Posts Tagged ‘Roma’

h1

Tesouros perdidos do mundo antigo – Roma

janeiro 19, 2011

O poder, a grandeza e a imponência das realizações dos romanos.

h1

As 16 datas que mudaram o mundo: 2- A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO

outubro 16, 2008
Pierre Miquel (1930-2007)

Por Pierre Miquel (1930-2007) – Historiador francês

O antes de 476 é a ficção da unidade do mundo romano, que se mantém vivo até então por meios artificiais e se torna cristão a partir do reino de Teodósio. O império do Ocidente só continua no lugar pela forte resistência do império do Oriente, mais sólido.

O depois de 476, muito tempo após as grandes invasões, constitui a ruptura da unidade do mundo mediterrâneo com o desaparecimento definitivo do império romano do Ocidente. É também o aumento da intolerância religiosa em consequência do crescimento das primeiras heresias nos reinos bárbaros, que contribui para impedir a reconstituição de uma unidade.

*****

Por que Ravena? Porque a cidade eterna não é mais segura, ela não garante mais a segurança da corte e do imperador. Roma foi tomada de assalto, pilhada durante três dias pelo chefe visigodo Alarico em 410. Desde então, a corte imperial mudou-se para o norte, antes de instalar-se em 404, com o imperador Honório, na pequena cidade de Ravena, atônita com tanta honra. De fato, a escolha de Ravena foi calculada para permitir à corte de fugir, em caso de perigo urgente, em direção a Constantinopla pelo mar.

Os bárbaros que ameaçam o império do Ocidente vêm do norte e do leste da Europa, em uma grande migração de povos cavaleiros vindos das montanhas de Altaí, nos confins da China, e constantemente empurrados para o oeste pelo mais ofensivo de todos, os hunos.

A fome os move, assim como as necessidades de pasto para os cavalos e os rebanhos. Eles foram, por muito tempo, mantidos afastados pelas muralhas romanas construídas ao longo do Reno e do Danúbio, o limes, mas, em 406, um impressionante deslocamento de povos, perseguidos pelos hunos, ultrapassou o Reno, em Mainz, para se precipitar sobre o império do Ocidente. No passado, Roma acolhia legalmente esses bárbaros estabelecendo com eles um acordo (foedus) para instalá-los nos territórios que precisavam de mão-de-obra, ou para engajá-los no exército. Mas, em 406, sem esperança de retorno e sem nenhuma permissão, é toda uma massa de povos que atravessa o rio. Não há, a partir de então, nenhuma fronteira protetora em torno do mundo romano.

Os imperadores, desprovidos de soldados, não têm os meios para resistir. Os cidadãos romanos não querem mais combater, nem pagar impostos, nem mesmo exercer as funções administrativas. Os últimos imperadores são obrigados a engajar bárbaros, como Estilicão, para comandar seus exércitos, e esses generais escolhem seus homens entre os de sua nação.

O poder escapa aos senhores do império. Nele, nas cidades e vilarejos, os bispos são os únicos herdeiros da administração de Roma, mas nos pagi, ou burgos rurais, os pagani (camponeses) rebeldes à religião católica não pagam mais impostos e não obedecem a mais ninguém. No exército, só se conta com os bárbaros. São os generais bárbaros que comandam a situação.

Os imperadores sucedem-se no pequeno porto de Ravena, onde Augusto havia instalado uma parte da frota militar. A região pantanosa e isolada não pode ser alcançada sem riscos. Mas sobretudo o imperador e a corte podem ser retirados pelo mar. Ravena é um refúgio nauseabundo, infestado de mosquitos, o único lugar onde o império ainda pode ter continuidade. Nela são construídos palácios suntuosos e a basílica de São Vital, decorada de mosaicos brilhantes como se a corte imperial fosse ali residir durante séculos.

Os chefes visigodos, mais tarde Átila, ousam pedir as filhas da família imperial como esposas. Os povos instalam-se com o estatuto de federados de Roma nas terras do império, mantêm suas leis, seus chefes, suas famílias. Eles exigem uma parte das terras e dos escravos para assegurar a subsistência. O império não existe mais. Estilicão, o chefe bárbaro dos exércitos romanos, instala o fraco imperador Honório em Ravena. Imperadores e chefes da milícia são constantemente degolados por mercenários pagos pelos rivais. Um chefe da milícia romana, Orestes, toma o poder pela força em 475 e instala seu próprio filho, Rômulo, no trono. Mas Orestes é, por sua vez, morto por Odoacro, o chefe dos mercenários bárbaros; este é, então, proclamado rei pelos seus soldados, considerando que o Império Romano do Ocidente não tem mais razão de existir.

Na realidade os povos bárbaros já tinham tomado vastas regiões que eles haviam organizado em reinos. Assim, os alamanos na Alsácia, os burgúndios na Suíça e depois na Borgonha, os francos no norte da Gália, os visigodos no sudoeste e na Espanha, os ostrogodos na Itália e na Provença, os vândalos na África do Norte.

O título de imperador do Ocidente perdia todo o sentido. Os bárbaros dispunham de terras e dominavam os vilarejos. Eles impunham seu direito, seus usos e costumes, e recusavam-se a obedecer à justiça de Roma. Exigiam das ricas romanas a distribuição de terras, para lhes assegurar sua proteção. Eles mesmos cobravam os impostos e engajavam os camponeses para os trabalhos. Tornaram-se, como Sidônio Apolinário, em Auvérnia, os co-proprietários da terra, cuja produção era a única riqueza naqueles tempos de isolamento e de insegurança e onde o comércio praticamente havia desaparecido.

Eles não eram mais pagãos, mas cristãos convertidos ao arianismo; logo, inimigos da religião dos bispos de Roma, de quem eles saqueiam as igrejas, pilham os tesouros. Na Provença e em Toulouse, o godo Teodorico estabeleceu seu poder em vastas regiões, assegurando o culto ariano nas igrejas.

