Vlad, o Empalador: Quem foi o príncipe que inspirou Drácula?

(Representação visual gerada por IA)

O pequeno Principado da Valáquia (parte da atual Romênia) passava por uma situação crítica no século XV, pressionado pelo Império Otomano (ao sul), pelo Reino da Hungria (ao oeste) e pelo Principado da Moldávia (ao norte), todos interessados em interferir ou até mesmo dominar o território e o destino da população valaquiana. Esta situação deixava o principado em uma condição vulnerável, agravada por circunstâncias internas como a fragilidade militar pela insuficiente disponibilidade de soldados e dependência de mercenários. Além disso, a política interna e relações de poder eram tensas entre os assembleia de nobres (boiardos) e os regentes (voivoda), que dependiam da confirmação dos nobres e estavam sempre sujeitos aos golpes e contestações.

A religião era outro elemento complexo, pois predominava entre o povo a orientação cristã ortodoxa, mas os influentes saxões presentes na região da Transilvânia e os vizinhos húngaros eram católicos romanos e os dominantes otomanos eram muçulmanos. Desde o século anterior, a Valáquia era submissa aos otomanos e cumpria uma figuração de vassalagem diante do poderoso império, enquanto importantes cidades eram dominadas por outras forças estrangeiras como os saxões. Os valaquianos conseguiram manter a fidelidade ao cristianismo ortodoxo mesmo diante do poder otomano e esta posição era um importante mecanismo de resistência cultural e política, apesar dos desafios que eram impostos.

Diante deste contexto complicado, uma figura controversa marcou a história e acabou inspirando narrativas incríveis e assustadora. O príncipe Vlad Țepeș ou Vlad III, infame pelo apelido de “O Empalador”, assumiu um protagonismo que envolveu rebeldia, defesa da autonomia da Valáquia, além de tirania extrema e sangrenta. Nascido por volta de 1431 em Sighișoara, na Transilvânia, ele foi o segundo filho do príncipe governante Vlad II. Seu pai era um elevado integrante da Ordem do Dragão (Societas Draconistarum), uma organização cavalheiresca cristã criada para combater os infiéis islâmicos e ostentava o título “Dracul” (Dragão), inspirado o filho a assinar como Drăculea (“filho do Dragão”), o que originou o famigerado apelido de Drácula.

Aos 11 ou 12 anos de idade, o jovem Vlad e seu irmão Radu, o Belo, foram entregues pelo próprio pai como reféns do sultão otomano Murad II, o que era uma prática para garantir lealdade e submissão. Apesar da condição, os irmãos foram tratados como nobres e receberam instrução sofisticada. A vida na corte conquistou Radu, que assimilou a cultura otomana e se aproximou da família real, tornando-se amigo do futuro sultão Mehmed II. Quanto a Vlad, a situação foi muito diferente, pois ele se sentia um prisioneiro e nutriu um verdadeiro ódio dos otomanos.

Em 1448, após a morte de seu pai, seguida da morte de seu irmão mais velho, Mircea II, os próprios otomanos apoiaram sua coroação diante da condição de que ele mantivesse sua submissão. Sua primeira passagem pelo poder foi curta, pois o inexperiente príncipe de 17 anos foi deposto após 2 meses por Vladislav II, aliado da Hungria. Depois de derrubado, Vlad foi para o exílio e iniciou sua luta para reconquistar o seu lugar de direito.

Vlad se exilou na Moldávia sob a proteção Bogdan II e mesmo suportando a revolta da situação, ele aproveitou para adquirir experiência militar participando de batalhas contra poloneses e tártaros, aprendendo bastante sobre táticas de combate, comando de cavalaria e o uso do terror como forma de domínio. O príncipe exilado precisou fugir de seu abrigo em 1451, quando seu anfitrião foi assassinado durante um golpe político e passou a servir na frente contra os otomanos na Transilvânia. Ele ficou sob o comando de um antigo inimigo de seu pai, o príncipe húngaro János Hunyadi, conhecido como “O Caçador de Turcos”, e acabou sendo reconhecido como conselheiro e comandante pelo inimigo de sua família. Vlad demonstrou grande capacidade como estrategista, acumulou experiência diplomática e atuou em nome de sua própria ambição de voltar ao poder. Após a deposição e morte de Hunyadi, vítima de um golpe político, ele aproveitou a situação para engajar os derrotados em favor de sua causa, formando um exército de mercenários húngaros e partidários valaquianos leais. Com a força necessária, Vlad retornou ao poder em 1456 depois de derrotar e executar Vladislav II.

O segundo governo de Vlad III Drácula foi drástico e ele imprimiu um estilo tirânico para impor sua autoridade. Os boiardos que assassinaram Vlad II e Mircea II foram suas primeiras vítimas e num ato premeditado o príncipe vingativo promoveu um banquete utilizado como pretexto para realizar o massacre dos nobres, executando os adultos por empalamento ou decapitação e escravizando as crianças. Depois ele se voltou contra os saxões na Transilvânia, destruindo vidas e arruinando as estruturas produtivas que bancavam o poder de seus adversários. Sua política interna era baseada em leis severas que puniam com empalamento até os crimes leves e as perseguições aos críticos era extremamente violenta e assassina. No plano externo, ele resolveu romper com a vassalagem imposta pelo Império Otomano, negando-se a pagar tributos e atacando guarnições otomanas ao longo do rio Danúbio. Sua guerra de terror psicológico foi tão sinistra que ele ordenou a realização de cerca de 20 mil empalamentos só para impressionar os inimigos, o que teria levado o sultão Mehmed II a declarar que era impossível derrotar um oponente capaz de fazer aquilo com seu próprio povo.

