Os mistérios da maçonaria

Legends_of_Masonry

A criação da primeira loja maçônica, em 1717, marca o nascimento da franco-maçonaria moderna. A origem dessa organização, porém, é muito mais remota e frequentemente imersa em mistérios,  alimentados  pelo costume de seus membros de investir em construções mais simbólicas que históricas.

Os adversários dos maçons, de seu lado, os vêem como herdeiros de tudo o que poderia atacar “o altar e o trono”. Em resumo, as pistas que levam aos primórdios do movimento ora são simplesmente confusas, ora misturadas a elementos não confiáveis.

Desde a constituição da primeira loja maçônica, tiveram início batalhas internas para eleger os “verdadeiros maçons”, ou seja, os mais autênticos, os mais tradicionais e os mais regulares. Nessa disputa, alguns se diziam ligados a uma tradição antiga, e, em seguida, outros reivindicavam uma ligação a um legado ainda mais longínquo.

Houve quem chegasse a afirmar que Adão havia sido o primeiro maçom. Talvez um dia alguém revele que, na verdade, foi o dinossauro! Falando sério, existem origens míticas, ou seja, não verificáveis historicamente, mas inscritas nos textos fundadores da organização. E existem também origens comprovada-mente históricas. É preciso separar uma coisa de outra e deter a imaginação das pessoas.

TEMPLÁRIOS

A suposta origem nos Templários é algo que suscita fantasias [leia mais sobre os Templários aqui]. Eles eram grandes construtores e montavam inúmeros canteiros de obras, nos quais os pedreiros exerciam seu ofício sem obrigações para com o rei.

Assim, durante dois séculos, os Templários e as corporações de ofícios coabitaram. Por isso, é tão tentador imaginar que determinados membros da Ordem do Templo fugiram e encontraram refúgio, em especial na Escócia, junto de organizações fraternais de talhadores de pedra.

Essa ligação é fantasiosa. Na verdade, o desaparecimento dos Templários deu origem a inúmeras lendas, e a mais recorrente indica que os maçons são seus herdeiros – incluído aí um fabuloso tesouro. Também é comum a alusão a maçons que organizaram um complô para vingar a morte do último grão-mestre dos Cavaleiros do Templo, Jacques de Molay. Falso!

Essa mitologia foi forjada pela própria maçonaria. Por volta de 1730, quando os maçons decidiram abandonar o perfil de construtores para formar um clube secreto, procuraram carregar consigo os nobres. O convencimento não era fácil, pois persistia a ideia de que aquilo não passava de corporação de operários. Eles precisavam de uma filiação de maior prestígio.

Andrew Michael de Ramsay, grande orador da Ordem Maçônica da França, encontrou um recurso astucioso: fundou uma nova maçonaria, com base na simbologia das Cruzadas. Ele não se referia explicitamente à Ordem dos Cavaleiros do Templo, ainda condenada por Roma, mas a uma ordem construtora herdeira que teria ressurgido na Escócia. Por meio dessa lenda, construiu o chamado “rito escocês antigo e aceito”, no qual certos graus se referem aos Templários: Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro Rosacruz e Cavaleiro Kadosh.

Essas filiações simbólicas enriqueciam o debate e traziam contribuições. O problema é que, em alguns casos, foram assumidas como verdadeiras. Não que não haja coincidências ainda inexplicadas entre as tradições dos dois grupos. Existem, mas em história é preciso ser prudente.

EGÍPCIOS

Seria sedutor imaginar uma maçonaria atravessando os séculos para preservar os segredos dos primeiros construtores de pirâmides. Eis uma ideia bonita, mas nada mais que inventiva.

É verdade que papiros datando de 2000 a.C. antes de nossa era descrevem o que poderíamos chamar de corporações, com objetivos definidos: caridade, condições de trabalho, salários, privilégios. As referências maçônicas ao Egito e a seus mistérios, porém, são recentes. Surgiram nos séculos XVIII e XIX, quando a franco-maçonaria se estruturava. Os ritos chamados de egípcios, como o Rito de Mênfis-Misraim, se multiplicaram no século XIX. Atualmente, subsiste uma maçonaria egípcia que reivindica uma herança espiritual, mas é preciso refletir sobre o que os maçons do século XIX pensavam sobre o Egito. Para eles, trava-se do berço dos ritos iniciáticos, o que resultou em uma visão extremamente deformada, que foi bastante explorada   pelos   escritores românticos, que viam o país como um lugar onde tudo era possível. A única certeza que temos é que os mitos, sejam egípcios, maçônicos ou de qualquer outra cultura, expressam verdades primeiras e universais. Se a forma muda e se adapta, os conhecimentos que eles transformam são sempre os mesmos.

