Archive for the ‘Idade Moderna’ Category

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Uma publicação interativa do século XVII

janeiro 12, 2016

 

 

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Em 1613 foi publicada uma interessante obra de anatomia sob o título de Catoptrum Microcosmicum. O livro recebeu traduções, foi um sucesso editorial por mais de 150 anos e tinha uma característica interessante: Suas páginas possuíam abas dobráveis sobre as ilustrações para possibilitar aos leitores a sensação de visualizar o corpo através de camadas.

A experiência didática do livro traz uma figura masculina e outra feminina representados de frente e de trás, além de um torso de uma mulher grávida.

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A insaciável Catarina II, A Grande

abril 17, 2014

 

Catarina em sua juventude e em fase adiantada de seu longo reinado

Catarina em sua juventude e em fase adiantada de seu longo reinado

Sem dúvida, Catarina II era poderosa. A czarina governou a Rússia de 1762 a 1796 e ao longo de seu reinado colecionou histórias, muitas delas bastante apimentadas. Casou-se com Pedro III, mas acabou depondo o marido do trono com a ajuda de seu amante, o nobre general Grigory Grigoryevich Orlov (pai de dois filhos da czarina).

Catarina até cogitou casar-se com seu parceiro de golpe político, mas não fez isso. Acabou mesmo foi criando fama de amante incontrolável e sedenta por experiências tórridas.

Muitos dos casos atribuídos a ela talvez nem sejam verídicos, mas os boatos e fatos reúnem uma grande quantidade de situações. É usual a ideia de que Catarina teve inúmeros amantes desde a juventude até a fase madura – teve amantes maduros quando era jovem e amantes jovens quando era uma senhora já com idade mais avançada. Os boatos a seu respeito costumam girar em torno de seu apetite sexual. Ela morreu por conta de um AVC aos 67 anos, mas houve quem espalhasse que a causa da morte foi outra. Uma versão nada abonadora dizia que ele morreu fazendo sexo com um cavalo, que caiu sobre a czarina, que teria sido esmagada por seu amante relinchante.

De onde vieram histórias como essa? Da fama que Catarina, A Grande, acabou criando por conta de sua vida íntima agitada. Ela assumiu vários casos publicamente costumava oferecer vantagens a eles, como nomeações para cargos, títulos nobiliárquicos e domínio sobre propriedades. A czarina chegou até a ter assessoria para escolha de amantes, embora ela não tolerasse ser traída.

Sua vida sexual promíscua não impediu que ela construísse uma sólida reputação como governante respeitada pela população. Teve uma relação complicada com as religiões, sendo tolerante com islâmicos e severa com judeus e até com católicos ortodoxos. Diante de um protesto formal contra a construção de mesquitas na Rússia a czarina chegou a responder que não governava os Céus e que não interferiria em assuntos desse tipo.

Em seu reinado foi inaugurada a Universidade de Moscou e ela admirava muitos dos ideias filosóficos de seu tempo, tendo sido correspondente do iluminista Voltaire. Catarina deu passos importantes para a ampliação da influência ocidental sobre a Rússia Imperial e é reconhecida como uma das grandes referências históricas do país.

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O Massacre dos Valdenses

abril 17, 2014

Na Itália do século XVII ainda era grande a perseguição aos valdenses, adeptos do medieval segmento cristão difundido pelo francês Pedro Valdo (Pierre Vaudès, 1140–1218), que desafiou a Igreja Católica ao pregar diversas concepções e práticas que somente foram retomadas com efeito e força durante a Reforma Protestante. Os valdenses, muito antes de Lutero, já empregavam bíblias traduzidas em seus idiomas e defendiam a abolição do uso de imagens e do poder da hierarquia eclesiástica católica, tendo sido condenados pelo papa Lúcio III em 1184 e oficialmente excomungados em 1215, durante o IV Concílio de Latrão (1215). Eram desde então vistos como seguidores de movimento herético a ser combatido pelos católicos e por Roma e essa postura vigorou ao longo dos anos mesmo com a ocorrência de fases de maior perseguição e outras nas quais eram quase que ignorados. Ainda assim, os valdenses continuaram existindo, persistindo e defendendo suas concepções e práticas.

Desde o surgimento da Reforma Protestante os valdenses passaram a integrar o movimento que se opunha à Igreja Católica – mesmo sendo anteriores e precursores de muitas das teses e princípios do protestantismo mais conhecido. As perseguições que sofriam passaram até a ser reforçadas em função desse fato.

Em abril de 1655, sob as ordens de Carlos Emmanuel II, o Duque de Sabóia, um sangrento massacre ocorreu no Piermonte, Itália, região onde era concentrado um significativo contingente de valdenses, que constituíam comunidades isoladas do convívio com católicos e alheias às autoridades políticas aliadas ao papado. O duque simplesmente decidiu que deveria eliminar os valdenses de seus domínios e reuniu uma poderosa tropa para cumprir este propósito. E não houve limite para a realização deste extermínio, pois nem crianças ou pessoas idosas ou doentes eram poupadas da carnificina. Todos os métodos de torturas e execuções foram empregados para dar efeito à eliminação sangrenta dos valdenses e até persistiram relatos de que os exterminadores (a maioria deles constituída por mercenários de várias procedências) chegaram a praticar canibalismo, comendo partes de corpos que foram cozidos.

