As 16 datas que mudaram o mundo: 9- A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Pierre Miquel (1930-2007)
Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês

O antes de Sarajevo, em junho de 1914: a Europa dos reis prossegue tranquilamente a conquista e a exploração do mundo, não sem batalhas entre as nações e não sem resistências populares e coloniais.

O depois de Sarajevo é o nascimento de um novo mundo: a Europa perdeu o primeiro round, causando e sofrendo a primeira grande carnificina da História. Dois Estados que deram dois milhões de homens para a coalizão aliada destacam-se, a Rússia revolucionada e os Estados Unidos vencedor, e impõem em Versalhes os princípios de um direito internacional ao qual todos os povos devem aderir: Wilson contra Lênin.

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O equilíbrio do mundo chancela em Sarajevo. No dia 28 de junho de 1914, o arquiduque herdeiro da Áustria-Hungria, Francisco Ferdinando, e sua esposa são assassinados por um terrorista sérvio, Gravilo Princip, na pequena cidade da Bósnia.

A Europa é um barril de pólvora. A paz é mantida somente pelo equilíbrio das alianças, a da França, Inglaterra e Rússia, contra a da Alemanha e Áustria-Hungria. Nessa Europa dos reis, duas repúblicas, a francesa e a pequena república portuguesa, e quatro impérios frágeis dominam as nacionalidades que querem tornar-se nações independentes.

O império mais doente é o austro-húngaro, ameaçado em sua coesão pelas populações servias reunidas na Bósnia anexada ao império. Essa minoria servia da Bósnia é apoiada, em seu desejo de se unir à vizinha Sérvia, pelos governos de Belgrado e de São Petersburgo.

A Rússia autocrática – dominando um terço da Polônia, os Estados Bálticos e os povos muçulmanos do sul – não está em melhor posição. Seu exército acaba de ser derrotado pelos japoneses e o regime czarista debelou com dificuldade, em 1905, uma tentativa de revolução.

O império otomano, que domina uma parte da Europa (a Trácia ocidental) e os povos árabes da Síria e os do Líbano, os cristãos da Armênia e do Oriente, está há algum tempo doente. Suas finanças estão nas mãos dos anglo-franceses, seu exército, nas mãos dos alemães. Ele acaba de passar pela revolução dos Jovens Turcos que querem impedir que o império desapareça, mesmo com o risco de uma guerra.

O II Reich alemão é o único império sólido e triunfante. Ele constituiu sua unificação por meio de três guerras, uma pela conquista dos ducados dinamarqueses, o Schleswig e o Holstein, outra, em 1866, para desencorajar a Áustria de liderar a unificação alemã na Europa, e a terceira contra a França, em 1870, para se apossar do Reichsland da Lorena e da Alsácia. O Reich domina também, como a Áustria e a Rússia, uma parte da Polônia.

Como conseqüência desses conflitos, esses impérios vão desaparecer e serão reduzidos à sua mais simples expressão. A Europa que sairá da sangria de 1914-1918 (9 a 10 milhões de mortos, sem contar os desaparecidos) será a Europa das pequenas nações do Tratado de Versalhes.

Jamais os contemporâneos foram tão conscientes de um antes e de um depois da História como no fim desse conflito. A guerra arruinou todos os beligerantes: mais de 65 milhões de homens mobilizados, milhares de dispensados, as reservas em ouro esgotadas.

Pela primeira vez na História, todos os povos europeus, mesmo os ingleses, devem mobilizar-se, faixa etária após faixa etária, para participar de uma guerra de extermínio, uma guerra de massas.

Pela primeira vez, uma guerra mobiliza todas as invenções tecnológicas para matar mais rápido. As vítimas dos submarinos, dos aviões e dos tanques, dos canhões e das metralhadoras, dos fuzis de tiro rápido e dos lançadores de granadas e também das armas químicas, do gás e do lança-chamas se contam em centenas de milhares.

