Pior que 1929?

Por Edward Chancellor
Revista Época Ed. 542
Outubro de 2008 

 

O historiador britânico Edward Chancellor é especialista na história da especulação financeira
O historiador britânico Edward Chancellor é especialista na história da especulação financeira

Todo mundo reconhece, a esta altura dos acontecimentos, que estamos vivendo uma crise muito séria. Embora o mercado possa subir por estes dias, ele sofreu uma das maiores quedas da História. Com exceção de 1987, um crash técnico, as quatro outras quedas equivalentes à da segunda-feira passada ocorreram durante a Grande Depressão. Está claro, para mim, que o paralelo entre a crise de 1929 e a crise atual é muito mais realista do que parecia meses atrás. Trata-se, a esta altura, de uma crise global, que não atinge apenas os Estados Unidos e as grandes economias. De uma forma ou de outra, quase todos os países se envolveram na bolha de crédito. Agora todos são afetados.

Temos um problema pior que aquele que ocorreu em 1929. Há um mercado de dezenas de trilhões de dólares de débitos em atraso, há trilhões em derivativos (o que é isso? Clique aqui e saiba!) no balanço dos bancos e há uma conexão extremamente complexa entre as diferentes economias. Na década de 30, os bancos quebravam com uma proporção de 10 para 1 entre créditos e ativos. Agora, os bancos de investimento operaram com uma proporção de 1 para 40. As autoridades estão se movendo mais rápido, mas os problemas são bem maiores.

Não sei muito sobre o Brasil, mas o país obviamente se beneficiou da elevação dos preços das commodities (o que é isso? Clique aqui e saiba!) e do boom das exportações. Sei que a moeda brasileira se valorizou e que vocês oferecem altas taxas de juros. Isso atraiu grande quantidade de capital especulativo. Acredito que vocês tenham tido condições de crédito favoráveis nos últimos anos. Mas isso vai mudar. Não consigo imaginar um único país do mundo em que as coisas não tenham acontecido mais ou menos desse jeito. O boom foi global.

Nos últimos meses, tenho olhado para fora dos Estados Unidos e, em toda parte, parece que houve uma orgia de crédito. Por isso, não vejo saída rápida para a crise. Os Estados Unidos estão mais avançados no processo. Os preços das casas caíram 20%, e eles não têm de cair muito mais para voltar à realidade. As ações também já caíram bastante, em particular as ações dos bancos. Não acho que os problemas americanos acabaram, mas, nos próximos meses ou anos, certas partes da Europa assumirão o papel central da crise.

A China é outra história. Ela também é parte da bolha de crédito. As exportações para os Estados Unidos foram feitas em troca da compra de títulos da dívida americana. Esses papéis, depositados no Banco Central da China, deram origem a um boom de crédito na economia chinesa. Haverá agora um grande problema bancário na China, proporcionalmente maior que nos EUA. As autoridades chinesas tentarão se sentar sobre o problema. Mas ele não vai desaparecer. Veremos isso no próximo ano ou no outro, embora seja difícil falar em prazos.

Outra coisa que eu acho problemática é a natureza e a complexidade da inovação financeira. Em conseqüência dela, não sei mais se estamos vivendo um pânico temporário (que já vimos no passado recente, e depois dele o mercado volta a seu estado anterior, fazendo tudo do mesmo jeito) ou se as coisas que fizemos nos últimos 20 anos vão simplesmente acabar. A pergunta é se o mundo vai poder tomar tanto dinheiro emprestado como costumava fazer ou se, de agora em diante, a economia global terá de operar desalavancada. Os próximos dois anos serão problemáticos.

Leia também: A crise de 1929 e John Maynard Keynes, o “médico” do capitalismo

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