A crise de 1929

Do livro “Nova História Crítica”, de Mario Schmidt (Ed. Nova Geração)

John Smith estava tranqüilo. Naquela quinta-feira, 24 de outubro de 1929, levantou cedo, comeu ovos mexidos e cereais, tomou um café forte. Depois, pegou o carro e estacionou no centro da cidade, perto da Quinta Avenida. Leu a manchete dos jornais que anunciavam a vitória seu time de beisebol, os Dodgers de Chicago. Olhou para as vitrines e se conteve para não comprar alguma coisa logo de manhã. Deu um sorriso e começou a assobiar. Não havia nada melhor do que viver naquele país e naquela cidade. Nova York era o centro do mundo. Do mundo que fazia dinheiro. E nada melhor do que ganhar dinheiro na Bolsa de Valores. John tinha muitas ações. Elas valiam cada vez mais.

Talvez o limite fosse o céu. John estava muito contente. Mas naquele dia algo aconteceu. De repente, a cotação (o valor) das ações começou a despencar. Assustados, os especuladores tentaram vender suas partes. Todos queriam vender e ninguém queria comprar. As ações caíram e caíram. Pessoas perderiam milhões de dólares e só lhes restariam uns pedaços de papel. Era a crise. A mais terrível que já tinha acontecido.

Meses depois, o ex-contente John Smith estava na fila dos desempregados. Ele ganhava alguns trocados como camelo, vendendo maçãs a cinco cents nas calçadas de Nova York. Seria o fim do sonho?

A euforia dos anos 1920

Terminada a Primeira Guerra, os EUA tinham se convertido na maior potência econômica do mundo. Apesar de uma pequena crise econômica em 1920-1921, chamada crise de reconversão, causada pela diminuição das exportações para a Europa – que se recuperava e voltava a produzir -, a economia continuava a crescer.

Os anos 1920 foram de euforia econômica. A agricultura norte-americana era a mais mecanizada do planeta, e as indústrias produziam bens em quantidades astronômicas. Parecia que todo mundo, do milionário ao humilde operário,  se tornaria um consumidor voraz. A claasse média, felicíssima por poder comprar tanta coisa, também investia suas economias na Bolsa de Valores. Todo mundo achava que iria ficar cada vez mais rico. Foi quando chegou a crise. Porque existia o outro lado da realidade, que não tinha a cor do ouro, mas da lama e do sangue.

Por trás dessa abundância de mercadorias havia o trabalho de milhões de assalariados que as produziam.A industrialização dos EUA tinha sido tão brutal quanto a européia. Em 1910, por exemplo, havia 2 milhões de crianças trabalhando nas fábricas. A abundante produção agrícola fazia os alimentos ficarem baratos no mercado, permitindo que os patrões pagassem salários baixíssimos. A distribuição de renda era péssima: os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres mais pobres.As famílias mais ricas, juntas, recebiam mais do que 60% do povo norte-americano. Os subúrbios operários das grandes cidades eram entulhados de cortiços, isto é, apartamentos aos pedaços, sujos, sem iluminação, infestados de ratos, escadas sebentas, janelas quebradas, banheiro único no final do corredor, duas ou três famílias amontoadas num quarto-e-sala. Também havia favelas horrorosas, com criancinhas nuas pegando vermes nos esgotos. Em suma, dezenas de milhões de pessoas estavam muito distantes dos sonhos de consumo. Elas eram operárias e produziam aquelas maravilhosas mercadorias, mas não tinham dinheiro para comprar muita coisa. Apenas sobreviviam.

Nos anos 1920, os empresários norte-americanos introduziram duas novas técnicas científicas que permitiam aumentar espetacularmente a produtividade do trabalho: o taylorismo e o fordismo.

O fordismo foi criado por Henry Ford em sua fábrica de automóveis. Cada operário passava a fazer um único tipo de tarefa dentro de uma seqüência na linha de montagem. A esteira rolante trazia o objeto sobre o qual ele iria trabalhar. Por exemplo, ele encaixava uma peça. Em seguida, a esteira deslizava e trazia outra peça igual. A tarefa era repetida milhares de vezes por dia. A esteira prosseguia e o operário seguinte fazia a sua parte, repetida monotonamente. Outra idéia de Ford era o pagamento de pequenos prêmios para os operários que produzissem além do limite.

O taylorismo era o estudo dos movimentos no trabalho As máquinas passaram a ser projetadas para evitar gestos “supérfluos” e aproveitar ao máximo a energia do corpo de operário. Equipadas com contadores, elas mediam a produtividade do operário.

