Posts Tagged ‘Crise de 1929’

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Vídeo – A Crise de 1929

dezembro 12, 2010

Documentário que retrata o processo de crise internacional iniciado em 1929 com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, trazendo sérios efeitos econômicos, sociais e políticos.

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A crise de 1929

dezembro 12, 2010

Do livro “Nova História Crítica”, de Mario Schmidt (Ed. Nova Geração)

John Smith estava tranqüilo. Naquela quinta-feira, 24 de outubro de 1929, levantou cedo, comeu ovos mexidos e cereais, tomou um café forte. Depois, pegou o carro e estacionou no centro da cidade, perto da Quinta Avenida. Leu a manchete dos jornais que anunciavam a vitória seu time de beisebol, os Dodgers de Chicago. Olhou para as vitrines e se conteve para não comprar alguma coisa logo de manhã. Deu um sorriso e começou a assobiar. Não havia nada melhor do que viver naquele país e naquela cidade. Nova York era o centro do mundo. Do mundo que fazia dinheiro. E nada melhor do que ganhar dinheiro na Bolsa de Valores. John tinha muitas ações. Elas valiam cada vez mais.

Talvez o limite fosse o céu. John estava muito contente. Mas naquele dia algo aconteceu. De repente, a cotação (o valor) das ações começou a despencar. Assustados, os especuladores tentaram vender suas partes. Todos queriam vender e ninguém queria comprar. As ações caíram e caíram. Pessoas perderiam milhões de dólares e só lhes restariam uns pedaços de papel. Era a crise. A mais terrível que já tinha acontecido.

Meses depois, o ex-contente John Smith estava na fila dos desempregados. Ele ganhava alguns trocados como camelo, vendendo maçãs a cinco cents nas calçadas de Nova York. Seria o fim do sonho?

A euforia dos anos 1920

Terminada a Primeira Guerra, os EUA tinham se convertido na maior potência econômica do mundo. Apesar de uma pequena crise econômica em 1920-1921, chamada crise de reconversão, causada pela diminuição das exportações para a Europa – que se recuperava e voltava a produzir -, a economia continuava a crescer.

Os anos 1920 foram de euforia econômica. A agricultura norte-americana era a mais mecanizada do planeta, e as indústrias produziam bens em quantidades astronômicas. Parecia que todo mundo, do milionário ao humilde operário,  se tornaria um consumidor voraz. A claasse média, felicíssima por poder comprar tanta coisa, também investia suas economias na Bolsa de Valores. Todo mundo achava que iria ficar cada vez mais rico. Foi quando chegou a crise. Porque existia o outro lado da realidade, que não tinha a cor do ouro, mas da lama e do sangue.

Por trás dessa abundância de mercadorias havia o trabalho de milhões de assalariados que as produziam.A industrialização dos EUA tinha sido tão brutal quanto a européia. Em 1910, por exemplo, havia 2 milhões de crianças trabalhando nas fábricas. A abundante produção agrícola fazia os alimentos ficarem baratos no mercado, permitindo que os patrões pagassem salários baixíssimos. A distribuição de renda era péssima: os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres mais pobres.As famílias mais ricas, juntas, recebiam mais do que 60% do povo norte-americano. Os subúrbios operários das grandes cidades eram entulhados de cortiços, isto é, apartamentos aos pedaços, sujos, sem iluminação, infestados de ratos, escadas sebentas, janelas quebradas, banheiro único no final do corredor, duas ou três famílias amontoadas num quarto-e-sala. Também havia favelas horrorosas, com criancinhas nuas pegando vermes nos esgotos. Em suma, dezenas de milhões de pessoas estavam muito distantes dos sonhos de consumo. Elas eram operárias e produziam aquelas maravilhosas mercadorias, mas não tinham dinheiro para comprar muita coisa. Apenas sobreviviam.

Nos anos 1920, os empresários norte-americanos introduziram duas novas técnicas científicas que permitiam aumentar espetacularmente a produtividade do trabalho: o taylorismo e o fordismo.

