Archive for the ‘História do Brasil’ Category

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A eterna peleja do general Abreu e Lima

fevereiro 22, 2017

Por Paulo Santos Oliveira, publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 6, nº 6, em novembro de 2010

Abreu e Lima foi um defensor implacável das liberdades civis. Por elas, arriscou a vida e até a alma

general_abreu_e_limaQuando o jovem capitão de artilharia José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869) fugiu do cárcere da Fortaleza de São Pedro, em Salvador, em outubro de 1817, seu futuro era mais do que incerto. A revolução que deveria libertar o Brasil do domínio português, pela qual tanto havia trabalhado, acabara de ser sufocada, ao custo de mais de 1.500 mortos e feridos e cerca de 800 degredados, em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Centenas de outros patriotas também estavam presos, sua rica família tivera os bens sequestrados, e ele e seu irmão Luís foram obrigados a assistir ao fuzilamento do pai, o advogado e ex-sacerdote apelidado de “Padre Roma” (1768-1817), na Bahia, para onde fora enviado como agente secreto do Governo Provisório pernambucano.

Aos 23 anos, José Inácio tinha apenas uma certeza: jamais deixaria de lutar pela liberdade e pelo direito dos cidadãos de fazerem suas próprias escolhas, inclusive as religiosas. E depois de arriscar a vida em dezenas de batalhas pela América do Sul, ele, um católico praticante, ainda enfrentaria a ira da Igreja por estas mesmas causas, aos 74 anos, pondo em risco sua alma imortal.

Após a fuga da prisão, os irmãos Abreu e Lima embarcaram clandestinamente para a Filadélfia, nos Estados Unidos, onde, no início de 1818, se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas, e de lá partiram para a Venezuela. Luís ficou pelo caminho, pois conseguiu emprego em Porto Rico. José Inácio seguiu adiante, e no começo de 1819 chegou a Angostura, cidade erguida no meio da selva amazônica, às margens do Rio Orenoco, onde Simón Bolivar (1783-1830) havia montado o seu quartel-general. Lá, o pernambucano se tornou colaborador do Correo del Orinoco, porta-voz dos rebeldes bolivarianos, e polemizou com o jornalista Hipólito da Costa (1774-1823), que, de Londres, editava mensalmente o Correio Braziliense, no qual defendia uma monarquia constitucional no Brasil e atacava a revolução nordestina de 1817.

Em Angostura, o capitão também assistiu ao congresso de fundação da Terceira República venezuelana. Em seguida, engajado no Estado-Maior de um exército de dois mil homens comandado por Bolívar, atravessou a América do Sul numa marcha duríssima: primeiro, cruzando a Amazônia; depois, a vasta região pantanosa dos llanos debaixo de chuva; e, finalmente, escalando os Andes em pleno inverno. Em cinco meses chegou ao altiplano boyacaense com uma tropa desfalcada, doente e desarmada. Mas com o auxílio da população local, o Libertador derrotou a Terceira Divisão, um dos melhores corpos militares da Espanha, e libertou o vice-reino de Nova Granada — o Panamá e a Colômbia atuais.

Abreu e Lima acompanhou Bolivar nessa jornada épica, participando de todas as batalhas e ganhando várias condecorações, além da fama de valente. Também esteve nas campanhas dos três anos seguintes, que decretaram a libertação de Quito, atual Equador; da Venezuela e do antigo Peru, que se dividiria nos atuais Peru e Bolívia. Mas, consolidadas as independências, explodiram as intrigas e as disputas pelo poder. À maior parte das elites venezuelanas, granadinas e quitenses não interessava que suas nações permanecessem unidas numa só, a Grã-Colômbia, como queria Bolívar, e também não aprovavam vários de seus projetos, como abolição da escravatura, reforma agrária, educação popular, etc.