Na África e na Espanha, Genserico, o Vândalo, de religião arianista, tornou-se o chefe levado pelo conde Bonifácio, um influente romano revoltado contra o imperador Valentiniano III. Santo Agostinho, escandalizado, tentara mostrar a Bonifácio o perigo de sua iniciativa, que entregava uma província inteira à heresia, mas era muito tarde. Bonifácio era incapaz de conter Genserico. Em Cartago, ele, que já havia se tornado rei, forçaria em 442 o imperador a reconhecer seu poder. Para, logo após, começar a perseguir os cristãos ortodoxos, exilando os padres, roubando os tesouros das igrejas.

Chamado na Itália pela imperatriz Eudóxia para vingar o assassinato do imperador Valentiniano, ele disso se aproveitará para tomar e pilhar Roma em 455, para apoderar-se dos tesouros públicos e obrigar Eudóxia a se casar com seu filho Hunerico.

Em 476, ele é o senhor da África, da Córsega, da Sardenha, da Sicília e das Baleares. Seu reino é reconhecido pelo imperador de Constantinopla.

Neste momento, o imperador do Ocidente refugiado em Ravena não tem mais nenhuma autoridade. Rômulo, chamado, com desprezo, de Augústulo, o pequeno augusto, é o último dos imperadores romanos do Ocidente. Odoacro, chefe dos hérulos, ávido em tomar o poder, prende-o em uma vila da Campânia, com uma renda confortável. Assim, desaparece o último imperador que usava ao mesmo tempo o nome de fundador de Roma e o de fundador do império.

As insígnias imperiais foram transportadas para Constantinopla, onde o império se manteve até 1453. Chamava-se doravante império bizantino, porque havia tomado o nome grego da capital, Bizâncio. Mas o império não representava nenhuma realidade no Ocidente. Os reinos bárbaros haviam ocupado seu lugar. O papa bispo de Roma era a única autoridade cristã ortodoxa que, na impossibilidade de combatê-los, pôde compactuar com os bárbaros.

O que vem a seguir ao ano de 476 não é somente a decomposição do império no oeste, é antes de tudo o desencadeamento das primeiras guerras de religião. A oeste da Europa, os bárbaros vindos da Escandinávia, das planícies russas e da longínqua Sibéria estabelecem reinos e nem todos são pagãos; embora eles se considerem cristãos, são rejeitados pelos cristãos de religião romana. Na realidade, foram convertidos ao cristianismo por Ário, considerado pelos bispos de Roma como herético. Os papas, contra esses reis arianistas, estão, desse modo, constantemente em uma posição defensiva.

Será necessário esperar o batismo de Clóvis para que a Igreja possa se apoiar no Ocidente em um primeiro reino cristão ortodoxo. Todos os outros eram hostis aos bispos e perseguidores de cristãos. As guerras mantidas por Clóvis a partir de sua conversão têm uma finalidade religiosa. Ele casou-se com uma princesa burgunda, Clotilde. Os burgúndios são arianistas; Clotilde, porém, é católica: sua influência e a dos bispos Avit e Remi levam-no a se converter. Clóvis torna-se assim, aos olhos do público católico, o único rei legítimo dos reinos bárbaros. “Vossa fé é a nossa vitória”, lhe escreve Avit, bispo na região burgúndia, em Viena.

Os reis arianistas defendem-se, reagrupam-se em torno do ostrogodo Teodorico. Eles constituem uma liga contra Clóvis, que mantém uma campanha contra o exército burgúndio de seu sogro, a quem impõe um tributo, no ano 500. A vitória de Vouillé contra o visigodo Alarico II, em 507, permite-lhe dominar a Aquitânia, mas a Provença, nas mãos de Teodorico, resiste até o fim e proíbe ao franco chegar até o Mediterrâneo a leste do Reno. O imperador do Oriente, Atanásio, reconhece o reino de Clóvis e lhe dá os títulos romanos de patrício e de cônsul, como se ele fosse, entre todos os bárbaros, o único digno de suceder ao imperador do Ocidente.

Clóvis reina da Bélgica aos Pireneus, mas o reino franco perde sua unidade com a morte de seu chefe. Seus quatro filhos, Thierry, Childerico, Clodomir e Clotário, o dividem entre si. Será necessário muito esforço ao mais ativo dos merovíngios, Dagoberto, para tentar restabelecer a unidade perdida e assentar a Igreja Católica em um Estado não contestado.

A partir de 631, com a ajuda do ministro Elói, Clóvis começa a reconstituir o reino e conclui com o imperador de Bizâncio um tratado de amizade, pois Dagoberto é também um rei bastante cristão, que mantém contra os pagãos saxões e eslavos uma guerra implacável. Mas, com sua morte em 639, o reino católico é novamente desfeito pela divisão. Os reis merovíngios não souberam resolver o problema da sucessão. Depois de Dagoberto, os prefeitos do palácio governam e se engalfinham.

Os soberanos bárbaros têm, todos, os olhos fixos no Oriente, como se o reconhecimento de seu Estado pelo imperador fosse um voto de solidez. Porém, o império do Ocidente não existe mais. A própria religião aceita pelos imperadores desde Constantino é ameaçada pelos bárbaros tornados heréticos, ou, como é o caso dos saxões, continuam pagãos. Um longo período de guerras e de desordens começa na Europa.

O cristianismo consegue melhorar ligeiramente os costumes selvagens dos bárbaros. Mesmo se são batizados, eles usam os monastérios para enclausurar pela força seus rivais, matam-se alegremente entre si, e, para manter a unidade do reino, nunca hesitam diante de um assassinato político, nem mesmo Clóvis.