As duas técnicas possibilitaram aumentar a produção sem precisar aumentar demais o salários. Muitos lucros para o patrão, enquanto os operários se tornavam apêndices da máquina. Afirmava-se a sociedade do trabalho: em viva trabalhar, trabalhar, trabalhar, para sobreviver, pan ganhar um pouco mais e consumir, e então estava pronto para trabalhar, trabalhar, trabalhar, incessantemente.

É claro que, desde o início, os trabalhadores foram à lua por seus direitos. A formação dos sindicatos e as greves eram reprimidas com violência pela polícia. Em Chicago, em maio de 1886, a polícia fuzilou uma multidão em passeata. Por incrível que pareça, os operários que lideravam o movimento foram considerados culpados. Morreram enforcados. A  partir daí, o Primeiro de Maio passou a ser lembrado como o Dia Internacional de Luta da Classe Operária.

Os grandes jornais apoiavam linchamentos de grevistas. O Congresso aprovou a Lei Sherman (1890), proibia associações que perturbassem o livre mercado. Em princípio essa lei serviria para combater os cartéis formados por grandes monopólios. Na prática, era utilizada contra os-sindicatos! O livre mercado não poderia ser perturbado meia dúzia de milhões de trabalhadores que se recusavam morrer de fome…

Anarquistas, socialistas e comunistas faziam agitação i meio operário e sindical, o que preocupava as autoridades. Em 1927, dois operários anarquistas, Sacco e Vanzetti. injustamente acusados de assassinato. O julgamento revelou uma aberração jurídica e provocou protestos mundiais. No final, o governo norte-americano, queria intimidar o movimento operário, executou os dois revolucionários na cadeira elétrica.

O processo de crise

A crise começou em 1929 e foi piorando nos anos seguintes. Por isso se fala dos anos seguidos da Grande Depressão (econômica). Nunca o mundo capitalista tinha sofrido uma crise assim. Mais de cem mil empresas faliram nos EUA. Um milhão de fazendeiros tiveram que vender seus bens. A produção industrial caiu em 50%. Quem mais sofreu com a foram os trabalhadores. Em 1933, um terço dos americanos não tinha emprego fero. Como a economia já vivia um nível alto de globalização, a crise começou nos EUA e se espalhou por todo o mundo.

O crack (quebradeira) da Bolsa de Nova York não foi a causa da crise, mas a conseqüência imediata. Nos anos 1920, a euforia econômica tinha feito subir o valor das ações na Bolsa de Valores. Ações são pedaços da propriedade da empresa. Se você tem 20% das ações de uma empresa, então você é dono de um quinto desta empresa e portanto tem direito a um quinto do lucro (ou dos prejuízos). Se uma empresa começa a dar muitos lucros, sobe o valor das ações dela. É óbvio: se você quiser ser sócio de uma empresa muito bem-sucedida, então vai ter que desembolsar mais para adquirir as ações dela. Nos anos 1920, o valor das ações subiu mais ainda porque as pessoas especulavam que haveria maiores lucros ainda em breve futuro. Portanto, as negociações eram baseadas em apostas, em avaliações exageradas, em vagos indícios. As especulações fizeram o valor das ações ultrapassar a realidade terrestre. E quando o sonho acabou, veio o pesadelo real. Quando veio a notícia que havia algumas empresas em dificuldades, porque não conseguiam vender o que esperavam, porque não tinham o lucro correspondente ao investimento, começou a intranqüilidade. Tinha chegado a hora de vender as ações (o ideal é comprar na baixa e vender na alta dos preços). Veio o alarme. Todos queriam vender, ninguém queria comprar. Os valores das ações despencaram.

O resultado foi a onda de falências de empresas e de bancos, os suicídios de ex-milionários, o desemprego em massa, o desespero. Ninguém entendia direito o que acontecia. O desespero tomava conta de todos.

Estranha crise. Havia as empresas instaladas e havia as pessoas dispostas a trabalhar. Mas as empresas continuavam paradas e as pessoas, desempregadas. O que tinha acontecido? Nas sociedades pré-capitalistas, as crises econômicas são causadas pela escassez. De repente, a sociedade não é capaz de produzir alimentos para todos e daí vem a fome generalizada. No capitalismo, que liberou forças produtivas fantásticas, as crises acontecem por causa do excesso, a abundância é que gera a miséria. Havia milhões de pessoas pobres e outro tanto que recebia apenas o suficiente para repor as energias e continuar trabalhando na linha de montagem. Em certo momento, explodiu a superprodução de mercadorias.

