Archive for the ‘Personagens’ Category

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A eterna peleja do general Abreu e Lima

fevereiro 22, 2017

Por Paulo Santos Oliveira, publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 6, em novembro de 2010

Abreu e Lima foi um defensor implacável das liberdades civis. Por elas, arriscou a vida e até a alma

general_abreu_e_limaQuando o jovem capitão de artilharia José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869) fugiu do cárcere da Fortaleza de São Pedro, em Salvador, em outubro de 1817, seu futuro era mais do que incerto. A revolução que deveria libertar o Brasil do domínio português, pela qual tanto havia trabalhado, acabara de ser sufocada, ao custo de mais de 1.500 mortos e feridos e cerca de 800 degredados, em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Centenas de outros patriotas também estavam presos, sua rica família tivera os bens sequestrados, e ele e seu irmão Luís foram obrigados a assistir ao fuzilamento do pai, o advogado e ex-sacerdote apelidado de “Padre Roma” (1768-1817), na Bahia, para onde fora enviado como agente secreto do Governo Provisório pernambucano.

Aos 23 anos, José Inácio tinha apenas uma certeza: jamais deixaria de lutar pela liberdade e pelo direito dos cidadãos de fazerem suas próprias escolhas, inclusive as religiosas. E depois de arriscar a vida em dezenas de batalhas pela América do Sul, ele, um católico praticante, ainda enfrentaria a ira da Igreja por estas mesmas causas, aos 74 anos, pondo em risco sua alma imortal.

Após a fuga da prisão, os irmãos Abreu e Lima embarcaram clandestinamente para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde, no início de 1818, se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas, e de lá partiram para a Venezuela. Luís ficou pelo caminho, pois conseguiu emprego em Porto Rico. José Inácio seguiu adiante, e no começo de 1819 chegou a Angostura, cidade erguida no meio da selva amazônica, às margens do Rio Orenoco, onde Simón Bolivar (1783-1830) havia montado o seu quartel-general. Lá, o pernambucano se tornou colaborador do Correo del Orinoco, porta-voz dos rebeldes bolivarianos, e polemizou com o jornalista Hipólito da Costa (1774-1823), que, de Londres, editava mensalmente o Correio Braziliense, no qual defendia uma monarquia constitucional no Brasil e atacava a revolução nordestina de 1817.

Em Angostura, o capitão também assistiu ao congresso de fundação da Terceira República venezuelana. Em seguida, engajado no Estado-Maior de um exército de dois mil homens comandado por Bolívar, atravessou a América do Sul numa marcha duríssima: primeiro, cruzando a Amazônia; depois, a vasta região pantanosa dos llanos debaixo de chuva; e, finalmente, escalando os Andes em pleno inverno. Em cinco meses chegou ao altiplano boyacaense com uma tropa desfalcada, doente e desarmada. Mas com o auxílio da população local, o Libertador derrotou a Terceira Divisão, um dos melhores corpos militares da Espanha, e libertou o vice-reino de Nova Granada — o Panamá e a Colômbia atuais.

Abreu e Lima acompanhou Bolivar nessa jornada épica, participando de todas as batalhas e ganhando várias condecorações, além da fama de valente. Também esteve nas campanhas dos três anos seguintes, que decretaram a libertação de Quito, atual Equador; da Venezuela e do antigo Peru, que se dividiria nos atuais Peru e Bolívia. Mas, consolidadas as independências, explodiram as intrigas e as disputas pelo poder. À maior parte das elites venezuelanas, granadinas e quitenses não interessava que suas nações permanecessem unidas numa só, a Grã-Colômbia, como queria Bolívar, e também não aprovavam vários de seus projetos, como abolição da escravatura, reforma agrária, educação popular, etc.

Em 1825, o já coronel Abreu e Lima se viu envolvido em outros confrontos de natureza política. Passou a ser atacado por gente que queria atingir o Libertador, de quem era fiel escudeiro, e o fato de ser estrangeiro – pior ainda, brasileiro – fazia dele um alvo fácil. Ora, o Brasil acabara de se separar de Portugal, mas, ao contrário dos seus vizinhos, transformara-se em império, não em república. E o imperador D. Pedro I era tido como um absolutista ferrenho, ligado às monarquias europeias mais conservadoras, inclusive pelo casamento com uma princesa austríaca, D. Leopoldina. Caluniado pela imprensa por Antônio Leocadio Guzmán (1801-1884), o coronel, de temperamento exaltado, feriu o rosto do desafeto com o sabre em plena rua. Por esse gesto foi submetido a Conselho de Guerra e enviado para o deserto de Bajo Seco, onde ficou encarcerado por seis meses.

