11 de setembro de 2001 e o terrorismo

O mundo mudou desde o 11 de setembro, quando o terrorismo atingiu os Estados Unidos. A reação foi imediata e fulminante: o Afeganistão, que abrigava terroristas, foi invadido. Na seqüência, foi a vez do Iraque, embora as suspeitas iniciais, de que Saddam Hussein tivesse armas de destruição em massa, não tenham sido comprovadas. O resultado dessa iniciativa é motivo de debate. Afinal, além de o terrorismo não ter sido derrotado, o Iraque transformou-se num atoleiro para as forças americanas, os EUA se isolaram no cenário mundial e os direitos civis foram colocados em segundo plano pela guerra ao terror. Sim, o mundo mudou desde 2001, mas sua cara nova ainda é irreconhecível.

A configuração do sistema internacional no século XXI iniciou-se com um trágico espetáculo: os atentados de 11 de setembro de 2001. Quem quer que tenha idealizado a ação foi o primeiro a atingir os Estados Unidos no continente (a base militar de Pearl Harbor, atacada durante a Segunda Guerra Mundial, fica fora do território contínuo americano). Os ataques ao World Trade Center e até ao Pentágono, símbolos financeiro e militar, colocaram o terrorismo no centro do debate global. O que se verificou após esse episódio foi uma reconfiguração da ordem internacional, iniciada em 1991, decorrente de uma série de transformações que puseram fim à ordem bipolar da Guerra Fria.

Na ausência de um inimigo à altura, os Estados Unidos passaram a se ver diante de um inimigo invisível: o terrorismo. A superpotência ganhou assim um adversário que substituiu o comunismo, regime que combatera por décadas. A partir de setembro de 2001, o terrorismo passaria a justificar a política externa dos Estados Unidos.

Em nome da guerra ao terror, os Estados Unidos adotaram uma posição unilateral, comportando-se como se o mundo fosse um sistema unipolar. A cartilha geopolítica de Bush e seus falcões explicita as ações. Em documento enviado ao Congresso americano em 17 de setembro de 2002, intitulado “A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América”, George W. Bush avisou: “Os Estados Unidos estão lutando uma guerra contra terroristas de alcance global. O inimigo não é um regime político ou uma pessoa ou uma religião ou ideologia específicos. O inimigo é o terrorismo. (…) Os Estados Unidos vão se empenhar incessantemente para angariar o apoio da comunidade internacional; no entanto, não hesitaremos em agir sozinhos, se necessário, para exercer nosso direito de autodefesa, agindo de forma preventiva para evitar que eles causem danos a nosso povo e a nosso país.”

Falcões é o nome dado ao grupo da cúpula americana afeito à opção militar para resolver as crises. Eles se caracterizam por ter formação conservadora, pela vinculação ao Partido Republicano e por estar associados aos Think Tanks, os centros de pensamento estratégico. Entre seus membros destacam-se o vice-presidente, DickCheney, e Karl Rover, o principal conselheiro de Bush. Alguns falcões foram afastados após os reveses na Guerra do Iraque. É o caso de Donald Rumsfeld, ex-secretário da Defesa. 

Enganou-se, portanto, quem acreditou que os ataques terroristas enfraqueceriam ou intimidariam a superpotência. Suas ações mostraram exatamente o contrário. As investidas americanas no Afeganistão, por exemplo, colocaram os Estados Unidos em privilegiada posição nas imediações do Mar Cáspio, o segundo maior lençol de hidrocarbonetos do globo. Suas bases, agora fincadas naquele país e no Usbequistão (que lhes permitira atacar o vizinho), compuseram um arco geoestratégico no entorno das montanhas locais e defronte ao oeste da China, esta, sim, uma ameaça em potencial. Portanto, temos de analisar os passos dos EUA levando-se em conta a questão energética.

Não falta quem aposte na teoria da conspiração, aludindo à idéia de que o 11 de setembro seria resultado de uma ação orquestrada nas ante-salas do poder americano para justificar as ações de guerra. Trata-se, no entanto, de uma teoria pouco provável.

