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Os imperadores de Roma – Parte 1

outubro 2, 2008

OTÁVIO

Otávio Augusto, o primeiro.

Gaius Octavianus nasceu em 23 de setembro de 63 a.C., filho do pretor Gaiuus Octavius e de Átia, sobrinha de Júlio César. Aos 18 anos, acompanhou César na campanha contra os filhos de Pompeu na Espanha. Em seu posto como comandante da 10a Cavalaria, o jovem teve papel decisivo na vitória, o que lhe valeu a atenção do tio-avô. Na volta para Roma, César ensinou-lhe os caminhos da política e do populismo. Em pouco tempo, Otávio foi enviado à Macedônia para continuar seus estudos. César adotou oficialmente o jovem e ambos iriam partir em campanha contra o Império Persa. Mesmo nunca tendo ocupado nenhum cargo público e ainda com menos de 20 anos, Otávio já tinha assegurado a segunda maior posição em Roma.

Com a morte de Júlio César em março de 44 a.C, Otávio voltou da Macedônia para garantir sua herança: três quartos das posses de César. Mas haveria mais, caso ele conseguisse a simpatia do povo e das legiões. O processo de aproximação ao poder foi tenso, com Marco António tentando ignorar a presença de Otávio em Roma. A partir de abril, Otávio passou a usar o nome Gaius Julius Caesar. No mesmo ano, ele ainda descobriu que sua amada, Livia Drusilla, havia se casado com Tiberius Nero, com quem teria um filho, Tiberius.

O Senado pendeu para o lado de Otávio, acreditando que o jovem seria facilmente manipulado. Para os senadores, o verdadeiro perigo para a República era Marco António e, embora ele e Lepidus estivessem reunindo legiões na Espanha enquanto Agrippa e Maecenas, amigos de Otávio, reuniam tropas na Macedônia, a guerra não era de interesse de ninguém.

O Segundo Triunvirato dividiu os territórios romanos entre Otávio, Marco António e Lepidus, dando aos três o status de ditadores e poder para sobrepujar o Senado a qualquer momento. Como prova de poder, o trio promoveu um expurgo, votando pela volta das temidas proscrições, assinando a sentença de morte de 300 senadores e milhares de outros cidadãos por motivos que iam de oposição política a simples confisco das posses dos condenados. O golpe final foi a morte de Brutus e Cassius, assassinos de César, nas batalhas de Philipi. A derrota deles foi o último suspiro da República Romana.

Em Roma, Lepidus usou seu cargo como Pontifex Maximus para declarar Júlio César um deus, o que levou Otávio a se auto-intitular “O Filho de Deus”. Os ânimos entre Marco António e Otávio eram apaziguados por Lepidus. Mesmo em meio a disputas entre os membros do Triunvirato e elementos externos, como Sextus Rompeu, e a preparação da campanha contra os persas, a reputação de Otávio era cada vez maior. Seu primeiro golpe contra o Triunvirato foi no elo mais fraco. Após a vitória sobre as forças navais de Sextus e a tomada da Sicília, Lepidus tentou assimilar as forças vencidas. Para Otávio, essa foi a deixa para destituí-lo do poder e tomar suas 18 legiões.

Na Roma Antiga, o termo latino Pontifex Maximus (“Sumo Pontífice”) designava o sumo sacerdote do colégio dos Pontífices, a mais alta dignidade na religião romana. Até 254 a.C., quando um plebeu foi designado para o cargo, somente patrícios podiam ocupá-lo. De início um posto religioso durante a República, foi gradualmente politizado até ser incorporado pelo imperador, a partir de César Augusto.

Cônsul (do latim consule) era o magistrado supremo na república romana. Na república romana, em número de dois, os cônsules eram os mais importantes magistrados; comandavam o exército, convocavam o Senado, presidiam os cultos públicos e, em épocas de “calamidade pública” (derrotas militares, revoltas dos plebeus ou catástrofes), indicavam o ditador que seria referendado pelo Senado e teria poderes absolutos por seis meses.Durante o Império Romano, o consulado, despido de poderes reais, tornou-se uma magistratura puramente honorífica e que exigia gastos enormes na realização de jogos, mas ainda abria caminho para certos cargos efetivos, como o exercício de certos governos provinciais (proconsulado). Com a divisão do Império, os cônsules (que continuavam a dar nome ao ano), passaram a ser cada um escolhido por um dos imperadores (o do Ocidente e do Oriente), até que Justiniano aboliu a magistratura em 541 da era cristã.  

Pax Romana, expressão latina para “a paz romana”, é o longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano. Iniciou-se quando Augusto César, em 29 a.C., declarou o fim das guerras civis e durou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180.

Em 36 a.C., vários fatores levavam a uma iminente guerra entre Marco António e Otávio. O primeiro, ainda casado com a irmã do segundo, teve um filho com Cleópatra e passou a dominar o leste romano. A idéia era colocar os herdeiros no poder, mas Otávio consolidou sua popularidade no resto dos territórios, criando uma imagem anti-romana de Marco Antônio.

Sabiamente, Otávio declarou guerra a Cleópatra, esperando que António fosse ao auxílio da amada. Ao mesmo tempo em que a guerra se anunciava e os exércitos se posicionavam, Otávio atrasava seu início manobrando a armada naval e ganhando mais apoio do Senado. Encurralado, Marco António tentou furar o bloqueio marítimo, mas foi derrotado sumariamente na Batalha de Actium. Em terra, seus exércitos se renderam. Após 20 anos de guerra civil, Otávio, finalmente, era o único soberano político de Roma.

Cleópatra VII Thea Filopator (Alexandria, Dezembro de 70 a.C. ou Janeiro de 69 a.C. – 12 de Agosto? de 30 a.C.) foi a última farani (feminino de faraó) e rainha da dinastia ptolomaica (oriunda da Macedônia) que dominou o Egito após os gregos terem invadido aquele país. Era filha de Ptolomeu XII e de mãe desconhecida. O nome Cleópatra é grego e significa “Glória do pai”; o seu nome completo, “Cleópatra Thea Filopator” significa “A Deusa Cleópatra, Amada de Seu Pai”. É uma das mulheres mais conhecidas da história da humanidade e um dos governantes mais famosos do Antigo Egipto, sendo conhecida apenas por Cleópatra, ainda que tivessem existido outras Cleópatras a precedê-la, que permanecem desconhecidas do grande público. Nunca foi a detentora única do poder no seu país – de fato co-governou sempre com um homem ao seu lado: o seu pai, o seu irmão (com quem casaria mais tarde por sugestão de Júlio César, então seu amante) e, depois, com o seu filho. Contudo, em todos estes casos, os seus companheiros eram apenas reis titularmente, mantendo ela a autoridade de fato.

