Archive for the ‘Idade Antiga’ Category

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26 mil figuras de Playmobil reproduzem uma batalha entre Roma e Cartago

dezembro 12, 2016

O colecionador Jean-Michel Leuillier reuniu uma incrível montagem inspirada na épica Batalha de Zama num ginásio de esportes da cidade de Heyrieux, no sudeste da França. Ele utilizou mais de 26 mil figuras de Playmobil caracterizadas e levou três dias montando o lindo diorama histórico.

A Batalha de Zama ocorreu 202aC, com confronto de mais 40 persas contra mais de 35 mil romanos e representou o fim das Guerras Púnicas.

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A suástica pode ter mais de 11 mil anos e um movimento busca livrá-la da associação ao nazismo

julho 8, 2016
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Buda Gigante de Ngong Ping, na China, construído em 1993

Pesquisadores estão apontando para a possibilidade de que a civilização indiana pode ser ainda mais antiga do que se imaginava. Entre os elementos para enriquecer essa especulação está a possibilidade de que a suástica pode ter mais de onze mil anos segundo historiadores, arqueólogos e antropólogos indianos envolvidos numa pesquisa que indica que o símbolo é anterior aos antigos arianos indo-europeus e até mesmo da Civilização de Harappa, no vale do rio Indo. Os indícios estão sendo investigados em textos antigos do período pré-harapiano que indicam que a suástica já era comum desde muito antes daqueles que produziram esses escritos e que desde então o símbolo já possuía um significado associado a ideia de paz e progresso/continuidade.

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Prato sumério (por volta de 6.000 aC) 

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Moeda coríntia (por volta de 500 aC) com uma figura do mitológico Pegasus e uma suástica

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Moeda trácio-macedônica (por volta de 450 aC)

Outras culturas na região indiana assimilaram o antigo símbolo (presente no hinduísmo e no budismo, por exemplo) e ele chegou longe, sendo difundido em áreas tão distantes e diferentes como em tribos no atual Alasca ou na Macedônia por volta de 500 aC.

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Criança com uma suástica pintada na cabeça durante uma cerimônia budista no Tibete 

A apropriação nazista da suástica acabou estigmatizando o símbolo, mas já existe hoje um movimento que busca ressaltar seu antigo valor. Sob o lema “aprenda a amar a suástica”, artistas, estudiosos e religiosos orientais estão  voltando a utilizar a suástica em seus antigos contextos para reverter o estrago feito por Hitler contra a reputação do símbolo.

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Imperadores romanos mortos em combates militares

julho 3, 2016

Imperadores romanos (governantes do império unificado ou dividido nas poções do Ocidente e Oriente) não eram figuras raras nos campos de batalha, mas geralmente comandando tropas muito numerosas capazes de facilmente liquidar os oponentes com forças bem inferiores, ficavam em condições seguras na retaguarda e cercados por guarda-costas altamente treinados e prontos para retirar o soberano de situações de risco, então os césares corriam poucos risco geralmente… mas nem sempre, pois alguns chegaram a morrer em combate, como nos casos de Gordiano II, Filipe I, Décio, Herêncio, Constantino II, Juliano e Valente (seriam mais se contássemos os imperadores bizantinos).

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Gordiano II (cujo nome como imperador era CAESAR MARCVS ANTONIVS GORDIANVS SEMPRONIANVS AFRICANVS)

Não são fartas as informações sobre ele, mas Gordiano II teve carreira política favorecida pelo pai, o também césar Gordiano I, que o designou como co-imperador assim que assumiu o comando de Roma. Consta que era um sujeito que apreciava os luxos e prazeres da vida de um nobre, tinha 22 concubinas e vários filhos. Sua desgraça ocorreu quando resolveu enfrentar uma ameaça de invasão na província de Cartago, mas acabou liderando um exército inexperiente e precariamente armado contra as forças lideradas pelo general Capeliano, ainda fiel ao ex-imperador Maximino Trácio – assassinado numa conspiração e que foi o antecessor dos Gordianos – e que comandava uma tropa experiente em combate e muito bem preparada para a ação. No enfrentamento a tropa de Gordiano II acabou entrando em colapso, com várias fugas desesperadas de soldados em pleno combate e na confusão o próprio imperador foi morto e seu corpo jamais foi identificado entre as inúmeras vítimas. Depois da derrota Gordiano I cometeu suicídio, colocando um fim a um curto governo que durou dois meses no ano 238 da Era Cristã.

