As 16 datas que mudaram o mundo: 5- A TOMADA DE CONSTANTINOPLA PELOS TURCOS

Pierre Miquel (1930-2007)
Por Pierre Miquel (1930-2007) - Historiador francês

O antes de 1453 é a sobrevivência de um Estado cristão incrustado no Oriente. O Império de Bizâncio é uma espécie de exceção cristã em um mundo muçulmano.

O depois de 1453 é a ameaça permanente do avanço muçulmano no Mediterrâneo e na Europa danubiana. É a instalação do Islã turco, senhor de um imenso império, que se estende do Oriente Próximo até a Europa. O Mediterrâneo se fecha. A rota das riquezas do Oriente é vetada para o Ocidente cristão. É necessário procurar em outro lugar, em direção ao oeste, as vias de desenvolvimento para uma Europa nascente.


*****

Antes do ano 1453

É acima de tudo a decadência contínua do Império de Bizâncio, para quem foram dirigidos, pelos cristãos do Ocidente, os golpes mais severos.

Desde a morte de Teodósio, em 395, a unidade do mundo romano havia sobrevivido. Ela nunca mais seria verdadeiramente reconstituída, mesmo sob Justiniano no século VII. O imperador era constantemente alvo da rivalidade dos persas sassânidas, senhores das planícies do Ira, e das incursões das tribos eslavas, novos bárbaros. Heráclio e seus descendentes não conseguiram conter, entre 632 e 646, o avanço vitorioso dos árabes. Constantinopla salvara-se pela força de seus defensores e pelas sólidas muralhas construídas por Constantino, mas a Síria, a Palestina, a Mesopotâmia, a Armênia e o Egito estavam perdidos.

O império tornado bizantino dilacerou-se, de 717 a 867, em lutas religiosas e conteve com grande esforço as agressões de outros povos. Os búlgaros que haviam constituído um poderoso reino, na Trácia, aliaram-se a Leão III, fundador da dinastia isauriana, para expulsar os árabes para fora da Ásia Menor. A imperatriz Irene (780-802) havia mantido o combate, mas logo os búlgaros, mesmo cristianizados, colocaram-se como rivais do Império, procurando dominá-lo, enquanto que os muçulmanos atacavam pelo mar as ilhas gregas, pilhando os portos e se apoderando da Sicília e de Creta. Um novo perigo, o dos varegues, estes fundadores vindos do norte, da região de Kiev, na Rússia, ameaçava Bizâncio.

Felizmente para Bizâncio, um general macedônio, Basílio, havia tomado o trono, muito instável, em 867. Essa dinastia macedônica devia, até 1057, levantar o império e lhe devolver sua força militar. Miguel, arménio de origem e estabelecido na Macedônia, aproveita a decadência dos califas abácidas para iniciar a reconquista do Oriente Próximo. Logo os imperiais dominarão novamente a Armênia, a Síria, a Cilicia, a Mesopotâmia (Iraque hoje em dia). Miguel é poderoso o suficiente para intervir na Itália do sul, retomar Tarento e a Calábria. Basílio II, o Bulgaroctone (“o matador de búlgaros”), esmaga os búlgaros e os domina. Os varegues são batizados a partir de 988, e os príncipes de Kiev tornam-se amigos do imperador.

O império conheceu então belos dias, e a ruptura definitiva das Igrejas do Ocidente e do Oriente em 1054 reforçava ainda mais os poderes do basileus, senhor de um Estado rico e centralizado. Mas, em 1057, quando Isaac Comneno, aristocrata e soldado, tomou o poder para fundar uma nova dinastia, o império era novamente ameaçado pela escalada do feudalismo, pela revolta dos búlgaros, e em breve pela dos sérvios, pelas invasões dos normandos na Sicília e na Itália do sul e pela ameaça dos turcos seljúcidas no Oriente.

Os imperadores das dinastias Comneno e Anjos, de 1057 a 1204, não conseguiram reencontrar o poder perdido dos basileus macedônicos. Os turcos seljúcidas invadiram a Ásia Menor, e os normandos, a Itália.

Aléxis I iniciava com satisfação a reconquista de seu império quando a primeira cruzada, em 1097, mudou tudo. O imperador tentou impor sua suserania aos cruzados, porém não pôde fazer outra coisa a não ser deixá-los passar, mas não os ajudou de forma alguma. Ele aproveitou a passagem deles pelo Oriente, onde se ocupavam dos turcos, para restabelecer a ordem imperial nos Bálcãs, submetendo os sérvios e os húngaros. Ocupou-se ainda em reduzir as pretensões de independência dos armênios refugiados na Cilicia. Em 1176, os seljúcidas investiram contra o Império e retomaram a Ásia Menor.