Otávio percebeu que a República Romana estava no fim, mas não se deixou levar imediatamente pelas honrarias da vitória. Em um trabalho contínuo de reconstrução e confiança, serviu como cônsul de 31 a 23 a.C. No campo militar, os laços de lealdade foram reformados, com o Estado mantendo 28 legiões próprias. Em 27 a.C., ele usou uma estratégia inédita. Declarando estar disposto a se aposentar da vida pública, o povo e o Senado em coro pediram que ele reconsiderasse. Sua saída poderia causar sérios distúrbios e guerras civis. Com isso, novos poderes e um outro título foram concedidos: Augustus. Otávio passou a ser chamado de Imperator Caesar Augustus. É bom lembrar que o título “Imperator” não é o mesmo que “Imperador”. O primeiro era um título mais similar a “Comandante”. Outras honrarias sucederam-se, como Princeps, que o colocava acima de todos os cidadãos romanos e, com a morte de Lepidus, Pontifex Maximus. O poder de Augustus era supremo, com direito a veto em qualquer matéria. Em 2 a.C., Augustus também foi nomeado Pater Patríae, o Pai da Pátria, como César.

Augustus promoveu a duradoura Pax Romana por meio de um misto de prudência e audácia. O exército não era mais de propriedade privada ou sujeito a reveses políticos. O sistema tributário foi reajustado e Roma foi praticamente reformada. As artes foram privilegiadas, a moral foi resgatada e a tranqüilidade civil restaurada. O casamento de Augustus com Lívia durou 52 anos e seu sucessor seria Tiberius. Ele regeu Roma e o Império por mais de 40 anos e, apesar de alguns tropeços econômicos, elevou a prosperidade e manteve a paz como nenhum outro antes ou depois dele.

Augustus e Lívia não tiveram filhos. Do primeiro casamento, ela trouxe Tibério, que foi adotado por Augustus. O rapaz, então, unia duas das mais tradicionais famílias patrícias: Júlia e Cláudia. Os sucessores imediatos de Tibério teriam o nome dos dois clãs, com Calígula (37-41) e Nero (54-68), filhos do primeiro casamento de Julia Caesaris com Nero Claudius Drusus, irmão de Tibério; e Claudius (41-54), filho de Octavia, irmã de Augustus. A dinastia Júlio-claudiana regeu o Império Romano de 27 a.C. a 68.

A DINASTIA JÚLIO-CLAUDIANA

TIBÉRIO (14-37)

Tibério, o perturbado.

Tibério, o perturbado.

Tiberius Claudius Nero nasceu em 16 de novembro de 42 a.C., filho de Tibério Nero e Livia Drusilla. De família tradicional e rica, o futuro de Tibério já estava aliado à vida pública. Quando o garoto tinha apenas 3 anos, sua mãe divorciou-se e casou-se com Augustus, uma paixão antiga. Tibério foi adotado e tornou-se herdeiro do Império Romano. Desde cedo; Augustus impeliu o jovem a posicionamentos e cargos públicos de importância, como na Batalha de Actium, na campanha contra os persas; o questorado aos 17 anos; e o consulado 5 anos antes da idade permitida.

Ao retornar do Oriente, foi eleito cônsul, em 13 a.C. e casou-se com Vipsania Agrippina, filha de Marcus Vipsanius Agrippa, aliado de longa data de Augustus. O casamento, assim como o de sua mãe com Augustus, era baseado em afeto e não só em interesses futuros. Mas, quando Marcus Agrippa morreu, em 12 a.C., Tibério foi obrigado por Augustus a tomar a viúva Julia Caesaris como esposa, em uma união sem amor. As campanhas de Tibério ao lado de seu irmão Nero Claudius Drusus nos Alpes foram bem-sucedidas. Entre 12 e 6 a.C., Tibério comandou as forças de expansão, principalmente na Germânia. Apesar de vitoriosas, as campanhas dele tinham um ranso de tristeza.

Os eventos levavam Tibério cada vez mais ao centro do poder. Se antes da morte de Agrippa, o jovem já era cotado como sucessor de Augustus, naquele momento, casado com Julia, a sucessão era certa. Para surpresa geral, Tibério retirou-se para a ilha de Rodes em 6 a.C., quase como um auto-exílio. Essa atitude colocou-o em desgraça perante Augustus, que, após isso, nunca mais teve o mesmo carinho pelo enteado. É possível que Tibério só tenha escapado de uma execução sumária por conta de sua mãe. Mesmo aceitando-o novamente em Roma, Augustus não planejava mais que Tibério fosse seu sucessor, confiando muito mais nos filhos de Agrippa, Lucius e Gaius Caesar. Mas Lucius morreu em Massilia e, logo em seguida, Gaius Caesar foi ferido mortalmente em combate. Tibério voltou a ser o único nome disponível, mas Augustus não queria dar chance ao destino e adotou também Postumus Agrippa, o último filho de Agrippa, e forçou Tibério a adotar Germanicus. Assim, o Principado estaria assegurado e, talvez, novas tragédias não destruíssem toda a linha sucessória de Augustus.

Por dez anos, Tibério foi o braço direito de Augustus. A morte do soberano em 19 de agosto do ano 14 não foi surpresa e a posse de Tibério, apenas uma conseqüência prevista. O engajamento do novo governante de Roma não podia ser mais insólito. Sendo esta a primeira sucessão após a queda da República, ninguém parecia ter muita certeza de como proceder. Tibério atendeu às solenidades de deificação de Augustus e outras, onde o Senado lhe ofereceu as honrarias devidas a um sucessor de Augustus. Não se sabe se Tibério tentou imitar o padrasto, mas o fato é que o novo soberano refutou algumas das honrarias, como a Pater Patriae e as responsabilidades do principado.