A repercussão dos massacre foi péssima e até mesmo o protestante Oliver Cromwell, líder da república revolucionária inglesa, chegou a ameaçar os domínios do agressor e a articular uma retaliação aos aliados do Duque de Sabóia, como era o caso do jovem rei Luís XIV, da França.

As imagens a seguir foram retiradas da obra “The history of the evangelical churches of the valleys of Piemont” (1658), de autoria de Samuel Morland, um inglês protestante que ressaltou o lado dos valdenses.

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Famosas e estranhas bandeiras piratas

abril 3, 2014

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As “Jolly Rogers” eram as famosas bandeiras utilizadas pelos piratas britânicos e o nome é atribuído a um navio que fora perdido pelo conhecido comandante Francis Drake durante uma batalha contra a Invencível Armada da Espanha em 1588. O navio Jolly Roger teria sido a única embarcação britânica perdida na batalha.

Os piratas e corsários também chamavam suas bandeiras de Jack e cada um adotava sua própria Jack. A partir do final do século XVII as bandeiras passaram a ostentar símbolos. Aqui estão algumas bandeiras de famosos piratas e corsários britânicos.

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Piratas da vida real

junho 29, 2012

Publicado originalmente na revista Época em agosto de 2006 [com adaptações]

As salas de cinema foram tomadas pelos piratas. Num assalto rápido às bilheterias, a série de filmes Piratas do Caribe obtiveram fantásticos índices de renda. As aventuras do capitão Jack Sparrow, vivido pelo ator Johnny Depp, misturam em doses certas emoção, aventura e suspense. Mas a vida dos piratas que efetivamente pilharam navios e cidades no Mar do Caribe era bem diferente. Brutais e sádicos, ingleses, holandeses e franceses se dedicavam a saquear, por iniciativa própria ou a mando de seus países, as riquezas que espanhóis tiravam da América. As ilhas do Caribe foram descobertas e colonizadas pela Espanha, em seguida à famosa viagem de Cristóvão Colombo em 1492. Pelo Tratado de Tordesilhas, celebrado com Portugal em 1494, toda a região ficava na área de domínio espanhol. Os outros países europeus não gostaram dessa partição do mundo que os deixava de fora. A resposta de franceses, ingleses e holandeses foi contrabando, guerra e pirataria. A Espanha proibia o comércio de seus súditos caribenhos com outros europeus. Mas não supria as colônias com tudo de que elas necessitavam. Marinheiros de outros países logo aproveitaram a chance de grandes lucros contrabandeando a mercadoria desejada. Mas corriam risco de morte se fossem apanhados por algum navio guarda-costa espanhol.

Teoricamente existe uma diferença clara e importante entre pirata e corsário. O pirata é um fora-da-lei que ataca qualquer navio. O corsário é um marinheiro que recebeu licença do governo de seu país para atacar e apresar somente navios de países inimigos e, obviamente, só em caso de guerra, para isso recebendo uma carta ou patente de corso. Mas no Caribe essa distinção demorou para ficar clara. A intransigência espanhola em não abrir seus mercados fez alguns países usar corsários – no caso, melhor seria chamá-Ios de piratas “semi-oficiais” – mesmo em tempo de paz na Europa. O exemplo mais famoso é o inglês Francis Drake, primeiro navegador inglês a dar a volta ao mundo, marinheiro sem igual e saqueador de várias cidades hispânicas, como Santo Domingo (na atual República Dominicana) e Cartagena de índias (na Colômbia). Drake era nada discretamente apoiado pela Coroa britânica, para quem obteve lucros enormes. Também foi o caso de Thomas Cavendish, que saqueou Santos em 1591. A partir de 1580 (e até 1640) Portugal esteve sob domínio espanhol, o que tomava o Brasil alvo legítimo de corsários inimigos da Espanha.

Esse surto de pirataria e corso foi estimulado pela guerra religiosa. O ódio entre espanhóis católicos e ingleses e holandeses protestantes se traduziu em maior ferocidade nas Américas. Para conter a depredação de seu comércio colonial, a Espanha tomou duas medidas, tanto para proteger suas cidades como os navios que escoavam o ouro e prata americanos. Uma delas foi reunir os navios mercantes em comboios anuais protegidos por navios de guerra. Aqueles que transportavam o metal precioso eram grandes galeões bem armados com canhões. Outra medida foi intensificar a fortificação das cidades, especialmente aqueles portos em que os comboios faziam escala.