Em 1825, o já coronel Abreu e Lima se viu envolvido em outros confrontos de natureza política. Passou a ser atacado por gente que queria atingir o Libertador, de quem era fiel escudeiro, e o fato de ser estrangeiro – pior ainda, brasileiro – fazia dele um alvo fácil. Ora, o Brasil acabara de se separar de Portugal, mas, ao contrário dos seus vizinhos, transformara-se em império, não em república. E o imperador D. Pedro I era tido como um absolutista ferrenho, ligado às monarquias europeias mais conservadoras, inclusive pelo casamento com uma princesa austríaca, D. Leopoldina. Caluniado pela imprensa por Antônio Leocadio Guzmán (1801-1884), o coronel, de temperamento exaltado, feriu o rosto do desafeto com o sabre em plena rua. Por esse gesto foi submetido a Conselho de Guerra e enviado para o deserto de Bajo Seco, onde ficou encarcerado por seis meses.

No final de 1826, Abreu e Lima deu baixa do exército, mas Bolívar o chamou de volta, em 1828, e o incumbiu, junto com o abade Dominique Dufor de Pradt (1759-1837) de defendê-lo, no Courrier Français, dos ataques que o filósofo Benjamin Constant (1767-1830) lhe fazia em outros jornais franceses. A guerra política declarada contra as ideias bolivaristas havia cruzado o Atlântico.

Desgastado pelas campanhas difamatórias e sofrendo de tuberculose já em estágio avançado, o Libertador renunciou à Presidência dois anos depois, e saiu de Bogotá rumo ao litoral colombiano, de onde pretendia partir para o exílio na Europa. Abreu e Lima, promovido a general, também o acompanhou nesse derradeiro trajeto.

Bolívar morreu em Santa Marta, na Colômbia, no dia 17 de dezembro de 1830. Poucos meses depois, o pernambucano e outros militares estrangeiros foram expulsos de lá por inimigos políticos do antigo líder que haviam ocupado o poder. Depois de uma viagem pela Europa, onde se encontrou com o rei Luís Felipe, da França, e com D. Pedro I, que já havia abdicado do trono brasileiro em 1831, o general voltou para o Brasil no ano seguinte. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro e alinhou-se aos conservadores do Partido Caramuru, abraçando as mesmas ideias de Hipólito da Costa, com quem polemizara na juventude. Decepcionado com o esfacelamento da Grã-Colômbia, Abreu e Lima passou a ver na monarquia constitucional o único sistema capaz de manter a nação brasileira coesa. Por isso, pós de lado seus ressentimentos com os Bragança, que tanto mal haviam causado à sua província e à sua família. Para ele, o estabelecimento de uma República no Brasil levaria ao poder os donos de terras, que também eram donos da maioria dos votos. E esses “senhores feudais” – como Abreu se referia aos grandes proprietários de terras – certamente não se preocupariam com o bem-estar das massas.

Essas convicções fizeram com que Abreu e Lima entrasse em conflito com vários liberais, como o jornalista Evaristo da Veiga (1779-1837), de quem recebeu injúrias e até ameaças de morte, e o cônego Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838. Em 1836, ele lançou um jornaleco, O Raio de Júpiter, para defender a regência de D. Januária, irmã do futuro imperador Pedro II. Em 1843, publicou uma História do Brasil e foi novamente atacado pelo cônego Januário, dessa vez como “plagiador”. Desencantado com a Corte, o general voltou para Recife, onde fundou o jornal A Barca de São Pedro, e em 1848 se envolveu em outra das muitas revoltas libertárias pernambucanas, a Praieira. Considerado um dos cabeças do movimento, Abreu e Lima passou dois anos preso na ilha de Fernando de Noronha. Anistiado, ele se retirou da política, mas não se afastou das polêmicas. Em 1855, publicou O Socialismo, no qual criticava os principais defensores dessa linha de pensamento anteriores a Karl Marx (1818-1883), que não foi citado. Embora reconhecesse o conflito de classes, ele não defendia a superioridade de nenhuma delas. Para ele, “o socialismo não era uma ciência, nem uma doutrina, nem uma religião, nem uma seita, nem um sistema, nem um projeto, nem uma ideia”, mas “um desígnio da Providência”.