O Senado, sem saber como proceder, tentou contornar a situação enquanto em outros rincões, como as legiões em Pannonia e Germânia, levantavam-se revoltas. Tibério enviou seus dois filhos, Drusus e Germanicus, para resolver os problemas. As legiões pediam a queda de Tibério e a posse de Germanicus, que precisou de muita dissuasão política para contornar a situação. Em um plano mais geral, os primeiros anos de Tibério como regente foram pacíficos. O novo imperador seguiu os passos de Augustus, assegurando os poderes de Roma, expandindo o Império e atendendo aos desígnios do povo e do Senado. Para a população, Germanicus era o melhor sucessor possível, e Tibério parecia concordar, dando glórias e novos postos de comando para o sobrinho em detrimento do filho, Drusus. Mesmo com o apoio explícito a Germanicus, Tibério foi acusado da morte do jovem. Porém, os fatos nunca foram provados.

A partir daí, Tibério desenvolveu uma paranóia constante que o levou à reclusão. Em muito, o mentor desse afastamento foi Lucius Aelius Sejanus, chefe da Guarda Pretoriana, que alimentou Tibério com teorias conspiratórias cada vez mais complexas. É provável que Sejanus tenha planejado a morte de Drusus em 23 e que isso tenha sido o começo do fim da linhagem Júlio-claudiana. O soberano, bastante manipulado por Sejanus, permitiu que o amigo ganhasse cada vez mais terreno na política.

Tibério, que nunca havia demonstrado sede pelo poder, preferiu retirar-se da vida pública em 26, isolando-se na Ilha de Capri e deixando o posto temporariamente nas mãos gananciosas de Sejanus. Enquanto isso, Agrippina, viúva de Germanicus e neta de Augustus, tentava fortalecer seus filhos (Calígula, Nero e Drusus) como sucessores e fazer frente ao usurpador Sejanus.

A ausência de Tibério quase determinou o fim da linhagem Júlio-claudiana. Drusus, Agrippina e Nero Caesar morreram coagidos ao suicídio ou de fome, exilados. Sejanus controlava o acesso do Senado a Tibério em Capri, onde o jovem Calígula lhe fazia companhia. Tibério promovia uma caça às bruxas por toda a cidade de Roma, compelido apenas pelas acusações de Sejanus. O poder de Sejanus e sua manipulação política quase fizeram Tibério nomeá-lo tribuno e co-imperador, mas Antonia Minor, a cunhada viúva de Tibério, despertou o Imperador sonolento em 31, com uma carta denunciando Sejanus. O impostor foi executado antes do final daquele ano. Um expurgo seguiu-se, amplificado pela paranóia de Tibério.

Nos anos finais do reinado de Tibério, foram eliminados vários traidores, fossem eles culpados ou não. Tibério nunca mais pisaria em Roma nos últimos 23 anos de regência e muitos de seus atos seriam descritos depois por historiadores como pífios. Ultimamente, Tibério tem sido resgatado como um regente satisfatório que deu prosseguimento aos desígnios de Augustus, entre eles a não-expansão e a continuidade da Pax Romana. Ele deixou clara sua vontade de que o Império fosse regido em conjunto por seu sobrinho Calígula e seu neto Gemellus.

CALÍGULA (37-41)

Caligula, o depravado

Calígula, o depravado

Nascido em 31 de agosto de 12, Gaius Julius Caesar Germanicus, ou Calígula, representou o ápice do desleixo com o Império Romano. Enquanto para Augustus era importante manter uma ilusão de que a República ainda tinha certo poder, Tíbério, ao deixar Sejanus subir tanto, foi obrigado a mostrar que seu posto era absoluto para abafar as conspirações.

Outro ponto negativo de Tibério, que despontou explicitamente em Calígula, foi a falta de preparo dos sucessores. O principado, cuidadosamente elaborado por Augustus, preparando os próximos soberanos de Roma, foi relegado ao segundo plano na regência de Tibério, trazendo péssimas conseqüências futuras. A falta de habilidade para governar ficou evidente já nos primeiros anos de Calígula como regente. Ainda garoto, era chamado de “botinhas” pelos legionários acampados na Germânia, que o tinham como mascote. O apelido vinha de seu costume de andar fantasiado de legionário desde criança. Calígula, em latim, significa “pequenas botas do soldado”.

Os curtos quatro anos de Calígula no poder foram documentados e mostram, principalmente, caprichos e sandices que o fizeram conhecido como um completo déspota. Cruel e indigno de confiança, colocou Roma em um período de promiscuidade e desmando, mantendo casos amorosos com suas próprias irmãs e deixando as legiões romanas em maus lençóis. Em uma invasão à Bretanha, mudou de idéia na última hora e ordenou que seus legionários “atacassem o mar” e colhessem conchas nas praias da França. As conchas foram levadas para Roma como saques de guerra.

Após a morte de Tibério, Calígula começou a praticar cada vez mais loucuras. Um de seus primeiros atos foi ordenar a morte do primo Tibério Gemellus, seu co-regente. Aos olhos do público, Calígula era um bom imperador, cancelando os exílios e processos de traição instaurados por seu avô, ajudando endividados pelas taxas e sendo um sucessor direto de Augustus e Julius Caesar, filho do bem-amado Germanicus.

As fontes históricas divergem sobre os motivos da loucura de Calígula, colocando em pauta um sem-número de incongruências autocráticas promovidas por ele. A mais conhecida talvez seja a idéia de fazer seu cavalo um membro do Senado e, depois, cônsul. Assim como Tibério, as fontes históricas são escassas, e todas são unânimes em evidenciar a inteligência ímpar do jovem imperador. Para historiadores modernos, Calígula pode não ter enlouquecido, mas perdido o controle sobre seus atos de forma sarcástica. Como um jovem com todo o poder disponível em suas mãos. Talvez tenha deixado seu bom humor reger, clamando para que as classes abaixo dele percebessem a insensatez de depositar tanto poder em apenas uma pessoa.