O fordismo foi criado por Henry Ford em sua fábrica de automóveis. Cada operário passava a fazer um único tipo de tarefa dentro de uma seqüência na linha de montagem. A esteira rolante trazia o objeto sobre o qual ele iria trabalhar. Por exemplo, ele encaixava uma peça. Em seguida, a esteira deslizava e trazia outra peça igual. A tarefa era repetida milhares de vezes por dia. A esteira prosseguia e o operário seguinte fazia a sua parte, repetida monotonamente. Outra idéia de Ford era o pagamento de pequenos prêmios para os operários que produzissem além do limite.

O taylorismo era o estudo dos movimentos no trabalho As máquinas passaram a ser projetadas para evitar gestos “supérfluos” e aproveitar ao máximo a energia do corpo de operário. Equipadas com contadores, elas mediam a produtividade do operário.

As duas técnicas possibilitaram aumentar a produção sem precisar aumentar demais o salários. Muitos lucros para o patrão, enquanto os operários se tornavam apêndices da máquina. Afirmava-se a sociedade do trabalho: em viva trabalhar, trabalhar, trabalhar, para sobreviver, pan ganhar um pouco mais e consumir, e então estava pronto para trabalhar, trabalhar, trabalhar, incessantemente.

É claro que, desde o início, os trabalhadores foram à lua por seus direitos. A formação dos sindicatos e as greves eram reprimidas com violência pela polícia. Em Chicago, em maio de 1886, a polícia fuzilou uma multidão em passeata. Por incrível que pareça, os operários que lideravam o movimento foram considerados culpados. Morreram enforcados. A  partir daí, o Primeiro de Maio passou a ser lembrado como o Dia Internacional de Luta da Classe Operária.

Os grandes jornais apoiavam linchamentos de grevistas. O Congresso aprovou a Lei Sherman (1890), proibia associações que perturbassem o livre mercado. Em princípio essa lei serviria para combater os cartéis formados por grandes monopólios. Na prática, era utilizada contra os-sindicatos! O livre mercado não poderia ser perturbado meia dúzia de milhões de trabalhadores que se recusavam morrer de fome…

Anarquistas, socialistas e comunistas faziam agitação i meio operário e sindical, o que preocupava as autoridades. Em 1927, dois operários anarquistas, Sacco e Vanzetti. injustamente acusados de assassinato. O julgamento revelou uma aberração jurídica e provocou protestos mundiais. No final, o governo norte-americano, queria intimidar o movimento operário, executou os dois revolucionários na cadeira elétrica.

O processo de crise

A crise começou em 1929 e foi piorando nos anos seguintes. Por isso se fala dos anos seguidos da Grande Depressão (econômica). Nunca o mundo capitalista tinha sofrido uma crise assim. Mais de cem mil empresas faliram nos EUA. Um milhão de fazendeiros tiveram que vender seus bens. A produção industrial caiu em 50%. Quem mais sofreu com a foram os trabalhadores. Em 1933, um terço dos americanos não tinha emprego fero. Como a economia já vivia um nível alto de globalização, a crise começou nos EUA e se espalhou por todo o mundo.

O crack (quebradeira) da Bolsa de Nova York não foi a causa da crise, mas a conseqüência imediata. Nos anos 1920, a euforia econômica tinha feito subir o valor das ações na Bolsa de Valores. Ações são pedaços da propriedade da empresa. Se você tem 20% das ações de uma empresa, então você é dono de um quinto desta empresa e portanto tem direito a um quinto do lucro (ou dos prejuízos). Se uma empresa começa a dar muitos lucros, sobe o valor das ações dela. É óbvio: se você quiser ser sócio de uma empresa muito bem-sucedida, então vai ter que desembolsar mais para adquirir as ações dela. Nos anos 1920, o valor das ações subiu mais ainda porque as pessoas especulavam que haveria maiores lucros ainda em breve futuro. Portanto, as negociações eram baseadas em apostas, em avaliações exageradas, em vagos indícios. As especulações fizeram o valor das ações ultrapassar a realidade terrestre. E quando o sonho acabou, veio o pesadelo real. Quando veio a notícia que havia algumas empresas em dificuldades, porque não conseguiam vender o que esperavam, porque não tinham o lucro correspondente ao investimento, começou a intranqüilidade. Tinha chegado a hora de vender as ações (o ideal é comprar na baixa e vender na alta dos preços). Veio o alarme. Todos queriam vender, ninguém queria comprar. Os valores das ações despencaram.

