Posts Tagged ‘mulheres na história’

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A insaciável Catarina II, A Grande

abril 17, 2014

 

Catarina em sua juventude e em fase adiantada de seu longo reinado

Catarina em sua juventude e em fase adiantada de seu longo reinado

Sem dúvida, Catarina II era poderosa. A czarina governou a Rússia de 1762 a 1796 e ao longo de seu reinado colecionou histórias, muitas delas bastante apimentadas. Casou-se com Pedro III, mas acabou depondo o marido do trono com a ajuda de seu amante, o nobre general Grigory Grigoryevich Orlov (pai de dois filhos da czarina).

Catarina até cogitou casar-se com seu parceiro de golpe político, mas não fez isso. Acabou mesmo foi criando fama de amante incontrolável e sedenta por experiências tórridas.

Muitos dos casos atribuídos a ela talvez nem sejam verídicos, mas os boatos e fatos reúnem uma grande quantidade de situações. É usual a ideia de que Catarina teve inúmeros amantes desde a juventude até a fase madura – teve amantes maduros quando era jovem e amantes jovens quando era uma senhora já com idade mais avançada. Os boatos a seu respeito costumam girar em torno de seu apetite sexual. Ela morreu por conta de um AVC aos 67 anos, mas houve quem espalhasse que a causa da morte foi outra. Uma versão nada abonadora dizia que ele morreu fazendo sexo com um cavalo, que caiu sobre a czarina, que teria sido esmagada por seu amante relinchante.

De onde vieram histórias como essa? Da fama que Catarina, A Grande, acabou criando por conta de sua vida íntima agitada. Ela assumiu vários casos publicamente costumava oferecer vantagens a eles, como nomeações para cargos, títulos nobiliárquicos e domínio sobre propriedades. A czarina chegou até a ter assessoria para escolha de amantes, embora ela não tolerasse ser traída.

Sua vida sexual promíscua não impediu que ela construísse uma sólida reputação como governante respeitada pela população. Teve uma relação complicada com as religiões, sendo tolerante com islâmicos e severa com judeus e até com católicos ortodoxos. Diante de um protesto formal contra a construção de mesquitas na Rússia a czarina chegou a responder que não governava os Céus e que não interferiria em assuntos desse tipo.

Em seu reinado foi inaugurada a Universidade de Moscou e ela admirava muitos dos ideias filosóficos de seu tempo, tendo sido correspondente do iluminista Voltaire. Catarina deu passos importantes para a ampliação da influência ocidental sobre a Rússia Imperial e é reconhecida como uma das grandes referências históricas do país.

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A criação (e destruição) do Dia das Mães

março 23, 2014
Anna Jarvis, que criou e lutou para acabar com o sentido que foi dado ao Dia das Mães

Anna Jarvis, que criou e lutou para acabar com o sentido que foi dado ao Dia das Mães

O dia das Mães surgiu como uma homenagem às mulheres que perderam seus filhos e maridos durante a Guerra Civil Americana (1861-1865). Pode-se dizer que tudo começou a partir da atuação de Ann Reeves Jarvis, que realizava diversos eventos reunindo a atuação feminina em prol de causas solidárias, associando mães e mulheres de combatentes nortistas na guerra.

Sua morte, em 1905, não encerrou o ativismo dos grupos e sociedades beneficentes que ela estimulou ou fundou diretamente. Anna Jarvis, sua filha, não teve filhos e ainda assim continuou o trabalho da mãe ativista, instituindo o primeiro Dia das Mães em 1908, quando em 10 de maio famílias se reuniram numa igreja em Graffon, cidade natal de Jarvis, e também em Filadélfia. Nos anos seguintes a celebração foi sendo amplamente difundia até que o presidente Woodrow Wilson definiu, em 1914, que oficialmente o segundo domingo de maio haveria de ser feriado para celebração do Dia das Mães.

A proposta inicial do Dia das Mães era a promoção de celebrações íntimas e familiares, contudo virou uma oportunidade lucrativa que desagradou sua idealizadora, que tentou promover boicotes e até ações judiciais para impedir a exploração econômica que imediatamente tomou conta da data. Anna Jarvis insistiu em reformular o sentido que foi dado à data até o início da década de 1940, consumindo seus recursos e saúde.

Anna Jarvis morreu aos 84 anos de idade, em 1948. Na ocasião ela vivia recolhida num asilo em estado de demência. A fundadora do Dia das Mães morreu pobre e sua criação virou um lucrativo evento comercial.

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Bessie Coleman (1892-1926) – A primeira mulher afro-americana a atuar em pilotagem na aviação civil

agosto 3, 2013

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Filha de um índio Cherokee e de uma mulher negra, Bessie nasceu em Atlanta, Texas, e era a 13ª filha do casal. Por incentivo dos pais, ela ingressou numa precária escola para negros e era ótima aluna, apesar de interromper com frequência seus estudos para trabalhar na colheita de algodão. Concluiu sua formação escolar em uma escola mantida pela Igreja Batista, mas não avançou para uma formação universitária.