No final de 1826, Abreu e Lima deu baixa do exército, mas Bolívar o chamou de volta, em 1828, e o incumbiu, junto com o abade Dominique Dufor de Pradt (1759-1837) de defendê-lo, no Courrier Français, dos ataques que o filósofo Benjamin Constant (1767-1830) lhe fazia em outros jornais franceses. A guerra política declarada contra as ideias bolivaristas havia cruzado o Atlântico.

Desgastado pelas campanhas difamatórias e sofrendo de tuberculose já em estágio avançado, o Libertador renunciou à Presidência dois anos depois, e saiu de Bogotá rumo ao litoral colombiano, de onde pretendia partir para o exílio na Europa. Abreu e Lima, promovido a general, também o acompanhou nesse derradeiro trajeto.

Bolívar morreu em Santa Marta, na Colômbia, no dia 17 de dezembro de 1830. Poucos meses depois, o pernambucano e outros militares estrangeiros foram expulsos de lá por inimigos políticos do antigo líder que haviam ocupado o poder. Depois de uma viagem pela Europa, onde se encontrou com o rei Luís Felipe, da França, e com D. Pedro I, que já havia abdicado do trono brasileiro em 1831, o general voltou para o Brasil no ano seguinte. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro e alinhou-se aos conservadores do Partido Caramuru, abraçando as mesmas ideias de Hipólito da Costa, com quem polemizara na juventude. Decepcionado com o esfacelamento da Grã-Colômbia, Abreu e Lima passou a ver na monarquia constitucional o único sistema capaz de manter a nação brasileira coesa. Por isso, pós de lado seus ressentimentos com os Bragança, que tanto mal haviam causado à sua província e à sua família. Para ele, o estabelecimento de uma República no Brasil levaria ao poder os donos de terras, que também eram donos da maioria dos votos. E esses “senhores feudais” – como Abreu se referia aos grandes proprietários de terras – certamente não se preocupariam com o bem-estar das massas.

Essas convicções fizeram com que Abreu e Lima entrasse em conflito com vários liberais, como o jornalista Evaristo da Veiga (1779-1837), de quem recebeu injúrias e até ameaças de morte, e o cônego Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838. Em 1836, ele lançou um jornaleco, O Raio de Júpiter, para defender a regência de D. Januária, irmã do futuro imperador Pedro II. Em 1843, publicou uma História do Brasil e foi novamente atacado pelo cônego Januário, dessa vez como “plagiador”. Desencantado com a Corte, o general voltou para Recife, onde fundou o jornal A Barca de São Pedro, e em 1848 se envolveu em outra das muitas revoltas libertárias pernambucanas, a Praieira. Considerado um dos cabeças do movimento, Abreu e Lima passou dois anos preso na ilha de Fernando de Noronha. Anistiado, ele se retirou da política, mas não se afastou das polêmicas. Em 1855, publicou O Socialismo, no qual criticava os principais defensores dessa linha de pensamento anteriores a Karl Marx (1818-1883), que não foi citado. Embora reconhecesse o conflito de classes, ele não defendia a superioridade de nenhuma delas. Para ele, “o socialismo não era uma ciência, nem uma doutrina, nem uma religião, nem uma seita, nem um sistema, nem um projeto, nem uma ideia”, mas “um desígnio da Providência”.

Mesmo tendo se assumido politicamente como conservador, continuou a ser um defensor de todas as liberdades – inclusive a religiosa -, o que lhe acarretou novos transtornos. Ao distribuir entre amigos algumas Bíblias que ganhara de protestantes ingleses, ele enfureceu o monsenhor Joaquim Pinto de Campos, um sertanejo bravo e extremamente reacionário, que passou a atacá-lo violentamente no Diário de Pernambuco ao longo de 1868. E o velho artilheiro disparava seus obuses de volta pelo Jornal do Recife.

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Túmulo de Abreu e Lima no Cemitério dos Ingleses, Recife

Em meio a esse debate, José Inácio de Abreu e Lima morreu, no dia 8 de março de 1869, sem abjurar suas ideias, e isso fez com que o bispo de Olinda, D. Francisco Cardoso Ayres, lhe negasse sepultura em campo-santo brasileiro. Seus restos só puderam ser inumados em terras estrangeiras, no Cemitério dos Ingleses de Recife, debaixo de uma cruz celta. Mas o “General das Massas” não perdeu sua última batalha. A repercussão desse caso criou tanta polêmica em âmbito nacional que, dois anos depois, a administração dos cemitérios públicos foi retirada da Igreja, e o país deu mais um passo rumo às liberdades civis defendidas por ele ao longo de toda a vida.