Os atos incontroláveis dele revelaram a verdade que ainda estava escondida sob o reinado de Tibério: Augusto havia instaurado uma monarquia autocrática, em que o soberano do Império tinha plenos poderes. Para a aristocracia, esse tipo de atitude era imperdoável e extremamente perigosa. A única forma de parar os abusos de um imperador romano seria seu assassinato, coisa que se tornaria praxe depois de Calígula. A vida pregressa de Calígula pode tê-lo ensinado a ver além dos padrões normais, e não foi por acaso que ele foi o único da linhagem a sobreviver. Por isso, sua visão para conspirações era um misto de paranóia e esperteza. O comandante das legiões na Germânia, Gnaeus Lentulus Gaetilicus foi descoberto quando ainda esboçava um motim das legiões contra o imperador. Até então, ninguém sabia ao certo porque o governante fez questão de se deslocar pessoalmente para o norte.

Calígula morreu aos 28 anos, assassinado por Cassius Chaerea, um antigo oficial que servira Germanicus. As razões são obscuras, mas parecem puramente pessoais. A esposa Caesonia e a filha Julia Drusilla também foram assassinadas. Ainda há suspeitas de que Cláudio, o sucessor, tenha desempenhado algum papel na morte do sobrinho. Fato é que Chaerea era oficial da Guarda Pretoriana e que Claudius foi nomeado imperador pela própria Guarda.

CLÁUDIO (41-54)

Cláudio, o "deformado"

Cláudio, o deformado

Nascido Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus, Cláudio mudou seu nome para Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus quando assumiu o posto de quarto imperador de Roma. Era um figura ímpar. Gago e coxo desde a infância, a família tentava ao máximo deixá-lo à margem da vida pública. Mas ele foi alçado ao posto de cônsul por Calígula em 37, talvez em mais um sinal de deboche ao Império.

A reclusão favoreceu o lado intelectual de Cláudio, que se tornou um grande historiador. Escreveu 43 livros sobre o Império Romano, 20 sobre o Império Etrusco e outros 8 sobre os cartagineses. O valor real desse esforço nunca poderá ser medido, pois as obras foram perdidas. A falta de sucessores e o torvelinho em que se encontrava a nobreza romana à época levaram Cláudio ao poder. Com a morte de Calígula, assassinado por um membro da Guarda Pretoriana, o Senado ficou de mãos atadas quando a própria Guarda proclamou Cláudio imperador. Essa entrada, por assim dizer, forcada, fez com que o novo imperador não fosse visto com bons olhos por todos.

Esperava-se uma performance pífia e bondosa de Cláudio, mas sua passagem pelo poder teve grandes vitórias. A mais expressiva foi a tomada final da Bretanha em 47, após décadas de combate, domínio romano na ilha duraria mais 350 anos. Cláudio foi o primeiro imperador romano a receber o título de Caesar. Como o título “Imperador” é uma invenção prática de tempos mais contemporâneos, até a ocasião o soberano de Roma era chamado pelo nome ou por um de seus títulos (Pater Patríae, por exemplo). César transformou-se em um título pelo qual os mais altos comandantes da nação romana passaram a ser chamados desde então. Cláudio morreu naturalmente aos 64 anos.

NERO (54-69)

Nero, o louco

Nero, o louco

Lucius Domitius Ahenobarbus nasceu em 15 de dezembro de 37, filho de Agrippina, a Jovem, irmã de Calígula, e Gnaeus Domitius Ahenobarbus. Agrippina casaria-se depois com seu tio Cláudio. Adotando o nome de Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus e mais conhecido como Nero, foi o último membro da dinastia Júlio-claudiana. Sua subida ao poder foi uma sucessão de desencontros e mortes prematuras. Quando nasceu, seu tio Calígula regia o Império aos 25 anos e não se esperava que o jovem regente morresse tão cedo, uma vez que seus antecessores haviam chegado perto dos 80 anos.

Segundo historiadores, como Suetonius e Tacitus, as relações íntimas entre Calígula e suas irmãs Drusilla, Agrippina e Julia Livilla, assegurariam a sucessão de seus próprios filhos. Os outros concorrentes ao posto de Augusto eram seus tios por parte de mãe. Com Calígula morrendo sem deixar filhos e expurgando suas irmãs traidoras e outros próximos ao trono, o caminho para Lucius estava aberto. Cláudio trouxe Agrippina e Livilla de volta do exílio, casou-se com a primeira e adotou Lucius sob o nome de Nero Claudius Caesar Drusus.

Aos 17 anos, com a morte de Cláudio, Nero tornou-se o mais jovem imperador de Roma. Os primeiros anos de regência foram expressivos, com o rapaz tendo ao seu lado a mãe e os dois tutores, Sêneca e Burrus. Mas problemas pessoais acabaram por influenciar nos negócios de Estado. Sexo, violência e conspirações seguiram-se. Britannicus foi envenenado, Agrippina foi assassinada, Poppaea tornou-se uma amante influente e Tigellinus voltou do exílio para ser o braço direito de Nero. Sem herdeiros, Nero teve de armar uma fraude para divorciar-se de Octavía e assumir o filho de Poppaea. Em julho de 64, com sua reputação em frangalhos, Nero foi acusado pelo incêndio que consumiu Roma em uma semana.

No ano seguinte, uma conspiração armada por velhos amigos, entre eles o próprio Sêneca, foi descoberta e os envolvidos obrigados a cometer suicídio. Outras execuções sumárias seguiram-se, contribuindo para o dissabor do povo, dos militares e dos senadores. A cada ano, a situação de Nero tornava-se menos sustentável, até que revoltas e motins em territórios, como o Egito, levaram o Senado a depor Nero, que cometeu suicídio em 9 de junho de 68. A balbúrdia iniciada por Nero e a falta de sucessores levaram Roma a outra guerra civil, quando em um período de menos de um ano sucederam-se quatro imperadores.

CRISE: QUATRO IMPERADORES EM UM ANO!