Mesmo tendo se assumido politicamente como conservador, continuou a ser um defensor de todas as liberdades – inclusive a religiosa -, o que lhe acarretou novos transtornos. Ao distribuir entre amigos algumas Bíblias que ganhara de protestantes ingleses, ele enfureceu o monsenhor Joaquim Pinto de Campos, um sertanejo bravo e extremamente reacionário, que passou a atacá-lo violentamente no Diário de Pernambuco ao longo de 1868. E o velho artilheiro disparava seus obuses de volta pelo Jornal do Recife.

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Túmulo de Abreu e Lima no Cemitério dos Ingleses, Recife

Em meio a esse debate, José Inácio de Abreu e Lima morreu, no dia 8 de março de 1869, sem abjurar suas ideias, e isso fez com que o bispo de Olinda, D. Francisco Cardoso Ayres, lhe negasse sepultura em campo-santo brasileiro. Seus restos só puderam ser inumados em terras estrangeiras, no Cemitério dos Ingleses de Recife, debaixo de uma cruz celta. Mas o “General das Massas” não perdeu sua última batalha. A repercussão desse caso criou tanta polêmica em âmbito nacional que, dois anos depois, a administração dos cemitérios públicos foi retirada da Igreja, e o país deu mais um passo rumo às liberdades civis defendidas por ele ao longo de toda a vida.

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A higiene e os maus hábitos dos brasileiros no período colonial

julho 14, 2016

Contribuição do blogueiro histórico Mauro Luiz, do blog A História e seus fatos curiosos

A palavra ‘higiene’ não constava no vocabulário até o século XIX. Plantas perfumadas eram queimadas para disfarçar mau cheiro. Hábito de esvaziar penicos pela janela estava em toda parte, dos pobres aos ricos.

Hoje em dia não comemos mais com as mãos, nem arrotamos publicamente e nem defecamos e urinamos em praça pública, mas até que isso não acontecesse, percorremos um longo caminho.

A palavra higiene não constava no vocabulário até meados do século XIX. Existem diversos relatos de viajantes estrangeiros, já dotados de boas maneiras, que ao passarem pelo Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, ficavam impressionados com a repugnante sujeira das casas. Raramente o interior de uma casa era limpa e quando muito era varrido por uma vassoura de bambu. Água no chão, nem pensar. As paredes que eram apenas caiadas se tornavam amarelas. A fim de se tornarem os quartos toleráveis, queimava-se plantas perfumadas para disfarçar o mau cheiro. Esses odores também mantinham-se afastados, aquilo que os viajantes chamavam de “atacantes invisíveis”, ou seja, mosquitos e baratas e outras imundícies mais.

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Despejo de dejetos no mar

Naquela época as pessoas não se davam conta da falta de higiene total, tanto nas casas de pobres como nas dos ricos. Tinha-se por hábito esvaziar os penicos pela janela dos sobrados gritando “água vai!”, justamente para que as pessoas que estivessem embaixo se protegessem.

Mas, o que mais impressionava, eram as maneiras à mesa. Não havia qualquer preocupação com o uso de talheres. Era hábito durante as refeições, os homens ao chegar da cidade, tirarem toda a vestimenta para que a refeição não se tornasse muito incomodada e acalorada. Ficavam só de calção e uma camisa meio que aberta no peito e de pés descalços.

Segue relato de um viajante inglês: ” …os maus modos à mesa eram visíveis. Comem muito com grande avidez. A altura da mesa faz com que o prato fique no nível do queixo. Cada qual espalha seus cotovelos ao redor, colocando o pulso na beirada do prato, fazendo que, por meio de um movimento hábil, o conteúdo todo seja despejado na boca. Por outros motivos além desse, não há grande limpeza nem boas maneiras durante a refeição. Os dedos são usados tanto quanto o próprio garfo…”

Nota-se que não havia preocupação nenhuma quanto à presença de visitantes à mesa. Os maus hábitos durante as refeições eram comuns em qualquer situação, tanto entre ricos como entre pobres.