O resultado foi a onda de falências de empresas e de bancos, os suicídios de ex-milionários, o desemprego em massa, o desespero. Ninguém entendia direito o que acontecia. O desespero tomava conta de todos.

Estranha crise. Havia as empresas instaladas e havia as pessoas dispostas a trabalhar. Mas as empresas continuavam paradas e as pessoas, desempregadas. O que tinha acontecido? Nas sociedades pré-capitalistas, as crises econômicas são causadas pela escassez. De repente, a sociedade não é capaz de produzir alimentos para todos e daí vem a fome generalizada. No capitalismo, que liberou forças produtivas fantásticas, as crises acontecem por causa do excesso, a abundância é que gera a miséria. Havia milhões de pessoas pobres e outro tanto que recebia apenas o suficiente para repor as energias e continuar trabalhando na linha de montagem. Em certo momento, explodiu a superprodução de mercadorias.

Acompanhemos a lógica do sistema. Os empresários precisam lucrar para não ir à falência. Na selva da competição capitalista, é preciso aumentar a produção sem parar e, se possível, abaixar os salários. O mercado é incontrolável, e cada um age por si, para maximizar seus lucros. Assim, a economia crescia mas a capacidade de consumo da sociedade não se desenvolvia com a mesma velocidade. A renda se concentrara nas mãos de parte da classe média alta e dos ricos, e os trabalhadores pobres não tinham dinheiro para comprar o que eles mesmos produziam. Até que estourou a superprodução: o país tinha produzido muito mais do que o mercado consumidor podia adquirir. Atenção: superprodução não significa que todo mundo já tem tudo. mas que as mercadorias encalham por falta de capacidade de consumo da sociedade. Como ninguém compra, é preciso diminuir ou parar a produção Diminuindo a produção, é necessário mandar gente embora. Vem o aumento do desemprego. Desempregados têm menos poder de compra. O que significa mais crise ainda. Um círculo infernal. A contradição beirava o absurdo: havia fome porque havia comida demais, havia pessoas esfarrapadas porque havia roupas demais, havia desemprego porque havia empresas demais.

Uma busca de saída: o New Deal

Franklin Delano Roosevelt

Franklin Delano Roosevelt

Em 1932, um novo presidente, Franklin D. Roosevelt, assumiu o poder. Ele botou em prática o plano econômico de recuperação chamado New Deal. A principal característica era o fim do liberalismo econômico. O Estado passou a intervir diretamente na economia para evitar as crises. Essas práticas seriam justificadas pelas idéias do economista inglês John M. Keynes (1883-1946) e por isso mesmo chamadas de keynesianas.

John Maynard Keynes

John Maynard Keynes

O Estado passou a lazer obras públicas como hidrelétricas, estradas, reflorestamento, aeroportos. Isso gerava novos empregos e encomendas para a indústria particular, e ao mesmo tempo não estimulava a superprodução (você já ouviu falar de superprodução de praças ou de pontes?) O governo contraiu uma dívida alta para poder financiar o programa de obras públicas. Esperava-se que a economia iria se recuperar e então o volume de dinheiro arrecadado com os impostos cresceria e seria o suficiente para pagar as dívidas do governo.

Além disso, o governo passou a fiscalizar a Bolsa de Valores e os bancos, para tentar diminuir a especulação financeira. O remédio mais amargo contra a superprodução foi aplicado quando o governo dos EUA passou a comprar toneladas de alimentos para incendiá-los. Os agricultores eram pagos para não produzir! Toneladas de leite foram jogadas nos rios. Enquanto isso, milhões de desempregados faziam marchas de fome, engrossavam as filas para receber a caneca de sopa rala doada pelas associações de caridade. E por que não davam comida para os pobres? Porque isso teria reduzido mais ainda o mercado consumidor, e não há capitalismo que resista a uma crise no mercado.