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Grutte Pier – o gigante guerreiro camponês

fevereiro 8, 2017
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Grutte Pier no game Cross of the Dutchman

Um dos mais temidos guerreiros que a Europa conheceu foi Pier Gerlofs Donia (1480-1520), mais popularmente conhecido como Grutte Pier (“O Grande Pier”). Grutte Pier viveu e foi famoso na Frísia (região na costa sudeste do Mar do Norte, com terras que hoje fazem parte da Holanda, norte da Alemanha e sudoeste da Dinamarca), criado numa tradição regional de povos afamados por suas habilidades náuticas e disposição para a guerra, contudo numa época em que a região estava longe de seu apogeu, fazendo parte dos interesses da nobreza estrangeira, notadamente da Casa de Habsburgo.

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A espada de Grutte Pier, museu de Leeuwarden, na Holanda

Nos conflitos na Frísia eram comuns os grupos mercenários que atacavam sob pagamento e que frequentemente saqueavam aldeias e um desses grupos era o Batalhão Negro, que atuava a serviço dos Habsburgos. Em janeiro de 1515 os mercenários atacaram a aldeia de Grutte Pier, incendiando a igreja local e provocando sua ira com o suposto estupro e assassinato de Rintze, sua devotada esposa. Após a ofensa Grutte Pier colocou-se a serviço de Carlos Egmond, o Duque de Gueldres, principal rival dos Habsburgos na região e então benfeitor dos rebeldes contra o domínio estrangeiro. Comandando seu próprio grupamento mercenário, o Bando Negro, Grutte Pier liderou ataquem contra navios e saques de cargas que causaram grandes prejuízos aos ingleses e principalmente aos holandeses, posteriormente também investindo em brutais ataques a cidades em torno da região frísia, realizando massacres, pilhagens e também sequestros de nobres com exigência de resgate. Grutte Pier foi aclamado por muitos frísios como um rei, um herói do povo e o Bando Negro deixava um rastro de destruição por onde passava, o que mobilizava também muitas forças e interesses em sua derrota, contudo seu líder não sofreu derrotas nem caiu em mãos inimigas, morrendo ao 40 anos aparentemente de causas naturais enquanto dormia em outubro de 1520.

Várias façanhas foram atribuídas a Grutte Pier, sobretudo histórias de lutas e proezas incríveis e essas narrativas ampliavam os apelos populares em torno de sua figura. Era corriqueira a exaltação ao tamanho do guerreiro, descrito como um indivíduo corpulento que manejava com apenas uma mão uma Zweihänder, tipo de espada que precisava ser empunhada com as duas mãos. Dizia-se que com um único golpe O Grande Pier matava vários oponentes de uma vez, que ele carregava o arado e preparava a terra para a plantação sem a necessidade de cavalos. Consta que em 1791 foi encontrada uma das espadas Grutte Pier, uma imensa Zweihänder de 2,15 metros e de quase 7 quilos.

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Napoleão, um general da propaganda

janeiro 7, 2017

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Napoleão foi sem dúvidas um incrível general, um carismático e habilidoso líder político e tornou-se uma figura histórica icônica, mas ele também contou com uma eficiente propaganda para ressaltar sua imagem, seus dotes e feitos.

Ainda nas campanhas militares de 1796 e 1797 a imagem de Napoleão começou a ser reforçada pela propaganda. Na ocasião ele era um jovem comandante militar em ascensão, mas estava longe de ser um líder político com apelo popular quando teve a ideia de recorrer à mídia como arma estratégica. Sua ideia inicial era produzir notícias sobre a própria guerra para promover apoio entre os civis e estimular os soldados e fundou dois em suas campanhas militares na Itália: Courrier de l’Armée d’Italie (“Correio do Exército da Itália”) e La France Vue de l’Armée d’Italie (“A França vista do Exército da Itália”). As publicações eram distribuídas entre os combatentes, mas eram remetidas também para a França, onde eram acolhidas com entusiasmo e curiosidade, o que reforçava a imagem do comandante perante os cidadãos. Certamente a linha editorial dos jornais era bastante parcial, pois ressaltavam a liderança de Napoleão e as vitórias sob seu comando, omitindo detalhes sobre dificuldades e derrotas em investidas que não deram certo e além disso os dois jornais não existiam por acaso, pois um deles possuía uma linha mais voltada para os revolucionários (Currier) e o outro tinha um tom mais moderado para agradar aos conservadores (La France), logo, Napoleão buscava atingir tanto os radicais quanto os conservadores de uma vez.