Quando a família Anjos de 1185 a 1204 ocupou o trono, ela não pôde evitar as rebeliões dos sérvios e dos búlgaros encorajados pelo papa e pelos imperadores alemães. Os comerciantes venezianos, massacrados em Bizâncio em 1082 pela população xenófoba e latinófoba, resolveram utilizar a quarta cruzada para tomar Bizâncio em 1203 e em 1204. A cidade foi saqueada durante três dias. O império bizantino não existia mais. Os cruzados se atribuíam principados e reinos no Oriente. Eles haviam mesmo entronizado um imperador latino em Constantinopla, Baudoim de Flandres.

O trono dos basileus, após intermináveis lutas entre os gregos, foi reconquistado em 1261 por Miguel Paleólogo, que fundou, fazendo-se coroar na Santa Sofia, em 1261, a última dinastia dos imperadores bizantinos.

Dessa forma a rivalidade entre os cristãos do Ocidente e do Oriente havia sido a principal causa do enfraquecimento do império. Ele estava reduzido à Trácia, ao noroeste da Ásia Menor, a uma parte da Macedônia, ao Epiro e ao Peloponeso. O grande comércio estava arruinado, as finanças, desorganizadas, o exército, mal pago.

O desafio dos imperadores era garantir as alianças no Ocidente. Na Europa, nos Bálcãs, a escalada do poder sérvio e a constituição de um poderoso império sérvio-macedônico os ameaçavam diretamente. Mas o povo de Bizâncio e os notáveis não queriam ouvir falar de uma aliança com os latinos.

A ameaça decisiva, que devia provocar diretamente a queda do império, foi o aumento do poder de uma tribo dos turcos seljúcidas, os otomanos, guerreira e conquistadora.

Em 1326 eles instalaram sua capital em Bursa, a oeste da Ásia Menor. Apoderaram-se em seguida de Nicéia, atravessaram o Bósforo, tomaram Galípoli, na Europa. Adrinopla torna-se a capital em 1365. Em 1389, em Kosovo, eles destruíam o Estado sérvio. Um exército de cruzados amotinados pelos húngaros era esmagado em Nikopol. Os turcos tinham aberto a rota terrestre do Danúbio; eles ameaçavam o conjunto dos Bálcãs.

Era necessário algo mais para sensibilizar o Ocidente? Os basileus empreenderam viagens para convencer os cristãos a ajudá-los. Manuel II, basileus de 1391 a 1425, não foi apoiado. Ele não conseguiu impedir que o sultão Murad II aparecesse sob os muros de Bizâncio e que se apoderasse da cidade grega de Tessalônica. João VIII (1425-1448) foi por sua vez à Europa implorar ajuda contra os otomanos. Ele concordou com a reunião das Igrejas, concessão suprema que provocou a revolta do povo de Bizâncio. Um pequeno exército de cruzados que partiu em sua ajuda foi esmagado pelos turcos em Varna. O Ocidente, o papa e os reis não haviam avaliado a importância da ameaça otomana; eles só viam vantagens no desaparecimento do império rival do Oriente. Nada fizeram para evitar sua morte.

Em 29 de maio de 1453, o sultão Maomé II conquistava Bizâncio onde o último imperador, Constantino XI, devia encontrar uma morte heróica em suas muralhas.

Depois do ano 1453 

A ameaça otomana e a guerra permanente nas margens do Mediterrâneo. Os turcos vingam-se dos cruzados. Em 1463, os minaretes elevam-se no céu da Bósnia, a Albânia conquistada logo fornece jovens janízaros ao exército do sultão. Os entrepostos da Criméia, espaços de um crescente comércio com a Rússia, são retirados dos genoveses, e o Estado grego de Trebizonda, às margens do mar Negro do lado da Armênia, é anexado. Os muçulmanos constroem lugares de culto na cidade italiana de Otrante. O mar Egeu torna-se muçulmano. A Moréia dos gregos adora Alá. Os venezianos são derrotados no mar, nada parece resistir ao sultão Bayazid, a não ser o corajoso rei da Hungria Mathias Corvin.