O novo sistema de governo romano já demonstrava sinais de fragilidade desde a subida de Tibério ao poder. A negligência com o Principado e outros preparativos para a sucessão apenas aceleraram o fim da dinastia Júlio-claudiana e, em 68, com o suicídio de Nero, seguiu-se uma guerra civil. A transição da dinastia anterior para a Flaviana foi confusa e teve 3 imperadores nesse hiato, até a posse de Vespasiano. Entre junho de 68 e dezembro de 69, Roma viu três imperadores ambiciosos subirem ao poder para serem depostos ou assassinados logo em seguida. Galba, Otho e Vitellius tentaram assumir o posto máximo, mas o futuro estava nas mãos dos bondosos imperadores flavianos.

Galba, um imperador breve e instável

Galba, um imperador breve e instável

Os reais problemas começaram enquanto Nero ainda estava vivo. Suas atitudes favoreceram a ambição de Caius Julius Vindex a liderar uma rebelião para colocar o governador da Hispânia Tarraconensis, Servius Sulpicius Galba, no lugar de Nero. Embora tropas fiéis a Nero na Germânia tenham enfrentado, vencido e matado Vindex, o destino do imperador déspota já estava selado pelo Senado. Caiba foi aclamado imperador. O revés colocou em cheque os comandos dos territórios germânicos que, de uma hora para outra, tornaram-se traidores. Rufus, o comandante da legião germânica, foi retirado do cargo. A situação na Germânia tornou-se insustentável em pouco tempo e mesmo o novo governador Aulus Vitellius, aliado de Galba, não pôde conter a rebelião na Batávia.

Vitélio, derrotado por uma conspiração

Vitélio, autoritarismo derrotado

Em Roma, Galba provou sertão instável emocionalmente quanto Nero. Seus primeiros atos como soberano foram contra várias benfeitorias anteriores. Promessas não-cumpridas e extorsões rapidamente fizeram de Caiba um imperador malvisto. A rebelião das legiões germânicas culminou na aclamação de Vitellius como imperador. Quando os rumores chegaram a Roma, Galba saiu em desespero pelas ruas convocando a população para ficar a seu lado. O erro foi ter iniciado precipitadamente sua linha sucessória nomeando Lucius Calpu Piso Licianus. Com isso, Marcus Salvius Otho aliou-se à Guarda Pretoriana. Galba foi assassinado no Fórum e, no mesmo dia Otho foi proclamado imperador pelos senadores.

Otho, um reinado curto até o suicidio

Otho, um reinado curto até o suicídio

Pouco mais de três meses depois, Otho cometeu suicídio. Seu reinado foi curto porque Vitellius e as legiões da Germânia se dirigiam para Roma. Não eram apenas legiões romanas, mas as melhores e mais respeitadas de todas, com bastante poder político desde os tempos de Tibério. O máximo que Otho pôde fazer foi oferecer-se como pai adotivo de Vitellius. Otho não teve escolha a não ser acabar com a própria vida e deixar o caminho livre p novo imperador.

Em pouquíssimo tempo, Vitellius mostrou-se um completo déspota. Esbanjando as riquezas de Roma com banquetes e comemorações em sua própria homenagem, passou a perseguir qualquer um que cobrasse as despesas e, com as finanças em crise e o juízo claramente afetado, ordenou a morte de credores, de rivais potenciais ao trono e até mesmo de pessoas que haviam colocado o nome do imperador em seus testamentos.

Com tanto desmando em um tempo de delicado equilíbrio político, não demorou para que revoltas se consumassem, principalmente na Judéia, onde Vespasiano foi declarado imperador pelas legiões do Oriente Médio. As legiões do Danúbio tomaram o partido de Vespasiano e marcharam em direção à Itália, cercando a cidade. Vespasiano tomou a Síria e trouxe o Egito para o seu lado. Vitellius foi assassinado e Vespasiano nomeado imperador pelo Senado no dia seguinte, 21 de dezembro de 69.

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Os Hebreus

outubro 2, 2008

Segundo alguns pensadores, as religiões seriam uma tentativa de se encontrarem respostas para certas indagações que a razão humana não conseguia explicar. Assim, os deuses teriam sido criados pela imaginação humana para explicar fenômenos como o nascer do Sol, o aparecimento de uma estrela cadente, a queda de um raio, as doenças, o nascimento e a morte, etc. Com o tempo, uma divindade teria se destacado entre as outras e passado a ser considerada uma espécie de rei dos deuses, criador de todas as coisas. Esse processo teria levado a humanidade em direção ao monoteísmo. No Egito, por exemplo, no século XIV a.C., o faraó Amenófis IV tentou implantar o culto a um único deus, Aton, mas fracassou. Após sua morte, os egípcios retornaram ao politeísmo. Seja como for, a crença em um Deus único e universal só se concretizou de fato entre os hebreus, povo nômade que, há milhares de anos, disputava com outras tribos do deserto poços de água e terras de pastagem no Oriente Médio.

Os hebreus são um grupo que tem sua origem lingüística na Mesopotâmia. O hebraico falado por eles era uma língua semita, assim como as línguas de outros povos mesopotâmicos. Sua história é narrada sem precisão científica no Velho Testamento, um dos livros que compõem a Bíblia. O primeiro registro não bíblico de sua existência foi encontrado no Egito e é datado de cerca de 1220 a.C. Tra¬ta-se de um relato sobre a relação de dominação exercida sobre eles pelo faraó Mineptah. Documentos históricos e descobertas arqueológicas comprovam a presença dos hebreus na Palestina somente a partir de 1230 a.C. Essa data contraria as informações da Bíblia, segundo a qual eles já estariam estabelecidos em solo palestino dois séculos antes. Quando os hebreus se estabeleceram na Palestina, sua organização social baseava-se em um sistema comunitário, sem forma definida de governo. Os líderes surgiam apenas em momentos de maior necessidade, como durante as guerras. Na falta de uma centralização política e administrativa, cabia a um conselho de anciães, liderado por um juiz, orientar e aconselhar a população em questões es¬pecíficas. Os juízes eram chefes militares com autoridade religiosa. Na tentativa de unificar as tribos hebraicas, eles passaram a difundir entre a população a idéia de que os hebreus eram um povo único, escolhido por Deus em meio a tantos outros. Para criar esse sentimento de identidade, os juízes afirmavam que os hebreus eram descendentes diretos do patriarca Abraão – aquele que, segundo a Bíblia, teria conduzido os hebreus de Ur, na Mesopotâmia, à Terra prometida, na Palestina. Eles também exortavam a população a abandonar seus antigos hábitos politeístas. Tudo isso contribuiu para o nascimento do judaísmo, religião monoteísta que se tornaria a base de outras crenças monoteístas surgidas mais tarde, como o cristianismo e o islamismo.