Nas ruas de Paris eram alardeados os feitos do destemido general, que passou a figurar em conversas, poemas, encenações teatrais, gravuras e pinturas representando cenas de batalhas ou retratos de um glorioso e imponente Napoleão e na medida em que conquistava mais prestígio ele promovia ainda mais sua imagem.

Por ocasião da Campanha do Egito a propaganda chegou a níveis incríveis. Em sua expedição quase 200 eruditos de diversos campos integraram a comitiva napoleônica não apenas para agradar seus interesses reais por conhecimento mas também para produzir notícias e gerar repercussão, ressaltando Napoleão como um erudito iluminista promotor de descobertas científicas e difusão dos saberes do distante e opulento Egito (em 1798 ele foi eleito como membro da distinta Academia Francesa de Ciências).

Assim como ocorreu na campanha italiana, ele também criou publicações na expedição no Egito. O jornal Courrier de l’Egypte (“Correio do Egito”) era destinado a um público mais abrangente que incluía as tropas e os cidadãos comuns na França, ressaltava os êxitos militares e diplomáticos, revertia até insucessos sobre derrotas – que eram narradas como sucessos. O jornal La Décade Egyptienne (“A Década Egípcia”) era mais erudito e tratava das descobertas científicas e relatos dos trabalhos dos pesquisadores integrantes da expedição. Os jornais alimentaram a fama de Napoleão, recepcionado de volta triunfante apesar do fato de que a investida sobre o Egito ter rendido resultados que não correspondiam ao que clamava a propaganda – Napoleão foi embora do Egito deixando para trás um exército doente, arruinado, isolado e entregue à própria sorte.

Com a cada vez maior projeção política de Napoleão a propaganda também foi uma ferramenta de poder. Ele alardeava enquanto galgava os degraus políticos a defesa da liberdade da imprensa, o que era uma posição que gerava simpatia e promovia a imagem de um líder moderno e atento aos clamores do Iluminismo, mas quando se tornou imperador a postura diante da imprensa mudou significativamente. O imperador Napoleão I adotou uma postura rígida e autoritária, o que gerou descontentamentos e, consequentemente, resultou em manifestações críticas na imprensa livre. Para conter as críticas e denúncias contra si e seu governo, Napoleão instituiu um órgão de controle das atividades de imprensa e editoriais, estabelecendo censura, supervisão das atividades dos editores, jornalistas, autores e estabelecimentos. Apesar de tanto controle, nem toda censura conseguiu esconder suas derrotas mais evidentes e a imagem do líder ficou seriamente ofuscada por um descontentamento que não poderia ser simplesmente revertido por propaganda.

Mesmo em seu exílio em Santa Helena Napoleão continuou insistente no propósito de promover sua reputação. Ele se cercou por diversos interlocutores – muitos também exilados – com quem tinha longas conversas sobre seus feitos e ideias. Destas conversas surgiram após sua morte diversos relatos e registros das memórias de Napoleão e vários livros, que talvez tenham sido resultados de outra genial ação propagandista para a posteridade.

Adaptação de “Napoleon: The Great General Also Used Propaganda to Boost His Popularity”
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A incrível história do japonês que permaneceu em combate na Segunda Guerra Mundial até 1974

julho 14, 2016
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Hiroo Onoda em 1944

Duas datas e ocasiões são referências para o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. A primeira é o dia 8 de maio, fim do conflito na Europa e a segunda é o dia 2 de setembro, quando encerraram os embates na Ásia com a rendição do Japão. Enfim, a guerra havia acabado, mas não para todos os combatentes, pois o japonês Hiroo Onoda, que era descendente de uma tradicional família de samurais, continuou firme em seu posto de combate até 1974, pois não tomou notícia do fim da guerra.

Ele cumpriu por tempo demais sua missão em Lubang, nas Filipinas, onde deveria integrar a chamada Brigada Sugi, que tinha como propósito estratégico causar danos em pelotões norte-americanos que também estavam presentes na ilha e para isso o grupo de Onoda estava preparado para atuar em ações de guerrilha e na realização de atos de sabotagem. Onoda tinha treinamento como integrante da inteligência tática do Exército Imperial e por isso atuar em condições severas era normal para ele e seus homens, mas sua missão não foi exitosa e a brigada acabou sendo derrotada em combate, sendo forçada à rendição em 28 de fevereiro. Mas o tenente Onoda, o cabo Shoichi Shimada e os soldados Kinsshichi Kozuda e Yuichi Akatsu resolveram resistir, seguindo um plano de retirada para as montanhas e permaneceram lá sem tomar conhecimento dos fatos além da ilha do arquipélago filipino.