Exatamente para tentar ampliar o mercado consumidor, o governo de Roosevelt adotou medidas de proteção social como a construção de casas populares e a aprovação,pelo Congresso, de leis de proteção social (salário mínimo, seguro-desemprego, previdência, etc.). Para que você tenha uma idéia,a aposentadoria dos idosos existia na Alemanha desde 1891, mas nos EUA a primeira lei a respeito só foi aprovada em 1935! Apesar disso, os empresários e políticos conservadores não queriam as leis sociais. Diziam que elas atrapalhariam a livre empresa, a base da liberdade americana. Chegaram a acusar Roosevelt de ser aliado dos comunistas, quando na verdade Roosevelt se esforçava para tirar o capitalismo do fundo do buraco!

De qualquer modo, o New Deal conseguiu evitar que a crise fosse mais violenta ainda. As receitas econômicas keynesianas (intervenção do Estado para evitar especulação, obras públicas e até criação de empresas estatais, aumento da dívida pública e dos impostos, leis de proteção social) foram seguidas por todos os países do mundo, com exceção da URSS (veja o quadro abaixo), e até hoje são a base da política econômica de muitas nações. No Brasil, especialmente a partir da Ditadura do Estado Novo (1937-1945) de Getulio Vargas, o Estado se tornou motor do desenvolvimento da economia e da indústria.

Entretanto, o que realmente acabou com a crise que começou em 1929 foi um fenômeno especial. Uma indústria única, numa circunstância bem particular que gera uma demanda (procura) quase inesgotável. Que indústria era essa? A de armas. Qual a circunstância? A guerra. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) pode ter matado muita gente e destruído muita coisa, mas foi maravilhosa para a economia capitalista. A destruição acabou com a superprodução, os milhões de mortes acabaram com o desemprego de maneira direta. Em termos humanos, a guerra seria desastrosa, em números frios da contabilidade das empresas, excelente negócio. A humanidade é que deve decidir miai dos valores é o mais importante.

Leia também: Pior que 1929?

Confira o vídeo:

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John Maynard Keynes – O “médico” do capitalismo

outubro 22, 2008

Para entender um pouco mais este atual momento de crises internacionais, é importante conhecer alguns episódios e personalidades que podem esclarecer aspectos necessários para uma melhor visão sobre o que está ocorrendo hoje. Publicamos no blog um texto sobre a Crise de 1929 (clique aqui e confira) e também um artigo que busca comparar a crise do capitalismo passada e a atual (clique aqui e confira). Agora postamos uma matéria que originalmente foi publicana na revista Época (Edição 544, de outubro/2008) a respeito de um importante intérprete da crise e dos limites do liberalismo, o economista inglês John Maynard Keynes. Confira abaixo o texto e mantenha-se antenado!

 

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J. M. Keynes

J. M. Keynes

Num dos piores anos da Grande Depressão, 1934, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt recebeu na Casa Branca um economista inglês de 51 anos que vinha precedido da fama de gênio. Alto e curvado, olhos de um azul transparente, John Maynard Keynes falou por mais de uma hora com Roosevelt. A despeito de seu charme e de sua famosa eloqüência, Keynes causou péssima impressão. “Não entendi uma palavra do que ele disse”, afirmou Roosevelt. “Esse sujeito é matemático, não economista.” Seu interlocutor, autor de livros famosos e presidente do comitê de economistas britânicos que assessorava o governo de Sua Majestade, também não gostou da conversa. “Pensei que o presidente fosse alfabetizado em economia”, disse.

Quatro anos depois, quando a economia americana mergulhava mais fundo no desemprego, e Roosevelt já esgotara seus recursos para tentar reativá-la, restou recorrer às idéias “daquele matemático” de Cambridge. O desemprego caiu então de 17% para 1%, e o mundo começou a viver aquilo que a revista Time definiria – 27 anos depois, em dezembro de 1965 – como a “mais longa, mensurável e ampla prosperidade da História”. “Agora, somos todos keynesianos”, afirmou na ocasião para a Time o economista americano Milton Friedman, ironicamente o maior crítico das idéias de Keynes.

