A religião Islâmica – princípios gerais

Texto extraído da revista Al Tawadih (edição 01), editada pela Associação Beneficente Muçulmana do rio Grande do Norte em março/abril de 2010

 

Em meio ao noticiário da mídia, sempre superficial, e as muitas publicações de “especialistas no Oriente que pretendem explicar o Islam”, é preciso discernir informação e preconceito, conhecimento e tentativa de manipulação da opinião pública. Neste sentido, consideramos adequado começar a primeira edição do Tawdih com uma apresentação objetiva da Religião Islâmica e quais os seus princípios básicos.

O nome “Islam” tem origem na palavra árabe “Silm/Salam”, cuja tradução é “Paz”. “Saiam” também expressa o sentido de uma saudação recíproca, na qual se deseja a paz entre as pessoas.

No sentido religioso, representa a submissão a um só Deus, a forma de viver em paz com o Criador, consigo mesmo, com outras pessoas e com o meio ambiente. A totalidade desses objetivos faz com que o Islam seja “um sistema de vida completo”, diferente de outras religiões nas quais a ênfase é puramente espiritual e/ou de práticas devocionais.

Os seguidores do Islam são chamados de “muçulmanos”, palavra aportuguesada de “muslim”. Um muçulmano é qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, cuja obediência, dedicação e lealdade são exclusivamente para Deus, o Senhor do Universo.

Muçulmanos e árabes

O conceito do que seja árabe, já há muito tempo, é usado para designar mais do que “uma etnia ou raça”. Hoje, qualquer povo que tem o idioma árabe como sua língua materna é considerado árabe. Os muçulmanos, entretanto, podem ser árabes, turcos, franceses, indianos, chineses, japoneses, portugueses, russos, brasileiros ou de qualquer outra nacionalidade e/ou raça. E interessante notar, inclusive, que o país com a maior população muçulmana não é árabe nem está no Oriente Médio. Trata-se da Indonésia, um país da Ásia. Por outro lado, os árabes não são exclusivamente muçulmanos. Há árabes cristãos, judeus e também ateus. Existem cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo e, destes, menos de 20% são árabes.

O árabe, entretanto, é a língua em que foi revelado e está escrito o Alcorão, o Livro Sagrado dos muçulmanos. Para poder conhecer essa revelação no original (traduções dela para outras línguas não são consideradas o Alcorão) é que muçulmanos de todo o mundo tentam aprender o árabe. As orações, dirigidas somente a Deus, também são feitas em árabe pelo mesmo motivo. As súplicas (preces) a Deus podem ser feitas em qualquer língua.

Allah , o único Deus

O Islam não é uma religião que tem um “deus” diferente do cristianismo e do judaísmo, as duas outras grandes religiões monoteístas. Allah é a palavra árabe para “Deus”. Um árabe cristão ou judeu, ateu ou de que religião for, também dirá Allah ao se referir a Deus.

O motivo pelo qual uma grande maioria de muçulmanos de várias nacionalidades e línguas diferentes preferem usar Allah e não o vocábulo correspondente em sua língua materna para “Deus”, se deve ao fato de que a palavra árabe não tem género nem numero, expressando de forma mais completa a noção islâmica de que “Deus é Uno e Único”.

Os Profetas

Os muçulmanos acreditam nos profetas do Judaísmo e do Cristianismo, nomeadamente, em Noé, Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, José, Moisés, Aarão, Davi, Salomão, João Batista e Jesus (que a paz de Deus esteja com todos eles).

Os muçulmanos acreditam que Deus enviou diferentes profetas e mensageiros, ao longo de toda a história da humanidade. Todos trouxeram a mesma mensagem e os mesmos ensinamentos. Os povos, nas diferentes épocas, é que não compreenderam bem, interpretaram mal e, em alguns casos, deturparam a Palavra Divina.

Os muçulmanos não adoram os profetas nem os santos, assim como não adoram e/ou oram para imagens e estatuetas. Os muçulmanos dirigem suas preces única e diretamente a Deus.