Os norte-americanos sabiam que ainda havia soldados japoneses em Lubang e em outras localidades nas Filipinas e passaram a tentar alertar aos desavisados a respeito do fim da guerra através de panfletos que eram jogados a partir de aviões, por mensagens de rádio e alto-falantes. O grupo de Onoda se recusou a levar os avisos em consideração, duvidando do teor das mensagens. Nem a divulgação pelos mesmos métodos da ordem do general-comandante Tomoyuki Yamashita convenceu o teimoso grupo, pois eles consideraram que a mensagem era um estratagema dos norte-americanos para frustrar a missão que levaram até o fim.

Até o final de 1949 os quatro resistiram sobrevivendo de frutas, gado roubado e caça, vivendo basicamente acampados, mas o soldado Akatsu achou que aquilo era demais para ele e resolveu se entregar aos filipinos, encerrando sua prolongada participação na guerra. A desistência do companheiro acirrou ainda mais a disposição de resistir dos demais, que recuaram ainda mais para a selva para continuar combatendo, agora contra os oponentes que encontravam pela frente: a polícia e civis que não tinham nada a ver com a missão dos guerreiros sem guerra. A ação dos japoneses contra as vítimas que continuavam fazendo alarmou as autoridades filipinas, que iniciaram uma caçada combatentes que concluíram que a reação era uma prova de que a guerra ainda não havia acabado.

O próprio governo japonês continuou a tentar fazê-los desistir, e em 1952 foram jogados sobre a selva fotos e mensagens dos parentes que imploravam para que desistissem da missão, mas nem isso bastou, pois eles insistiam acreditando que era armação dos inimigos. O cabo Shimada chegou a ser baleado na perna num tiroteio contra pescadores em junho de 1953, mas sobreviveu até se envolver numa briga quase um ano depois. Em outra briga, em outubro de 1972, o soldado Kozuda acabou sendo assassinado, o que deixou Onoda sozinho e ainda acreditando na continuidade da guerra, apesar de várias outras tentativas de convencimento sobre os fatos. Mesmo sem companheiros Onoda seguiu com sua missão de sabotagem por meio da provocação de incêndios, rouba de gado e outras ações que prejudicavam camponeses e causavam constrangimentos ao governo japonês, que recebia reiteradas queixas por parte dos filipinos.

O aventureiros Norio Suzuki acabou adotando o propósito de encontrar e convencer Onoda sobre o fim da guerra e fazer com que ele finalmente se rendesse. Após uma exaustiva busca Suziki finalmente encontrou o compatriota em 20 de fevereiro de 1974, mas sua capacidade de argumentação não foi suficiente e Onoda manteve-se firme em sua disposição de resistir sozinho até receber ordens de um oficial superior. A recusa fez com que Suzuki voltasse para o Japão, encontrasse o major Yoshimi Taniguchi, antigo comandante de Onoda, para levá-lo a Lubang para ordenar a rendição e finalmente em 9 de março – 29 anos após o fim da guerra – o guerreiro teimoso acabou reconhecendo a derrota.

Para o governo filipino isso foi um alívio e considerando a condição mental de Onoda o presidente Ferdinand Marcos o anistiou dos crimes cometidos (que incluíam vários homicídios).

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Rendição: Onoda entregando sua espada ao presidente filipino

Onoda voltou para Japão, onde foi consagrado como herói de guerra, mas depois resolveu se mudar para o Brasil, se estabelecendo numa colônia no interior do Mato Grosso e vivendo como fazendeiro. Voltou posteriormente ao seu país e acabou virando professor de técnicas de sobrevivência.

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O herói japonês morreu em Tókio no 16 de janeiro de 2014, aos 91 anos de idade. Familiares do tenente Onoda ainda vivem no Brasil, país que continuou visitando e onde foi condecorado pela Força Aérea com a Medalha do Mérito Santo Dumont.

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Cora Pearl: A ex-prostituta de rua que virou celebridade na Corte Francesa

julho 2, 2016

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A inglesa Emma Elizabeth Crouch (1835-1886), mais conhecida como Cora Pearl, foi uma bela mulher de origens nada nobres – foi ex-prostituta de rua em Paris -, mas teve uma incrível ascensão social. Inteligente e determinada, aprendeu logo que para progredir precisaria aprimorar seus modos e estratégias. Aliada a um conhecido cafetão, o Monsieur Roubisse, passou a atuar em ambientes mais refinados, aprendeu a negociar e aprimorou seu repertório profissional. Após a morte de seu “agente”, Cora passou a atuar por conta própria e começou a colecionar amantes das altas esferas sociais francesas, homens de origens nobres e com influências.