Aquele período de prosperidade só seria superado pela seqüência recente de 30 anos ininterruptos de crescimento contínuo, abalado pela crise atual. Esse período foi regido pelo pensamento liberal de Friedman. Keynes e Friedman – cuja divergência central é a visão sobre o papel do Estado na economia capitalista – foram os dois economistas mais influentes do século passado. “A crítica de Friedman a Keynes se tornou tão influente porque identificou corretamente os pontos fracos do keynesianismo”, diz o economista Paul Krugman, agraciado na semana passada com o Prêmio Nobel. Nas últimas semanas, em razão da crise financeira, as ideias de Keynes, que haviam sido empurradas para a periferia, pareciam estar de volta. Assim como Roosevelt, o governo de George W. Bush concluiu, relutante, que seria necessário intervir para resolver a crise.

Keynes pensava, escrevia e falava com uma inteligência que impressionou seus contemporâneos. Filho de um professor universitário, ele nasceu em Cambridge em 1883 – ano da morte de Karl Marx. Passou a vida entre a elite intelectual e política do Reino Unido. Fez parte de um dos mais célebres e inovadores grupos intelectuais do século XX, conhecido como grupo de Bloomsbury, o bairro londrino onde se reuniam. Erguido em torno de duas irmãs, a pintora Vanessa Bell e a escritora Virgínia Woolf, o grupo contava ainda com os pintores Duncan Grant e Roger Fry, os ensaístas Lytton Strachey, Clive Bell e Leonard Woolf e o romancista E.M. Forster. Era um grupo peculiar nas idéias estéticas e no comportamento. Casos amorosos entre seus integrantes – hétero ou homossexuais – eram tão comuns quanto a produção de idéias, quadros ou livros geniais. Keynes colecionava obras de arte e amantes homossexuais, mas casou-se com uma bailarina russa. Ao morrer, em 1946, dizia ter um único arrependimento: não ter bebido mais champanhe.

Ele se definia como um “economista burguês”, um “médico do capitalismo”. Brilhante, ganhou 2 milhões de libras, uma fortuna na década de 1930, especulando com commodities e moedas. Dizia ter desprezo pelo dinheiro e por banqueiros. Admitia a necessidade do trabalho “desde que não seja mais que três dias por semana”. Foi executivo de uma companhia de seguros e diretor de empresas jornalísticas. A City londrina parava para esperar sua previsão anual sobre o comportamento dos mercados.

Sua obra compõe-se de 29 volumes impressos e uma atuação pública notável. Em seu livro mais famoso -A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda -, uma obra tão pouco compreendida quanto admirada, Keynes concluía que era possível “operar” a economia capitalista mais ou menos como se controla uma máquina, mantendo-a sempre em ritmo acelerado para garantir o pleno emprego e o pleno uso de recursos. “O remédio para os ciclos econômicos não é abolir os booms e nos manter permanentemente em semi-recessão”, dizia Keynes. “Mas sim abolir as recessões e manter a economia permanentemente em quase-boom.”

Keynes acreditava que, durante as recessões, o governo deveria cortar impostos, baixar juros e gastar, sem se preocupar com o déficit público. Em momentos de contração, dizia Keynes, o setor privado não é capaz de investir. Se os mercados estão reticentes, as empresas reduzem gastos e põem gente na rua. Mas, se todas fizerem isso ao mesmo tempo, o consumo desaba. Isso justifica novos cortes de investimento e aprofunda a recessão. É um ciclo vicioso, que, segundo Keynes, só pode ser rompido pela ação do Estado. Ele deve, segundo Keynes, pôr dinheiro em circulação, estimular a produção e o consumo e tomar iniciativa nas áreas abandonadas pela iniciativa privada. É o que os governos do mundo todo estão fazendo há duas semanas.

Keynes foi responsável pelo sucesso das negociações que moldaram o mundo econômico do pós-guerra. A criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, assim como os acordos monetários de Bretton Woods – eventos que ele influenciou como principal negociador britânico -, forneceram os alicerces da economia global até meados da década de 70, quando os Estados Unidos quebraram o acordo que mantinha o ouro como padrão monetário global. O fato de hoje, em meio à crise financeira, voltarem a clamar por uma espécie de governança global dos mercados é sinal da influência intelectual de Keynes.