Por volta de 1010 a.C. os hebreus unificaram suas tribos e formaram o reino de Israel, do qual o primeiro rei foi Saul. Coube a seu sucessor, Davi (1006-966 a.C.), a tarefa de expulsar da Palestina um dos povos rivais: os filisteus. Após escolher Jerusalém – cidade que já existia – para capital do reino, Davi dividiu Israel em doze províncias ou tribos. 3om Salomão (966-926 a.C.), filho de Davi, o reino de Israel conheceu sua fase de esplendor e de centralização religiosa. É dessa época a construção do Templo de Jerusalém. Com a morte de Salomão, o reino entrou em convulsão e dividiu-se entre o reino de Israel (reunindo as dez tribos do norte) e o reino de Judá (formado pelas duas tribos do sul). Em 722 a.C. o reino de Israel foi dominado pelos assírios, que levaram muitos hebreus como escravos para seu território. Em 587 a.C. Nabucodonosor, rei dos babilônicos, conquistou Judá, destruiu o Templo de Jerusalém e escravizou muitos de seus habitantes, levando-os para a Babilônia. Em 539 a.C. Ciro I, o Grande, rei da Pérsia, conquistou a Mesopotâmia e permitiu que os hebreus retornassem à Palestina, onde viveriam em liberdade desde que lhe pagassem tributos. Posteriormente, a região da Palestina foi dominada pelos gregos e depois pelos romanos. Em razão da violência imposta por estes últimos, os hebreus dispersaram-se por vários lugares do mundo na chamada Diáspora. Essa dispersão duraria cerca de 2 mil anos. Mesmo vivendo separados uns dos outros, sem governo e sem território próprios até 1948, quando a ONU criou o Estado de Israel, os judeus mantiveram vivo o sentimento de identidade nacional e religiosa. Esse sentimento de pertencer a uma única nação só foi possível em razão de sua forte crença religiosa e do fato de acreditarem que a Palestina estava destinada a eles por vontade divina.

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Os Persas

outubro 2, 2008

As origens da antiga Pérsia remontam a 2000 a.C., guando tribos nômades originárias da Ásia central e da Rússia atual instalaram-se no planalto iraniano. Entre estas tribos estavam os medos e os persas.Os medos se estabeleceram no oeste e no noroeste do planalto, nas proximidades da atual cidade de Teerã, capital do Irã. Já as tribos persas se fixaram no sudoeste do planalto. Por volta do século VII a.C. os medos foram unificados por Déjoces, que se tornou rei. Coube a seu neto Caixares a tarefa de consolidar o Império Medo. Graças a um exército composto de soldados disciplinados desde a infância, Ciaxares dominou os persas e outros povos, que passaram a lhe pagar tributos. Com a morte de Ciaxares, o trono dos medos passou a ser ocupado por seu filho Astíages. Este, por sua vez, promoveu o casamento de uma de suas filhas com o principal líder persa. Dessa união nasceu Ciro. Em 559 a.C. Ciro assumiu o lugar de seu pai e unificou as várias tribos persas. Temeroso de perder o poder, em 550 a.C. Astíages lançou seu exército contra Ciro na região conhecida como Pasárgada, mas foi der rotado. Com a vitória, Ciro incorporou o reino dos medos ao território persa, dando início à dinastia dos Aquemênidas – nome do clã de seu pai. Grande estrategista militar, Ciro ampliou o território persa após a submissão dos medos e o transformou em um grande império. Por causa dessas conquistas, Ciro ficou conhecido como o Grande.

Após a morte de Ciro e algumas disputas internas, um líder chamado Dario assumiu o poder em 522 a.C. Além de recuperar domínios perdidos, Dario expandiu o Império Persa, no qual passaram a viver cerca de 10 milhões de pessoas de idiomas, costumes e religiões diferentes. Para controlar toda essa população, Dario estabeleceu um sistema unificado de impostos, um código de leis, um sistema monetário único e uma excelente rede de estradas e correios que interligavam as várias regiões do império. Mas Dario também conheceu derrotas, principalmente a partir de 514 a.C., época em que resolveu direcionar suas conquistas para a Europa. Nessa empreitada, os persas foram vencidos pelas cidades-Estado gregas nas Guerras Médicas, ou Greco-Pérsicas. Com a derrota persa, as cidades gregas tornaram-se a principais força do Mediterrâneo oriental. Em 331 a.C. o rei da Macedônia, Alexandre, o Grande, que já dominava a Grécia, derrotou Dario III e conquistou Império Persa, pondo fim à dinastia Aquemênida. Em 642 a Pérsia foi conquistada pelos árabes e quase toda a sua população se converteu ao islamismo. No século XI a região foi invadida pelos turcos e, no século XIII pelos mongóis. Posteriormente, voltou a ser governada por dinastias de origem persa. Em 1935 o país passou a se chamar Irã.

O rei Dario I

Os persas deixaram um grande legado aos diversos povos e religiões posteriores a eles. As idéias relacionadas ao juízo final, ao paraíso e à oposição entre o Bem e o Mal presentes no cristianismo, por exemplo, têm como origem o zoroastrismo, a religião persa. Os fundamentos dessa religião estão registrados no Zend-Avesta,obra escrita por Zoroastro (628-551 a.C.),também conhecido como Zaratustra. Oficialmente, apenas o grande deus Ahura-Mazdâ -simbolizado pela luz e pela pureza do fogo era adorado. A população, porém, cultuava divindades que personificavam as forças do Bem em permanente luta contra as trevas e os demônios. Acreditava que quem combatesse as forças do Mal alcançaria a felicidade e a vida eterna.