Apesar de silenciar inimigos, a política de terror também afastou muitos apoiadores. Uma campanha clandestina começou a circular através da distribuição de panfletos denunciando sua reputação sanguinária e retratando Vlad como um monstro que se deleitava com as mortes que provocava. O material difamador acusava Drácula de ordenar assassinatos de mulheres grávidas, empalamentos de crianças, de apreciar refeições em seu castelo sombrio nas montanhas diante de estacas com os cadáveres de opositores e inimigos de guerra, mergulhando pão no sangue de vítimas antes de degustar a iguaria macabra. O golpe veio de uma conspiração liderada por seu próprio irmão Radu, aliado do sultão otomano e suportado por boiardos remanescentes. Em 1462, o exército comandado por Radu conseguiu derrotar as defesas de Vlad, que tentou fugir novamente e acabou detido pelo rei Matias Corvino ou Matias I da Hungria.

O soberano húngaro usou acusações forjadas de apoio aos otomanos contra Vlad para justificar a prisão, além de aproveitar o controle sobre o príncipe valaquiano como trunfo político em sua estratégia diplomática de evitar ou retardar uma guerra total contra os oponentes muçulmanos. O prisioneiro passou pelo menos três anos numa masmorra até sua situação aliviar e receber o direito de ficar em uma confortável prisão domiciliar em Pest (atual Budapeste), onde chegou a se casar com Ilona Szilágyi, membro da família real húngara, num matrimônio com a finalidade política de promover uma aliança com o próprio Matias Corvino, que tinha planos de interferir na situação da Valáquia. Após pressões de Estevão, o Grande, príncipe da Moldávia, Vlad foi finalmente libertado de seu cativeiro porque suas habilidades ainda eram consideradas importantes para lidar com a ameaça otomana.

Com apoio húngaro e moldavo, Vlad voltou a comandar um exército para derrotar Basarab Laiotă, um governante fantoche dos otomanos, e retomar o poder sobre a Valáquia pela terceira vez em novembro de 1476. As condições eram muito desfavoráveis porque ele assumiu um país dividido e em guerra. Os boiardos continuavam sendo seus inimigos e rejeitavam seu retorno, então o ambiente de conspiração era claro. Sua volta ao poder foi breve e Vlad III morreu em combate nos arredores de Bucareste defendendo seus domínios. Um ato de traição pode ter facilitado o ataque final. Sua cabeça foi enviada a Mehmed II como troféu, e seu corpo foi enterrado – embora escavações arqueológicas não tenham localizado seus restos mortais no lugar indicado, o que aumenta o tom de mistério em torno de sua figura. Após a morte de Vlad III Drácula, o poder da Valáquia voltou ao domínio de seus inimigos até que seu único filho conhecido, Mihnea I, o Mau, assumisse o trono em 1508.

A reputação sangrenta de Vlad, o Empalador, continuou aterrorizando postumamente e os panfletos denunciando suas atrocidades permaneceram populares entre leitores escandalizados. Seus defensores, que achavam que Vlad foi um herói que lutou pela libertação da Valáquia, cultivaram a crença de que ele realmente não morreu e que voltaria para continuar sua luta para proteger a Valáquia, dando origem a narrativas que até alegavam sua imortalidade, mas a associação de seu nome a um monstro vampiresco ainda demorou a ser formada.

O escritor irlandês Bram Stoker descobriu o nome “Drácula” e achou interessante para desenvolver sua ideia criativa de desenvolver uma história de terror. Ele usou o nome para identificar o personagem de sua obra famosa e elaborou uma ambientação de sua narrativa na Transilvânia, mas seu texto não apresentou referências óbvias nem continha aspectos da biografia de Vlad. Stoker recorreu a elementos do folclore balcânico como a figura sinistra do strigoi (morto-vivo que suga sangue) e concebeu um misterioso nobre que vivia em um castelo sombrio. A obra foi publicada em 1897 e fez sucesso entre os admiradores da literatura que explorava o terror e variadas referências que perturbavam a sociedade. O livro de Stoker não foi o primeiro a explorar o universo macabro do vampirismo, pois a obra “Carmilla”, de Joseph Sheridan Le Fanu, é anterior, sendo publicada em 1871, contudo, impulsionou ainda mais o interesse sobre o universo do vampirismo. Novas adaptações foram produzidas e o cinema ajudou a criar referências visuais sobre a criatura.

A associação entre o tirânico príncipe da Valáquia e o vampirismo só começou a ser estabelecida na década de 1970, quando pesquisadores acadêmicos como Radu Florescu e Raymond T. McNally concluíram que Stoker realmente se inspirou em Vlad III. Tal ideia acabou sendo convincente ao ponto de aproximar o personagem fictício e o personagem histórico. Atualmente na própria Romênia existe uma exploração turística lucrativa desse vínculo, pois o medieval Castelo de Bran virou atração ao ser apresentado como moradia do Drácula já vinculado ao tenebroso vampiro.


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