Os críticos dizem que há uma severa limitação no keynesianismo. Ele pode ser eficiente para deter as crises, mas não para administrar a prosperidade. Na prática, a idéia de cavalgar o capitalismo e domesticá-lo por meio do fluxo da moeda e do investimento público terminou com inflação e estagnação nos anos 70. As idéias de Keynes se revelaram uma utopia. Há duas semanas, com a crise global, o médico do capitalismo voltou à cena. O tempo que permanecerá no palco dependerá de quanto a saúde da economia vai melhorar com os remédios que ele prescreveu.

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Pior que 1929?

outubro 4, 2008

Por Edward Chancellor
Revista Época Ed. 542
Outubro de 2008 

 

O historiador britânico Edward Chancellor é especialista na história da especulação financeira

O historiador britânico Edward Chancellor é especialista na história da especulação financeira

Todo mundo reconhece, a esta altura dos acontecimentos, que estamos vivendo uma crise muito séria. Embora o mercado possa subir por estes dias, ele sofreu uma das maiores quedas da História. Com exceção de 1987, um crash técnico, as quatro outras quedas equivalentes à da segunda-feira passada ocorreram durante a Grande Depressão. Está claro, para mim, que o paralelo entre a crise de 1929 e a crise atual é muito mais realista do que parecia meses atrás. Trata-se, a esta altura, de uma crise global, que não atinge apenas os Estados Unidos e as grandes economias. De uma forma ou de outra, quase todos os países se envolveram na bolha de crédito. Agora todos são afetados.

Temos um problema pior que aquele que ocorreu em 1929. Há um mercado de dezenas de trilhões de dólares de débitos em atraso, há trilhões em derivativos (o que é isso? Clique aqui e saiba!) no balanço dos bancos e há uma conexão extremamente complexa entre as diferentes economias. Na década de 30, os bancos quebravam com uma proporção de 10 para 1 entre créditos e ativos. Agora, os bancos de investimento operaram com uma proporção de 1 para 40. As autoridades estão se movendo mais rápido, mas os problemas são bem maiores.

Não sei muito sobre o Brasil, mas o país obviamente se beneficiou da elevação dos preços das commodities (o que é isso? Clique aqui e saiba!) e do boom das exportações. Sei que a moeda brasileira se valorizou e que vocês oferecem altas taxas de juros. Isso atraiu grande quantidade de capital especulativo. Acredito que vocês tenham tido condições de crédito favoráveis nos últimos anos. Mas isso vai mudar. Não consigo imaginar um único país do mundo em que as coisas não tenham acontecido mais ou menos desse jeito. O boom foi global.

Nos últimos meses, tenho olhado para fora dos Estados Unidos e, em toda parte, parece que houve uma orgia de crédito. Por isso, não vejo saída rápida para a crise. Os Estados Unidos estão mais avançados no processo. Os preços das casas caíram 20%, e eles não têm de cair muito mais para voltar à realidade. As ações também já caíram bastante, em particular as ações dos bancos. Não acho que os problemas americanos acabaram, mas, nos próximos meses ou anos, certas partes da Europa assumirão o papel central da crise.

A China é outra história. Ela também é parte da bolha de crédito. As exportações para os Estados Unidos foram feitas em troca da compra de títulos da dívida americana. Esses papéis, depositados no Banco Central da China, deram origem a um boom de crédito na economia chinesa. Haverá agora um grande problema bancário na China, proporcionalmente maior que nos EUA. As autoridades chinesas tentarão se sentar sobre o problema. Mas ele não vai desaparecer. Veremos isso no próximo ano ou no outro, embora seja difícil falar em prazos.

Outra coisa que eu acho problemática é a natureza e a complexidade da inovação financeira. Em conseqüência dela, não sei mais se estamos vivendo um pânico temporário (que já vimos no passado recente, e depois dele o mercado volta a seu estado anterior, fazendo tudo do mesmo jeito) ou se as coisas que fizemos nos últimos 20 anos vão simplesmente acabar. A pergunta é se o mundo vai poder tomar tanto dinheiro emprestado como costumava fazer ou se, de agora em diante, a economia global terá de operar desalavancada. Os próximos dois anos serão problemáticos.

Leia também: A crise de 1929 e John Maynard Keynes, o “médico” do capitalismo