A LENDA DO COMPLÔ MAÇÔNICO

Não há dúvida de que a Revolução Francesa foi deflagrada em nome dos valores defendidos pelos maçons no fim do século XVIII. A luta contra o despotismo real e a defesa da liberdade eram temas recorrentes nas lojas francesas da época. Há, no entanto, quem acredite que o levante de 1789 teria sido a primeira etapa de um complô mundial orquestrado pelos maçons para destruir todas as religiões. Inúmeros historiadores já demonstraram quão absurda é essa teoria, mas até hoje ela sobrevive entre os amantes de teorias da conspiração.

É interessante acompanhar a história dessa tese. Tudo começou depois da execução de Luís XVI, em 1793, quando um livro intitulado Mémoires pour servir l’histoire du jacobinisme (Memórias a serviço da história do jacobinismo) foi discretamente introduzido na França, vindo de Londres. Segundo o autor da obra, o abade Augustin Barruel, a franco-maçonaria havia organizado um vasto complô contra a monarquia e a Igreja que teria culminado na Revolução Francesa.

Nascido em 1741, Augustin Barruel estudou com os jesuítas e posteriormente se tomou padre. Depois da Revolução, foi obrigado a fugir para a Inglaterra. Lá, foi acolhido por um político e advogado londrino, Edmund Burke, que em 1790 publicou um importante estudo sobre as transformações políticas no país vizinho intitulado Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução na França).

Assim, foi de Londres que Barruel escreveu suas Memórias a serviço da história do jacobinismo. Um trecho desse livro resume bem a visão do abade: “Nessa Revolução Francesa tudo foi previsto, meditado, combinado, decidido, estabelecido – até os mais espantosos crimes: tudo foi resultado da mais profunda maldade, pois tudo foi preparado, dirigido por homens que tinham como único objetivo as conspirações há muito urdidas em sociedades secretas, e que espreitaram e souberam esperar pelo momento propício para o complô”.

O abade ainda explica que membros de outra sociedade secreta, os Illuminati da Bavária, teriam se infiltrado na maçonaria francesa. Dessa fusão teria nascido uma organização ainda mais secreta, reservada à elite da elite, e no seio dessa “supermaçonaria” é que a Revolução Francesa havia sido cuidadosamente preparada. Barruel chega a descrever o complô em detalhes. Segundo ele, em 1785 um emissário partiu da Bavária levando às lojas parisienses o plano secreto para desencadear a Revolução.

Apesar de toda a criatividade de Barruel, ele não foi o pai da ideia do complô. Já em 1791, outro abade, chamado Lefranc, tentava provar que o objetivo da maçonaria era derrubar o trono e o altar em um livro chamado Lê Voile leve pour lês curieux ou le Secret de Ia Révolution revele à l’aide de La franc-maçonneríe (Retirando o véu para os curiosos ou o Segredo da Revolução revelado com a ajuda da franco-maçonaria). Mesmo sem fornecer nenhuma prova para sustentar a tese do complô, o livro de Lefranc expõe com precisão como os maçons e os filósofos iluministas tinham “mudado os costumes da França”.

A terceira obra célebre que difundiu o tal complô foi publicada em 1796 por um certo Charles-Louis Cadet de Gassicourt, filho bastardo de Luís Xy com um título interminável: Lê Tombeau de Jacques Molay ou Histoire secrète abrégée des initiés andais et modernes, des Templiers, Franc-Maçons, Illuminés (A tumba de Jacques Molay ou História secreta resumida dos iniciados antigos e modernos, Templários, franco-maçons, Illuminati). No livro, Charles-Louis defendia a tese de que os maçons, herdeiros dos Templários, tinham voltado à Escócia para desencadear a Revolução Francesa! Uma vez mais, nada de provas.