Nos campos de batalha de Verdun e de Somme, em 1916, ingleses, alemães e franceses procuram provar que é possível destruir tudo o que é vivo num determinado espaço. A guerra de cansaço substitui a guerra de estratégia. Os estatísticos do Estado-Maior contam os homens que devem ser mortos mensalmente, como se fossem cavalos. Eles fazem parte das estatísticas.

Os civis não são poupados. Os ataques de zepelins sobre Londres fazem numerosas vítimas. Ypres, Arras, Verdun, Albert são cidades mártires arrasadas pelos canhões. Uma artilharia pesada alemã atira todos os dias sobre Dunquerque, outra sobre Nancy. A igreja de São Gervásio em Paris é bombardeada pela Grosse Bertha — os canhões Bertha: 80 mortos em uma sexta-feira santa. E o Lusitânia, um navio afundado pelos submarinos alemães, no qual numerosos passageiros civis americanos morreram. E o martírio da Bélgica: reféns e repressão, trabalho forçado e requisições. No Oriente, a eliminação da população armênia pelo turcos assemelha-se a um massacre organizado. Outras matanças ensangüentam a Ucrânia.

Pela primeira vez, os Estados Unidos da América esquecem a doutrina de Monroe e intervêm maciçamente na Europa, para definir uma ordem mundial baseada no direito e tornando uma guerra impossível. Eles pedem a liberdade dos povos e a liberdade dos mares. Eles combatem pelo direito e pelo dólar.

Sem o socorro dos dois milhões de soldados vindos do outro lado do Atlântico, mas sobretudo sem a ajuda financeira, econômica e industrial dos Estados Unidos, a Alemanha imperialista não poderia ser derrotada. Uma revolução obriga o Estado-Maior a agir. A intervenção do presidente dos Estados Unidos obriga Ludendorff a se demitir e o imperador Guilherme II a abdicar para dar lugar a uma república alemã dirigida primeiro pelo chanceler Max de Bade, e depois pelos social-democratas signatários do armistício de Rethondes de 11 de novembro de 1918.

Se os senadores americanos recusam-se a assinar em 1919 o Tratado de Versalhes, eles dão ao presidente Wilson o tempo para instalar a Liga das Nações em Genebra. Uma Liga da qual Woodrow Wilson, derrotado nas eleições presidenciais, participa tanto quanto Lênin, e que pretende garantir a paz no mundo.

Pela primeira vez, sai de uma guerra uma revolução de escala mundial, a revolução da Rússia czarista que se transforma em bolchevique e que instala, graças à assinatura da paz em separado com a Alemanha em Brest-Litovski, um regime comunista criador de uma Terceira Internacional que convoca os povos do mundo inteiro a unirem-se o mais rápido possível à revolução.

O depois da guerra é uma derrota trágica e lamentável. Os americanos que se transformaram em isolacionistas abandonam a Europa, que se entrega novamente a uma furiosa rivalidade entre as nações e a seguir a uma crise mundial que conduz ao fascismo. A atitude reservada dos americanos não os impede de investir maciçamente na Alemanha e de controlar, por meio de seus banqueiros Dawes e Young, o pagamento escalonado e constantemente reduzido da dívida alemã, exigindo, ao mesmo tempo, com insistência, o reembolso integral das dívidas aliadas. A sexta-feira negra americana repercute imediatamente na Alemanha onde os bancos desmoronam em 1929, impossibilitando o pagamento da dívida de guerra. O desemprego e a queda do nível de vida resultante encorajam poderosamente a ascensão do hitlerismo, que utiliza em seu favor os erros do Tratado de Versalhes, abandonando os territórios e as populações alemãs para as novas nações eslavas, como a Polônia ou a Tchecoslováquia.

A derrota da paz de Versalhes é também a derrota da democracia que não conseguiu se estabelecer nas nações liberadas. A democracia é inexistente tanto em Varsóvia quanto em Bucareste, tanto em Budapeste quanto em Belgrado, onde os deputados atiram uns nos outros com revólveres. O modelo inglês ou francês só conseguiu ser imitado, com sucesso, em Praga. Em todos os outros lugares, a nova Europa durante a década de 30 volta-se para o modelo fascista italiano e se entrega a novos senhores. Horthy na Hungria, Pilsudski, antes do coronel Beck, na Polônia. Os egoísmos nacionais não permitiram aos grandes países europeus e aos Estados Unidos da América dar à crise mundial de 1929 uma resposta eficaz, bloqueando tanto a evolução previsível em direção a regimes autoritários quanto o risco de uma nova guerra.

