Maria Perpétua – A bruxa da Ilha de São Sebastião

Por Caroline Dias, historiadora e pesquisadora que tem se dedicado aos estudos da história colonial do litoral paulista, sobretudo estudando as mulheres daquela época.

Esta não é uma história de ficção, muito menos uma lenda urbana, apenas uma pequena biografia sobre uma senhora de engenho acusada de bruxaria no tempo do Brasil colônia.

Retrato original de Maria Perpétua Calafate de Souza 1813
Retrato original de Maria Perpétua Calafate de Souza (1813)

Maria Perpétua nasceu em Portugal, em 1790. Casou-se muito jovem, com o escrivão João Rodrigues da Siqueira, que veio a falecer cedo, deixando-a viúva. Com a morte do primeiro marido, mudou-se para o Brasil e casou-se novamente, desta vez com o Sr. Antônio José Lisboa de Souza, um oficial militar aposentado, com quem teve um filho.

Então, ela foi morar na Ilha de São Sebastião, litoral norte do estado de São Paulo. Durante sua permanência na ilha, começou a se envolver com o ocultismo e conseguiu acumular uma considerável fortuna realizando adivinhações e vendendo poções mágicas para o amor.

Sua fama como feiticeira aumentava cada vez mais, e muitas eram as histórias sobre seus poderes. E isso atraiu forasteiros de todas as partes que iam até a Ilha de São Sebastião em busca de suas previsões.

Incomodados com a situação, os habitantes da ilha, ameaçaram enviar cartas a Portugal, pedindo a prisão e o degredo de Maria Perpétua. Até que em 1812 ela foi formalmente denunciada como bruxa. Entre os denunciantes, estava o capitão Domingos, o comerciante de escravos mais importante da região.

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Página do processo por bruxaria contra Maria Perpétua aberto pelo capitão -mor Julião de Moura Negrão em 1812

Segundo relatos da época, Maria Perpétua teve um desentendimento com Joana, uma das escravas do capitão Domingos, e jurou vingar-se. Coincidentemente, alguns dias depois, Joana adoeceu e, em seguida, veio a falecer. O capitão Domingos, junto com outros moradores, deu queixa ao padre do vilarejo acusando Maria Perpétua de ter feito um feitiço para matar a escrava. O caso foi levado ao conhecimento do governador da capitania de São Paulo e a casa dela foi investigada pelas autoridades. Além de uma orelha humana seca, foi encontrado um livro com dezenas de anotações de mandingas, simpatias e feitiços, dos mais esquisitos que se possam imaginar. Por essa razão, foi presa e levada para a cadeia de São Vicente. Mas, devido sua grande influência na região, ela foi liberada logo em seguida. Tempos depois, Maria Perpétua foi denunciada por envenenamento e por vários outros casos envolvendo bruxaria.

Em 22 de outubro de 1817, durante uma briga com o marido, Maria Perpétua levou uma facada e acabou morrendo por hemorragia. Curiosamente, cinco anos depois de sua morte, o processo contra ela foi reaberto a mando do capitão-mor da Ilha de São Sebastião.

Maria Perpétua ficou conhecida pelos moradores da ilha como “feiticeira”, nome que foi dado a uma das praias de Ilhabela. Ainda hoje, 200 anos depois de sua morte, ela continua assombrando o imaginário dos habitantes da Ilha de São Sebastião.

 

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