Apesar do dito que o brasileiro aprendeu a tomar banho com os indígenas, naquela época, os banhos e a limpeza corporal não eram apreciados pela população em geral. Os pés eram geralmente a parte mais limpa do corpo, simplesmente porque havia bicho-de-pé, e isso incomodava muito. Era uma verdadeira praga. As pessoas limpavam os pés, as mãos, o rosto e os braços e o resto era sujeira.

De acordo com relatos dos médicos do século XIX, doenças de pele eram comuns como sarnas e perebas de todos os tipos. Nas próprias correspondências dos Governadores-Gerais aos seus familiares em Portugal, eles diziam que se conservavam bem livre de perebas, sarnas e bichinhos do pé.

Apesar do acesso a água ser difícil, pois ela vinha no lombo de burros ou carregada por escravos, é notório que não havia aquele entusiasmo por um bom banho, haja vista que D. João VI, só tomava banho de mar obrigado para curar uma pereba que ele tinha na perna.

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D. João VI

Outra praga comum era o piolho, porém, o que mais chamava a atenção era que catar piolhos era um passatempo. Há várias gravuras e narrativas de viajantes em que mostram os homens com a cabeça no joelho das mulheres catando seus piolhos. Os estrangeiros ficavam estarrecidos com essa prática, pois reuniam alegremente as pessoas sempre embaixo de uma sombra, depois do almoço com as senhoras catando vagarosamente o cabelo de seus maridos e ouvindo os estalos do piolhos mortos, como se fosse uma espécie de passatempo agradável.

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Piolho

Mas o que mais impressionava era o ato de urinar e defecar em público. Já se tinha na Europa a ideia do “toalete ou WC”, e que mais tarde os barões do café viriam a exportar as primeiras privadas para o Brasil. Na verdade não se tinha a menor cerimônia e era muito comum as mulheres por exemplo, segundo relato de um viajante inglês, “…urinarem descaradamente nas ruas, levantando as saias e fazendo xixi sem se importar em cobrir as vergonhas…”

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“Mijão” – Debret

O exemplo desses maus hábitos também vinha de cima. Segue abaixo a narrativa de um cadete de cavalaria inglês, contrato como mercenário para trabalhar no quartel da Praia Vermelha (RJ) pelo Imperador D. Pedro I:

“Ao romper o dia, chegaram a cavalo D. Pedro e sua esposa acompanhados de camaristas e generais. Não há talvez no mundo soldando tão entendido como o Imperador no manejo prático do exercício da espingarda. Mas de resto, seus modos são grosseiros, falta de sentimento das conveniências. Pois o vi uma vez trepar ao muro da fortaleza, de cócoras, para satisfazer uma necessidade natural. E nesta atitude altamente indecorosa assistiu o desfile do batalhão em continência. Tal espetáculo deixou atônitos os soldados alemães, mas o imperial ator conservou inalterável a sua calma.”

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Capitanias Hereditárias – Aquilo que aprendemos (e ensinamos) pode estar errado!

julho 8, 2014

Estudioso reconstrói Capitanias Hereditárias e afirma que livros escolares estão errados

[Publicação original aqui]
O mapa provavelmente errado que aprendemos

O mapa provavelmente errado que aprendemos

RIO – Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o engenheiro Jorge Cintra fez uma descoberta que pode mudar os livros escolares. Em um artigo recente, ele contesta o mapa das Capitanias Hereditárias eternizado por Francisco Adolfo de Varnhagen, considerado o pai da historiografia nacional, e propõe mudanças significativas no seu desenho. A partir de documentos da época, Cintra, que leciona na Escola Politécnica da USP, conseguiu reconstruir com maior exatidão os limites das porções de terra doadas, entre 1534 e 1536, pela Coroa Portuguesa a comerciantes e nobres lusitanos.

