Os Haréns Otomanos

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Um harém pode ser considerado de maneira imediata como um espaço privado nas sociedades poligâmicas destinado ao convívio e confinamento de mulheres vinculadas a indivíduos poderosos. Seja no Egito Faraônico, no Império Persa, em reinos africanos, na China Imperial, no Império Mongol e no Mundo Islâmico, a tradição dos haréns é um marco do patriarcado, representando a centralização do poder masculino e ainda uma expressão da distinção social, prestígio e riqueza. Além disso, os haréns também estavam associados às políticas de alianças, pois casamentos faziam parte da complexa relação estratégicas entre lideranças regionais.

Entre os otomanos os haréns formados pelos chefes da nobreza se destacaram pela diversidade de sua composição e pelas relações de poder presentes nestes ambientes. Eram espaços hierarquizados, com a figura da Valide Sultan (Sultana Mãe) em seu topo, exercendo forte autoridade que ia muito além dos haréns e podia ter presença marcante na própria condução política do império. Durante o “Sultanato das Mulheres” (entre 1533 e 1656), o poder de lideranças marcantes como as “sultanas” Roxelana, Nurbanu, Kösem e Turhan foi destacado e decisivo, ressaltando a posição das principais figuras femininas da sociedade otomana. A Haseki Sultan (Esposa Principal) ocupava um papel definidor, sendo mãe dos futuros sultões e eventualmente podendo ascender à atribuição de Valide Sultan. As Concubinas (Cariye) eram as esposas secundárias que gozavam de certos privilégios porque também eram mães de descendentes dos soberanos e entre esta categoria existia uma gradação, sendo menos prestigiadas aquelas que não geraram filhos e que já atingiram uma faixa etária mais avançada. As Odaliscas (Odalık) eram geralmente escravas submissas às demais mulheres da escala de poder no harém, mas era possível evoluir na hierarquia se chamassem a atenção dos sultões e algumas delas tiveram ascensões surpreendentes, conseguindo atingir a posição de Valide Sultan.

O cotidiano dos haréns se passava nos ambientes apropriados, conhecidos como “odas”, onde as mulheres conviviam e cumpriam suas rotinas e obrigações conforme suas atribuições e posições. Existiam regras rígidas que objetivavam proteger as mulheres das influências externas e a Valide Sultan administrava o dia a dia aplicando disciplina, fazendo exigências e orientando as demais integrantes do harém. Além de contar com suas próprias assistentes, a líder do harém dispunha dos eunucos para controlar a integridade e supervisão dos afazeres e contatos das mulheres, assegurando a restrição diante dos riscos do mundo exterior, principalmente impedindo que outros homens pudessem interagir com elas.

As origens das mulheres dos haréns otomanos eram variadas. Filhas de nobres eram frequentemente destinadas aos ambientes das mulheres dos sultões através da oferta de casamentos em troca de proteção e favores, por meio de acordos de casamentos que previam lealdade e submissão de regiões aliadas ou integrantes do império. Existiam também processos seletivos para a escolha de mulheres, o que ampliava a possibilidade de composição dos haréns com o ingresso de jovens que espontaneamente se ofereciam como candidatas e eram escolhidas por recrutadores especializados através de todo território imperial. Critérios como beleza, talentos artísticos, devoção religiosa e habilidades domésticas eram considerados para a seleção. As escravas eram obtidas através de guerra e captura realizada por traficantes, que iam em busca de presas na Europa e na África. Estas mulheres ingressavam nos haréns como odaliscas e precisavam aprender o idioma, os costumes e se converter para que pudessem se adaptar à nova vida distante de suas regiões natais.

A previsão do Alcorão de que um homem pode ter até quatro esposas, desde que seja capaz de manter e tratar com justiça e equidade. Esta noção era flexibilizada para os ricos por possuírem condições de sustentar uma quantidade elevada de mulheres como esposas e concubinas, o que favoreceu o estabelecimento de haréns como do sultão Mehmet IV, o Caçador (1640-1686), reconhecido por manter centenas de mulheres em seus domínios íntimos e pessoais. Com o passar do tempo e através de mudanças sociais, a tradição começou a decair e os haréns deixaram de ser ambientes significativos. O esforço de ocidentalização implementado no decorrer do século XIX e a abolição da escravidão ajudaram a desmantelar a prática de manter haréns entre os otomanos.

Entre os ocidentais os haréns otomanos eram vistos através de perspectivas morais que consideravam a prática pecaminosa e primitiva, embora também observados através de uma ótica exagerada e idealizada por viajantes, que criaram suas interpretações frequentemente erotizadas das odaliscas como figuras exóticas sedutoras.


Referências: