Joseph Bologne, um negro na nobreza, na música clássica e na Revolução Francesa

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Joseph Bologne foi um renovado músico, esgrimista, dignitário do título Chevalier de Saint-George e comandante de regimento durante a Revolução Francesa nascido em 1745 na colônia de Guadalupe, nas chamadas Pequenas Antilhas, no Caribe. Ele foi fruto do relacionamento entre o nobre Georges de Bologne Saint-Georges e de sua escrava senegalesa conhecida como Anne Nanon. Por esta condição, Joseph já nasceu escravo conforme o Code Noir, legislação que definia os parâmetros da escravidão nas regiões coloniais francesas.

Joseph foi para a Europa ainda menino, quando Georges decidiu voltar para sua terra natal levando consigo a Anne e seu filho, que deixaram de ser escravos segundo a lei. Na França, ele teve acesso a uma instrução acadêmica refinada, treinamento avançado em esgrima, equitação e música, revelando exímias habilidades em tudo o que aprendia. Ainda jovem, iniciou suas atividades como esgrimista profissional paralelamente à carreira de músico, sendo um compositor sofisticado e instrumentista virtuoso, principalmente no violino e no cravo.

Apesar de ter sido preparado como um legítimo membro da elite e de possuir notáveis talentos, Joseph logo se deparou com aspectos associados aos preconceitos e discriminações em função de sua origem e cor, pois se tratava de um mestiço de pele escura. Mesmo frequentando ambientes da alta sociedade e obtendo reconhecimento de pessoas influentes, situações desagradáveis e comentários maldosos também faziam parte de sua rotina. Num episódio mais notório, ele foi recusado para a posição de diretor da prestigiada Ópera de Paris porque integrantes do corpo artístico se recusaram a ser comandados por um negro.

A persistência de Bologne diante dos obstáculos também marcou sua trajetória e ele obteve destaque como violinista e regente da aclamada orquestra Le Concert des Amateurs, realizando apresentações memoráveis que contavam com suas próprias composições. Exibições na corte também eram comuns e uma admiradora de seu trabalho era a rainha Maria Antonieta. O artista era ainda um verdadeiro agitador cultural, realizando eventos musicais em Paris que reuniam grandes públicos. O músico foi um dos pioneiros na composição de obras para quartetos de cordas na França, difundindo este gênero no país.

Sua carreira musical e prestígio no mundo artístico transcorria bem até diante dos problemas proporcionados pelo racismo, mas a Revolução Francesa inevitavelmente deu um novo rumo à sua vida. Frequentador dos círculos intelectualizados, Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George, tinha suas simpatias pelos ideais iluministas e acreditava na promoção de mudanças capazes de promover igualdade e direitos civis. Assim, mesmo sendo figura que tinha seus contatos e vínculos com a nobreza, aderiu à causa revolucionária e resolveu participar ativamente do movimento. Ele assumiu o comando de um regimento inteiramente composto por homens negros e mestiços, que passou a ser conhecido como Legião de Saint-George. A unidade que treinou e comandou atuou em campanhas como força participante da luta contra as forças que pretendiam sufocar a revolução. Egresso da Académie Royale Polytechnique des Armes et de l’Équitation, instituição que fez parte da formação de muitas lideranças militares da França, Joseph Bologne tinha boas bases para exercer atribuições de comando, era conhecedor de táticas e um habilidoso combatente.

O cenário da França durante o processo revolucionário ficou muito conturbado mesmo após a queda da monarquia. Quando sua participação e luta na revolução foi concluída, Bologne tentou retomar sua carreira musical em circunstâncias muito diferentes do período anterior, mas acabou adoecendo e morreu em 1799, aos 53 anos de idade. 


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