As últimas invasões, as dos normandos na Gália e as dos lombardos na Itália, são as mais selvagens. Os normandos são pagãos e pilham sem remorsos as igrejas, de onde levam os tesouros. Eles encontraram, na Gália, os santuários ricos em doações feitas pelos fiéis, como São Martim de Tours, ou Poitiers, cidade da santa Radegonde. Suas expedições, ao longo dos rios, são razias destinadas a se apoderar dos objetos preciosos e do ouro doado aos santos pelos fiéis.

Os lombardos não são menos selvagens. Meio pagãos, meio cristãos arianistas, eles atravessaram os Alpes em 568, sob a chefia do rei Alboin, para espalharem-se pela planície do Pó, e a saquearam. Eles instalaram-se em torno de Pávia e questionavam constantemente o poder e a independência do papa, mesmo este conseguindo convertê-los a partir do século VIL

Os casamentos dos chefes bárbaros com princesas católicas influenciadas pelos bispos são então o melhor método de conversão. É necessário casar o rei Agilulf com uma princesa da Baviera, para que ele deixe batizar seus filhos. A política dos bispos é, então, a da conversão dos reis. Eles conseguem a do rei lombardo Liutprand e, na Normandia, a do chefe Rolando, que é batizado com o nome de Roberto e recebe em casamento a filha do rei franco, Carlos, o Simples. A conversão dos reis é então, num contexto de selvagens afrontamentos, onde a religião tem um papel dominante, a única carta do papa e dos bispos. Eles não são em nada protegidos por nenhum poder civil forte.

Pequena Cronologia


1. O papado

  • Fim do século I, aproximadamente em 96: Superioridade do bispo de Roma afirmada pela epístola de São Clemente à Igreja de Corinto.
  • Aproximadamente em 107: Testemunho de Santo Inácio de Antioquia.
  • Século II: Cipriano, bispo de Cartago, chama a Igreja romana de “a igreja principal, na qual se origina a unidade do sacerdócio”. Já é a confirmação do poder espiritual do bispo de Roma, que ostenta o nome de papa Cornélio.
  • 347: No Concílio de Sárdica, os bispos atribuem ao papa o direito de apelação sobre uma sentença mantida contra um bispo pelo sínodo de sua província. É o começo de uma justiça, logo de uma administração pontifícia.
  • 385: O papa Sirício publica o primeiro decreto afirmando que a lei da Igreja romana é válida, portanto aplicável para toda a cristandade.
  • 440-461: Leão, o Grande, negocia com Átila e com Genserico. 590-604: Papado de Gregório I, o Grande, chamado de o “cônsul de Deus”. Ele é o primeiro a se afastar do império do Oriente para afirmar seu poder espiritual e mesmo temporal contra os bárbaros do Ocidente. Ele negocia tratados e estabelece alianças como um soberano.
  • De uma família patrícia de Roma, filho de senador, ele tem experiência em administração imperial, tendo sido prefeito da cidade em torno de 573. Ele experimenta também um período de meditação religiosa quando se torna monge em seu palácio do monte Célio, que é transformado em monastério. O papa Pelágio II tira-o de seu refúgio para enviá-lo como núncio a Constantinopla. Ali ele constata a indiferença dos patriarcas e dos imperadores pelo destino da Igreja romana ameaçada pelos bárbaros. Ele compreende que a única solução para salvar a Igreja, quando é eleito papa em 590, é a conversão dos reis bárbaros.
  • Gregório I considera-se o chefe da Itália e negocia diretamente com os lombardos em 592. Ele estabelece relações com os outros reis bárbaros e principalmente com os francos. Considera-se um elo entre os chefes e seu tutor espiritual. Ele afirma a primazia do bispo de Roma, o Papa, sobre os patriarcas do Oriente e se atribui o título de servus servorum Dei (o servidor dos servidores de Deus). Assim, ele reforma os hábitos da Igreja e impõe aos monges regras estritas. O papa Gregório envia os beneditinos para evangelizar a Grã-Bretanha anglo-saxã. Ele é o verdadeiro primeiro papa a história.

2. Os reinos bárbaros

Os burgúndios

  • 443: Estabelecimento dos burgúndios arianistas no vale alto do Ródano, sob o comando de Gondebaud.
  • 461: Começo da expansão burgúndia. Eles criam um reino que vai da Champanhe até o Durance, das Cévennes até a Suíça.
  • 480: Gondebaud dá ao reino as primeiras leis bárbaras, conhecidas sob o nome de Lei Gombette.
  • 516: Eles se convertem ao cristianismo sob a influência de São Avit, fundador do monastério de São Maurício d’Aghaune, no Vaiais.
  • 534: Anexação do reino burgúndio ao reino franco, após a derrota do rei Gondemar II.

Os vândalos

  • 406: Eles atravessam o Reno com os eslavos e os alanos, para invadir a Gália, e depois a Espanha.
  • 412: Os federados do imperador Honório lutam durante dez anos contra os visigodos.
  • 428: Vão para a África, conduzidos por seu rei Genserico.
  • 439: Tomada de Cartago. Os vândalos tornam-se então piratas temidos em todas as ilhas do Mediterrâneo ocidental.
  • 455. Pilhagem de Roma. Genserico leva como prisioneiras a viúva e as duas filhas do imperador Valentiniano III.
  • 477-484: Reino de Hunerico, o arianista. Perseguição dos católicos.
  • 533: O imperador do Oriente, Justiniano, envia o exército do general Belisário para o Magreb. Ele destrói o reino dos vândalos. A África do Norte volta a ser católica.

Os visigodos e os ostrogodos

  • 376: Os godos do oeste (Wisigoths), arianizados por Ulfilas, pressionados pelos hunos, atravessam o Danúbio.
  • 378: Eles esmagam o exército imperial na batalha de Adrinopla e pilham os Bálcãs.
  • 395: Conduzidos por Alarico, atravessam a Grécia e depois a Itália.
  • 410: Tomada de Roma por Alarico.
  • 415: Conquista da Espanha e do sul da Gália pelos visigodos.
  • 418-451: Teodorico I cria a monarquia visigoda em Toulouse.
  • 507: Em Vouillé, Clóvis, o Católico, destrói a potência ariana visigoda na Gália.
  • 508: Teodorico, rei dos godos do leste (Ostrogoths), estabelece um reino no sul da Itália, na Provença e na costa dálmata.
  • 536-555: Os ostrogodos expulsos da Itália pelo exército bizantino.