O papa forma, em vão, uma santa liga com contingentes dos Estados católicos. Veneza, Espanha e França concordam em socorrer a pequena Hungria, sem conseguir deter minimamente o avanço otomano. Em menos de dez anos, Salim I, de 1512 a 1520, anexa a Síria, tira o Egito dos mamelucos, se apossa do título de califa, começa uma luta contra os persas, que são vencidos em 1534. Os otomanos reinam como senhores absolutos em Bagdá, no Iraque.

A Sublime Porta está no auge do poder durante o reino de Solimão, o Magnífico, de 1523 a 1566. O grande Turco, senhor de Belgrado, domina os sérvios e ameaça se apoderar de toda a Hungria. Ele sitia Viena em 1529, enquanto sua frota toma Rodes dos venezianos, ocupando todos os seus postos de comércio. Os corsários do sultão, sendo Khair ed Din-Barberousse o mais famoso, se apossam dos portos argelinos da costa.

Desafiadas no Mediterrâneo ocidental, as potências católicas dividem-se. Pelo ódio aos imperiais e para lutar contra o poder conquistador de Carlos V, o rei da França, Francisco I, assina um acordo com o grande Turco, uma aliança que não será jamais questionada. As Capitulações oferecem aos franceses um tratamento privilegiado no Oriente. Os turcos têm as mãos livres para combater Veneza, e os austro-espanhóis.

O imenso império otomano se organiza. A Anatólia, a Armênia, uma parte da Geórgia e do Azerbaijão, o Curdistão, o Iraque, a Síria e o Hedjaz com a cidade santa de Meca, o Egito e os Estados berberes de Trípoli, Túnis e Argel, grandes fornecedores de escravos cristãos capturados no mar ou nas costas, tudo pertence ao sultão nas costas do Mediterrâneo.

A defesa de Constantinopla vencida, nada mais impedia os turcos de se espalharem pela Europa: eles conquistaram a Criméia em direção ao norte, e em direção ao oeste toda a península balcânica, compreendendo a Sérvia e uma grande parte da Hungria. Eles subiram o Danúbio do mar Negro até Viena, colocando em toda parte, bem no coração das cidades, os minaretes e pagando tributos ao grande Turco.

A esquadra otomana controla os portos e o tráfico, tornando esporádico o comércio dos países católicos. A administração garante a cobrança do tributo que permite manter um exército de 200.000 janízaros e uma importante esquadra de guerra. Tolerantes, os turcos deixam no lugar as voivodas de Valáquia e os khás da Criméia, e até mesmo os reis da Hungria. Eles não ameaçam as religiões, deixam os gregos, os armênios ou os sérvios adorarem seus deuses, exigindo somente a submissão. O regime dos sultões começa a cair nas mãos dos janízaros, que arbitram pela violência e pela corrupção as lutas de sucessão.

Bem ou mal os turcos enfrentaram a reação cristã. Don Juan da Áustria reconquista Túnis, e a frota hispano-veneziana derrota a frota turca em Lepanto no ano de 1571. Essa imensa vitória moral do Ocidente provoca somente um lento refluxo dos otomanos. Em Bizâncio, agora Istambul, capital do império, cintilante de mesquitas, uma nova dinastia de grandes vizires, os Köprülü, toma Creta dos cretenses, a Podólia, dos poloneses, e sitiam Viena em 1683. Se não fosse o rei polonês Jean Sobieski, o Crescente tomava a capital dos Habsburgos.

É preciso esperar o fim do século XVII para que a resposta dos imperiais e os ataques dos russos façam recuar o grande Turco. Se os austríacos conseguem finalmente reconquistar a Hungria, eles não avançam nos Bálcãs onde os exércitos do Príncipe Eugênio tinham, no entanto, várias vezes vencido os turcos. A czarina Catarina II conquista a Criméia e funda o grande porto de Sebastopol. A Rússia tornava-se a protetora da religião ortodoxa no Oriente e se reservava o direito de intervir a qualquer momento contra os turcos, reivindicando os braços de mar. Ela ameaçava transformar-se em uma força de primeira grandeza no Mediterrâneo.

Dessa forma o império de Istambul havia conseguido minar o poderio dos austro-espanhóis; instalar a França no Oriente como uma potência amiga e protetora dos católicos; tolerar não só a escalada da Rússia no mar Negro, mas também sua posição de protetora dos eslavos nos Bálcãs, dos ortodoxos do Oriente e de todos os futuros movimentos de independência para quem ela seria um guia e um apoio. Contra o império otomano surgiria o sentimento nacional nas populações da Europa balcânica e do Oriente Próximo.