Filipe I (CAESAR MARCVS IVLIVS PHILLIPVS PIVS FELIX INVICTVS AVGVSTVS), Décio (CAESAR GAIVS MESSIVS QVINTVS TRAIANVS DECIVS PIVS FELIX INVICTVS AVGVSTVS) e Herêncio (CAESAR QVINTVS HERENNIVS ETRVSCVS MESSIVS DECIVS AVGVSTVS)

Um imperador pouco conhecido, Filipe, O Árabe, era mesmo de origem asiática e teria sido efetivamente o primeiro dos imperadores romanos cristãos (batizado pelo Papa Fabiano) e governou entre 244 e 249. Seu governo foi afetado pelas comuns disputas internas de poder entre os chefes militares romanos e sucumbiu porque possuía pouco prestígio entre as tropas, que na época aclamavam o prestigiado e experiente general Décio, líder de uma forte oposição a Filipe que gerou finalmente um confronto. Na tentativa de abafar a rebelião de Décio, Filipe liderou pessoalmente uma missão militar facilmente derrotada e acabou morrendo em combate nas proximidades de Verona, possibilitando que o Senado consagrasse o rival como imperador. Décio governou realizando medidas severas contra o avanço do cristianismo e em favor da tradição pagã romana, tendo determinado inclusive o assassinato do Papa Fabiano. Em 251 designou seu filho Herêncio como co-imperador, no mesmo ano em que o maior de seus problemas despontou e não era o cristianismo, mas os godos, que invadiram o território da atual Bulgária. Na tentativa de impedir o avanço dos invasores bárbaros, os dois imperadores foram pessoalmente comandar tropas e ambos morreram em combate na Batalha de Abrito. A situação não estava fácil para os romanos, pois que perderam três imperadores seguidos mortos em combate militar em apenas dois anos.

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Constantino II (CAESAR FLAVIVS VALERIVS CONSTANTINVS AVGVSTVS)

Tendo sido designado césar pelo pai, Constantino I, aos sete anos de idade em 317 e comandante da Gália aos dez, o precoce Constantino II iniciou cedo sua experiência política e militar, passando a dividir a partir de 337 (após a morte do pai) o governo com seus irmãos Constâncio II e Constante I até que as intrigas familiares acabaram rendendo uma trama de conflitos e assassinatos. A disputa fratricida acabou levando Constantino II a enfrentar seu irmão mais novo, Constante I, que definitivamente colocaram suas respectivas tropas uma contra a outra e na tentativa de Constantino II de invadir territórios sob o comando do irmão acabou sendo morto numa emboscada típica de batalhas em 340 na Itália. O jovem Constante I acabou assumindo a condução do império sozinho.

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Juliano (CAESAR FLAVIVS CLAVDIVS IVLIANVS AVGVSTVS)

O último imperador não-cristão de Roma governou durante dois anos (entre 361 e 363) e por sua crença pagã ficou conhecido como “O Apóstata”. Ele declarava-se sob a proteção de Zeus e Hélio e até foi educado e batizado como cristão, mas resolveu abandonar o cristianismo, adotar a antiga religião romana e restaurar sua prática mesmo sem estabelecer uma política de perseguição aos cristãos. Antes de se tornar imperador teve uma sólida carreira militar com atuação na atual região da Alemanha e ao ser consagrado césar (resultado de uma disputa de poder com o antecessor, Constâncio II, que quase resultou numa guerra civil) estabeleceu uma política de reformas públicas e uma campanha desastrosa contra os persas sassânidas. Na tentativa de derrotar os inimigos encarou uma batalha fadada ao fracasso no território persa e acabou fatalmente ferido em combate – resultado facilitado por sua imprudência, pois resolveu encarar a batalha sem usar armadura. Sua morte significou também a queda de uma potencial ameaça ao avanço do cristianismo no império.

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Valente (CAESAR FLAVIVS IVLIVS VALENS PIVS FELIX AVGVSTVS)

O conturbado reinado de Valente durou de março de 364 até agosto de 378 e foi marcado por instabilidades, enfrentando ataques bárbaros (sobretudo dos godos), rebeliões e ameaças de usurpadores – não faltaram batalhas. Diante de tantos conflitos, o imperador se envolveu diretamente no comando de campanhas militares e em uma delas a situação foi mais grave. Tentando conter os avanços dos godos sobre território romano, Valente liderou pessoalmente uma força para tentar derrotar os inimigos externos para com isso também obter reconhecimento interno inquestionável, mas subestimou o poderio dos bárbaros e acabou diante de uma situação de combate complicada que obrigou o imperador a determinar um movimento de retirada que nem ele conseguiu cumprir, tendo sido cercado por inimigos que atearam fogo à formação de defesa com escudos (mantendo o imperador em seu interior) que grupo de guarda-costas tentou manter.