Os francos merovíngios

  • 457-481: Childerico I, filho de Meroveu, conduz seu povo da Bélgica até as margens do Somme.
  • 481-511: Seu filho Clóvis, primeiro bárbaro convertido ao catolicismo ortodoxo romano, vence os burgúndios e os visigodos e concretiza a união da Gália.
  • 629-639: Dagoberto reconstitui a união após a divisão do reino entre os filhos de Clóvis.
  • 680: O prefeito do palácio da Austrásia, Pepino de Herstal, reúne a Nêustria e a Austrásia em um único reino.
  • 751: O último merovíngio, Childerico III, é deposto pelo primeiro carolíngio, Pepino, o Breve.
h1

Os imperadores de Roma – Parte 1

outubro 2, 2008

OTÁVIO

Otávio Augusto, o primeiro.

Gaius Octavianus nasceu em 23 de setembro de 63 a.C., filho do pretor Gaiuus Octavius e de Átia, sobrinha de Júlio César. Aos 18 anos, acompanhou César na campanha contra os filhos de Pompeu na Espanha. Em seu posto como comandante da 10a Cavalaria, o jovem teve papel decisivo na vitória, o que lhe valeu a atenção do tio-avô. Na volta para Roma, César ensinou-lhe os caminhos da política e do populismo. Em pouco tempo, Otávio foi enviado à Macedônia para continuar seus estudos. César adotou oficialmente o jovem e ambos iriam partir em campanha contra o Império Persa. Mesmo nunca tendo ocupado nenhum cargo público e ainda com menos de 20 anos, Otávio já tinha assegurado a segunda maior posição em Roma.

Com a morte de Júlio César em março de 44 a.C, Otávio voltou da Macedônia para garantir sua herança: três quartos das posses de César. Mas haveria mais, caso ele conseguisse a simpatia do povo e das legiões. O processo de aproximação ao poder foi tenso, com Marco António tentando ignorar a presença de Otávio em Roma. A partir de abril, Otávio passou a usar o nome Gaius Julius Caesar. No mesmo ano, ele ainda descobriu que sua amada, Livia Drusilla, havia se casado com Tiberius Nero, com quem teria um filho, Tiberius.

O Senado pendeu para o lado de Otávio, acreditando que o jovem seria facilmente manipulado. Para os senadores, o verdadeiro perigo para a República era Marco António e, embora ele e Lepidus estivessem reunindo legiões na Espanha enquanto Agrippa e Maecenas, amigos de Otávio, reuniam tropas na Macedônia, a guerra não era de interesse de ninguém.

O Segundo Triunvirato dividiu os territórios romanos entre Otávio, Marco António e Lepidus, dando aos três o status de ditadores e poder para sobrepujar o Senado a qualquer momento. Como prova de poder, o trio promoveu um expurgo, votando pela volta das temidas proscrições, assinando a sentença de morte de 300 senadores e milhares de outros cidadãos por motivos que iam de oposição política a simples confisco das posses dos condenados. O golpe final foi a morte de Brutus e Cassius, assassinos de César, nas batalhas de Philipi. A derrota deles foi o último suspiro da República Romana.

Em Roma, Lepidus usou seu cargo como Pontifex Maximus para declarar Júlio César um deus, o que levou Otávio a se auto-intitular “O Filho de Deus”. Os ânimos entre Marco António e Otávio eram apaziguados por Lepidus. Mesmo em meio a disputas entre os membros do Triunvirato e elementos externos, como Sextus Rompeu, e a preparação da campanha contra os persas, a reputação de Otávio era cada vez maior. Seu primeiro golpe contra o Triunvirato foi no elo mais fraco. Após a vitória sobre as forças navais de Sextus e a tomada da Sicília, Lepidus tentou assimilar as forças vencidas. Para Otávio, essa foi a deixa para destituí-lo do poder e tomar suas 18 legiões.

Na Roma Antiga, o termo latino Pontifex Maximus (“Sumo Pontífice”) designava o sumo sacerdote do colégio dos Pontífices, a mais alta dignidade na religião romana. Até 254 a.C., quando um plebeu foi designado para o cargo, somente patrícios podiam ocupá-lo. De início um posto religioso durante a República, foi gradualmente politizado até ser incorporado pelo imperador, a partir de César Augusto.

Cônsul (do latim consule) era o magistrado supremo na república romana. Na república romana, em número de dois, os cônsules eram os mais importantes magistrados; comandavam o exército, convocavam o Senado, presidiam os cultos públicos e, em épocas de “calamidade pública” (derrotas militares, revoltas dos plebeus ou catástrofes), indicavam o ditador que seria referendado pelo Senado e teria poderes absolutos por seis meses.Durante o Império Romano, o consulado, despido de poderes reais, tornou-se uma magistratura puramente honorífica e que exigia gastos enormes na realização de jogos, mas ainda abria caminho para certos cargos efetivos, como o exercício de certos governos provinciais (proconsulado). Com a divisão do Império, os cônsules (que continuavam a dar nome ao ano), passaram a ser cada um escolhido por um dos imperadores (o do Ocidente e do Oriente), até que Justiniano aboliu a magistratura em 541 da era cristã.  

Pax Romana, expressão latina para “a paz romana”, é o longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180.

Em 36 a.C., vários fatores levavam a uma iminente guerra entre Marco António e Otávio. O primeiro, ainda casado com a irmã do segundo, teve um filho com Cleópatra e passou a dominar o leste romano. A idéia era colocar os herdeiros no poder, mas Otávio consolidou sua popularidade no resto dos territórios, criando uma imagem anti-romana de Marco Antônio.