A primeira refutação séria da ideia da conspiração maçônica foi elaborada em 1801 pelo prefeito de uma cidade da região de Ille-et-Vilaine, na França, chamado Jean-Joseph Mounier. Em seu livro De ttnfluence attríbuée aux philosophes, aux franc-maçons et aux illuminés sur Ia Révolution en France (Sobre a influência atribuída aos filósofos, maçons e Illuminati na Revolução na França), ele contesta ponto por ponto os argumentos de Barruel.

Mounier demonstra que, se os franco-maçons contribuíram efetivamente para a difusão de ideais que alimentaram os revolucionários, não existe nenhuma prova de que eles tenham organizado um complô. Na verdade, o autor explica que as lojas maçônicas eram pouco organizadas na época. Talvez fossem revolucionárias em suas crenças, mas eram muito pouco articuladas no plano da ação concreta e, além disso, movidas por concepções filosóficas extremamente variadas entre si.

De fato, a diversidade no interior da maçonaria francesa era enorme no fim do século XVIII. A sociedade secreta havia chegado ao país graças aos viajantes e negociantes vindos da Grã-Bretanha, berço da organização. A primeira loja maçônica foi instalada na cidade de Dunquerque, em 1721, e em meados do século XVIII a França já contava com cerca de 200 lojas, 22 apenas em Paris. Na aurora da Revolução, elas eram cerca de mil, e seus membros giravam em torno da casa dos 30 mil.

Quem eram os franco-maçons franceses daquela época? Essencialmente burgueses, aristocratas, militares e, surpreendentemente, eclesiásticos. A maçonaria fez um grande sucesso na França, pois as aspirações da sociedade estavam em sintonia com as da fraternidade: reação contra o despotismo real, desejo de liberdade, gosto pelas ciências e pela filosofia & curiosidade pela Inglaterra, país de origem da organização.

Foram sobretudo as ideias defendidas pelo Iluminismo, a liberdade de expressão e uma relativa tolerância religiosa que atraíram as pessoas às lojas. Como escreveu Daniel Momet em seu Lês Origines intellectuelles de Ia Révolution française (As origens intelectuais da Revolução Francesa), publicado em 1933, “os franco-maçons não eram revolucionários de coração, o eram apenas da boca para fora, acostumando-se às fórmulas com as quais a Revolução transformou a realidade”.

Ao contrário do que defendiam os adeptos do complô contra a monarquia e a Igreja, depois de 1789 a franco-maçonaria chegou a ser qualificada como uma espécie de guardiã dos valores culturais do Antigo Regime. A maioria dos aristocratas maçons, mesmo esclarecidos, não deixava de se agarrar a seus privilégios.

O duque de Orléans, Philippe Egalité, ex-grão-mestre do Grande Oriente, por exemplo, foi guilhotinado em 6 de novembro de 1793. A partir de 1792, as lojas se recolheram, e foi preciso esperar pela queda de Robespierre, em março de 1794, para que elas retomassem progressivamente as atividades. Tudo isso mostra que, ao passar pelo crivo da verificação histórica, a tese do abade Barruel não se sustenta.

O ESTRANHO MUNDO DOS SÍMBOLOS

Pesquisar o significado dos símbolos maçônicos é o cerne do desenvolvimento iniciático. Essa busca começa no dia da iniciação e não para nunca mais. Não existem maçons que sabem e maçons que ainda não sabem, só existem os que buscam. Mas o que significam, afinal, tantos signos? A resposta é: “Se você quer saber, torne-se um deles e descubra por si mesmo”.

O objetivo da fraternidade é permitir que o homem “construa” a si próprio nos planos intelectual, moral e espiritual. Por isso, as ferramentas inspiradas no mundo da construção são importantes se entendidas no nível simbólico. Os ritos, por sua vez, não podem ser resumidos a dicionários para ser compreendidos. O que eles propõem são pistas de reflexão. Os iniciados vão explorá-las sozinhos ou em grupo.

