Archive for the ‘Idade Média’ Category

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Registros arqueológicos medievais feitos por uma criança

fevereiro 20, 2017

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Em Novgorod, na Rússia, em pleno século XIII crianças também gostavam de se expressar. Era o caso do pequeno Onfim que tinha por volta dos 6 ou 7 anos de idade quando resolveu rabiscar por toda parte utilizando um objeto com ponta afiada, criando sem querer um lindo registro arqueológico da vida medieval em Novgorod a partir da perspectiva infantil.

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Desenhos e uma lição de gramática

O menino foi registrando em tábuas várias coisas que eram de seu interesse por meio de desenhos e textos. Lições aprendidas em sua experiência educacional também foram gravadas para a posteridade e para a curiosidade de intrometidos arqueólogos no futuro a exemplo de seu estudo sobre o alfabeto e sobre um salmo bíblico.

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Desenho de um cavaleiro chamado Onfim golpeando uma vítima que está no chão. A projeção do desejo do menino para seu futuro?

Onfim tinha sonhos. Ele gostaria de ser um cavaleiro e expressou isso num de seus desenhos, no qual o próprio Onfim era retratado como um cavaleiro. Cenas de guerras e de mortes não eram estranhas para o menino, pois elas também foram retratadas.

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Música medieval: O Canto Visigótico

julho 31, 2016

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O canto visigótico, também conhecido como canto moçárabe ou liturgia hispânica, é um tipo de cântico litúrgico medieval que possui forte influência judaica, pois sua origem data do século IV, quando judeus e cristão na Península Ibérica compartilhavam algumas práticas comum em suas liturgias a exemplo da recitação de trechos do Antigo Testamento. O cântico foi sendo enriquecido a sofreu variações desde o início de sua utilização em missas e em outros momentos da vivência religiosa medieval na Espanha.

O vídeo abaixo traz uma interpretação de um registro de um cântico que foi encontrado em 1495.

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Representação medieval de bruxa voando sobre uma vassoura do século XII

julho 16, 2016
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A misteriosa figura feminina retratada na Catedral de Schleswig: Bruxa ou deusa viking?

É comum a associação entre bruxas e suas vassouras voadoras e isso começou a se popularizar no século XV, mas mesmo antes disso a representação alada das bruxas já existia como referência ao fato de que possuíam alegados poderes enfeitiçados capazes de proezas além do normal. A capacidade de voar também tinha uma conotação assustadora, pois indicava que o terror que elas traziam pairava sobre as pessoas e bruxas eram representadas voando montadas sobre gatos ou sobre toras de madeira.

Uma imagem de bruxa sobre uma vassoura que se tem como referência como a mais antiga que se conhece é uma pintura na Catedral de Schleswig, na Alemanha, que data do ano 1300. Na mesma igreja há outra pintura que está associada à deusa pagã Freya e esse fato cria dúvidas se a imagem da mulher voando sobre uma vassoura não seria também uma figura da mitologia nórdica – e há quem a identifique como a deusa Frigga (madrasta de ninguém menos que Thor) – mas não se sabe de onde viria a vassoura na representação da deusa da fertilidade e do amor na tradição dos vikings, que voava numa espécie de biga puxada por felinos.

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Representação da deusa Freya no mesmo templo alemão

Por esse estranhamento tem-se como mais provável que a figura sobre uma vassoura na Catedral de Schleswig seja mesmo de uma bruxa.

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Caça às bruxas

julho 13, 2016

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O imaginário sobre as bruxas foi constituído em torno do horror, sendo elas retratadas como símbolos e praticantes do mal. Em torno dessa representação maligna elas foram retratadas como mulheres assustadoras, sinistras e passaram a povoar histórias de terror e narrativas para assustar crianças, estando presentes na elaboração de lendas, na criação literária e em filmes. As imagens de figuras más e perigosas foram sendo passadas de geração em geração.

Feministas e pesquisadores a partir da década de 1970 começaram a rever essas caracterizações e estereótipos, indo em busca de outras perspectivas e outras histórias sobre as bruxas. A Idade Média é um período importante para compreender a história da bruxaria, pois nesse período acusação de bruxaria era grave e frequentemente terminava com condenações a morte por meios cruéis. Mas as origens da bruxaria medieval não tem nada a ver com as acusações de vínculos com o Demônio que a Igreja Católica e o Estado insistiam em abordar através da imposição de regras, expressões de moralidade, condutas e papéis sociais e doutrinas religiosas. Claro que nem todo mundo se enquadrava nesses parâmetros e muita gente não queria se enquadrar, inclusive muitas mulheres se recusavam a seguir os ditames de então e viravam alvos de uma reação violenta e variada.

Em comunidades camponesas ou em grupos isolados eram comuns as atuações de pessoas que realizavam atividades de curandeirismo – inclusive pela ausência de uma atividade médica regular. Para realizar os procedimentos recorria-se ao socorro de insumos naturais e o conhecimento sobre ervas, raízes, misturas e rituais de cura acabou sendo também enriquecido por algo muito presente naquelas sociedades: o misticismo. Mulheres, geralmente submissas, conheciam liberdade quando atuavam como curandeiras e suas atividades lhes davam certa influência sobre as comunidades, pois eram vistas como orientadoras religiosas, referências de sabedoria e, claro, como destacadas lideranças entre essas populações, o que era um problema para quem controlava o poder.