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Criaturas monstruosas da Mitologia Grega

abril 19, 2015

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Cérbero

O cão de três cabeças que guarda o reino dos mortos, o Hades. A fera é uma mistura de animais ferozes, pois tem garras de leão, juba feita de cobras e calda de serpente. O monstruoso protetor do Hades era filho de Tífon e Quimera, outras duas monstruosidades mitológicas. As narrativas dão conta de que alguns afortunados conseguiram escapar do abominável Cérbero, mas recorrendo a magia ou outros estratagemas, mas somente Hércules encarou o monstro e o derrotou na porrada!

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Empousa

 A filha de Hecate não era nada amistosa. Ela era uma divindade que bebia sangue de homens enquanto eles dormiam e foi rebaixada à condição de monstruosidade que devorava viajantes noturnos. Esta vampira da Mitologia Grega com uma perna de bronze e outra de cabra era um terror!

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Górgonas

 Medusa, Esteno e Euryale eram as três irmãs com serpentes em suas cabeças e presas afiadas, que possuíam o poder de petrificar quem olhasse diretamente para elas. Foram transformadas em monstros por Atena, que se incomodou com a beleza das filhas de Fórcis e Ceto, pois eram tão belas quanto a poderosa deusa da sabedoria – que não gostava nada dessa situação. Medusa, a mais famosa das irmãs, era a única das Górgonas que, também por culpa de Atena, não era dotada da imortalidade.

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Pássaros do Lago Estínfalo

 Estas criatura aladas eram metálicas monstruosidades que podiam até interromper a luz do sol sobre a Terra. Eles comiam pessoas e espantavam o terror por onde passavam, mas Hércules – novamente ele – matou as aves terríveis usando flechas envenenadas com sangre de uma hidra.

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Quimera

 O híbrido monstruoso tinha três cabeças, mas só uma em seu torso, que era de um leão. Uma cabeça de cabra pendia desde suas costa e outra cabeça de dragão que cuspia fogo também compunham a constituição da besta mitológica, que possuía uma cauda de serpente e outra de leão, além de asas. Quando alguém alegava ter visto a criatura isso significava um presságio muito ruim, sobretudo alguma catástrofe natural. Quimera foi derrotada pelo herói Belerofonte, que atirou uma lança com ponta de chumbo na boca que cuspia fogo, sendo tal ponta derretida pelo calor, provocando o sufocamento do monstro.

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Centauros Marinhos

 Havia um par de irmãos híbridos (Bythos e Aphros) que eram parcialmente humanos, equinos e peixes. Eram meios-irmãos do centauro Quíron e filhos de Cronos e da ninfa Philyra. Eles respiravam sob as águas, eram exímios nadadores  e se comunicavam com as criaturas aquáticas e, apesar de monstruosos, eram seres pacíficos e sábios.

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Tifão (Tífon)

 Era o mais temível monstro mitológico, que chegou até a derrotar Zeus, arrancando seus músculos, veias e nervos – depois restituídos por Hermes. Foi gerado por Gaia e o Tártaro e foi ofertado à Hera na forma de uma semente. A deusa, sem saber da armadilha, plantou a tal semente no Olimpo e dela brotou, em pleno reino divino, o monstro que afugentou os deuses – menos Atena – para o Edgito. Zeus retornou armado da mesma foice utilizada por Cronos para castrar Urano, mas levou a pior e foi destroçado – literalmente – pelo monstro. Depois de reconstituído por Hermes, Zeus promoveu sua vingança e prendeu Tifão no vulcão Monte Etna, onde Hefesto o manteve sob o peso de suas maiores bigornas.

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Minotauro

 Sua mãe, a rainha Pasífae, queria ter relações sexuais com um touro implacável e feroz, então mandou ser elaborado um traje especial de vaca dourada no qual ela poderia se esconder para que o bovino feroz conseguisse então realizar o acasalamento como se estivesse com uma fêmea de sua própria espécie. Deste incomum desejo sexual da rainha nasceu um filho monstruoso, meio humano e meio touro que se alimentava de carne de gente. Para evitar que o filho “adotivo” promovesse uma carnificina indiscriminada, o rei Minos mandou construir um labirinto nas proximidades do palácio e prendeu a criatura por lá. O Minotauro recebia jovens sacrificados como alimento e o príncipe ateniense Teseu, filho do rei Egeu, apareceu como voluntário para tentar matar o monstrengo taurino. Com ajuda da princesa Ariadne, filha de Minos, Teseu conseguiu matar Minotauro e sair do labirinto com os demais jovens destacados como sacrifícios a serem devorados pelo monstro.

