Posts Tagged ‘ciência’

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Mapa da produção científica mundial

julho 16, 2015

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Esta imagem estranha acima representa a produção científica mundial, ilustrando bem o grau de diferença e desigualdade na geração de conhecimento no planeta. O hemisfério norte está muito adiante da parte sul e isso tem relação com outros parâmetros diferenciadores entre estas duas partes do mundo.

Investimentos são necessários para produção de pesquisas científicas e no sul faltam capitais disponíveis para muitas necessidades elementares e, obviamente, isso afeta o desenvolvimento de ciência, tecnologia e conhecimento de forma geral. Além das dificuldades meramente financeiras, persistem também obstáculos técnicos que são indicados até pela qualidade e acesso à internet, disponibilidade de laboratórios, equipamentos e integração entre pesquisadores.

Esta situação contribui ainda mais para o quadro de desequilíbrios globais.

Os dados que resultaram no mapa são baseados em publicações em revistas científicas de “alto impacto” e excluem outras plataformas de publicação ou registro de produção científica (como volume de teses, monografias, relatórios) e também aferem adequadamente o ambiente das pesquisas sociais (que possuem parâmetros distintos para a constituição de saberes científicos), mas indicam que a necessidade de financiar pesquisas e infra-estrutura científica é um fato concreto.

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Bullying científico: Nomear espécies pode ser uma oportunidade para insultar

março 14, 2015
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O ex-presidente Geoge W. Bush e o besouro nomeado em sua “homenagem”

Que tal estabelecer um nome científico de alguma espécie animal (preferencialmente um bicho asqueroso) para provocar um desafeto? Alguns cientistas já promoveram essa trollagem, embora a Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica busque impedir esse tipo de prática atualmente. Ofensas na nomeação de vegetais também são comuns e as vítimas são, nos dois casos, escolhidas por meio de variadas – e insólitas – justificativas. Os exemplos são fartos – diversos estão aqui.

As provocações científicas começaram já com o criador da nomenclatura binominal e da classificação científica, o renomado sueco Carolus Linnaeus (1707-1778), o próprio “Pai da Taxonomia”. Dizem que Linnaeus (ou Lineu, conforme os lusófonos) achou por bem denominar um gênero de ervas como Buffonia como uma “homenagem” a Georges-Louis Leclerc (1707-1788), o Conde de Buffon, que era seu rival nos estudos taxonômicos – além disso, o nome também se associa à palavra latina bufo, que os romanos empregavam para identificar os saltitantes sapos. Linnaeus realmente gostava de insultar seus desafetos e classificou como Siegesbeckia um gênero de ervas daninhas, fazendo uma alusão clara ao botânico Johann Georg Siegesbeck (1686-1755), que manifestou uma discordância em relação a conclusões de Linnaeus sobre o processo de reprodução de vegetais. Outra vítima de Linnaeus foi o naturalista Daniel Rolander (1725-1793) que fora seu ex-aluno e que se recusou a mostrar ao famoso colega e mestre as espécimes por ele coletadas numa expedição no Suriname. Linnaeus invadiu a casa de Rolander para roubar parte das amostras, mas fez coisa ainda pior: Nomeou um besouro como Aphanus rolandri (“Aphanus” é uma palavra grega que pode ser traduzida como “insignificante”).

O paleontólogo (e também sueco) Olof August Peterson (1865-1932) nomeou uma espécie de porco pré-histórico como Dinohyus holland por irritação com William Jacob Holland (1848-1932), que foi diretor do Museu Carnegie de História Natural. Peterson se incomodava com o hábito de Holland de listar seu próprio nome nos artigos científicos em primeiro lugar mesmo quando tinha participação pouco expressiva nas pesquisas que os originavam, achando então que seria adequada a referência ao colega na nomenclatura de um porco.

A confusão envolvendo suecos não se encerra aí, pois nas décadas de 1920-1930 os paleontólogos Elsa Warburg e Orvar Isberg também estabeleceram nomenclaturas insultuosas entre si. Elsa Warburg nomeou o artrópode primitivo da classe tirilobite como Planifrons isbergia, sendo a a palavra “planisfrons” derivada da expressão sueca “cabeça chata”, que tinha sentido usual como referência à estupidez ou burrice enquanto o termo “isbergia” ere uma alusão ao sobrenome do rival. Orvar Isberg devolveu a gentileza ao nomear o mexilhão pré-histórico Crassa warburgia, sendo a palavra “crassa” empregada para chamar uma pessoa de gorda e o segundo termo uma alusão explícita à cientista “homenageada”.

Em 1884 um embate se estabeleceu entre os ex-amigos e paleontólogos Othniel Charles Marsh e Edward Drinker Cope, levando ambos a um confronto no qual um tentava sabotar o trabalho do outro. Naquele ano Cope nomeou um mamífero pré-históricos como Anisonchus cophater e justificou a nomenclatura da seguinte forma: “não adianta procurar a derivação grega de cophater, porque não é clássico na origem. É derivado da união de duas palavras inglesas, ‘cope’ (o verbo ‘to cope’, que significa ‘lidar’) e ‘hater’ (‘aborrecedor’), que adotei em honra daqueles que me aborrecem e que vivem me cercando“. A justificativa era destinada a provocar Marsh, que foi “vingado” em 1878, quando o paleontólogo Leigh Van Halen resolveu nomear outro mamífero pré-histórico como Oxyacodon marshater, empregando a mesma lógica para equilibrar a briga entre Cope e Marsh.