Seu caso com jovem Victor Masséna, terceiro Duque du Rivoli e mais tarde quinto Príncipe de Essling, rendeu grandes progressos para Cora, que passou a ser atendida por uma comitiva de serviçais (incluindo um chef particular) e a gozar de luxo, dinheiro e jóias caríssimas. Também passou a colecionar cavalos de raça e diziam que ela era mais gentil com eles do que com seus amantes. a relação com Masséna durou cinco anos, mas ao mesmo tempo ela também tinha outros amantes, incluindo o Príncipe Achille Murat, um homem muito mais velho que ela.

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Na década de 1860 ela era uma das cortesãs mais conhecidas de Paris e tinha em sua coleção de amantes aristocratas importantes entre representantes das nobrezas de variados países da Europa. Os favores que recebia garantiam uma vida requintada com direito a extravagâncias como viver num luxuoso castelo conhecido como Chateau de Beauséjour (“Castelo Bela Jornada”) onde eram realizadas festas concorridas e recepções íntimas para até quinze convidados muito especiais. Nos eventos que promovia não faltavam apelos incomuns com teatralidade e exageros, tendo ela como protagonista e atração principal (outras mulheres também já estavam sob seus serviços para os entretenimentos sexuais dos convidados). Num desses jantares ela resolveu servir um espantoso prato principal disposto sobre a mesa: Ela mesma, nua e polvilhada de temperos numa grande bandeja de prata que foi carregada e “servida” por uma equipe de garçons. Ela também se apresentou como Eva num baile de máscaras com uma “fantasia” equivalente ao que é geralmente atribuído a essa figura bíblica, ou seja, sem roupas. Suas aparições em teatros eram sempre escandalosas, geralmente por causa do exibicionismo das apresentações em trajes mínimos.

Os encantos de Cora foram capazes de levar homens à ruína financeira e até mesmo a morte. Numa ocasião um de seus apaixonados apareceu em sua porta transtornado, ameaçando se matar se não fosse correspondido e como não foi, ele cumpriu a ameaça e deu um tiro na cabeça em frente à casa da encantadora cortesã, embora não tivesse morrido e tenha precisado sobreviver com sequelas e com a desilusão amorosa. A reação de Cora foi fria após o incidente: Foi dormir como se nada tivesse acontecido.

O patrimônio de Cora era riquíssimo, constituído por jóias, obras de arte, móveis, cavalos, roupas caras e imóveis, muitos deles presentados por seus admiradores e amantes, incluindo Napoléon Joseph Charles Bonaparte Paul, rico primo do imperador Napoleão II e seu mais duradouro amante (o relacionamento durou nove anos, também não sendo exclusivo por parte da moça), que lhe deu diversos chalés e um palácio chamado Les Petites Tuileries. Cora sustentava sua mãe e seu pai, que viviam, respectivamente na Inglaterra e nos EUA tinha uma estratégia de valorização de seus pagamentos que colocava seus pretendentes em concorrência, elevando os valores que recebia – uma noite com ela chegava a custar 10 mil francos, uma pequena fortuna nos idos de 1860-1870.

Cora Pearl morreu de câncer intestinal aos 51 anos de idade.

Além de Cora, outras famosas cortesãs da Belle Époque foram Marie Duplessis, Emilienne d’Alençon, La Belle Otero e Liane de Pougy.

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Cixi, a concubina que virou imperatriz da China

julho 1, 2016

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Em 1861 o imperador Xianfeng morreu num contexto de conflitos, quando uma China dividida sofria ataques da França e da Inglaterra durante a Segunda Guerra do Ópio. O herdeiro do trono era Tongzhi, uma criança de 5 anos, filho do monarca com a concubina Yi.

Antes de continuarmos a trama que envolve astúcias e uma série de meticulosas armações em torno do poder, vale conhecer Yi, que nasceu em 1835, era filha de uma família comum e que tinha tudo para ter uma vida sem grandes realizações até ser aceita para fazer parte do harém do imperador aos 16 anos de idade, o que era uma grande honra para uma mulher comum naquela sociedade chinesa. Xianfeng viu-se seduzido pela jovem ao ouvir seu gracioso canto e passou a requisitar sua presença cada vez mais na habitual escala de pernoites românticas e sexuais entre o soberano e suas concubinas, apesar de não ser Yi sua principal concubina, distinção que cabia a Zhen, que era a legítima consorte imperial.