Muhammad

O profeta do Islam é Muhammad (que a paz e as benções de Deus estejam com ele), um mercador árabe cujo nome completo é Muhammad Bin Ab-dul Muttalib, nascido no ano de 570 da era Cristã, na cidade de Makka (Meca), Arábia. Seu pai faleceu antes do seu nascimento, e sua mãe, logo depois, por isso ele foi criado por um tio. A família de Muhammad (saas) formava um dos clãs da tribo Coraix. Aos 40 anos, durante um dos retiros que costumava fazer para meditar sobre sua existência, os tempos em que vivia, o Universo e seu Criador, Muhammad (saas) foi visitado pelo Anjo Gabriel (Jibrail) que lhe avisou ter sido ele escolhido por Deus para transmitir à humanidade a última das revelações divinas, o Islam.

Alcorão, hadices e outros Livros Sagrados

O Alcorão é a Palavra de Deus autêntica e original, dirigida a toda a humanidade e não só aos muçulmanos. O Alcorão foi revelado ao Profeta Muhammad (saas) por intermédio do Anjo Gabriel, constituindo-se na fonte primária e essencial do Islam.

Hadices são “ditos, tradições, exemplos, narrativas” das palavras, ações e decisões do Profeta Muhammad (saas) que não se encontram no Alcorão, mas em várias coletâneas organizadas após a morte do Profeta, transmitidas de forma confiável por seus devotados companheiros e registradas acuradamente por sábios. Muitos dos hadices exemplificam, explicam e interpretam versículos Corânicos. O conjunto desses ditos e ações do Profeta (saas) é chamado de “sunnah” (costume e/ou prática). Seguir a sunnah, portanto, é “fazer como o Profeta (saas) fazia”.

O Alcorão e a sunnah do Profeta Muhammad (saas) formam as bases do Direito Islâmico (fiqh) e constituem um verdadeiro Código de Vida para os muçulmanos.

Os muçulmanos crêem nos outros livros sagrados, revelados aos profetas e mensageiros anteriores a Muhammad (saas), mas foram alertados por Deus, através do Alcorão, que esses livros foram alterados na sua forma original.

 

Arte da caligrafia árabe - Proibidos de retratarem seres animados criados por Deus, o que poderia levar a alguma forma de adoração dessas imagens e/ou estatuetas, os artistas árabes-islâmicos desenvolveram a arte da caligrafia. Uma vez que a revelação da mensagem divina utilizou a palavra, ela também poderia ser utilizada para representar esses seres sem incorrer no risco do politeísmo. Vários estilos de caligrafia foram desenvolvidos ao longo dos séculos. A imagem acima, representando um leão, é do século XVI, e as letras formam uma prece para o Iman Ali (que Deus esteja contente com ele), primo e genro do Profeta (que a paz e as benções de Deus estejam com ele), e também o quarto califa do Islam.


Jesus, um profeta do Islam

Os muçulmanos acreditam no nascimento milagroso de Jesus (que a paz de Deus esteja com ele), considerando-o um dos maiores mensageiros de Deus para a humanidade. O Alcorão, através de um capítulo (sura) que tem o nome de Maria, confirma o nascimento milagroso de Jesus, sendo sua mãe uma mulher virgem e considerada “a mais pura de toda a Criação”.

0 Alcorão também confirma os milagres que, com a permissão de Deus, Jesus operou durante a sua vida. Os muçulmanos aguardam a segunda vinda de Jesus ao mundo, um sinal do fim dos tempos, mas não consideram que ele seja “filho de Deus”.

Os Pilares do Islam

A religião islâmica tem cinco princípios básicos, os chamados “Pilares da Fé”. São eles:

