas.

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