Sabiamente, Otávio declarou guerra a Cleópatra, esperando que António fosse ao auxílio da amada. Ao mesmo tempo em que a guerra se anunciava e os exércitos se posicionavam, Otávio atrasava seu início manobrando a armada naval e ganhando mais apoio do Senado. Encurralado, Marco António tentou furar o bloqueio marítimo, mas foi derrotado sumariamente na Batalha de Actium. Em terra, seus exércitos se renderam. Após 20 anos de guerra civil, Otávio, finalmente, era o único soberano político de Roma.

Cleópatra VII Thea Filopator (Alexandria, Dezembro de 70 a.C. ou Janeiro de 69 a.C. – 12 de Agosto? de 30 a.C.) foi a última farani (feminino de faraó) e rainha da dinastia ptolomaica (oriunda da Macedônia) que dominou o Egito após os gregos terem invadido aquele país. Era filha de Ptolomeu XII e de mãe desconhecida. O nome Cleópatra é grego e significa “Glória do pai”; o seu nome completo, “Cleópatra Thea Filopator” significa “A Deusa Cleópatra, Amada de Seu Pai”. É uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade e um dos governantes mais famosos do Antigo Egipto, sendo conhecida apenas por Cleópatra, ainda que tivessem existido outras Cleópatras a precedê-la, que permanecem desconhecidas do grande público. Nunca foi a detentora única do poder no seu país – de fato co-governou sempre com um homem ao seu lado: o seu pai, o seu irmão (com quem casaria mais tarde por sugestão de Júlio César, então seu amante) e, depois, com o seu filho. Contudo, em todos estes casos, os seus companheiros eram apenas reis titularmente, mantendo ela a autoridade de fato.

Otávio percebeu que a República Romana estava no fim, mas não se deixou levar imediatamente pelas honrarias da vitória. Em um trabalho contínuo de reconstrução e confiança, serviu como cônsul de 31 a 23 a.C. No campo militar, os laços de lealdade foram reformados, com o Estado mantendo 28 legiões próprias. Em 27 a.C., ele usou uma estratégia inédita. Declarando estar disposto a se aposentar da vida pública, o povo e o Senado em coro pediram que ele reconsiderasse. Sua saída poderia causar sérios distúrbios e guerras civis. Com isso, novos poderes e um outro título foram concedidos: Augustus. Otávio passou a ser chamado de Imperator Caesar Augustus. É bom lembrar que o título “Imperator” não é o mesmo que “Imperador”. O primeiro era um título mais similar a “Comandante”. Outras honrarias sucederam-se, como Princeps, que o colocava acima de todos os cidadãos romanos e, com a morte de Lepidus, Pontifex Maximus. O poder de Augustus era supremo, com direito a veto em qualquer matéria. Em 2 a.C., Augustus também foi nomeado Pater Patríae, o Pai da Pátria, como César.

Augustus promoveu a duradoura Pax Romana por meio de um misto de prudência e audácia. O exército não era mais de propriedade privada ou sujeito a reveses políticos. O sistema tributário foi reajustado e Roma foi praticamente reformada. As artes foram privilegiadas, a moral foi resgatada e a tranqüilidade civil restaurada. O casamento de Augustus com Lívia durou 52 anos e seu sucessor seria Tiberius. Ele regeu Roma e o Império por mais de 40 anos e, apesar de alguns tropeços econômicos, elevou a prosperidade e manteve a paz como nenhum outro antes ou depois dele.

Augustus e Lívia não tiveram filhos. Do primeiro casamento, ela trouxe Tibério, que foi adotado por Augustus. O rapaz, então, unia duas das mais tradicionais famílias patrícias: Júlia e Cláudia. Os sucessores imediatos de Tibério teriam o nome dos dois clãs, com Calígula (37-41) e Nero (54-68), filhos do primeiro casamento de Julia Caesaris com Nero Claudius Drusus, irmão de Tibério; e Claudius (41-54), filho de Octavia, irmã de Augustus. A dinastia Júlio-claudiana regeu o Império Romano de 27 a.C. a 68.

A DINASTIA JÚLIO-CLAUDIANA

TIBÉRIO (14-37)

Tibério, o perturbado.

Tibério, o perturbado.

Tiberius Claudius Nero nasceu em 16 de novembro de 42 a.C., filho de Tibério Nero e Livia Drusilla. De família tradicional e rica, o futuro de Tibério já estava aliado à vida pública. Quando o garoto tinha apenas 3 anos, sua mãe divorciou-se e casou-se com Augustus, uma paixão antiga. Tibério foi adotado e tornou-se herdeiro do Império Romano. Desde cedo; Augustus impeliu o jovem a posicionamentos e cargos públicos de importância, como na Batalha de Actium, na campanha contra os persas; o questorado aos 17 anos; e o consulado 5 anos antes da idade permitida.

Ao retornar do Oriente, foi eleito cônsul, em 13 a.C. e casou-se com Vipsania Agrippina, filha de Marcus Vipsanius Agrippa, aliado de longa data de Augustus. O casamento, assim como o de sua mãe com Augustus, era baseado em afeto e não só em interesses futuros. Mas, quando Marcus Agrippa morreu, em 12 a.C., Tibério foi obrigado por Augustus a tomar a viúva Julia Caesaris como esposa, em uma união sem amor. As campanhas de Tibério ao lado de seu irmão Nero Claudius Drusus nos Alpes foram bem-sucedidas. Entre 12 e 6 a.C., Tibério comandou as forças de expansão, principalmente na Germânia. Apesar de vitoriosas, as campanhas dele tinham um ranso de tristeza.