  1. O Credo (sharada) – trata-se do testemunho individual,  através da palavra,  atos e intenções,  que afirma “a existência de um Deus Único e que Muhammad é Seu Profeta e Mensageiro.
  2. As Orações (salat) – prescritas como obrigatórias para todos os muçulmanos, devem ser realizadas cinco vezes ao dia em períodos bem definidos. Elas inspiram o homem à moralidade, purificam o coração, controlam as tentações, evitam as más ações e mantêm o mal afastado.
  3. O Jejum (saum) – é a abstinência total de alimentos e líquidos; das relações sexuais e de vícios (como o de fumar); dos maus pensamentos e ações erradas desde o nascer até o pôr do sol, durante todo o mês do Ramadan. O jejum instrui e treina o homem para o amor, a sinceridade e a devoção, desenvolvendo a paciência,  eliminando o egoísmo e promovendo a consciência social, a solidariedade e a força de vontade para resistir às dificuldades.
  4. A Contribuição da Purificação (zakat) – é uma contribuição fixa e anual de 2,5% arrecadada sobre o patrimônio ou finanças do muçulmano ou sobre os seus lucros, deduzidas todas as suas despesas, dívidas, impostos etc. O zakat é destinado aos pobres e necessitados e para o bem comum da sociedade em geral. O pagamento do zakat é obrigatório e purifica os ganhos e a riqueza, além de estabelecer um compromisso do muçulmano com a justiça social e o equilíbrio econômico na sociedade.
  5. A Peregrinação a Meca (hajj) – é obrigatória, uma vez na vida, para todo muçulmano com possibilidades financeiras e físicas para realizá-la. A celebração do hajj é realizada, em parte, em memória das provações e atribulações do Profeta Abraão, sua esposa Agar e seu filho primogênito Ismael.

Regime alimentar

O Islam permite aos muçulmanos que comam de tudo que seja bom para a saúde.

Restringe apenas certos gêneros alimentícios, como a carne de porco e seus derivados; o sangue ou carnes putrefatas de animais encontrados mortos e/ou que tenham sido abatidos em rituais politeístas; as bebidas alcoólicas e quaisquer tipos de narcóticos ou drogas.

O lugar de adoração

É recomendado que os muçulmanos orem em congregação. O templo de adoração para os muçulmanos é chamado de “mesquita” (masjid), no entanto, o muçulmano pode orar sozinho ou em grupo em qualquer lugar limpo – em casa, no escritório, no campo etc.

Existem três lugares sagrados, no mundo, para os muçulmanos:

  • a mesquita da Kaaba, em Meca (Arábia)
  • a mesquita do Profeta Muham-mad (saas), em Medina (Arábia)
  • a mesquita Aqsa, em Jerusalém, (Palestina)

O Dia Sagrado

O dia sagrado para os muçulmanos é a sexta-feira (jumah). Neste dia, o profeta Adão foi criado; o profeta Moisés e o seu Povo atravessaram o Mar Vermelho, para ficarem a salvo da perseguição de Faraó e, acredita-se, será em uma sexta-feira o Dia do Julgamento Final.

Os muçulmanos se juntam todas as sextas feiras nas mesquitas, por volta do meio dia, para a celebração da “salat ai jumah”. O imã (dirigente do culto islâmico) faz um sermão (khutba) e dirige a oração em congregação.

AJihad

Essa é a palavra árabe mais manipulada e mau compreendida do vocabulário islâmico. O significado de “jihad” é, tão somente, “esforço na causa e no caminho de Deus”. Qualquer esforço diário pela causa de Deus é considerado “jihad”. Falar de religião para alguém que está desesperado é jihad; ajudar a fazer o bem é jihad; resistir à tentação de fazer algo errado é jihad; ser gentil e atencioso com as pessoas, mesmo com aquelas que se mostram grosseiras, é jihad.

O Profeta Muhammad (saas), explicando o conceito aos seus companheiros alertou que há diversas formas ou níveis de jihad. O mais elevado desses níveis é a jihad interna, o autocontrole dos desejos e paixões para não ultrapassar os limites que Deus traçou para os homens, permanecendo na via do amor e a da submissão ao seu Criador.

Infelizmente, a palavra jihad tem sido desvirtuada ao ser usada e/ou utilizada abusivamente, para fins e interesses de grupos políticos que atuam dentro do Islam. A imprensa ocidental que – por desconhecer ou querer ignorar o sentido correto – emprega-a como a tradução literal de “guerra santa”, o que acaba aumentando os enganos e causando maior confusão na opinião pública.

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8 comments

  1. quais as principais celebrações, como e celebrada e com quais símbolos. Alguém poderia me ajudar

  2. Obrigado, não me sinto bem como cristão procuro saber mais sobre uma religião, até agora a que me mais me agradou foi o islamismo.

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