– A técnica evoluiu muito, os instrumentos de medição também. Para a cartografia, isso proporciona maior rigor na obtenção de resultados. E, sobretudo, acho que o professor Cintra, por ser engenheiro, teve uma exatidão que talvez um historiador não tivesse. O grande mérito dele foi ter verificado um erro de base, um erro de interpretação – elogia o geógrafo Jurandyr Ross, responsável por romper um paradigma semelhante ao propor uma nova classificação para o relevo brasileiro.

O sistema de Capitanias Hereditárias, que já havia sido utilizado com relativo sucesso na África, dividiu o território em 15 partes e pretendia viabilizar a exploração das riquezas do “Novo Mundo”. As terras tinham como limites o Oceano Atlântico, a Leste, e o Tratado de Tordesilhas, a Oeste. Após recuperar, analisar minuciosamente as cartas de doação e de notar detalhes que passaram despercebidos por Varnhagen em mapas da época, Cintra assegura que, no Norte, a divisão das fronteiras não foi feita de acordo com paralelos, e sim através de meridianos.

– Coloquei tudo em dúvida. Descobri um erro ao Sul e resolvi conferir todo o resto. Logo percebi que, de fato, o Norte não estava bem resolvido. Havia capitanias finas demais, era uma incógnita – explica.

De fato, as fronteiras que constam no mapa do Atlas Histórico Escolar do MEC, desenhado por Manoel Maurício de Albuquerque sob forte influência das definições de Varnhagen, mostram territórios extremamente estreitos no Norte. Para Cintra, frases contidas nos documentos de doação são as chaves para a solução do problema. Por exemplo, o documento destinado a Antonio de Cardoso de Barros diz: “As quais quarenta léguas se estenderão e serão de largo ao longo da costa e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme adentro”.

– Se as divisas fossem para Oeste, o rei estaria doando um pedaço de mar. Isso é pouco lógico. Ora, o único jeito de se entrar sertão adentro é em direção ao Sul – sustenta.

Na mesma carta, há também uma cláusula de conflito. Ela previne a possibilidade de altercação sobre as limitações das divisas com os capitães vizinhos.

– Essa cláusula de compatibilidade não existe em nenhuma outra carta de doação. Como poderia haver conflito se as linhas fossem todas paralelas? – sentencia.

Finalmente, Cintra se valeu de uma observação sagaz do mapa de Bartolomeu Velho, de 1561. Nele, apesar de não haver divisas desenhadas, os nomes das capitanias ao Norte estão escritos em blocos separados de acordo com linhas imaginárias verticais.

– Se a divisão fosse horizontal como se pensava, o autor não precisaria “quebrar o texto” em duas ou três linhas e nem valer-se de abreviações. Ele poderia escrevê-los por extenso na mesma linha – pontua.

Além disso, no novo desenho proposto por Cintra, existem terras não distribuídas no Norte. Segundo o pesquisador, elas ficaram de fora das doações realizadas pela Coroa. Três capitanias — Maranhão, Rio Grande do Norte e São Vicente — também foram divididas em lotes. Por fim, o primeiro lote de São Vicente também teve divisas modificadas.

Para Cintra, o mapa de Varnhagen tem incorreções, pois o estudioso, em “História Geral do Brasil” (1854), recorreu a um desenho de Luis Teixeira onde as capitanias são representadas em 1586, mais de 50 anos após o início da divisão. Nele, a situação já não era mais a mesma. Por isso, o professor ressalta a importância de se duvidar de concepções tidas como definitivas:

– O artigo mostra uma coisa importante: até um entendimento que já vem de 160 anos pode ser derrubado. Ele deixa essa mensagem. Devemos colocar em dúvida outras coisas. Precisamos olhar novamente para os documentos cartográficos, voltar às fontes. Podemos ir mais fundo nos problemas.

Para Jurandyr Ross, que participou da banca de admissão de Cintra na Escola Politécnica, a descoberta é importante para o ensino de História no Brasil.

– O artigo me surpreendeu muito e causará um impacto significante para os livros escolares, que precisão corrigir esses mapas logo. Vamos ensinar uma História cada vez melhor – empolga-se.