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As Erínias (As Fúrias)

 Ao castrar o próprio pai, Urano, Cronos fez respingar sobre o solo sangue de sua vítima e dessas gotas surgiram as três Eríneas, implacáveis figuras que se dedicavam à prática da vingança sobre os homens (esse papel cabia à Nêmesis em relação aos deuses). Alecto punia os delitos morais e espalhava maldições e pestes, Megaira punia quem pecasse contra o matrimônio e Tisífone punia os homicidas. Elas não eram exatamente monstros, embora praticantes de dolorosas e cruéis torturas, mas também eram frequentemente descritas como se tivessem aparências amedrontadoras.

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Hidra de Lerna

 Monstro filhos de Tifão e Equidna, era habitante dos pântanos de Lerna e tinha corpo de dragão de sete cabeças de serpente com hálito mortal. Cada cabeça podia se regenerar quando decepada e uma delas eram simplesmente imortal. Fora isso, o sangue da besta era venenoso. Hércules, de novo ele, matou a fera e ainda utilizou seu sangue para envenenar suas flechas.

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 Com corpo de leão, cabeça humana, asas de águia e uma serpente no lugar do rabo, o monstro proferia enigmas desafiadores e quem não decifrasse acabava virando refeição para a Esfinge. Era filha de Quimera e Ortros (ou de Tifão e Equidna, conforme outras descrições) e ficava de guarda diante da cidade de Tebas (o que deveria ser péssimo para o turismo) ameaçadoramente até que encarou o jovem e esperto Édipo, que respondeu acertadamente o enigma que questionava: “Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?”. Derrotada, a esfinge se suicidou ao se atirar de um precipício.

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Equidna

A mistura de mulher e víbora gigante era uma criatura monstruosa que também era mãe de diversas outras bestas mitológicas com seu principal parceiro, o terrível Tifão. Por sua capacidade procriadora de seres tenebrosos, talvez seja ela o pior dos monstros da mitologia grega.

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Erro crasso

janeiro 23, 2015

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Marco Licínio Crasso (115 a.C.–53 a.C.) ficou famoso por integrar o Primeiro Triunvirato romano ao lado de Pompeu Magno e Júlio César. Era dono de uma impressionante fortuna, contudo, queria obter glórias como aquilo que efetivamente não era: Um habilidoso líder militar. Montou uma campanha contra o Império Parta e em batalha acabou demonstrando sua falta de perícia como general, não avaliando bem como lidar com as peculiaridades da geografia do campo onde lutaria. Em decorrência disso suas tropas foram massacradas e o general foi detido pelos inimigos. sob ordens do líder parto, sua ganância foi punida de forma radical: Despejaram ouro fundido em sua garganta, cortaram sua cabeça e mãos, que foram guardadas como “troféus” pelo chefe inimigo. Sua falha originou a expressão “erro crasso”.

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Igreja levou três séculos para alçar Jesus à condição de Deus, diz historiador

dezembro 25, 2014

REINALDO JOSÉ LOPES – Texto publicado pela Folha de São Paulo (link original)

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“E vós, quem dizeis que eu sou?”, pergunta Jesus aos apóstolos, numa das cenas mais importantes dos Evangelhos. De acordo com um historiador americano, se essa mesma pergunta fosse feita aos autores dos livros que compõem o Novo Testamento, cada um deles daria uma resposta diferente -e só um diria que Jesus é Deus. Essa é a mensagem do livro “Como Jesus se tornou Deus”, de Bart Ehrman, professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte. Na obra, que acaba de chegar ao Brasil, Ehrman analisa os textos produzidos pelos primeiros cristãos e acompanha as controvérsias sobre a natureza de Cristo ao longo de mais de três séculos. Segundo ele, essa análise indica que os atuais dogmas cristãos sobre Jesus – para quase todas as igrejas, ele é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tão eterno quanto Deus Pai- demoraram para se consolidar.

FILHO (ADOTIVO)

Ocorre, porém, que essa posição, hoje considerada ortodoxa, não está clara em muitos textos da Bíblia. Ehrman defende, por exemplo, que o Evangelho de Marcos, considerado o mais antigo (escrito em torno do ano 65 d.C.), apresenta uma perspectiva que os cristãos dos séculos seguintes chamariam de adocionista -ou seja, Jesus é um homem que é “adotado” por Deus como seu filho.

