História indígena e história ambiental

Por Victor Leonardi, originalmente publicado no Caderno da TV Escola 2 – A Idade do Brasil, editado pelo MEC em 1999

Hoje em dia, é muito comum ouvirmos falar dos graves problemas ambientais, ou até mesmo convivermos com eles. São gigantescos incêndios florestais, desmatamento indiscriminado, uso abusivo de agrotóxicos nas plantações – contaminando agricultores e consumidores dos alimentos -, poluição dos rios por mercúrio e outros dejetos etc.

Nas cidades, os automóveis e as chaminés das fábricas expelem gases que tornam o ar irrespirável. O acúmulo de lixo, muitas vezes tóxico, e a falta de condições sanitárias ideais reduzem a qualidade de vida dos moradores.

Como a consciência das questões ecológicas aumentou muito nas últimas décadas, tem-se a impressão de que a gravidade desses problemas é coisa recente. Na verdade, o que há mesmo de recente é a amplitude global que eles alcançaram. O desmatamento das florestas e a poluição do ar, da terra, dos rios e dos mares tem sido tão intensa, em todo o mundo, que hoje o planeta inteiro está ameaçado.

Mas a destruição do meio ambiente é um problema muito antigo, que atingiu diferentes sociedades desde épocas remotas. No Brasil, em particular, o uso indiscriminado dos recursos naturais pode ser registrado desde o primeiro século da colonização.

Há um ramo da pesquisa histórica, denominado ‘história ambiental’, que se dedica a estudar as crises ambientais do passado. Mais do que registrar apenas essas destruições, a história ambiental procura entender a maneira pela qual as diferentes sociedades, em diferentes épocas, se relacionaram com a natureza.

Os conhecimentos produzidos por outros ramos do saber, como a antropologia, ajudam os historiadores ambientais a constatar que outras sociedades mantiveram uma relação muito mais harmônica, equilibrada e respeitosa com o mundo natural do que as sociedades do Ocidente.

Conhecimentos indígenas de agricultura e botânica

Pesquisas recentes na Amazônia e no Centro-Oeste já revelaram que a literatura tradicional a respeito da agricultura indígena estava equivocada. Segundo as ideias aceitas até há bem pouco tempo, o fogo teria sido a única forma de manejo da terra utilizada pelos índios até a chegada dos europeus. Mas, na opinião de alguns pesquisadores, essas ideias são errôneas. Pesquisa realizada na aldeia de Gorotire, em 1985, revelou que os kayapó praticavam até o reflorestamento, a partir de uma concepção do meio ambiente distinta daquela que predomina nas sociedades ocidentais.

Os pesquisadores apresentaram aos atuais habitantes diversas amostras botânicas, perguntando seu nome na língua indígena, seus usos e a prática de manejo associada àquelas plantas. Posteriormente, as amostras foram cientificamente identificadas pelo museu Emílio Goeldi, do Pará. Das 120 espécies inventariadas, os indígenas haviam considerado úteis 118, das quais 75 por cento eram espécies por eles plantadas!

Os estudiosos concluíram que esse sistema harmonioso de manejo do cerrado, com benefícios substanciais não só para o homem, mas para o próprio meio, se desenvolveu ao longo de muito tempo, tendo sido amplamente praticado no passado.

Os estudos de etnobotânica levaram à surpreendente conclusão de que muitos dos ecossistemas tropicais que consideramos naturais podem ter sido, na verdade, organizados por povos indígenas.

Outro exemplo interessante se relaciona com a apicultura. Em um congresso científico realizado no estado do Pará, alguns indígenas convidados deram uma verdadeira aula para os acadêmicos presentes, transmitindo seus vastos conhecimentos a respeito das abelhas, principalmente no que se refere a espécies amazônicas, ainda pouco estudadas por zoólogos e biólogos.

Esses cuidados para com a natureza, por parte dos kayapó e de outros povos indígenas, contrasta com a atividade daninha e devastadora de muitos empreendimentos contemporâneos na Amazônia, tanto na mineração como na pecuária.

Parece que a destruição do meio ambiente é uma das poucas tradições que podemos inventariar na história do Brasil, sem interrupções, desde o século 16.

No primeiro século da colonização, a exploração do pau-brasil foi tão intensa que, depois de bem pouco tempo, a madeira já rareava no litoral e era preciso ir procurá-la no interior, a 60 ou 120 quilômetros da costa.

Na verdade, os problemas ambientais vêm se acumulando no Brasil há dois ou três séculos. Por exemplo: há registros de uso indiscriminado de queimadas, acúmulo de detritos pela exploração mineral e poluição dos cursos d’água por mercúrio desde o século 18.

Acredita-se mesmo que poderia haver uma correlação entre a poluição por mercúrio e a grande incidência atual de debilidade mental e má formação congênita na população de certas cidades do interior de Goiás, nas quais a mineração foi intensa no final do século 18. Os casamentos consangüíneos, por si só, não explicariam tamanha incidência.

Essa hipótese foi levantada a partir da prospecção realizada na região, em 1987, por arqueólogos da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, revelando a existência de altíssima concentração de mercúrio nos sedimentos dos garimpes, soterrados há mais de século e meio.

Modelos agrícolas e espaço geográfico

Analisando os resultados da atual política governamental de incentivos fiscais na Amazônia, o engenheiro florestal Shigeo Dói concluiu que 97 por cento dos projetos agropecuários fracassaram, deixando como resultado desse ‘antimodelo’ de desenvolvimento econômico “40 milhões de hectares de floresta devastados, sem nenhum benefício em troca”. A devastação tornou-se tradição no Brasil, unindo o século do pau-brasil ao final do século 20.