Renato Franco, professor da disciplina Brasil Colonial no Departamento de História da UFF, elogia o artigo, mas não vê grandes mudanças na maneira com que o período pode ser enxergado pelos estudiosos do assunto.

– O texto é muito interessante. No entanto, não traz grandes impactos para a História do Brasil Colonial. Embora tenha sido completamente extinto apenas no século XVIII, o sistema de Capitanias Hereditárias rapidamente perdeu a força diante do desinteresse de boa parte dos donatários e do assédio de outras potências. Em 1549, a Coroa portuguesa mudou de estratégia e, progressivamente, as Capitanias Hereditárias foram perdendo força como forma de organização político-administrativa. O grande mérito do artigo é propor uma discussão sobre as eventuais imprecisões cartográficas, mas muda pouco no que diz respeito à nossa forma de enxergar a História do Brasil Colonial como um todo – opina.

Cintra concorda com Franco. Para ele, o período já “foi muito bem estudado” pelos profissionais brasileiros. Sobre a alteração dos livros escolares, diz não ter muita pressa. O cartógrafo explica que no meio científico, assim como na própria História, as coisas costumam levar tempo para serem completamente aceitas e solidificadas.

– A comunidade científica tem que ter calma. O primeiro reconhecimento foi ter sido publicado por uma revista de qualidade (“Anais do Museu Paulista”, da USP). Significa que revisores e editores de lá puseram a mão no fogo pelo meu trabalho. A partir daí, cada autor de livro didático tem que tomar conhecimento do artigo e se convencer dele. Então, vai começar a fase de transição – finaliza.

Nova representação da divisão das Capitanias Hereditárias

Nova representação da divisão das Capitanias Hereditárias

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Jararaca: De cangaceiro a “santo”

abril 17, 2014
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O cangaceiro Jararaca após ser ferido durante um ataque à cidade de Mossoró

O pernambucano José Leite de Santana, ex-soldado do Exército, virou integrante do bando de Lampião e atuou na fracassada invasão à cidade de Mossoró (RN) no dia 27 de junho de 1927, ocasião na qual foi baleado e deixado para trás após a retirada de seus comparsas, que acreditavam que ele havia morrido durante o tiroteio. Mesmo ferido, baleado no do tórax, o cangaceiro foi levado para a delegacia, onde foi torturado e condenado a morte sem julgamento.

Jararaca detido

Jararaca detido

Jararaca foi condizido para o cemitério para a realização da execução exatamente diante de sua futura cova. Segundo o comandante policial da cidade, “foi-lhe dada uma coronhada e uma punhalada mortal. O bandido deu um grande urro e caiu na cova, empurrado. Os soldados cobriram-lhe o corpo com areia”. Mas a cova, cavada às pressas, era pequena para o corpo do cangaceiro e a solução encontrada pela polícia foi prática: Quebraram as pernas do cadáver. Há também quem diga que Jararaca foi enterrado vivo, pois ainda na agonia da morte a terra foi sendo jogada sobre ele até que o cangaceiro fosse totalmente soterrado.

As circunstâncias da morte causaram comoção entre as pessoas mais pobres e o túmulo do cangaceiro virou ponto de romaria.

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O mulherengo D. Pedro I

abril 12, 2014
D. Leopoldina, a Marquesa de Santos e D. Amélia: Duas esposas e uma amante que marcaram a vida de D. Pedro I