Os primeiros piratas e corsários do Caribe não tinham bases na região. Mas aos poucos foram surgindo focos de colonização de ingleses, franceses e holandeses. Alguns deles se tornariam famosos por abrigar “ninhos” de piratas. O melhor exemplo foi a ilha de Tortuga (em espanhol), ou Tortue (em francês), conhecida pelas tartarugas que lhe deram o nome (além de ter forma parecida com o bicho). Trata-se de uma ilhota a norte da Ilha Hispaniola, hoje dividida entre Haiti (a oeste) e República Dominicana (a leste). Em Tortuga, a partir de 1630, e na parte não-espanhola da ilha maior, vivia um tipo original de “colono”. Eram sujeitos independentes, exímios atiradores que viviam da caça e pesca. Defumavam a carne sobre uma grelha de madeira chamada “boucan”, ganhando dela o nome de “bucaneiros” . Outra atividade à qual se dedicaram com gosto foi a pirataria.

A princípio os bandos de bucaneiros atacavam pequenos navios costeiros espanhóis a partir de simples canoas. Em um processo que caracterizou, a partir daí e até o fim, a pirataria no Caribe, eles usavam suas presas menores para conquistar embarcações maiores. De canoas eles tomavam escunas, com as escunas tomavam navios oceânicos de três mastros. Boa parte dos bucaneiros era de ascendência francesa, como mostra a origem do nome. Mas outro grande impulso à pirataria caribenha surgiu graças a um belo golpe inglês, a tomada da ilha de Jamaica em 1655. Sua localização estratégica, bem no centro do Mar do Caribe, fez da colônia inglesa o ninho de piratas ideal. Port Royal tornou-se a base perfeita para os ladrões do mar. Ali eles estavam protegidos, podiam vender as cargas que apresavam – açúcar, tabaco, escravos – e tinham acesso àquilo que os marinheiros mais ansiavam: bebida à vontade e mulheres.

Para azar dos piratas e sorte dos arqueólogos, um terremoto devastou Port Royal na manhã de 7 de junho de 1692, jogando dois terços da cidade debaixo d’água. Morreram cerca de 2 mil pessoas na hora, mais 3 mil nos dias seguintes. O sítio arqueológico de Port Royal tornou-se uma “Pompéia dos piratas”, segundo o arqueólogo Roger Smith, da Universidade Texas A & M, dos EUA. Para Smith, esse ninho de piratas “é talvez o mais importante sítio arqueológico inglês do século XVII no mundo”.

Alguns piratas mais espertos politicamente conseguiam se reabilitar e se tornar socialmente respeitáveis, como o velho bucaneiro inglês Henry Morgan, que se tornou vice-governador da Jamaica. Depois da pirataria “semi-oficial” do final do século XVI, surgiu essa “pirataria social” dos bucaneiros no século seguinte, uma expressão usada pelo pesquisador francês Philippe Jacquin. Deixava de ser o mero banditismo no mar para “se enraizar” nas comunidades marítimas e de colonos caribenhos, segundo Jacquin, da Universidade de Lyon, França.

Um dos maiores sucessos dos bucaneiros franceses ocorreu no final do século XVII, exatamente no fim de sua era. Foi a tomada de Cartagena (Colômbia) em 1697, então bem mais fortificada que a cidade colonial atacada por Drake um século antes. O ataque foi feito junto com forças navais francesas, mas o papel dos bucaneiros foi importante. Uma das testemunhas da vitória francesa foi o primeiro-tenente Louis de Chancel de Lagrange, que em 1711 também estaria a bordo de um dos navios da frota que entrou na Baía de Guanabara e tomou o Rio de Janeiro. Essa frota, comandada por um dos maiores heróis navais franceses, o corsário René Duguay-Trouin, era um misto de navios corsários e navios regulares da Marinha real.

Mas foram os ingleses – a partir de 1707 “britânicos”, depois da união das coroas escocesa e inglesa – que se tornaram os principais protagonistas da era “dourada” da pirataria caribenha, nas primeiras décadas do século XVIII. Foi por essa época que a bandeira negra – com ou sem crânios ou esqueletos – passou a ser símbolo da pirataria. Entre 1716 e 1726, o Caribe foi assolado por cerca de 5 mil piratas, dos quais três quartos eram britânicos ou de sua colônia americana – que se tornaria os Estados Unidos. Foi o caso de alguns dos piratas popularmente mais conhecidos graças ao cinema, como Edward Teach, o Barba Negra, e o capitão William Kidd.

Essa pirataria também não era apenas banditismo. Muitos piratas eram marinheiros comuns barbaramente explorados por seus capitães. Terminavam se amotinando e tomando o navio. Segundo Marcus Rediker, da Universidade Georgetown, EUA, autor de um clássico estudo sobre marinheiros e piratas no século XVIII, entre 1700 e 1750 houve 60 motins registrados a bordo de navios mercantes anglo-americanos – “talvez uma pequena parte dos que realmente ocorreram”. A lei era clara: os amotinados estavam condenados à morte pela rebeldia. Como resultado, muitos optavam por ser piratas.