Em 1915, enquanto trabalhava como manicure em Chicago, passou a se interessar por aviação, embora tivesse consciência das dificuldades que enfrentaria para realizar sue desejo de ser pilota. Tendo aprendido francês, decidiu ir para a França para ingressar num centro de formação para pilotos que admitia e incentivava o treinamento de negros e mulheres.

Em 1921 recebeu licença da Fédération Aéronautique International e estava, oficialmente, habilitada a pilotar. Percebendo as restrições para atuar na aviação civil regular, decidiu aprimorar seu treinamento para trabalhar em exibições aeronáuticas. Com os espetáculos de aviação ela teve grande sucesso e até contou com convites para atuar no cinema, mas seu grande ideal era criar uma escola de aviação para negros.

Em 30 de abril de 1926, em Jacksonville, Flórida, Bessie Coleman realizou seu último voo. Na véspera de sua apresentação, Bessie realizou uma decolagem para testar as condições do avião e enquanto voava o aeroplano apresentou problemas e ficou em posição invertida. Aos 150 metros de altura, Bessie – que não estava usando cinto de segurança na ocasião – acabou caindo e sofrendo um impacto mortal no chão.

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Trotula de Salerno – a primeira médica

agosto 3, 2013

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No século XI, em Salerno (Itália), havia aquilo que poderia ser chamada de verdadeira escola de medicina (precursora de uma faculdade tal qual entendemos hoje) e costuma-se dizer que era a primeira instituição desse tipo no mundo. Havia hospital-escola, consultórios com médicos renomados que atraiam pacientes de lugares distantes e uma importante produção de pesquisas e tratados sobre medicina e procedimentos. Era um universo dominantemente masculino, mas entre os profissionais teria existido a médica Trotula, que também costumava escrever tratados destinados a instruir outros médicos quanto aos métodos de tratamento e atendimento às mulheres num tempo no qual tabus religiosos, morais e legais impediam que os médicos estudassem adequadamente os problemas ginecológicos.

 São atribuídos a Trotula a autoria de pelo menos dois importantes livros a respeito da saúde feminina. Um deles aborda técnicas e procedimentos ginecológicos e obstétricos, além de apresentar uma tese incômoda na época: A ideia de que, por vezes, os homens eram a causa biológica dos problemas de concepção ao invés de apenas as mulheres. Seu segundo livro abordava procedimentos estéticos para preservar ou aprimorar a beleza feminina, incluindo tratamentos para pele e cabelos. Eram conhecimentos bem fundamentados que não eram objeto de grande interesse ou mesmo que eram “impedidos” aos médicos homens.

 No século XVI começou uma verdadeira campanha contra Trotula, que passou a ter a própria existência questionada. Seus críticos (que incluíam médicos e historiadores) argumentavam que uma mulher não estudaria e muito menos ensinaria medicina em seu tempo, surgindo então a suspeita de que, na verdade, um homem usou um pseudônimo feminino para publicar os livros, evitando com essa artimanha enfrentar problemas com as leis e com a Igreja. Havia ainda quem afirmasse que era pouco provável que uma mulher fosse mesmo capaz de produzir aqueles livros tão profundos e repletos de informações com altos rigores de embasamentos científicos.

 Hoje poucos historiadores duvidam da existência de Trotula e até deduzem que pode ter se tratado de uma mulher de origens sociais abastadas, que teve acesso privilegiado a um universo intelectual masculino e elitizado.

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A mulher mais forte do mundo

julho 27, 2013

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A austríaca Kate Brumbach (1884-1952) ficou famosa como Kate Sandwina, The Mighty Sandwina ou ainda Lady Hercules e se apresentava como “a mulher mais forte do mundo”. Seus pais erem proprietários de um circo e já eram praticantes de exercícios físicos e possuíam corpos musculosos e iniciaram seus 14 filhos no treinamento físico. Ainda criança Kate demonstrava aptidão para os exercícios, desenvolveu uma musculatura firme, grande força física e habilidade como lutadora. Kate lutava contra homens e segundo uma lenda a seu respeito jamais perdeu um combate. Ela ganhou bastante dinheiro com apostas relativas às lutas e também ganhou um marido no ringue, pois um de seus desafiantes derrotados, Max Heymann, acabou se apaixonando pela mulher que o espancou numa luta – o o sentimento foi correspondido, pois ambos mantiveram um casamento de 52 anos.