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Os Fenícios

outubro 2, 2008

O Líbano é uma nação do continente asiático encravada entre a Síria, Israel e o mar Mediterrâneo. Com uma área de 10 mil quilômetros quadrados, seu território é formado por um pequeno e fértil planalto ao centro, cercado por duas cadeias de montanhas. Por volta de 3000 a.C. estabeleceram-se ali povos de origem semita que se autodenominavam cananeus, uma vez que a região era conhecida pelo nome de Canaã. Os cananeus construíram seus aldeamentos sobretudo às margens do Mediterrâneo. Com grande atividade comercial, esse povoamento deu origem a diversas cidades portuárias, como Biblos, Ugarit e Tiro. Embora as cidades tivessem idioma e hábitos culturais semelhantes, não estavam unificadas em torno de um único reino. Eram cidades-Estado. Tinham, portanto, autonomia política e administrativa. De modo geral, eram governadas por monarcas, em torno dos quais encontravam-se a aristocracia – composta de comerciantes e proprietários de terras – e um clero poderoso. A grande massa urbana era formada por marinheiros e trabalhadores especializados em fabricar jóias, vidros, tecidos e outros produtos. A comunicação entre as diferentes cidades-Estado era feita principalmente pelo mar; com o tempo, os cananeus passaram também a estabelecer relações mercantis com outras populações mediterrâneas. Por volta de 2500 a.C. algumas cidades cananéias haviam se transformado em ponto de encontro de caravanas de mercadores vindas das mais diferentes regiões, constituindo-se em verdadeiros entrepostos comerciais. Esse foi, por exemplo, o caso de Biblos, que se tornou o principal centro distribuidor do papiro fabricado no Egito.

Os cananeus se destacaram também pela produção de corantes, desenvolvendo uma sofisticada técnica de tingir tecidos. Teria sido por esse motivo que os gregos chamavam Canaã de Phoenicia (púrpura), palavra da qual derivam Fenícia e fenícios. Por volta de 1200 a.C. as regiões circunvizinhas da Fenícia foram ocupadas por diversos povos, entre os quais os arameus, hebreus e filisteus. Para crescer e prosperar, restava aos fenícios somente a opção de expandir-se pelo mar Mediterrâneo. Foi o que fizeram. Entre os fatores que permitiram a expansão maríti¬ma desse povo destaca-se seu grande desenvolvimento náutico. Para garantir a segurança de suas embarcações, elas eram escoltadas por barcos de guerra que levavam na proa um aríete de madeira e bronze utilizado para perfurar os barcos piratas. Os fenícios conheciam também as correntes marítimas, o vôo das aves migratórias, a migração de alguns peixes e os ventos de cada região. De posse dessas informações, eles podiam afastar-se cada vez mais de seu litoral e atingir regiões longínquas. Segundo antigos relatos, no século VIII a.C. os fenícios teriam realizado uma proeza que só seria repetida pelos portugueses mais de 2 mil anos depois: a circunavegação da África.

Os fenícios obtinham grandes lucros com essas viagens. Nelas, trocavam cedro, armas, linho, pedras preciosas, artefatos de vidro, objetos de marfim e tecidos coloridos por ouro, cobre, estanho, ferro. Muitos dos lugares em que paravam para descansar ou se abastecer transformaram-se em cidades comerciais fenícias – esse foi o caso de Cirene, Lepsis, Oea (atual Trípoli), etc. A mais importante de todas, porém, foi Cartago, fundada no século IX a.C. no norte da África. Graças à estreita relação mantida com outros povos, os fenícios sofreram um crescente processo de universalização étnica e cultural. Ao mesmo tempo que se miscigenavam com habitantes de outras regiões, como os egípcios e os egeus, assimilaram aspectos culturais, artísticos e religiosos dessas sociedades. A partir do século IX a.C. a Fenícia entrou em decadência, sofrendo invasões de vários povos. Primeiro, foram os assírios. Entre os séculos VII e IV a.C. babilônicos, persas e gregos dominaram sucessivamente a região. Em 64 a.C. Roma incorporou as cidades fenícias aos seus domínios, transformando-as em parte da província da Síria. A civilização fenícia chegava ao fim, mas sua herança se perpetuaria ao longo dos séculos graças sobretudo a uma das maiores invenções da humanidade: o alfabeto.

Alfabeto fenicio

Alfabeto fenício

Por estarem intimamente voltados para o comércio, os fenícios tinham necessidade de controlar por escrito suas transações comerciais. Entretanto, as principais escritas empregadas na época – a hieroglífica e a cuneiforfe – não permitiam aos comerciantes elaborar seus próprios registros, pois seu conhecimento era monopólio de alguns escribas. Por volta de 1500 a.C. começou a tomar forma um sistema de escrita muito mais prático. Em vez das centenas de caracteres pictóricos, esse sistema utilizava apenas 29 caracteres cuneiformes; a cada um deles era atribuído um valor fonético, ou seja, cada sinal representava um som específico. Mais tarde, os fenícios reduziram esse alfabeto para 22 símbolos correspondentes às consoantes; como as vogais não eram escritas, cabia ao leitor completar as palavras de acordo com seu sentido. Para tornar a escrita ainda mais fácil, os fenícios deixaram de lado as barras de argila e passaram a registrar suas anotações em rolos de papiro. Graças a essas mudanças, saber ler e escrever deixou de ser privilégio de um pequeno círculo, tornando-se uma habilidade ao alcance de um número cada vez maior de pessoas.

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O Egito

outubro 2, 2008
Mapa do Egito

Mapa do Egito atual

A civilização egípcia antiga desenvolveu-se no nordeste africano (margens do rio Nilo) entre 3200 a.C (unificação do norte e sul) a 32 a.c (domínio romano). Como a região era desértica, o rio Nilo ganhou uma extrema importância para os egípcios. O rio era utilizado como via de transporte (através de barcos) de mercadorias e pessoas. As águas do rio Nilo também eram utilizadas para beber, pescar e fertilizar as margens, nas épocas de cheias, favorecendo a agricultura.