Com a morte de Xianfeng o império passou a ser regido por um conselho de homens nobres, mas Yi não aceitou passivamente esta condição e foi em busca de apoio para sua causa. Ela se aliou a Zhen e a outros nobres dissidentes, constituindo um movimento perigoso pelo poder – sob o risco de serem condenados por conspiração e traição. Yi e Zhen não possuíam formalmente nenhum poder político, mas eram hábeis articuladoras e tramaram uma participação no conselho. Elas alegaram que o imperador era incapaz de assinar de próprio punho nem firmar os selos reais nos documentos dos atos do conselho conforme a tradição e que deveriam elas mesmas realizar tal procedimento em seu nome porque eram, respectivamente, mãe biológica e mãe “oficial” do príncipe herdeiro e com esse artifício tiveram acesso a uma reunião de uma deliberação dos conselheiros levando a criança, mas isso causou fúria entre os regentes, que reagiram aos gritos com a presença das duas mulheres. O menino ficou assustado com a situação e chegou a urinar nas roupas de tão amedrontado, buscando o acolhimento das mães. As viúvas reais aproveitaram o incidente a acusaram os regentes de ameaça e agressão ao pequeno herdeiro do império e isso bastou para realizar um ato oficial de destituição do conselho de regentes através da imposição do selo imperial que elas traziam na condição de representantes da criança. Depois disso as duas mulheres passaram a assumir o comando do Estado tendo assumido novos nomes: Zhen passou a se chamar Ci’an (“serena expressão”) e Yi adotou o nome de Cixi (“gentil e alegre”).

Cixi acabou tendo um papel muito mais destacado como liderança política, pois a imperatriz viúva Ci’an não podia sequer ser vista pelos ministros porque a tradição proibia (ela presidia audiências resguardada atrás de um biombo), nunca pôs os pés na Cidade Proibida e tinha que ser representada por nobres de sua confiança na maioria das ocasiões, além de ser uma personalidade discreta que não tinha propósito de conduzir o império. Cixi, que não sofria as mesmas restrições e por formalmente ter um status inferior ao de Ci’an e por ter um temperamento totalmente diferente, atuava com maior liberdade e muito mais habilidade com os assuntos do Estado e tramas da política. Ela exibia maior simpatia pela quebra de tradições e pela modernização sob a influência ocidental, embora dentro de uma série de limites – Cixi demorou 20 até ser convencida a aprovar a construção de ferrovias porque elas poderia perturbar o repouso dos mortos. A imperatriz concubina enfrentou oposições dos tradicionalistas entre a nobreza, a burocracia estatal e entre o povo, mas sua administração ajudou a sanear as finanças, criou uma poderosa armada naval, pacificou as tensões políticas internas ao derrotar levantes, favoreceu a abertura nos contatos e negócios com Ocidente mas buscando garantir a autonomia nacional.

Em 1873 Tongzhi finalmente ascendeu ao trono, mas não demonstrou outros interesses além de ópera, sexo e diversões, apesar de ter sido obrigado a se submeter a um tradicional ritual de inanição que não o matou, mas o deixou frágil até que morresse em 1875 de varíola sem deixar sucessor, o que levou Cixi mais uma vez ao trono (sem escapar dos rumores de ter sido responsável pela morte do próprio filho). Com a morte de Ci’an, em 1883, sua posição era ainda mais indiscutível, mas para justificar sua nova condição de regente ela nomeou como herdeiro Guangxu, seu sobrinho que tinha então 3 anos de idade, e nesta segunda fase de governo ampliou o processo de transformação na China, introduzindo a luz elétrica e a mineração de carvão.

Apesar de modernização, foi uma fase atribulada com o agravamento das tensões internas entre os tradicionalistas e os modernizadores, levando Cixi a assumir uma condução despótica e autoritária sobre o governo, realizando perseguições e punições a oponentes. As divergências envolveram também seu herdeiro Guangxu, já consagrado imperador e tendo liderado frustradas reformas que renderam fortes oposições e um princípio de guerra civil que levou Cixi de volta à regência do império. Acusado de conspirar contra a sua imperatriz-tutora após sua fracassada experiência como monarca, Guangxu foi mantido  sob a condição de prisioneiro em seu próprio palácio, tendo sua vida poupada por Cixi para evitar uma crise dinástica. Mas os reformadores seguidores de Guangxu impuseram uma árdua campanha difamatória contra a imperatriz, rendendo acusações sobre sua conduta moral e sexual e também criando narrativas de perversidades praticadas por ordem de Cixi.