Acompanhemos a lógica do sistema. Os empresários precisam lucrar para não ir à falência. Na selva da competição capitalista, é preciso aumentar a produção sem parar e, se possível, abaixar os salários. O mercado é incontrolável, e cada um age por si, para maximizar seus lucros. Assim, a economia crescia mas a capacidade de consumo da sociedade não se desenvolvia com a mesma velocidade. A renda se concentrara nas mãos de parte da classe média alta e dos ricos, e os trabalhadores pobres não tinham dinheiro para comprar o que eles mesmos produziam. Até que estourou a superprodução: o país tinha produzido muito mais do que o mercado consumidor podia adquirir. Atenção: superprodução não significa que todo mundo já tem tudo. mas que as mercadorias encalham por falta de capacidade de consumo da sociedade. Como ninguém compra, é preciso diminuir ou parar a produção Diminuindo a produção, é necessário mandar gente embora. Vem o aumento do desemprego. Desempregados têm menos poder de compra. O que significa mais crise ainda. Um círculo infernal. A contradição beirava o absurdo: havia fome porque havia comida demais, havia pessoas esfarrapadas porque havia roupas demais, havia desemprego porque havia empresas demais.

Uma busca de saída: o New Deal

Franklin Delano Roosevelt
Franklin Delano Roosevelt

Em 1932, um novo presidente, Franklin D. Roosevelt, assumiu o poder. Ele botou em prática o plano econômico de recuperação chamado New Deal. A principal característica era o fim do liberalismo econômico. O Estado passou a intervir diretamente na economia para evitar as crises. Essas práticas seriam justificadas pelas idéias do economista inglês John M. Keynes (1883-1946) e por isso mesmo chamadas de keynesianas.

John Maynard Keynes
John Maynard Keynes

O Estado passou a lazer obras públicas como hidrelétricas, estradas, reflorestamento, aeroportos. Isso gerava novos empregos e encomendas para a indústria particular, e ao mesmo tempo não estimulava a superprodução (você já ouviu falar de superprodução de praças ou de pontes?) O governo contraiu uma dívida alta para poder financiar o programa de obras públicas. Esperava-se que a economia iria se recuperar e então o volume de dinheiro arrecadado com os impostos cresceria e seria o suficiente para pagar as dívidas do governo.

Além disso, o governo passou a fiscalizar a Bolsa de Valores e os bancos, para tentar diminuir a especulação financeira. O remédio mais amargo contra a superprodução foi aplicado quando o governo dos EUA passou a comprar toneladas de alimentos para incendiá-los. Os agricultores eram pagos para não produzir! Toneladas de leite foram jogadas nos rios. Enquanto isso, milhões de desempregados faziam marchas de fome, engrossavam as filas para receber a caneca de sopa rala doada pelas associações de caridade. E por que não davam comida para os pobres? Porque isso teria reduzido mais ainda o mercado consumidor, e não há capitalismo que resista a uma crise no mercado.

Exatamente para tentar ampliar o mercado consumidor, o governo de Roosevelt adotou medidas de proteção social como a construção de casas populares e a aprovação,pelo Congresso, de leis de proteção social (salário mínimo, seguro-desemprego, previdência, etc.). Para que você tenha uma idéia,a aposentadoria dos idosos existia na Alemanha desde 1891, mas nos EUA a primeira lei a respeito só foi aprovada em 1935! Apesar disso, os empresários e políticos conservadores não queriam as leis sociais. Diziam que elas atrapalhariam a livre empresa, a base da liberdade americana. Chegaram a acusar Roosevelt de ser aliado dos comunistas, quando na verdade Roosevelt se esforçava para tirar o capitalismo do fundo do buraco!

De qualquer modo, o New Deal conseguiu evitar que a crise fosse mais violenta ainda. As receitas econômicas keynesianas (intervenção do Estado para evitar especulação, obras públicas e até criação de empresas estatais, aumento da dívida pública e dos impostos, leis de proteção social) foram seguidas por todos os países do mundo, com exceção da URSS (veja o quadro abaixo), e até hoje são a base da política econômica de muitas nações. No Brasil, especialmente a partir da Ditadura do Estado Novo (1937-1945) de Getulio Vargas, o Estado se tornou motor do desenvolvimento da economia e da indústria.

Entretanto, o que realmente acabou com a crise que começou em 1929 foi um fenômeno especial. Uma indústria única, numa circunstância bem particular que gera uma demanda (procura) quase inesgotável. Que indústria era essa? A de armas. Qual a circunstância? A guerra. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) pode ter matado muita gente e destruído muita coisa, mas foi maravilhosa para a economia capitalista. A destruição acabou com a superprodução, os milhões de mortes acabaram com o desemprego de maneira direta. Em termos humanos, a guerra seria desastrosa, em números frios da contabilidade das empresas, excelente negócio. A humanidade é que deve decidir miai dos valores é o mais importante.

Leia também: Pior que 1929?

Confira o vídeo:

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