A carreira internacional de Kate teve impulso a partir de suas apresentações em Nova York, onde desafiava (também com apostas) qualquer homem a levantar mais pesos que ela. O próprio Eugen Sandow (Friedrich Wilhelm Müller), prussiano reconhecido como “o pai do fisiculturismo”, desafiou e foi derrotado por Kate (foi a partir dessa ocasião que ela adotou o nome Sandwina, derivação feminina do nome Sandow).

Ela seguiu realizando proezas com sua força física e em meio a tudo isso ainda teve seu filho, Theodore – que herdou habilidades da mãe e virou lutador de boxe, tendo ao longo de sua carreira 46 vitórias, 36 delas por nocaute.

Somente aos 64 anos de idade Sandwina se aposentou das apresentações e abriu um restaurante, no qual divertia os clientes quebrando ferraduras e entortando barras de ferro. A única derrota que sofreu foi para o câncer, que a matou em janeiro de 1952.

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A “Mulher Macaco”

julho 27, 2013

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Julia Pastrana (1834-1860) ficou conhecida no século XIX como a “Mulher Macaco” e virou atração circense que atraiu grande público. Mexicana de origem indígena, Julia Pastrana sofria um avançado estado de hipertricose – doença até então desconhecida -, o que causou uma grande profusão de pelos pelo corpo, além de deformidades em seu rosto, dando-lhe uma feição simiesca (ainda levando-se em conta o fato de que media uma baixa estatura para uma mulher adulta: cerca de 1,30m).

Julia realizava apresentações e chegou a construir uma carreira na Europa. Ela exibiu talento como cantora de óperas, realizava passou de danças e costurava as roupas utilizadas em suas apresentações e números especiais. Teve um filho com seu empresário, contudo a criança (que nasceu com a mesma doença da mãe) sobreviveu poucas horas. Julia morreu dois dias após a morte do filho em decorrência de complicações do parto e os corpos da mãe e do filho foram mumificados para que pudessem ser exibidos como atração, rendendo arrecadação de ingressos e lucros a partir do interesse do público pela contemplação com curiosidade mórbida pelo aspecto “exótico” e “incomum” da mulher e do bebê “macacos”.

Hoje os cadáveres estão sob a guarda de uma instituição norueguesa, mas não são objetos de exibição pública. Grupos e instituições ligadas à Igreja Católica no México reivindicam o envio dos cadáveres ao país de origem de Julia Pastrana, que em vida era seguidora do catolicismo, religião na qual fora batizada. Estas entidades defendem o sepultamento segundo os ritos cristãos.

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Saartjie Baartman – A Vênus Hotentote

julho 27, 2013

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Saartjie Baartman (1789-1815), cujo nome verdadeiro é desconhecido, nasceu numa tribo hotentote (khoisan) na África do Sul e ainda criança ficou órfã. Ela possuía nádegas hipertrofiadas (esteatopigia), o que era uma característica nas mulheres de seu grupo étnico e este aspecto despertou o interesse de seu proprietário holandês de exibi-la como atração na Europa. A partir do 19 anos Saartjie era exibida aos curiosos no Velho Mundo como uma exótica mistura humana e simiesca em apresentações na qual ela era forçada a dançar de modo grotesco e tinha suas nádegas tocadas pelos expectadores.

Quando esteve na Inglaterra suas apresentações foram proibidas e ela acabou envolvida num processo judicial, contudo alegou que realizava as apresentações sem ser forçada e que recebia parte do dinheiro arrecadado através dos espetáculos. Grupos de defesa dos negros acabaram não sendo convencidos sobre a veracidade de seu depoimento. A retenção em Londres acabou motivando seu proprietário inicial a vendê-la a um domador de animais francês, que viu em sua aquisição uma boa oportunidade de realizar lucros.

Na França o grau de exposição foi muito mais intenso e Saartjie era obrigada a se exibir nua, o que contrariava sua vontade, sobretudo porque ela possuía outro traço que era objeto de curiosidades por parte do público: seus lábios genitais eram estendidos ao ponto de ultrapassarem a vagina em cerca de 10cm (a “cortina da vergonha”, segundo os costumes de seu povo). Estas novas condições, além dos maus tratos por parte de seu proprietário e de frequentes reações desagradáveis por parte de seu novo público (ridicularizando ou hostilizando), acabaram influindo sobre o seu comportamento e estado psicológico. Saartjie tornou-se alcoólatra e ainda foi levada a se prostituir.

Em 1815, aos 26 anos morreu de causas ainda indefinidas, mas há suspeitas de que foi vítima de sífilis. Seu corpo (que fora vendido por seu proprietário para não precisar arcar com as despesas funerárias) acabou parando na Escola Real de Medicina, onde foi dissecado e teve partes, como a genitália, exibidas em aulas na instituição. Seu esqueleto e seu cérebro mantido num recipiente com formol eram mantidos em exibição permanente. Somente em 2002 seus restos foram enviados à África do Sul a pedido de Nelson Mandela, que providenciou seu sepultamento.