Enquanto as divergências internas se desenrolavam ameaças externas e as pretensões territoriais europeias cresciam vertiginosamente, mas as tensões se agravaram durante a Guerra dos Boxers (1899-1900), quando rebeldes chineses resolveram reagir contra a presença ocidental por meio do enfrentamento físico, prática de atentados e sabotagem. Os revoltosos foram apoiados pela imperatriz, mas as forças ocidentais se uniram através da Aliança das Oito Nações (EUA, Rússia, Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Império Austro-Húngaro e Japão) e derrotaram o movimento, impondo pesadas condições sobre a China, que teve de realizar indenizações e foi obrigada a conceder ainda mais abertura aos interesses estrangeiros.

Em 1901 uma série de medidas foram decretadas contra antigos hábitos tradicionais, incluindo a prática do pé de lótus, a permissão de casamentos entre pessoas das etnias manchu e ham até possibilitou a liberdade de imprensa – ato que desagradou até os reformistas mais entusiásticos. Cixi também decretou mais atos que modificaram a China em 1906, a exemplo da adoção de uma monarquia constitucional e do direito ao voto.

A imperatriz morreu em 15 de novembro de 1908, um dia após a suspeita morte de Guangxu, que teria sido envenenado por ordem de Cixi.

Um diplomata francês chegou a afirmar que Cixi era “o único homem da China”.

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Huo Yuanjia – Artes marciais e nacionalismo

junho 6, 2015

Huo YuanjaA história de Hou Yuanjia é muito mais interessante do que narrativa de filme de artes marciais, embora envolva bastante artes marciais e também tenha sido registrada pelo cinema.

Huo Yuanjia foi um famoso mestre de Wushu, que, na verdade, consiste genericamente na própria concepção de arte marcial ou “arte da guerra”, expressa através de variados estilos. Nasceu em 18 de janeiro de 1868 numa família tradicionalmente vinculada à tradução do Wushu, porém não foi iniciado na arte prematuramente, pois tinha saúde frágil na infância, sendo em função disso até impedido por seu pai de realizar o aprendizado das técnicas e doutrinas associadas às lutas. O jovem Huo Yuanjia, contudo, não aceitava as restrições que foram impostas e observava treinamentos, reproduzia movimentos e assimilava as técnicas mesmo sem orientação.

Sua primeira demonstração pública de habilidade ocorreu durante um desafio, no qual acabou vencendo um oponente que acabara de derrotar seu irmão mais velho e o feito convenceu o pai, En De Huo, a, enfim, admitir o filho frágil como aprendiz e o progresso de Huo Yuanjia foi cada vez mais intenso a partir desse episódio.

A fama do lutador foi crescente com vitórias em competições, demonstrações de bravura e habilidade e até mesmo atos heroicos, como o enfrentamento a um conhecido bandido da região. Mas foi a partir de 1902 que ele passou a empregar mais uma motivação diante dos combates: Reafirmar os valores chineses. Encarou desafiantes ocidentais que lutavam boxe e luta livre, alguns dos quais se proclamavam como “homem mais forte do mundo” e venceu a cada um desses imitadores de Hércules. Os desafios mobilizavam mais do que montantes em apostas, mas interesses políticos também.

Um fator basicamente incômodo para Huo Yuanjia era o rótulo que ocidentais começavam a estabelecer sobre os chineses como “homens doentes da Ásia” e outras infâmias pejorativas, sendo seu objetivo transformar suas vitórias em elementos de ufanismo e orgulho nacional. Neste sentido chegou a fundar uma associação com o propósito de multiplicar o número de praticantes do Wushu e difundir os ideais de valorização nacional numa china dominada por interesses e agentes estrangeiros.

Seus posicionamentos nacionalistas geraram insatisfações, pois contagiaram uma multidão, gerando temores entre poderosos interessados na submissão chinesa. Huo Yuanjia acabou sendo envenenando por arsênico e as circunstâncias do envenenamento envolvem controvertidas hipóteses, havendo quem considere que colonos europeus estavam por trás do assassinato do mestre – outra possibilidade aponta a responsabilidade pelo extermínio de Huo Yuanjia para associações japonesas (nem mesmo a data da morte é consenso, pois há quem diga que ocorreu em 9 de agosto de 1910 e quem conteste, afirmando ter sido em 1 de dezembro do mesmo ano). O fato é que com sua morte uma voz atuante e popularmente acolhida pelas massas em torno da causa nacionalista chinesa foi silenciada.