Os eventos levavam Tibério cada vez mais ao centro do poder. Se antes da morte de Agrippa, o jovem já era cotado como sucessor de Augustus, naquele momento, casado com Julia, a sucessão era certa. Para surpresa geral, Tibério retirou-se para a ilha de Rodes em 6 a.C., quase como um auto-exílio. Essa atitude colocou-o em desgraça perante Augustus, que, após isso, nunca mais teve o mesmo carinho pelo enteado. É possível que Tibério só tenha escapado de uma execução sumária por conta de sua mãe. Mesmo aceitando-o novamente em Roma, Augustus não planejava mais que Tibério fosse seu sucessor, confiando muito mais nos filhos de Agrippa, Lucius e Gaius Caesar. Mas Lucius morreu em Massilia e, logo em seguida, Gaius Caesar foi ferido mortalmente em combate. Tibério voltou a ser o único nome disponível, mas Augustus não queria dar chance ao destino e adotou também Postumus Agrippa, o último filho de Agrippa, e forçou Tibério a adotar Germanicus. Assim, o Principado estaria assegurado e, talvez, novas tragédias não destruíssem toda a linha sucessória de Augustus.

Por dez anos, Tibério foi o braço direito de Augustus. A morte do soberano em 19 de agosto do ano 14 não foi surpresa e a posse de Tibério, apenas uma conseqüência prevista. O engajamento do novo governante de Roma não podia ser mais insólito. Sendo esta a primeira sucessão após a queda da República, ninguém parecia ter muita certeza de como proceder. Tibério atendeu às solenidades de deificação de Augustus e outras, onde o Senado lhe ofereceu as honrarias devidas a um sucessor de Augustus. Não se sabe se Tibério tentou imitar o padrasto, mas o fato é que o novo soberano refutou algumas das honrarias, como a Pater Patriae e as responsabilidades do principado.

O Senado, sem saber como proceder, tentou contornar a situação enquanto em outros rincões, como as legiões em Pannonia e Germânia, levantavam-se revoltas. Tibério enviou seus dois filhos, Drusus e Germanicus, para resolver os problemas. As legiões pediam a queda de Tibério e a posse de Germanicus, que precisou de muita dissuasão política para contornar a situação. Em um plano mais geral, os primeiros anos de Tibério como regente foram pacíficos. O novo imperador seguiu os passos de Augustus, assegurando os poderes de Roma, expandindo o Império e atendendo aos desígnios do povo e do Senado. Para a população, Germanicus era o melhor sucessor possível, e Tibério parecia concordar, dando glórias e novos postos de comando para o sobrinho em detrimento do filho, Drusus. Mesmo com o apoio explícito a Germanicus, Tibério foi acusado da morte do jovem. Porém, os fatos nunca foram provados.

A partir daí, Tibério desenvolveu uma paranóia constante que o levou à reclusão. Em muito, o mentor desse afastamento foi Lucius Aelius Sejanus, chefe da Guarda Pretoriana, que alimentou Tibério com teorias conspiratórias cada vez mais complexas. É provável que Sejanus tenha planejado a morte de Drusus em 23 e que isso tenha sido o começo do fim da linhagem Júlio-claudiana. O soberano, bastante manipulado por Sejanus, permitiu que o amigo ganhasse cada vez mais terreno na política.

Tibério, que nunca havia demonstrado sede pelo poder, preferiu retirar-se da vida pública em 26, isolando-se na Ilha de Capri e deixando o posto temporariamente nas mãos gananciosas de Sejanus. Enquanto isso, Agrippina, viúva de Germanicus e neta de Augustus, tentava fortalecer seus filhos (Calígula, Nero e Drusus) como sucessores e fazer frente ao usurpador Sejanus.

A ausência de Tibério quase determinou o fim da linhagem Júlio-claudiana. Drusus, Agrippina e Nero Caesar morreram coagidos ao suicídio ou de fome, exilados. Sejanus controlava o acesso do Senado a Tibério em Capri, onde o jovem Calígula lhe fazia companhia. Tibério promovia uma caça às bruxas por toda a cidade de Roma, compelido apenas pelas acusações de Sejanus. O poder de Sejanus e sua manipulação política quase fizeram Tibério nomeá-lo tribuno e co-imperador, mas Antonia Minor, a cunhada viúva de Tibério, despertou o Imperador sonolento em 31, com uma carta denunciando Sejanus. O impostor foi executado antes do final daquele ano. Um expurgo seguiu-se, amplificado pela paranóia de Tibério.

Nos anos finais do reinado de Tibério, foram eliminados vários traidores, fossem eles culpados ou não. Tibério nunca mais pisaria em Roma nos últimos 23 anos de regência e muitos de seus atos seriam descritos depois por historiadores como pífios. Ultimamente, Tibério tem sido resgatado como um regente satisfatório que deu prosseguimento aos desígnios de Augustus, entre eles a não-expansão e a continuidade da Pax Romana. Ele deixou clara sua vontade de que o Império fosse regido em conjunto por seu sobrinho Calígula e seu neto Gemellus.

CALÍGULA (37-41)

Caligula, o depravado

Calígula, o depravado

Nascido em 31 de agosto de 12, Gaius Julius Caesar Germanicus, ou Calígula, representou o ápice do desleixo com o Império Romano. Enquanto para Augustus era importante manter uma ilusão de que a República ainda tinha certo poder, Tíbério, ao deixar Sejanus subir tanto, foi obrigado a mostrar que seu posto era absoluto para abafar as conspirações.

Outro ponto negativo de Tibério, que despontou explicitamente em Calígula, foi a falta de preparo dos sucessores. O principado, cuidadosamente elaborado por Augustus, preparando os próximos soberanos de Roma, foi relegado ao segundo plano na regência de Tibério, trazendo péssimas conseqüências futuras. A falta de habilidade para governar ficou evidente já nos primeiros anos de Calígula como regente. Ainda garoto, era chamado de “botinhas” pelos legionários acampados na Germânia, que o tinham como mascote. O apelido vinha de seu costume de andar fantasiado de legionário desde criança. Calígula, em latim, significa “pequenas botas do soldado”.