A derrota do comunismo como uma missão mundial não é menos evidente. A guerra civil, encorajada pelos aliados, toma conta da Rússia, onde Lênin, Trotsky e Stalin criam o exército vermelho que restabelece a ordem com um banho de sangue e aproveitam para eliminar as tendências rivais, os anarco-sindicalistas por exemplo. As tentativas revolucionárias na Europa fracassam em todos os lugares: a revolução é reprimida na Alemanha e na Hungria. As greves revolucionárias são vencidas na França. Na Itália o fascismo povoa prisões e ilhas com comunistas. A nova ideologia soviética só pode oferecer, como modelo para todos os partidos comunistas estrangeiros, a vitória do “comunismo em uma só nação”. Stalin está a caminho.

O depois da grande guerra é uma derrota, pois o sistema colonial subsiste com as tensões que ele envolve, especialmente na índia, na China e na Indochina, na África do Norte onde se constituem os primeiros movimentos de resistência. A política de mandatos, inaugurada pela Liga das Nações, culmina em acontecimentos sangrentos no Oriente, especialmente na Síria e no Líbano ocupados pelo exército francês. Todas as fraquezas do sistema colonial, todas as revoltas encontram em Moscou um interlocutor atento.

O depois da guerra é uma derrota, pois ele de forma alguma eliminou o militarismo. As esquadras de guerra anglo-saxônicas e japonesas entregam-se a uma insensata rivalidade armamentista. A França mantém o primeiro exército armado do continente, seguido de perto pelo exército vermelho que consagra somas enormes para a produção de material de guerra. A Alemanha recorreu a todos os expedientes para contornar as cláusulas de desarmamento contidas no Tratado de Versalhes e fabricar no estrangeiro os protótipos de tanques e de aviões de combate. A paz é uma paz armada, ameaçadora, pronta para engendrar, vinte anos mais tarde, uma nova guerra mundial.

O depois da guerra é finalmente uma derrota, pois os direitos do homem não foram reconhecidos no mundo e foram terrivelmente ultrajados não somente durante a guerra, mas durante a revolução russa. Sarajevo destruiu a Europa, mas também fragilizou o mundo, até tornar possível a dramática escalada dos totalitarismos decididos, para vencer, a negar os direitos mais elementares do homem: o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade com a qual sonharam, em 1776, os constituintes norte-americanos.

 

 

Pequena Cronologia

 