Engana-se quem acha que este tipo de provocação parou por aí, afinal, há vários outros exemplos de nomenclaturas provocativas e insultuosas.

O ex-presidente norte-americano George W. Bush, seu vice-presidente (Dick Cheney) e seu secretário de defesa (Donald Rumsfeld) acabaram servido para nomeação de besouros. Entomologistas da Universidade de Cornell identificaram e nomearam 65 espécies de besouros de lodo e mofo do gênero Agathidium. Os figurões do poder acabaram servindo para nomear o Agathidium bushi, o Agathidium cheneyi e o Agathidium rumsfeldi – e no conjunto de espécies incluíram também uma espécie que foi nomeada com referência ao vilão cinematográfico Darth Vader. O entomologista Quentin Wheeler jura as citações a Bush, Cheney e Rumsfeld foram mesmo por homenagem e não por provocação.

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A ciência preservada pelos islâmicos na Idade Média

novembro 8, 2014

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Durante a Idade Média da Europa Ocidental muitos dos registros e conhecimentos científicos clássicos eram condenados em decorrência da postura da Igreja Católica, que renegava determinadas informações por conta de um julgamento fundamentalista a respeito do funcionamento de coisas e situações que já foram objetos dos estudos científicos. Por outro lado, os islâmicos passaram a tomar contato com o legado da produção científica clássica e resolveram preservar registros que eram destruídos na Europa. Mas os islâmicos não se interessaram apenas pela produção dos estudiosos europeus e também passaram a traduzir, reproduzir teses, teorias e métodos elaborados em diversas regiões também no Oriente. Obras em grego, em latim e em sânscrito versando sobre os mais variados temas das ciências eram traduzidas para o árabe e assimiladas por um novo público especializado ávido pelo imenso sortimento de conhecimento obtido por meio desse processo de busca, preservação e tradução de textos científicos. Enquanto o racionalismo perdia espaço na Europa, os islâmicos passaram a assimilar os trabalhos de expoentes como Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes, Euclides, Ptolomeu e diversos outros pensadores. Um rico acervo de obras aprimorou e enriqueceu a produção islâmica nos campos da matemática, da física, da engenharia, da medicina e de variados campos dos saberes humanos. Também foi notável o avanço tecnológico dos povos árabes em relação a muito do que ocorria na própria Europa que fora origem de muitas dessas bases científicas.

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Detalhe de influente tratado sobre a construção e utilização de astrolábios feito por Abu al-Rayhan Mohammad ibn Ahmad al-Biruni (973-1048), que contém 122 diagramas.

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A tradução de Almagesto, tratado matemático e astronômico de Ptolomeu.

Muitas obras em árabe reproduziram ou avançaram estudos de cientistas clássicos, a exemplo da obra O livro de conhecimento de dispositivos mecânicos engenhosos (de 1206), que traz esquemas de inúmeros inventos inspirados em ideias de Arquimedes. Também é interessante a tradução preservadora feita em 1334 da obra De Materia Medica, do romano Pedanius Dioscorides, que no século I realizou um importante inventário técnico sobre plantas medicinais.

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Versão árabe da obra De Materia Medica.

Obras como essas e diversos outros manuscritos em árabe estão acessíveis no site da Biblioteca Digital do Qatar.

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Trotula de Salerno – a primeira médica

agosto 3, 2013

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No século XI, em Salerno (Itália), havia aquilo que poderia ser chamada de verdadeira escola de medicina (precursora de uma faculdade tal qual entendemos hoje) e costuma-se dizer que era a primeira instituição desse tipo no mundo. Havia hospital-escola, consultórios com médicos renomados que atraiam pacientes de lugares distantes e uma importante produção de pesquisas e tratados sobre medicina e procedimentos. Era um universo dominantemente masculino, mas entre os profissionais teria existido a médica Trotula, que também costumava escrever tratados destinados a instruir outros médicos quanto aos métodos de tratamento e atendimento às mulheres num tempo no qual tabus religiosos, morais e legais impediam que os médicos estudassem adequadamente os problemas ginecológicos.

 São atribuídos a Trotula a autoria de pelo menos dois importantes livros a respeito da saúde feminina. Um deles aborda técnicas e procedimentos ginecológicos e obstétricos, além de apresentar uma tese incômoda na época: A ideia de que, por vezes, os homens eram a causa biológica dos problemas de concepção ao invés de apenas as mulheres. Seu segundo livro abordava procedimentos estéticos para preservar ou aprimorar a beleza feminina, incluindo tratamentos para pele e cabelos. Eram conhecimentos bem fundamentados que não eram objeto de grande interesse ou mesmo que eram “impedidos” aos médicos homens.

 No século XVI começou uma verdadeira campanha contra Trotula, que passou a ter a própria existência questionada. Seus críticos (que incluíam médicos e historiadores) argumentavam que uma mulher não estudaria e muito menos ensinaria medicina em seu tempo, surgindo então a suspeita de que, na verdade, um homem usou um pseudônimo feminino para publicar os livros, evitando com essa artimanha enfrentar problemas com as leis e com a Igreja. Havia ainda quem afirmasse que era pouco provável que uma mulher fosse mesmo capaz de produzir aqueles livros tão profundos e repletos de informações com altos rigores de embasamentos científicos.

 Hoje poucos historiadores duvidam da existência de Trotula e até deduzem que pode ter se tratado de uma mulher de origens sociais abastadas, que teve acesso privilegiado a um universo intelectual masculino e elitizado.