A evolução de um maçom é organizada em graus. Cada grau corresponde a um conjunto de símbolos, e há mais de 90 diferentes originários dos ofícios ligados à construção civil: malho, cinzel, compasso, esquadro, avental e luvas, nível, fio de prumo, trolha, régua, alavanca etc.

Há ainda elementos do Velho Testamento e da tradição de construtores de catedrais. O terceiro grau, por exemplo, põe em cena Hiram, construtor do primeiro Templo de Jerusalém no século XI a.C, o Templo de Salomão. Hiram foi assassinado por três companheiros.

As imagens não contêm mistérios nem magia: são utilizadas para fazer a mente trabalhar. Nada é sagrado nem há culto de adoração aos elementos. Você jamais verá um irmão se prosternar diante do que quer que seja.

Cada um deve se apropriar dos signos maçônicos e procurar em sua própria vida o que eles representam e acrescentam. Assim, o esquadro, símbolo da retidão, provoca a reflexão sobre o que se pode construir com probidade. Os elementos são utilizados para designar os conceitos complexos de modo simples.

Aqui, entramos no mundo do imaginário, no qual a razão desaparece. A esse respeito, os maçons costumam dizer que não sabem nem ler nem escrever, pois as coisas do imaginário não se prestam à linguagem escrita ou falada. Eles reabilitam o pensamento simbólico e o colocam no mesmo plano que o pensamento racional. Isso requer um aprendizado lento e rigoroso.

SEM DOGMAS

O primeiro olhar que o franco-maçom deve alterar é aquele que ele tem a seu próprio respeito. A abordagem iniciática pode ser resumida pela fórmula de Sócrates, “Conhece-te a ti mesmo”. Mas a frase completa é: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”.

Para reunir pessoas de religiões e culturas diferentes, os franco-maçons tomaram emprestada de Voltaire a ideia de um Grande Relojoeiro, mas permanecendo fiel à tradição de construtor – a expressão franco-maçon quer dizer “pedreiro-livre”, em francês. Daí a concepção do Grande Arquiteto do Universo, traduzida pelo princípio criador que não se opõe nem aos deuses das religiões nem ao materialismo científico.

Na maçonaria não há doutrina nem dogma, o que permite a todos,crentes, ateus ou agnósticos, compartilhar uma concepção de mundo. O Grande Arquiteto do Universo é representado pelo triângulo no centro do qual se localiza um olho, o olho da consciência, o Princípio Criador. É o olho que tudo vê, que protege ou julga, dependendo do caso. Esse símbolo já podia ser visto antes do surgimento da maçonaria, como representação divina nas pinturas pré-renascentistas e na antiga arte egípcia – no caso, aludindo a Hórus, filho de Ísis e Osíris.

O mais conhecido dos símbolos maçônicos, o esquadro e o compasso associados, apareceu em 1725. O esquadro remete à terra, ao número quatro e ao quadrado. O compasso alude ao céu, à unidade e ao círculo. Combinados, encontra-se a matéria (esquadro) e o espírito (compasso) indissociavelmente ligados.

Frequentemente se critica certo caráter “secreto” da maçonaria, a esconder talvez boa dose de perigo. Percepção errada. Desde a criação da primeira grande loja maçônica, em 1717, em Londres, começaram a circular textos detalhando seus ritos. O conhecimento verdadeiro, porém, está inscrito na vivência de cada maçom e é dificilmente transmissível.

Iniciado em 1750, Casanova exprimiria com perfeição a ideia: “O segredo da franco-maçonaria é inviolável por sua própria natureza, já que o maçom que o conhece, só o conhece por tê-lo adivinhado. Ele não o aprendeu de ninguém, ele o descobriu à força de ir à loja, de observar, raciocinar e deduzir”.

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3 comments

  1. Meu Bisavô foi maçon na grande loja de alagoas. A tia do meu pai uma vez me disse que o diploma dele estava na grande loja do Rio de Janeiro.
    Alguém sabe me falar se eu, sem ter iniciado na maçonaria, posso ir a Grande Loja para ver os documentos do meu bisavô?
    Minha tia me falava que ele havia sido Grão Mestre, mas eu não tenho nenhuma confirmação e me parece que esse diploma responderia algumas perguntas que tenho.
    Ficaria grato pela resposta.

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