Perseguir mulheres que claramente desempenhavam essas atribuições era uma solução para exercer mais controle sobre as comunidades e fazê-las cumprir penas decorrentes das acusações de bruxaria era um meio eficaz de impor “exemplos” para quem eventualmente fugisses dos parâmetros tidos como aceitáveis e, na verdade, obrigatórios para as pessoas. É verdade que muitas das acusadas realmente renegavam a diretriz instituída pela Igreja, pelo Estado e pelos costumes predominantes, seguindo outros princípios religiosos e morais, sendo certamente estas as mais fáceis de caírem diante das acusações e virarem alvos dos meios repressivos. Não era raro que mulheres vivessem diante da vulnerabilidade da perseguição por causa de outros fatores, como o caso de viúvas ou mulheres solitárias cujos bens eram cobiçados e tomados quando acusadas de bruxaria mesmo sem evidências dignas de cuidado.

O sistema patriarcal favorecia a pressão acusatória sobre mulheres e exercia por meio da qualificação delas como bruxas um meio de intimidação evidente. E associado a todos esses fatores estava, obviamente, estava o forte fanatismo religioso que vinculava muitos comportamentos a efeitos demoníacos intoleráveis e passíveis de uma intervenção severa para livrar o mundo do mal de agentes de Satanás.

Mesmo finda a Idade Média a atuação contra as alegadas bruxas continuou. Estima-se que cerca de nove milhões de mulheres foram vítimas de intolerância na Europa e nas colônias britânicas na América entre os séculos XVI e XVII por acusações de prática de bruxaria.

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As estranhas epidemias de danças incontroláveis na Alemanha

junho 27, 2016
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“Dança em Molenbeek” de Pieter Brueghel, o Jovem (1564-1638) que retratou peregrinos que dançaram até a Igreja de Molenbeek. A obre foi inspirada numa gravura feita por Pieter Brueghel, o Velho (1525/1530-1569), seu pai.

Era o ano 1374 quando um estranho acontecimento espantou a população de Aix-la-Chapelle (Aachen), na Alemanha. Muitos moradores foram acometidos por um curioso surto de coreomania, que consiste numa compulsão incontrolável por movimento assemelhado a uma dança irregular e que levam os indivíduos a desmaiar de exaustão. Até hoje não se sabe ao certo o que levou grandes grupos a se contorcerem em movimentos irregulares mas o surto se espalhou pela Europa. O surto iniciado em Aix-la-Chapelle acabou recebendo o nome de Dança de São Vito, porque um grupo desses dançarinos fora de controle acabou derrubando uma ponte sobre o rio Meuse por causa da força das coreografias e movimentos bruscos que realizavam, o que levou alguns a morrerem afogados enquanto sobreviventes foram levados para a Igreja de São Vito, onde a calmaria retornou a seus corpos.

Há registros mais antigos daquilo desse tipo de manifestação que levava indivíduos ao descontrole sobre seus movimentos e a “dançar” de forma desordenada até que caíssem fatigados e a Igreja Católica especulou que tratava-se de uma forma de possessão maligna ou de uma maldição.

Posteriormente, em Estrasburgo, em 1518, nova incidência de dança compulsiva ocorreu após uma mulher chamada Frau Troffea começar a manifestar sua coreografia insana que “contagiou” mais de 400 outras pessoas que chegaram a morrer por complicações causadas pela movimentação incontrolável. Alguns acreditavam que uma forma de combater o surte seria dançar junto com as pessoas afetadas e músicos também se juntavam à manifestação. Assim como ocorreu na região de Aix-la-Chapelle no século XIV, quando a Peste Negra atormentava a população, por ocasião do surto de Estrasburgo miséria, fome e pragas atormentavam as pessoas e por isso há quem considere que as manifestações poderia ser resultantes de condições extremas de algum forma de estresse psicológico capaz de provocar um transe alucinado por meio de movimentos corporais e a dimensão do surto era efeito de histeria coletiva. Essa conclusão é contestada porque a diversidade de relatos sobre coreomania também ocorriam em regiões que não padeciam das mesmas condições de penúria.

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Médicos da Peste: A sombria aparência de quem tratava de doenças contagiosas e epidêmicas na Idade Média

outubro 20, 2015

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A sinistra figura do médico da peste era encarregado de lidar com doentes afetados pelas moléstias infecto-contagiosas que atormentavam a Idade Média. Devia ser assustador ver aquela imagem de um ser bizarro caminhando entre doentes graves.

