Um patrimônio nacional ameaçado

Nosso patrimônio histórico é frequentemente vítima de uma variada e irresponsável falta de cuidado por parte de cidadãos que não respeitam seus bens históricos e também por parte do Poder Público, que muitas vezes trata com descaso o legado de nossa história. Certos projetos e intervenções urbanas reforçam o desleixo quando seus efeitos não são avaliados cuidadosamente. É o caso do problema abordado neste alerta feito por Olav A. Schrader sobre uma ameaça que pode descaracterizar a Quinta da Boa Vista.

Por Olav A. Schrader

Alguém poderia imaginar uma rodoviária interestadual ser construída, com direito a viadutos para milhares de ônibus, ao lado dos jardins da antiga corte do Louvre, só porque este tem uma boa posição central na cidade de Paris?

Pois é exatamente isto, no nosso equivalente do Rio de Janeiro, que o governo deseja fazer. Sem qualquer divulgação de estudos de impacto, sem debate público.

A notícia da construção de uma rodoviária interestadual às margens da Quinta da Boa Vista, no Bairro Imperial de São Cristóvão, é simplesmente constrangedora.

A Quinta da Boa Vista, rodeada por dos um raros grandes espaços verdes hoje existentes na Zona Norte da cidade, é um espécie de valiosíssimo “ponto zero” simbólico da formação do Brasil.

Quinta-da-Boa-Vista

E é um lugar de relevância para a humanidade também, pois foi o único caso na história de uma corte europeia a reinar de fora da Europa. Desde São Cristóvão governou-se vastos territórios em África, Ásia, enfim, um contexto plurinacional, intercontinental, gerido através de uma perspectiva única, já imbuída de brasilidade nascente.

Afogar o Bairro Imperial com uma tsunami de trânsito pesado interestadual que este não é absolutamente capaz de absorver, não é apenas uma decisão administrativa e logística muito questionável. É também um crime que fere de morte um patrimônio que deveria ser protegido, restaurado, expandido (como prometido diversas vezes no passado) e transformado em atração turística, como ocorre nas cidades “civilizadas” do mundo.

O Rio de Janeiro já perdeu patrimônio de inestimável valor por causa do tirânico poder rodoviarista, considerado no mundo desenvolvido como uma opção obsoleta e insustentável de mobilidade.

O bairro do Rio Comprido, por exemplo, outrora um dos mais nobres da cidade, foi degradado irremediavelmente e teve seu tesouro arquitetônico perdido ao ser transformado em via expressa e cortado sob as sombras de um viaduto.

Não faltam exemplos da nefasta sina que está por vir nem mesmo no Bairro Imperial de São Cristóvão: a Rua Bela, que, como o nome insinua, tinha uma das maiores concentrações de beleza arquitetônica da época da colônia e do império, foi também transformada em lixo urbano especialmente depois de ser coberta por um viaduto e afogada por trânsito pesado.

Quanto ao inestimável patrimônio que o Rio de Janeiro já perdeu por causa do afogamento rodoviarista, não há o que fazer. Não se pode imaginar turistas, revitalização, lazer, e uma ambiência atraente dotada de um comércio de charme sob viadutos e milhares de ônibus fumegantes.

Mas o que se pode fazer é agir rapidamente para salvar o muito que ainda pode ser resgatado e protegido da Quinta da Boa Vista e do Bairro Imperial de São Cristóvão, e reorientá-lo pela via virtuosa que a maioria das cidades “civilizadas” com patrimônio histórico equivalente já fez com muito êxito, inclusive econômico.

Depois de construída a nova rodoviária interestadual e seus viadutos o que nos restará? Talvez tenhamos que cruzar o oceano para tentar imaginar o que nós teremos jogado no lixo por aqui.

Haverá talvez um consolo distante ao ver que, por exemplo, ao longo das muralhas da antiga corte no Castelo de São Jorge, em Lisboa, não há um grande viaduto despejando ônibus em um mega terminal.

Teremos que viajar para longe para ver como a quintessência de uma cidade não precisou ser irremediavelmente degradada por causa de uma suposta posição conveniente para ônibus interestaduais.

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