Os círculos da alta sociedade europeias dos séculos XVII e XVIII não eram apenas frequentados por aristocratas pomposos, pois os ambientes elitistas atraíam variadas figuras oportunistas em busca de posições vantajosas e fortuna. Entre os indivíduos que buscavam chances de obter ascensão social e ganhos pessoais, muitos recorreram aos mais apelativos atrativos para conquistar atenção, favores e tirar vantagem dos ricaços sedentos por distração e excentricidades, mas passíveis de cair nos mais mirabolantes golpes arquitetados pelos espertalhões. Uma das mais promissoras iscas para os golpes era a exploração dos saberes e práticas sobrenaturais, pois a ausência de meios de validação facilitava a criatividade dos farsantes que precisavam elaborar contextos e narrativas convincentes para garantir a atenção de suas vítimas afortunadas.
Um dos mais enigmáticos charlatões que tiraram proveito da exploração dos interesses pelo oculto nos salões da aristocracia foi o Conde de Saint Germain. A eficiência do alegado nobre foi tamanha que sua verdadeira identidade ou procedência nunca foram determinadas. Suposições sobre o tal conde foram levantadas, incluindo uma história sem comprovação de que ele nasceu na última década do século XVII no Castelo de Sárospatak, no nordeste da Hungria, sendo filho do príncipe exilado Ferenc Rákóczi II. A confusão sobre sua origem era enriquecida por boatos de que ele era ibérico, pois era fluente falante dos idiomas português e espanhol. O próprio Saint Germain ajudava a confundir as pessoas, pois não declarava nada sobre sua origem e sobre seu nome de batismo. Seu status de nobreza também era objeto de debate, pois os registros das linhagens nobres não incluíam referências a respeito de sua identificação, mas isso não impediu sua aceitação e ele conseguiu convencer que era um legítimo membro da nobiliarquia
Sua aparição nos ambientes da nobreza foi inicialmente registrada em 1742, época que o galante misterioso dizia que veio da corte do Xá da Pérsia e exibia conhecimentos sobre a arte da joalheria, dizendo dominar a técnica de fundir diamante para formar uma pedra grande e valiosa. Era eloquente e demonstrava ser conhecedor de história, ciência e dotado da capacidade de falar variados idiomas asiáticos, além de latim e greco antigo. Era um virtuoso violinista e tocava músicas de sua própria autoria nas apresentações que realizava para seletos espectadores.
Todos esses atributos e uma personalidade cativante e charmosa permitiram ao Conde de Saint Germain transitar livremente nos ambientes requintados, convivendo com nobres e figuras da realeza como Luís XV, rei da França. Ele aparentava ter uma fortuna pessoal considerável, embora ninguém soubesse a procedência, mas vivia claramente dos favores das pessoas que se envolviam em suas narrativas e tramas. Apesar de não se saber qual era seu endereço verdadeiro, o homem estava sempre sob o teto que algumas pessoas ricas e poderosas vivendo confortavelmente como um hóspede de honra. Ele também conseguiu obter dinheiro através de patrocínios e prestando serviços oficiais, como nas missões que recebeu do rei francês para atuar como espião e em viagens diplomáticas, o que ampliou sua experiência internacional e garantiu sua presença em diversas cortes na Europa, se envolvendo nos bastidores de acontecimentos como a coroação de Catarina, a Grande, além de proporcionar um estilo de vida requintado com suas despesas garantidas pela hospitalidade alheia.
Saint Germain era uma pessoa cheia de surpresas. Ele alegava possuir conhecimentos avançados de alquimia e dons misteriosos. Mesmo não tendo feito demonstrações práticas, ele afirmava conseguir fazer experimentos notáveis como transformações de metais ordinários em ouro, criação de pérolas através de manipulação de ingredientes secretos e fusão de pedras preciosas. Ele estava associado a sociedades como Rosacruz, Marçonaria e os Illuminati e completava a aura de mistério em torno de sua personalidade através de hábitos curiosos como uso de joias chamativas e a peculiaridade de nunca permitir ser visto enquanto se alimentava, gerando curiosidade sobre sua dieta. A maior de todas as estranhezas era a afirmação que ele desenvolveu e consumiu um poderoso elixir de longevidade.
Em seus últimos anos vividos ele estava morando no castelo de Eckernförde, na Alemanha, onde tinha um laboratório para o trabalho de alquimista e vivia como hóspede do Landgrave de Hesse-Cassel. Embora declarado morto em 1784, Saint Germain continuou sendo uma figura discutida através de relatos de que ele foi visto normalmente em alguns lugares e até participou da Revolução Francesa. A história sobre sua longevidade ou imortalidade virou assunto popular, ressaltada até por personalidades como Voltaire e Casanova, que conheceu e não levou a sério o alegado imortal.
Referências:


[…] O misterioso Conde de Saint Germain […]