“É claro que muitos autores hoje vão tentar defender a ortodoxia de Marcos, porque afinal ele foi aceito pela Igreja”, pondera Marcelo Carneiro, professor da Faculdade de Teologia de São Paulo. “Mas, se você faz o exercício de ler Marcos separado do Novo Testamento, se ele fosse o único texto que temos sobre Jesus, fica difícil sustentar que Marcos acredita que Jesus era o Cristo desde a eternidade”, analisa Carneiro.

Algumas décadas depois, os autores do Evangelho de Mateus e do Evangelho de Lucas usaram Marcos como fonte, mas inseriram narrativas da infância de Jesus (da qual Marcos não fala) no começo de seus textos. Eles mencionam, pela primeira vez, a gravidez milagrosa da Virgem Maria, e que Jesus seria divino desde a concepção.

Em todo caso, a crença na ressurreição de Jesus é um fator decisivo para o desenvolvimento das doutrinas sobre a natureza de Cristo. Foi por acreditarem que Jesus tinha ressuscitado que ao menos alguns de seus seguidores passaram a vê-lo como algo mais do que humano.Uma figura-chave nesse movimento é o apóstolo Paulo. Em sua Carta aos Filipenses, ele diz que Jesus “estando na forma de Deus, não usou de seu  direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tornando-se obediente até a morte”. Por isso “Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome”.

Para Ehrman, essa passagem, e outras das obras de Paulo, indicam que o apóstolo via Jesus como um ser divino, mas não idêntico a Deus. Na prática, que Paulo via Jesus como o mais poderoso dos anjos, que se encarnou por ordem divina.

RISADAS NA CRUZ

A visão de Paulo não seria a última palavra. Escrito por volta do ano 100 d.C., o Evangelho de João é o primeiro a dar a entender que Jesus e Deus Pai estão em pé de igualdade desde a eternidade. Nos dois séculos seguintes, outros grupos apresentariam perspectivas bem diferentes (veja quadro acima). O dogma atual só seria definido no ano 325, no Concílio de Niceia, reunião organizada pelo imperador romano Constantino. Para Ehrman, o dogma enfim conciliou as várias perspectivas divergentes que existiam sobre Jesus nos livros do Novo Testamento.

COMO JESUS SE TORNOU DEUS
AUTOR: Bart Ehrman
EDITORA: Leya
QUANTO: R$ 49,90 (544 págs.)

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Um antigo registro de fuga de escravo

novembro 29, 2014

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Ele tem cerca de 18 anos, de estatura média, sem barba, com boas pernas, uma covinha no queixo, um dente espetado no esquerdo do nariz, uma cicatriz acima do canto esquerdo da boca, tatuado no pulso direito com duas letras bárbaras. Ele levou com ele três moedas de ouro, dez pérolas, um anel de ferro com ornamentações e estava vestindo um casaco e uma tanga. Quem trouxer de volta esse escravo receberá recompensa de 3 pesos de cobre. Se for resgatado de um santuário receberá 2 pesos de cobre e se for resgatado da casa de um senhor de posses receberá 5 pesos de cobre.

Este não é um registro de escravo fugitivo em nenhuma parte das Américas dos século XIX. Trata-se de um registro egípcio do século II antes de Cristo resguardado num papiro no qual consta a narrativa sobre a fuga de Hermon, um escravo de origem síria. Os valores das recompensas variavam, pois envolviam as dificuldades das três hipóteses: Ser capturado a esmo era mais difícil do que ser encontrado num santuário – onde não eram raras as presenças de escravos foragidos – e, enfim, ser retirado das posses de um outro senhor era algo mais complexo, pois acabaria resultando numa disputa pelo escravo – e esse poderia ser justamente uma manobra que Hermon poderia ter empregado para sair de Alexandria ou mesmo do Egito.

O esperto Hermon não fugiu sozinho. Estava com outro acompanhante (um amigo? um amante?), Bion, escravo de um importante funcionário do Estado. Bion tinha baixa estatura, mas tinha uma musculatura forte e “olhos brilhantes” (sendo este último traço um detalhe curioso da descrição do foragido). Ambos carregaram objetos furtados, inclusive roupas femininas.

Se foram capturados certamente sofreram um pesado castigo físico, mas é interessante pensar que a dupla escapou da perseguição, pois não há registro identificado sobre o desfecho desse caso.