Os curtos quatro anos de Calígula no poder foram documentados e mostram, principalmente, caprichos e sandices que o fizeram conhecido como um completo déspota. Cruel e indigno de confiança, colocou Roma em um período de promiscuidade e desmando, mantendo casos amorosos com suas próprias irmãs e deixando as legiões romanas em maus lençóis. Em uma invasão à Bretanha, mudou de idéia na última hora e ordenou que seus legionários “atacassem o mar” e colhessem conchas nas praias da França. As conchas foram levadas para Roma como saques de guerra.

Após a morte de Tibério, Calígula começou a praticar cada vez mais loucuras. Um de seus primeiros atos foi ordenar a morte do primo Tibério Gemellus, seu co-regente. Aos olhos do público, Calígula era um bom imperador, cancelando os exílios e processos de traição instaurados por seu avô, ajudando endividados pelas taxas e sendo um sucessor direto de Augustus e Julius Caesar, filho do bem-amado Germanicus.

As fontes históricas divergem sobre os motivos da loucura de Calígula, colocando em pauta um sem-número de incongruências autocráticas promovidas por ele. A mais conhecida talvez seja a idéia de fazer seu cavalo um membro do Senado e, depois, cônsul. Assim como Tibério, as fontes históricas são escassas, e todas são unânimes em evidenciar a inteligência ímpar do jovem imperador. Para historiadores modernos, Calígula pode não ter enlouquecido, mas perdido o controle sobre seus atos de forma sarcástica. Como um jovem com todo o poder disponível em suas mãos. Talvez tenha deixado seu bom humor reger, clamando para que as classes abaixo dele percebessem a insensatez de depositar tanto poder em apenas uma pessoa.

Os atos incontroláveis dele revelaram a verdade que ainda estava escondida sob o reinado de Tibério: Augusto havia instaurado uma monarquia autocrática, em que o soberano do Império tinha plenos poderes. Para a aristocracia, esse tipo de atitude era imperdoável e extremamente perigosa. A única forma de parar os abusos de um imperador romano seria seu assassinato, coisa que se tornaria praxe depois de Calígula. A vida pregressa de Calígula pode tê-lo ensinado a ver além dos padrões normais, e não foi por acaso que ele foi o único da linhagem a sobreviver. Por isso, sua visão para conspirações era um misto de paranóia e esperteza. O comandante das legiões na Germânia, Gnaeus Lentulus Gaetilicus foi descoberto quando ainda esboçava um motim das legiões contra o imperador. Até então, ninguém sabia ao certo porque o governante fez questão de se deslocar pessoalmente para o norte.

Calígula morreu aos 28 anos, assassinado por Cassius Chaerea, um antigo oficial que servira Germanicus. As razões são obscuras, mas parecem puramente pessoais. A esposa Caesonia e a filha Julia Drusilla também foram assassinadas. Ainda há suspeitas de que Cláudio, o sucessor, tenha desempenhado algum papel na morte do sobrinho. Fato é que Chaerea era oficial da Guarda Pretoriana e que Claudius foi nomeado imperador pela própria Guarda.

CLÁUDIO (41-54)

Cláudio, o "deformado"

Cláudio, o deformado

Nascido Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus, Cláudio mudou seu nome para Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus quando assumiu o posto de quarto imperador de Roma. Era um figura ímpar. Gago e coxo desde a infância, a família tentava ao máximo deixá-lo à margem da vida pública. Mas ele foi alçado ao posto de cônsul por Calígula em 37, talvez em mais um sinal de deboche ao Império.

A reclusão favoreceu o lado intelectual de Cláudio, que se tornou um grande historiador. Escreveu 43 livros sobre o Império Romano, 20 sobre o Império Etrusco e outros 8 sobre os cartagineses. O valor real desse esforço nunca poderá ser medido, pois as obras foram perdidas. A falta de sucessores e o torvelinho em que se encontrava a nobreza romana à época levaram Cláudio ao poder. Com a morte de Calígula, assassinado por um membro da Guarda Pretoriana, o Senado ficou de mãos atadas quando a própria Guarda proclamou Cláudio imperador. Essa entrada, por assim dizer, forcada, fez com que o novo imperador não fosse visto com bons olhos por todos.

Esperava-se uma performance pífia e bondosa de Cláudio, mas sua passagem pelo poder teve grandes vitórias. A mais expressiva foi a tomada final da Bretanha em 47, após décadas de combate, domínio romano na ilha duraria mais 350 anos. Cláudio foi o primeiro imperador romano a receber o título de Caesar. Como o título “Imperador” é uma invenção prática de tempos mais contemporâneos, até a ocasião o soberano de Roma era chamado pelo nome ou por um de seus títulos (Pater Patríae, por exemplo). César transformou-se em um título pelo qual os mais altos comandantes da nação romana passaram a ser chamados desde então. Cláudio morreu naturalmente aos 64 anos.

NERO (54-69)

Nero, o louco

Nero, o louco

Lucius Domitius Ahenobarbus nasceu em 15 de dezembro de 37, filho de Agrippina, a Jovem, irmã de Calígula, e Gnaeus Domitius Ahenobarbus. Agrippina casaria-se depois com seu tio Cláudio. Adotando o nome de Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus e mais conhecido como Nero, foi o último membro da dinastia Júlio-claudiana. Sua subida ao poder foi uma sucessão de desencontros e mortes prematuras. Quando nasceu, seu tio Calígula regia o Império aos 25 anos e não se esperava que o jovem regente morresse tão cedo, uma vez que seus antecessores haviam chegado perto dos 80 anos.