D. Leopoldina, a Marquesa de Santos e D. Amélia: Duas esposas e uma amante que marcaram a vida de D. Pedro I

Em seus 36 anos de vida, d. Pedro I — o “imperador galante”, na visão popular e de muitos historiadores — conheceu três mulheres que desempenharam um papel importante não só na sua vida, mas também em sua carreira. Desde cedo, o príncipe, “seguindo a natureza ardente de sua mãe, também viria a ser um mulherengo inveterado”, como assinala Patrick Wilcken em Império à deriva. “Cavalgava pela cidade à procura de mulheres, detendo liteiras na rua e fazendo propostas a qualquer passageira bonita.”O casamento por conveniência com d. Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo (1797-1826), um ano mais velha, quando ele tinha ainda 19 anos, brindou-o com uma mulher culta e politicamente influente que preencheu também o papel de mãe, dando-lhe sete filhos (um deles falecido ainda bebê), antes de morrer prematuramente aos 29 anos. Sobre sua relação com d. Pedro, d. Leopoldina escreveu à irmã, Marie-Louise: “Com toda a franqueza, diz ele tudo o que pensa, e isso com alguma brutalidade; habituado a executar sempre a sua vontade, todos devem acomodar-se a ele; até eu sou obrigada a admitir alguns azedumes (…) apesar de toda a sua violência e de seu modo próprio de pensar, estou convencida de que me ama ternamente”.

Ainda casado com d. Leopoldina, d. Pedro teve uma relação extraconjugal a partir de 1822 com Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), a quem deu o título de marquesa de Santos. O imperador teve cinco filhos com a amante, dos quais três filhas foram reconhecidas por ele. Como d. Leopoldina, a marquesa de Santos influenciava bastante d. Pedro em suas decisões políticas. O romance durou sete anos e, por sua notoriedade, criava dificuldades para que o rei viúvo encontrasse uma nova esposa nas cortes europeias.

A ruptura definitiva com Domitila foi determinada por uma cláusula contratual do segundo casamento de d. Pedro, com d. Amélia Augusta Eugênia Napoleão de Leuchtenberg (1812-1873), com quem o imperador teve uma filha. D. Amélia compartilharia os últimos cinco anos de vida do monarca, exercendo também importante papel na reaproximação politica de Pedro I com José Bonifácio.

Texto extraído da edição especial da revista Nossa História: A Construção do Brasil (2006)

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“Todos Negros”: Um histórico flagrante de racismo

abril 12, 2014

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Sequência da qual faz parte a icônica foto que o fotojornalista Luiz Morier realizou em 1983. O flagrante mostra seis moradores negros de uma comunidade sendo presos por um PM, amarrados pelo pescoço como escravos humilhados. Depois foi constatado que todos eram trabalhadores e não possuíam envolvimento com ilegalidade. A famosa foto intitulada “Todos negros” (a terceira nessa sequência) correu o mundo e lhe rendeu o Prêmio Esso de fotografia de 1983.

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Um pouco da história de nosso Hino Nacional

abril 12, 2014
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Projeto de letra para o Hino Nacional (Joaquim Osório Duque-Estrada): 1909

Muitos brasileiros desconhecem esse fato, mas a música e a letra do Hino Nacional Brasileiro que reconhecemos hoje não foram criadas na mesma época. A composição melódica foi elaborada em 1822 pelo maestro Francisco Manuel da Silva, contudo não tinha uma letra e nem era adotada em caráter oficial, porque o atual Hino da Independência (composto no mesmo ano) tinha esse caráter. Com o crescente desprestígio de D. Pedro I, a “Marcha Triunfal” (seu título original) de Francisco Manuel da Silva foi se tornando cada vez mais popular e, enfim, acabou tomando o lugar da composição que era associada ao Imperador (que compôs a música do hino oficial anterior enquanto a letra foi obra do poeta Evaristo da Veiga).

Enquanto se estabeleceu como hino oficial, a composição de Francisco Manuel da Silva recebeu outra letra não oficializada que era alusiva ao período de D. Pedro I, contudo trazendo um tom crítico e uma forte carga política. No Segundo reinado o hino era executado em ocasiões oficiais e solenes sem uma letra e isso perdurou até o final da monarquia. Uma vez proclamada a República (1889), foi realizado um concurso para escolha de um novo hino para o Brasil e a composição vencedora não agradou nem ao púbico nem ao presidente, o Marechal Deodoro da Fonseca. O hino que já era popular e apreciado então foi mantido, mas posteriormente (em 1906) foi realizado um novo concurso e então e letra composta por Joaquim Osório Duque-Estrada em 1909 foi reconhecida como vencedora.

Quando o Hino Nacional for executado durante a Copa do Mundo você saberá algo além de seus versos.