Médicos costumavam usar chapéus característicos e aquele que lidava com pestes não abria mão do acessório na composição da sombria indumentária que vestia. Uma máscara (geralmente preta) com bico era assemelhada a uma cabeça de ave e possuía em seu interior uma composição de perfumes e ervas que ajudariam a lidar com os ares infectos (os miasmas) que acreditavam agir no processo de contaminação. O casacão de couro preto estava integrado à máscara por meio de um capuz para não deixar a pele do médico exposta a riscos contaminantes e o conjunto de couro era também composto por luvas, botas e pela calça que estava sob o longo casaco e tudo era bem encerado para impedir que líquidos viessem a molhar a vestimenta. A composição ficava completa com outros itens, a exemplo de uma vara e uma longa colher para impedir contatos com os doentes.

Aquela visão de um corvo humano não era desvinculada da morte seja pela aparência como também pela própria condição de lidar com pessoas que estavam padecendo de uma moléstia fatal.

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O verdadeiro Drácula

agosto 14, 2014

Texto de Rodrigo Lara – originalmente publicado neste link

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Um príncipe chamado Vlad III inspirou uma das lendas mais famosas da História. Saiba quem foi ele e entenda melhor o contexto histórico em que viveu, a Idade Média.

Assistiu a Crepúsculo e gostou? Quer saber um pouco mais sobre vampiros? Pois saiba que o filme de 2008 adapta diversas lendas relacionadas aos sugadores de sangue. No filme, por exemplo, Edward Cullen não enfrenta grandes problemas ao sair no sol, como acontece com os vampiros no imaginário popular. Ele tampouco sofre com alho ou tem problemas em se arrumar na frente do espelho devido à ausência do seu reflexo.

Falemos então de um vampiro à moda antiga, o maior de todos: o Conde Drácula. O personagem, criado por Bram Stoker, é inspirado em uma pessoa real: Vlad III, príncipe da Valáquia, região na atual Romênia situada entre o rio Danúbio e os montes Cárpatos. Conhecido pela alcunha de Vlad III, o Empalador, ele governou a região em 1448, de 1456 a 1462 e em 1476. Como seu sinistro título sinaliza, Vlad era famoso pela crueldade contra seus inimigos.

Vlad nasceu em 1431 na Transilvânia, outra região da atual Romênia, numa época em que seu pai, Vlad II – ou Vlad Dracul -, tentava ascender ao trono local. Vlad III, o Drácula (que significa “filho de Dracul”), chegou ao trono em 1448. Seu primeiro reinado, contudo, duraria apenas dois meses, já que fora exilado por apoiar os turcos em sua expansão pela Europa.

Nessa época, o Império Otomano estava em evidência, expandindo-se rumo à Europa e ao Oriente Médio. “Com a fragmentação do Império Romano do Oriente após a queda de Constantinopla, a região em que se situava a Romênia era presa fácil para o expansionismo turco”, explica Lucas Kooama, professor de história do cursinho Anglo. É um novo caso do embate entre o Islã e o cristianismo, como visto, por exemplo, durante as cruzadas entre os séculos XI e XIII.

A ausência de um poder centralizado na Europa facilitou a expansão turca e sua constante fixação como um império gigante, que durou por cerca de 500 anos. “O Império Otomano era unido pela religião e era muito poderoso. Sua expansão teve sucesso em diversos aspectos, tanto é que ele durou até o fim da Primeira Guerra Mundial”, explica Lucas. Além das invasões, a ascensão dos otomanos teve como consequência a estrangulação das rotas de comércio entre Oriente e Ocidente, resultando, anos depois, nas Grandes Navegações.

Vlad III retornou à Valáquia em 1456, ficando até 1462. E é nesse período que a sua fama “vampiresca” se espalhou, começando com o fato de que, quando retornou à região, ele era muito parecido com o seu pai. Graças à imaginação bastante fértil daqueles que viveram na Idade Média, a população se confundiu, achando que Vlad II teria ressuscitado e, criando assim, a lenda da imortalidade de Vlad III, característica primordial de qualquer vampiro que se preze.

A crueldade de Drácula e a excentricidade de seus hábitos alimentaram várias lendas. Seu castelo ficava em uma região afastada, entre montanhas, alimentando os boatos de mal-assombrado. Os turcos, em sua expansão rumo à Europa, também foram vitimados pela crueldade de Vlad III, que tinha como hábito ter suas refeições entre as estacas que continham suas vítimas empaladas. Daí a lenda de que o Conde Drácula se alimentava de sangue humano.

Empalar era sua diversão e o método servia para punir inimigos e súditos menos exemplares. Mas suas formas de punição não se resumiam às estacas. Certa vez, mensageiros do sultão Maomé II sentiram na pele a criatividade de Vlad III. Ao se recusarem a tirar seus turbantes na frente do regente da Valáquia, os dois tiveram o adereço pregado às suas cabeças como castigo.

Vlad III acabou morto pelos turcos em 1476. Sua cabeça ficou exposta em Constantinopla, na ponta de uma estaca. O seu corpo foi enterrado em Snagov, uma ilha-monastério localizada nos arredores de de Bucareste, capital da Romênia. Séculos depois, em 1931, arqueólogos escavaram o túmulo e foram surpreendidos ao não encontrar nenhuma ossada humana, apenas de animais. Não é à toa que Vlad III, O Empalador, se tornou o símbolo dos vampiros.