Segundo historiadores, como Suetonius e Tacitus, as relações íntimas entre Calígula e suas irmãs Drusilla, Agrippina e Julia Livilla, assegurariam a sucessão de seus próprios filhos. Os outros concorrentes ao posto de Augusto eram seus tios por parte de mãe. Com Calígula morrendo sem deixar filhos e expurgando suas irmãs traidoras e outros próximos ao trono, o caminho para Lucius estava aberto. Cláudio trouxe Agrippina e Livilla de volta do exílio, casou-se com a primeira e adotou Lucius sob o nome de Nero Claudius Caesar Drusus.

Aos 17 anos, com a morte de Cláudio, Nero tornou-se o mais jovem imperador de Roma. Os primeiros anos de regência foram expressivos, com o rapaz tendo ao seu lado a mãe e os dois tutores, Sêneca e Burrus. Mas problemas pessoais acabaram por influenciar nos negócios de Estado. Sexo, violência e conspirações seguiram-se. Britannicus foi envenenado, Agrippina foi assassinada, Poppaea tornou-se uma amante influente e Tigellinus voltou do exílio para ser o braço direito de Nero. Sem herdeiros, Nero teve de armar uma fraude para divorciar-se de Octavía e assumir o filho de Poppaea. Em julho de 64, com sua reputação em frangalhos, Nero foi acusado pelo incêndio que consumiu Roma em uma semana.

No ano seguinte, uma conspiração armada por velhos amigos, entre eles o próprio Sêneca, foi descoberta e os envolvidos obrigados a cometer suicídio. Outras execuções sumárias seguiram-se, contribuindo para o dissabor do povo, dos militares e dos senadores. A cada ano, a situação de Nero tornava-se menos sustentável, até que revoltas e motins em territórios, como o Egito, levaram o Senado a depor Nero, que cometeu suicídio em 9 de junho de 68. A balbúrdia iniciada por Nero e a falta de sucessores levaram Roma a outra guerra civil, quando em um período de menos de um ano sucederam-se quatro imperadores.

CRISE: QUATRO IMPERADORES EM UM ANO!

O novo sistema de governo romano já demonstrava sinais de fragilidade desde a subida de Tibério ao poder. A negligência com o Principado e outros preparativos para a sucessão apenas aceleraram o fim da dinastia Júlio-claudiana e, em 68, com o suicídio de Nero, seguiu-se uma guerra civil. A transição da dinastia anterior para a Flaviana foi confusa e teve 3 imperadores nesse hiato, até a posse de Vespasiano. Entre junho de 68 e dezembro de 69, Roma viu três imperadores ambiciosos subirem ao poder para serem depostos ou assassinados logo em seguida. Galba, Otho e Vitellius tentaram assumir o posto máximo, mas o futuro estava nas mãos dos bondosos imperadores flavianos.

Galba, um imperador breve e instável

Galba, um imperador breve e instável

Os reais problemas começaram enquanto Nero ainda estava vivo. Suas atitudes favoreceram a ambição de Caius Julius Vindex a liderar uma rebelião para colocar o governador da Hispânia Tarraconensis, Servius Sulpicius Galba, no lugar de Nero. Embora tropas fiéis a Nero na Germânia tenham enfrentado, vencido e matado Vindex, o destino do imperador déspota já estava selado pelo Senado. Caiba foi aclamado imperador. O revés colocou em cheque os comandos dos territórios germânicos que, de uma hora para outra, tornaram-se traidores. Rufus, o comandante da legião germânica, foi retirado do cargo. A situação na Germânia tornou-se insustentável em pouco tempo e mesmo o novo governador Aulus Vitellius, aliado de Galba, não pôde conter a rebelião na Batávia.

Vitélio, derrotado por uma conspiração

Vitélio, autoritarismo derrotado

Em Roma, Galba provou sertão instável emocionalmente quanto Nero. Seus primeiros atos como soberano foram contra várias benfeitorias anteriores. Promessas não-cumpridas e extorsões rapidamente fizeram de Caiba um imperador malvisto. A rebelião das legiões germânicas culminou na aclamação de Vitellius como imperador. Quando os rumores chegaram a Roma, Galba saiu em desespero pelas ruas convocando a população para ficar a seu lado. O erro foi ter iniciado precipitadamente sua linha sucessória nomeando Lucius Calpu Piso Licianus. Com isso, Marcus Salvius Otho aliou-se à Guarda Pretoriana. Galba foi assassinado no Fórum e, no mesmo dia Otho foi proclamado imperador pelos senadores.

Otho, um reinado curto até o suicidio

Otho, um reinado curto até o suicídio

Pouco mais de três meses depois, Otho cometeu suicídio. Seu reinado foi curto porque Vitellius e as legiões da Germânia se dirigiam para Roma. Não eram apenas legiões romanas, mas as melhores e mais respeitadas de todas, com bastante poder político desde os tempos de Tibério. O máximo que Otho pôde fazer foi oferecer-se como pai adotivo de Vitellius. Otho não teve escolha a não ser acabar com a própria vida e deixar o caminho livre p novo imperador.

Em pouquíssimo tempo, Vitellius mostrou-se um completo déspota. Esbanjando as riquezas de Roma com banquetes e comemorações em sua própria homenagem, passou a perseguir qualquer um que cobrasse as despesas e, com as finanças em crise e o juízo claramente afetado, ordenou a morte de credores, de rivais potenciais ao trono e até mesmo de pessoas que haviam colocado o nome do imperador em seus testamentos.

Com tanto desmando em um tempo de delicado equilíbrio político, não demorou para que revoltas se consumassem, principalmente na Judéia, onde Vespasiano foi declarado imperador pelas legiões do Oriente Médio. As legiões do Danúbio tomaram o partido de Vespasiano e marcharam em direção à Itália, cercando a cidade. Vespasiano tomou a Síria e trouxe o Egito para o seu lado. Vitellius foi assassinado e Vespasiano nomeado imperador pelo Senado no dia seguinte, 21 de dezembro de 69.