Um clima de transformações e de instabilidade social era verificado durante o século XVI na Europa, proporcionando a ocorrência de um ambiente favorável para proliferação de variadas crises e perturbações. Na Alemanha, a decadência do feudalismo ainda gerava um complexo processo de conflitos rurais e promovia um contexto favorável para a atuação do banditismo social e de grupos criminosos que causavam medo e devastação, a exemplo do aterrorizante bando perverso de Peter Niers. A desordem social contava ainda com os distúrbios causados pelos agressivos enfrentamentos religiosos motivados pelo contexto da Reforma Protestante e até antigos temores sobrenaturais e superstições que influenciavam as pessoas e sugeriam que forças ocultas misteriosas poderiam estar provocando males manifestados através da atuação .
Diante de um panorama tão conturbado, existia uma predisposição para a difusão e recepção dos mais escandalosos casos que sensibilizavam as populações que já estavam afetadas por tantas adversidades. Foi assim que a partir de 1581 começaram a circular histórias chocantes sobre o obscuro Christman Genipperteinga, um alegado criminoso sedento por carnificina.
Com o advento da imprensa, começaram a circular na Alemanha os infames panfletos conhecidos como Flugschriften (“Escritos Voadores”), que consistiam em folhas que continham informações escandalosas, sensacionalistas e frequentemente mentirosas. Estas publicações tornaram-se populares porque eram facilmente reproduzidas e distribuídas e seus temas altamente chamativos fomentavam acaloradas discussões. Os panfletos apelativos começaram a trazer informações sobre um criminoso brutal que andou espalhando pânico na região da Renânia. O tal malfeitor ficou imediatamente conhecido como Christman Genipperteinga.
A história de Genipperteinga começou a ser contada pelo seu fim, pois sua primeira aparição num panfleto sensacionalista publicado em 1581 tratou de sua morte. A publicação que apresentou o monstro humano tratava de sua execução num ato brutal meticuloso que durou nove dias de torturas. O que justificou o prolongamento da aplicação do castigo foi o comportamento pregresso do condenado, que praticou inúmeros crimes violentos. Esta primeira folha foi amplamente divulgada e reproduzida criando uma curiosidade mórbida a respeito do homem vil retratado nela, mas os feitos malignos do bandido passaram a ser abordados com mais detalhes em outros panfletos, que foram progressivamente construindo um personagem medonho. A repercussão sobre a atuação do misterioso serial killer teve o efeito de alarmar os habitantes da Renânia e de outras regiões germânicas sobre o perigo iminente de bandidos dotados de um instinto maligno semelhante.
Surgiram versões de fatos sobre o criminoso que incluíam informações sobre sua atuação. Foi descrito que ele se escondia em cavernas e que atacava viajantes e moradores de áreas isoladas ao longo das margens do rio Reno. O bandido não se contentava com o roubo dos bens portados por suas vítimas e sentia satisfação em matar. Registros sinistros chegaram a afirmar que ele não poupava sequer outros bandidos com quem se aliava, pois depois de realizarem seus ataques o próprio Genipperteinga tratava de trair e assassinar os comparsas. Numa das histórias mais chocantes foi destacado que ele raptou uma mulher que foi mantida como sua prisioneira durante anos, as crianças que nasceram desta relação forçada acabaram sendo mortas pelo degenerado. Práticas macabras como canibalismo, ocultismo e satanismo também foram atribuídas à atuação do terrível bandido. Uma incrível marca de 964 assassinatos chegou a ser citada como saldo de sua atuação ao longo de 13 anos de terror.
Apesar de todos os detalhes que circularam sobre Christman Genipperteinga e do impacto causado nas pessoas, que realmente ficaram aterrorizadas com seus supostos feitos, faltam elementos que comprovem a existência do criminoso e a ocorrência de seus crimes. A autoria das Flugschriften não costumava ser definida. As folhas eram geralmente preparadas por impressores independentes e o conteúdo poderia ser elaborado por qualquer um capaz de desenvolver algo que pudesse chamar a atenção. Por isso não se sabe quem difundia as versões dos feitos de Genipperteinga e é muito possível que criadores diferentes produziram tais narrativas inventadas, mas alardeadas como reais para chocar o público propositalmente. O próprio nome do facínora sugere que foi escolhido por sua sonoridade ou por ser chamativo, indicando mais um aspecto da composição da farsa narrativa. As histórias sobre o matador sanguinário continuaram circulando ao longo dos anos e somente no século XIX passaram a ser francamente consideradas como irreais depois que historiadores avaliaram as deficientes comprovações sobre a existência do criminoso e falta de evidências de seus atos.
A popularidade das histórias apavorantes como as protagonizadas por Christman Genipperteinga, entre outras figuras igualmente horríveis, foi favorecida pelo pelo estranho fascínio que as narrativas sobre crimes podem causar no público, pois desafiam as normas sociais e representam caos, aspectos que geram discussões e prendem a atenção. A falta de evidências e os exageros reforçaram o mistério, proporcionando espaço para a especulação e imaginação que sobreviveram ao longo de anos, transformando o delinquente em uma lenda que refletia ainda muitas das preocupações e mentalidades que se faziam presentes na época.
Referências:


[…] A Marca do Mal: Christman Genipperteinga e a misteriosa lenda assassina do Século XVI […]
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