A queda do império bizantino e a longa dominação belicosa dos otomanos desviaram o tráfego do Mediterrâneo, enriquecendo os Estados atlânticos, que descobriram e, sobretudo, exploraram o continente americano, a Inglaterra, a Holanda e a França, mais do que a Espanha e Portugal.

 

Pequena Cronologia

 

Constantinopla

  • 395: Morte do imperador Teodósio: divisão do império romano em império romano do Ocidente com Honório e império romano do Oriente com Arcádio, cuja capital é Constantinopla. É o verdadeiro começo da divisão.
  • 476: Fim do império romano do Ocidente. As insígnias imperiais sobrevivem em Constantinopla. Porém, jamais haverá um império unificado, apesar da reconquista de Justiniano (527-565) e de Carlos Magno no Ocidente. No entanto, a idéia de império subsiste junto com o Estado de Constantinopla, que possui prolongamentos no Adriático e na Itália do sul.
  • 716-867: As dinastias isauriana e amoriana recuam diante dos muçulmanos, dos búlgaros e dos varegues. A imperatriz Irene, que após a morte de seu marido não hesita em furar os olhos de seu filho Constantino VI para impedi-lo de reinar, não se casa com Carlos Magno e não reúne os dois impérios.

Bizâncio

  • De 867 a 1057: A dinastia macedônica marca um novo apogeu do império bizantino, mesmo se a sucessão dos imperadores é difícil. Leão VI casa-se sucessivamente com quatro mulheres para ter um herdeiro macho. As imperatrizes casam-se com generais, com Nicéforo Focas ou Jean Tzimiscès, para garantir o poder. O Estado ainda tem recursos para pagar o exército e a armada que obtêm grandes vitórias contra os árabes, enfraquecidos pelo declínio dos califas abácidas.
  • 880: Retomada de Tarento e da Calábria, na Itália, durante uma operação marítima da esquadra bizantina, que não consegue evitar o saque da Tessalônica em 904. Reconquista da Síria, da Cilicia, da Arménia, do Iraque.
  • 988: Batismo do príncipe de Kiev, Vladimir. Os russos tornam-se cristãos ortodoxos na esfera de Bizâncio.
  • 1014: Em Stroumitza, Basílio II, o Bulgaroctone, destrói o Estado búlgaro e envia ao rei vencido, o czar Samuel, 15.000 prisioneiros com os olhos vazados.
  • 1054: Ruptura decisiva entre o papa e o basileus, entre as Igrejas do Ocidente e do Oriente. A unidade jamais será restabelecida entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa.
  • 1057-1204: Os imperadores Comnenos e Anjos principiam a decadência de Bizâncio: os turcos seljúcidas instalam-se na Ásia Menor.
  • 1097: O basileus não ajuda os latinos durante a primeira cruzada e reduz à obediência o reino independente da pequena Arménia, na Cilicia.
  • 1182: Os habitantes de Bizâncio massacram os mercadores venezianos no porto e os comerciantes latinos no império.
  • Junho de 1204 e julho de 1204: Tomada de Bizâncio pelos cruzados. Saque de três dias. Eleição de um cristão, Baudoim de Flandres.
  • 1204-1261: Criação dos Estados latinos do Oriente.
  • 1261: Miguel Paleólogo reconquista Bizâncio e é coroado imperador na basílica de Santa Sofia.
  • 1331-1355: Criação da Grande Sérvia de Étienne Douchan. Ela engloba a Macedônia.

 

Istambul

  • 1326: Os otomanos instalam-se em Bursa, no oeste da Ásia Menor.
  • 1357: Os otomanos atravessam o estreito e tomam Galípoli.
  • 1430: Os turcos na Tessalônica.
  • 29 de maio de 1453: Fim de Bizâncio. Começo de Istambul.
  • 1463: Conquista turca da Bósnia e da Albânia.
  • 1520-1566: Apogeu do império turco sob Solimão II, o Magnífico. Os turcos tornam-se senhores de Rodes e dos entrepostos do norte da África até Argel.
  • 6 de outubro de 1571: Batalha naval de Lepanto, ao longo do Peloponeso oriental. O desastre da esquadra turca, destruída por Don Juan da Áustria e por sua esquadra hispano-veneziana, marca o começo do recuo dos otomanos na Europa mediterrânea, mas não nos Bálcãs, onde o avanço do exército turco no Danúbio continua forte até o cerco de Viena em 1683.
  • 1774: Pelo Tratado de Kiitchuk-Kainardji, a czarina Catarina II, ao mesmo tempo em que humilha os turcos, torna-se a herdeira de Bizâncio.
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