O terrorismo é antigo na história das relações internacionais, mas o praticado hoje em dia tem características peculiares por incorporar o ingrediente tecnológico e a capacidade logística. O terrorismo está globalizado, o que ficou evidente nas ações em Madri, em 2004, e em Londres, no ano seguinte, que fizeram grande número de vítimas em lugares públicos. A Al Qaeda tornou-se uma espécie de rede de franquia terrorista. Milicianos extremistas, que agem em nome de uma fé cega em diversos pontos do mundo islâmico, são recrutados para compor a rede. Talvez apenas sigam fazendo o que sempre fizeram, mas agora sob o rótulo de “membros da Al Qaeda”.

A Al Qaeda, que quer dizer “a base”, foi criada no fim dos anos 80.0 grupo é indissociável da Irmandade Muçulmana, que deu origem a quase todos os grupos terroristas da região. O primeiro parceiro de Bin Laden foi Abdullah Azzam, fundador da Irmandade Muçulmana da Palestina. No início, ser filiado à Al Qaeda era também um bom emprego: os novos recrutas recebiam US$ l mil por mês, muito dinheiro, considerando-se a época e o lugar.

Mas o que é, de fato, terrorismo? Apesar de o termo ser usado indiscriminadamente, não há consenso sobre o que efetivamente seja terrorismo. Muitas vezes, o emprego da expressão esconde um viés ideológico. A própria ONU reconhece a subjetividade do termo. Veja o que diz Kofi Anan, ex-secretário-geral da instituição: “As Nações Unidas precisam chegar a uma definição consensual do que é terrorismo para combatê-lo de forma orquestrada”.

Para o cientista político Norberto Bobbio, terrorismo é “a prática política de quem recorre sistematicamente à violência contra as pessoas ou coisas provocando o terror”. Eis o segredo da bem-sucedida operação terrorista: provocar medo e pânico.

O terrorista utiliza a estratégia da ameaça e, muitas vezes, passa da ameaça à ação: prédios públicos explodem, civis são mortos, aviões seqüestrados ou derrubados, carros voam pelos ares. Nas duas últimas décadas, um novo expediente vem sendo intensamente empregado: o homem-bomba. Trata-se de um típico recurso do movimento islâmico. Simultaneamente, aumentam as denúncias sobre o terrorismo de Estado, caracterizado quando, em nome de uma política de segurança nacional, atrocidades são cometidas.

Num mundo abruptamente transformado, resta estarmos alertas, para que direitos de cidadania há muito consagrados não sucumbam em nome de um suposto combate ao terrorismo. Nos Estados Unidos, a política de segurança tem prevalecido com alguma freqüência sobre o direito à informação e à privacidade. No Grã-Bretanha, a vítima não foi apenas a cidadania. Foi também um cidadão: o brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em julho de 2005 ao ser confundido com um terrorista.

 

O terrorismo de Estado, na História mais recente, surge com Robespierre, durante a Revolução Francesa de 1789. Mas Maquiavel já anunciava a necessidade de, eventualmente, espalhar-se o pânico junto à população para conservar o poder. A Inquisição, na Idade Média, igualmente, utilizou-se de métodos de terror. Durante o imperialismo, grupos nacionalistas, no Egito, na Síria e no Líbano, valeram-se de atos terroristas para expulsar as forças britânicas e francesas. E não nos esqueçamos de que a Primeira Guerra Mundial teve como estopim um atentado terrorista (um nacionalista sérvio da Bósnia assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando).

Há várias motivações para a ação terrorista. Ela pode ser nacional. E o caso do separatismo basco, que luta pela independência no noroeste da Espanha e sudoeste francês. A motivação pode ainda ser nacional-religiosa. É o caso do Exército Republicano Irlandês, que recentemente renunciou à luta armada.

E o que dizer da bomba de Hiiroxima, lançada contra a população civil japonesa em 1945? Havia necessidade de tamanha força contra um país praticamente derrotado? Se considerarmos as definições que entendem os ataques contra alvos civis e sem aviso prévio como terrorismo, qual o nome que se deve dar a essa ação dos EUA?

 


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