A Grande Guerra

  • 18 de outubro de 1912: Primeira guerra balcânica. A Turquia, vencida pela Bulgária aliada da Sérvia, de Montenegro e da Grécia, está praticamente eliminada da Europa. É uma bofetada para os Jovens Turcos.
  • Junho-julho de 1913: Segunda guerra balcânica. A criação da Albânia, exigida pela Áustria, desagrada a Sérvia e Montenegro. A Grécia e a Sérvia preparam a divisão da Macedônia, à custa da Bulgária, que, vencedora em 1912, encontra-se sozinha contra a coalizão dos sérvios, gregos, romenos e turcos. Os búlgaros, humilhados, vêem a Macedônia lhes escapar, dividida entre os vencedores. Eles entregam também a Dobroudja meridional aos romenos, e a cidade de Adrinopla aos turcos. A Bulgária, tão eslavófila e russófila, torna-se disponível para uma aliança com Viena e Berlim.
  • 28 de junho de 1914: Assassinato de Francisco Ferdinando de Habsbourg, arquiduque herdeiro da Áustria, em Sarajevo, na Bósnia. O processo do terrorista sérvio Princip dá lugar a um afrontamento diplomático entre Belgrado e Viena, que se agrava a ponto de colocar em jogo o sistema de alianças. 23 de julho de 1914: Ultimato austríaco à Sérvia.
  • 28 de julho: Declaração de guerra da Áustria à Sérvia. 30 de julho: Mobilização geral decretada na Rússia.
  • l? de agosto: Declaração de guerra da Alemanha à Rússia. 4 de agosto: Declaração de guerra da Alemanha à França. Violação imediata, pelo exército alemão, da neutralidade belga. O plano de guerra alemão de Von Schlieffen baseia-se na eliminação completa do exército francês em seis semanas. A invasão da Bélgica leva a Inglaterra a declarar guerra à Alemanha, seguida pelo Japão em 23 de agosto.
  • 29  de novembro: Entrada da Turquia no conflito ao lado da Alemanha.
  • Agosto e setembro de 1914: Derrotas francesas na Alsácia, em Lorena e em Charleroi. Vitória alemã contra os russos em Tannenberg e em Masures. 
  • De 6 a 10 de setembro de 1914: Vitória franco-britânica no Marne. Os exércitos alemães recuam cem quilômetros e se entrincheiram em mil quilómetros de front, de Ypres a Belfort. 
  • 1915: Derrota das ofensivas francesas e britânicas. Derrota em Dardanelos. Derrota dos russos que abandonam a Polônia e a Lituânia para os alemães. Derrocada da Sérvia depois da entrada, na guerra, da Bulgária ao lado de Viena e Berlim. A Itália entra em guerra, em maio, ao lado dos aliados.
  • 1 1916: Derrota alemã em Verdun e dos aliados em Somme. Apesar do sucesso em Broussilov, os exércitos russos recuam novamente. A Romênia é invadida.
  • Março de 1917: Queda do czarismo na Rússia.
  • Abril de 1917: Derrota da ofensiva Nivelle no Chemin dês Da-mes e começo dos grandes motins do exército francês (até julho).
  • 6 de abril de 1917: Declaração de guerra dos Estados Unidos à Alemanha por causa da guerra submarina.
  • 6 a 8 de novembro de 1917: Revolução bolchevique na Rússia. Lênin toma o poder.
  • Novembro de 1917 a março de 1918: Paz de Brest-Litovski. A Rússia retira-se da guerra.
  • Março-julho de 1918: Grandes ofensivas alemãs de Ludendorff na França barrada por Foch, que se torna generalíssimo dos exércitos aliados. Vitória aliada na segunda batalha do Marne em julho, de Franchet d’Esperey no front de Salônica e dos italianos em outubro em Vittorio Veneto.
  • 11 de novembro: Armistício no oeste.

O pós-guerra

  • 10 de setembro de 1917: Tratado de Saint-Germain.
  • 28 de junho de 1919: Assinatura do Tratado de Versalhes.
  • 27 de novembro de 1919: Tratado de Neuilly.
  • 4 de junho de 1920: Tratado de Trianon. Esses tratados complementares consagram a ruína dos impérios centrais, austríacos, turco, russo e alemão e seu desmantelamento em proveito das pequenas nações.
  • 10 de janeiro de 1920: Entrada em vigor do Tratado de Versalhes e a criação da Liga das Nações Unidas em Genebra. O Senado norte-americano recusa-se a ratificar o tratado, e os Estados Unidos estão ausentes da Liga das Nações Unidas.
  • 1926: Entrada da Alemanha na Liga das Nações Unidas, da Turquia em 1932, da URSS em 1934.
  • 1933: Retirada do Japão condenado por sua agressão na Mandchúria.
  • 1933: Retirada da Alemanha hitlerista. 1934: Rearmamento alemão. 1936: Remilitarização da Renânia.
  • 1937: Retirada da Itália fascista castigada com sanções por sua agressão. Anscbluss na Etiópia. 1938: A Áustria é anexada à Alemanha nazista. 1939: Desmembramento da Tchecoslováquia. 1939: Retirada da Hungria e da Espanha franquista. Dezembro de 1939: Exclusão da URSS em seguida de sua agressão contra a Finlândia. Abril de 1946: Dissolução oficial da Liga das Nações Unidas.
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