O mais interessante no estudo desse engenheiro florestal é sua conclusão, de que “observando a roça dos silvícolas, que utilizam o método natural, o resultado é fantástico”. Ele propõe então a substituição do atual modelo agressivo, que canaliza recursos para a destruição, por um modelo conservacionista, direcionado para a oferta de produtos tropicais nativos, que poderia ser viabilizado, segundo ele, por um sistema de “fazendas florestais”.

Não cabe aqui analisar a viabilidade dessa proposta; fica apenas constatada a valorização das técnicas agrícolas dos homens ‘primitivos’ – cujos conhecimentos até hoje os estadistas brasileiros subestimam – por um engenheiro florestal.

Algumas descobertas arqueológicas feitas na Amazônia tornam ainda mais questionável essa ideia de primitivismo. Os pesquisadores constataram, por exemplo, que a agricultura indígena no alto Amazonas era quase sempre acompanhada por um processo de transformação manufatureira de produtos da terra – como a mandioca, com a qual se fabricava farinha, em grandes fornos construídos especialmente para esse fim.

Por meio de datação com carbono 14, hoje podemos afirmar com certeza que os fornos de farinha existiam e eram utilizados no norte do Brasil há pelo menos 2 mil anos. Portanto, embora também se dedicassem à caça, as populações indígenas da época não podiam ser descritas, conforme faziam observadores menos atentos, como “hordas de caçadores selvagens”.

Entre os traços culturais do ameríndio brasileiro merecem destaque os conhecimentos topográficos, isto é, a capacidade de se localizar e de representar o espaço percorrido. E, como conseqüência, a cultura geográfica inerente a essas faculdades.

Os tupinambá, por exemplo, além de conseguirem percorrer com facilidade centenas de léguas, eram dotados de um maravilhoso sentido de orientação, sendo os melhores guias, no sertão. Acompanhavam o giro do sol e seu caminho entre os dois trópicos, conheciam vários planetas, estrelas de primeira grandeza e constelações, que designavam por diferentes nomes, quase todos de animais. A essa astronomia de orientação correspondia, logicamente, uma aguda percepção do espaço geográfico e grande capacidade de representá-lo.

As múltiplas visões de mundo dos indígenas brasileiros, associadas a todo um complexo cultural, social e emocional, se desenvolveram ao longo de alguns milhares de anos, com total independência histórica em relação às tradições culturais européias e asiáticas.

As línguas e o ambiente

Os índios tukano do rio Uaupés, no Amazonas, dominam com perfeição numerosas línguas; são inúmeros os homens e mulheres que falam de três a cinco línguas, havendo até alguns poliglotas que dominam oito ou dez idiomas! Nesse aspecto, o rio Uaupés é uma área única no mundo. Esse rio fica no imenso município de São Gabriel da Cachoeira, que possui o maior número de aldeias indígenas do Brasil, abrigando povos de línguas tukano, maku, baré e baniwa.

Diante de um fato cultural tão extraordinário como o poliglotismo tukano, percebe-se como os preconceitos deformaram inúmeras teorias da história surgidas na modernidade.

É simplesmente um absurdo considerar ‘inferiores’, ou ‘atrasados’, homens e mulheres capazes de se expressar em diversos idiomas!

E não se pode esquecer que isso ocorre no interior do estado do Amazonas, onde a maior parte dos brasileiros não sabe falar outra língua além do português.

O utilitarismo imediatista e a procura constante da maximização, que predominam na mentalidade de mercado, reduzem a espécie humana ao Homo economicus. Se não fosse isso, nós, brasileiros, já teríamos percebido que temos muito a aprender com os povos indígenas que há milênios habitam essa imensa área que é a Amazônia e a região Centro-Oeste, território que mal começamos a estudar do ponto de vista botânico -e ecológico. Os conhecimentos empíricos desses povos não deveriam ser subestimados, como hoje acontece, por aqueles que sistematizam, explicam e teorizam.

Mas, como conseguir uma cooperação pacífica no estudo da natureza amazônica, quando essa mesma natureza vem sendo destruída a um ritmo cada vez maior?

A ocupação da Amazônia, desde o início da construção das grandes rodovias e ferrovias, de 1960 em diante, tem sido literalmente catastrófica do ponto de vista ecológico. Ao observar isso, vemos o quanto existe de chauvinismo por trás da palavra ‘atraso’. Se essa grande floresta continuar sendo destruída por tecnologias sofisticadas (há até usinas siderúrgicas utilizando carvão vegetal), só restará aos filósofos rever a noção de cultura, pois os índios ‘atrasados’ jamais ameaçaram a região, nos milhares de anos que vivem por ali.

A alternativa não seria uma volta às estratégias de sobrevivência do Neolítico, mas sim o fim do casamento tradicional entre ‘progresso’ e destruição. Ou entre destruição e cultura, tal como o Ocidente vem promovendo há mais de cinco séculos.

Uma tecnologia que se espalha destruindo a natureza, como vem acontecendo na Amazônia, não indica desenvolvimento de forças produtivas, mas sim de forças destrutivas.

Essas observações não têm apenas um sentido polêmico, ou um conteúdo de denúncia: fazem parte de nossa tentativa de compreender melhor a natureza das contradições presentes nessa sociedade.

Quando centenas de milhares de hectares de floresta – milhões de hectares, nos últimos anos – são queimados anualmente, para nada, a não ser por um lucro de curta duração, é mais do que necessário pensar no absurdo de empregar o termo ‘civilização’ para designar a extensão desse holocausto pelas áreas amazônicas.

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