A sociedade egípcia estava dividida em várias camadas, sendo que o faraó era a autoridade máxima, chegando a ser considerado um deus na Terra. Por esta razão o Egito era um Estado teocrático (governo de base divina). Sacerdotes, militares e escribas (responsáveis pela escrita) também ganharam importância na sociedade. Esta era sustentada pelo trabalho e impostos pagos por camponeses, artesãos e pequenos comerciantes. Os escravos também compunham a sociedade egípcia e, geralmente, eram pessoas capturadas em guerras.Trabalhavam muito e nada recebiam por seu trabalho, apenas água e comida. A economia egípcia era baseada principalmente na agricultura que era realizada, principalmente, nas margens férteis do rio Nilo. Os egípcios também praticavam o comércio de mercadorias e o artesanato. Os trabalhadores rurais eram constantemente convocados pelo faraó para prestarem algum tipo de trabalho em obras públicas (canais de irrigação, pirâmides, templos, diques).

Aspecto da vida egipcia

Aspecto da vida egípcia

A religião egípcia era repleta de mitos e crenças interessantes. Acreditavam na existência de vários deuses (muitos deles com corpo formado por parte de ser humano e parte de animal sagrado) que interferiam na vida das pessoas. As oferendas e festas em homenagem aos deuses eram muito realizadas e tinham como objetivo agradar aos seres superiores, deixando-os felizes para que ajudassem nas guerras, colheitas e momentos da vida. Cada cidade possuía deus protetor e templos religiosos em sua homenagem. Como acreditavam na vida após a morte, mumificavam os cadáveres. Os corpos dos faraós eram colocados em tumbas monumentais, como, por exemplo as pirâmides, com o objetivo de preservar o corpo para a vida seguinte. Esta seria definida, segundo crenças egípcias, pelo deus Osíris em seu tribunal de julgamento. O coração era pesado pelo deus da morte, que mandava para uma vida na escuridão aqueles cujo órgão estava pesado (que tiveram uma vida de atitudes ruins) e para uma outra vida boa aqueles de coração leve.

Muitos animais também eram considerados sagrados pelos egípcios, de acordo com as características que apresentavam: chacal (esperteza noturna), gato (agilidade), carneiro (reprodução), jacaré (agilidade nos rios e pântanos), serpente (poder de ataque), águia (capacidade de voar), escaravelho (ligado a ressurreição). As divindades possuíam forma zoomórfica (forma animal), antropozoomófica (mistura de homens e animais), antropomófica (forma humana) ou ainda possuíam representação ligada aos astros ou formas da natureza.

A escrita egípcia também foi algo importante para este povo, pois permitiu a divulgação de idéias, comunicação e controle de impostos. Existiam duas formas de escrita: a demótica (mais simplificada) e a hieroglífica (mais complexa e formada por desenhos e símbolos). As paredes internas das pirâmides eram repletas de textos que falavam sobre a vida do faraó, rezas e mensagens para espantar possíveis saqueadores. Uma espécie de papel chamada papiro que era produzida a partir de uma planta de mesmo nome também era utilizado para escrever. A civilização egípcia destacou-se muito nas áreas de ciências. Desenvolveram conhecimentos importantes na área da matemática, usados na construção de pirâmides e templos. Na medicina, os procedimentos de mumificação, proporcionaram importantes conhecimentos sobre o funcionamento do corpo humano.

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A Mesopotâmia

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Entre os rios Tigre e Eufrates, uma planície fértil servil de abrigo para povos que passaram a habitar o território. Essa região foi chamada Mesopotâmia (“Terra entre Rios”) e dominada, sucessivamente pelos sumérios, acádios, amoritas, assírios e caldeus. Os sumérios fixaram-se no sul da Mesopotâmia aproximadamente em 3500 a.C. Agricultores e criadores de gado desenvolveram a escrita cuneiforme e os veículos sobre rodas. Exerceram influência sobre os povos que os sucederam na região e organizaram-se através de cidades-Estado independentes entre si e que rivalizavam pelo controle da região. Os desgastes e guerras entre as cidades favoreceram as invasões de povos que se estabeleceram e até dominaram áreas até então controladas pelos sumérios.

Documento mesopotâmico produzido através da técnica da escrita cuneiforme em uma chapa de argila.

Documento mesopotâmico produzido através da técnica da escrita cuneiforme em uma chapa de argila.

Por volta de 2300 a.C., os acádios dominaram os sumérios graças ao uso do arco e flecha, mas trezentos anos depois foram dominados pelos amoritas, que formaram o Antigo Império da Babilônia. Durante a existência do império ocorreu criação do primeiro código de leis escrito da História – o Código de Hamurabi. Estas leis eram baseadas no princípio conhecido como Código de Talião – através do qual um dano deve ter uma pena equivalente imposta ao seu causador. Após a more do rei Hamurabi, século VIII a.C., os amoritas foram dominados pelos assírios, que haviam desenvolvido um poderoso exército usando armas de ferro, carros de combate e aríetes. Além da Mesopotâmia, dominaram a Síria, Fenícia, Palestina e Egito. Os assírios eram conhecidos pela crueldade militar. Os principais reis deste período foram Sargão II, Senaquerib e Asurbanipal, após a morte deste último, o império entrou em decadência e enfrentou inúmeras revoltas internas. Em 612 a.C., os assírios foram vencidos por uma aliança de caldeus e medos. Os caldeus formaram o Novo Império Babilônico, reconstruindo a cidade de Babilônia. Mesmo tendo tido um importante rei como Nabucodonosor, o império durou pouco: em 539 a.C. foram vencidos pelos persas de Ciro, o Grande, que libertou os judeus do Cativeiro da Babilônia.

A economia da Mesopotâmia baseava-se principalmente da agricultura, mas os povos da região desenvolveram também a criação de gado, o artesanato, a mineração e um ativo comércio à base de trocas que se estendia à Ásia Menor, ao Egito e à Índia. Sua organização social formava uma pirâmide que tinha no topo os membros da família real, nobres, sacerdotes e militares. A base era composta por artesões, camponeses e escravos. A religião era politeísta (vários deuses) e os deuses antropomórficos (forma humana). Destaca-se o deus do Sol, Shamach; Enlil, deus do vento e das chuvas; e Ishtar, a deusa do amor e da fecundidade. Não acreditavam na vida após morte e não se preocupavam com os mortos, mas acreditavam em demônios, gênios, espíritos bons, magias e adivinhações. A importância que atribuíam aos astros levou-os a criar o zodíaco e os primeiros horóscopos.