Odoacro, o líder bárbaro que derrubou o Império Romano e virou rei da Itália

O outrora poderoso Império Romano estava em condições complicadas em seu lado ocidental na segunda metade do século V, pois a autoridade do imperador não era mais respeitada e o exército não ameaçava inimigos nem defendia o território. As invasões de grupos bárbaros ocorriam com êxito e facilidade e o caos institucional reinante era escancarado. Nestas circunstâncias, ascendeu ao trono romano o inexpressivo imperador Rômulo Augústulo. Ele foi estabelecido no poder através de um golpe coordenado pelo pai, o general Orestes. No entanto, essa condição era contestada porque muitos romanos ainda reconheciam como governante o deposto Júlio Nepos e, no império oriental, o imperador Zenão não considerava a legitimidade de Rômulo.

Orestes contou com os reforços de uma força militar foederati (tropas auxiliares germânicas)​ para derrubar Júlio Nepos. Estes combatentes eram comandados por Odoacro, líder guerreiro nas tribos dos Scirii, Heruli, e Rugii. Os foederati comandados por Odoacro participaram da derrubada de Júlio Nepos ao lado de Orestes diante da expectativa de um pagamento na forma de terras. Apesar do serviço prestado, o general romano se recusou a cumprir o compromisso e seu aliados anteriores se voltaram contra ele, derrubando um segundo imperador em pouco tempo após forçar a abdicação e exílio de Rômulo, além da execução de Orestes. Odoacro foi proclamado rei da Itália em 476, episódio que marcou o fim do Império Romano do Ocidente.

Odoacro, também conhecido como Odovacar, nasceu por volta de 433 e era filho de Edeco, que foi um comandante descrito como um germânico da tribo dos Scirii​ que serviu nas tropas de Átila. O jovem Odoacro cresceu num ambiente bélico, sendo forjado como um guerreiro desde cedo num contexto no qual as relações com os romanos eram oscilantes, pois seu povo lutava contra ou a favor do império dependendo da circunstância. Odoacro estava ligado aos Scirii, tribo germânica oriental estabelecida às margens do Danúbio que passou a fornecer soldados associados aos romanos, bem como aos Heruli, germânicos do oriente que também costumavam prestar serviços aos romanos como mercenários, e ainda tinha conexões com os Rugii, também germânicos orientais e que fixaram posição na atual Áustria e mantinham relações conflituosas com outros germânicos e com os romanos.

O líder germânico tinha um profundo conhecimento da organização social desses povos. Eles estavam estruturados em tribos e clãs, liderados por chefes guerreiros. Essas comunidades possuíam uma estrutura social militarizada que também era uma fonte de riqueza, pois atuavam como forças auxiliares mercenárias associadas aos romanos, recebendo vantagens como pagamentos em ouro e garantia de terras para estabelecer suas comunidades. No entanto, a mobilidade também era uma realidade, seja por necessidades de pastagem, conflitos armados ou pressões de outros povos.

Odoacro chegou à Itália por volta de 470 e serviu como combatente foederati em diversas campanhas, o que também proporcionou experiência e conhecimento a respeito da organização e costumes dos romanos. Ele logo conquistou respeito por causa de suas habilidades e liderança, avançando na hierarquia militar e sendo reconhecido pelos soldados bárbaros das diversas procedências que atuavam sob seu comando e também por romanos com quem serviu. Sua postura de líder foi importante durante a revolta dos foederati contra Orestes, o que resultou em sua aclamação como rei pelos guerreiros.

O tradicional Senado Romano (ou o que sobrou dele) não encontrou alternativa além de confirmar a coroação diante do vácuo de poder deixado pelo conflito, situação que facilitou a legitimação e minimizou a resistência interna. Em contrapartida, Odoacro manteve muitas instituições e normas romanas e até nomeou membros do Senado para o exercício de funções relevantes em seu governo. Ele conseguiu estabelecer uma administração mais eficiente do que os italianos estavam habituados a ver nos tumultuados governos dos derradeiros imperadores romanos.

O novo rei germânico da Itália também mobilizou sua diplomacia para obter reconhecimento no remanescente Império Romano do Oriente, sediado em Constantinopla (também identificado como Império Bizantino). Embora o imperador Zenão não tenha admitido plenamente a situação de separação definitiva, reconheceu Odoacro como “patrício” governante da Itália. O rei Odoacro conquistou o apoio da população ao estabelecer uma situação de paz na Itália e anexar a Dalmácia, uma região na costa leste do Mar Adriático (que incluía áreas das atuais Croácia, Bósnia e Herzegovina e Montenegro).

Ele evitou conflitos religiosos ao garantir liberdade para as diferentes vertentes cristãs que debatiam a concepção da divindade de Jesus. A divergência ocorria entre o arianismo, que sustentava que Jesus, embora criado e enviado por Deus, não era a própria divindade, e o trinitarismo, pregado pela Igreja Católica em formação e que se baseava na perspectiva de que Jesus, o Deus-Pai e a manifestação do Espírito Santo compunham uma essência divina única. Mesmo sendo seguidor do arianismo, Odoacro reconhecia a relevância dos católicos na sociedade italiana e a importância institucional da Igreja, que era apoiada e protegida por ele. Além disso, o fato de não confrontar os católicos evitava conflitos com o Império Romano do Oriente, fortemente vinculado ao trinitarismo.

Apesar do estabelecimento aparentemente estável de seu reinado e da tentativa de preservar a paz, as intrigas políticas e militares por parte do Oriente e de outros grupos bárbaros eram persistentes. Zenão habilmente apoiou as campanhas militares contra a Itália comandadas de Teodorico, líder dos ostrogodos, contra a Itália, estratégia que afastava essa ameaça de seu território enquanto pressionava Odoacro. A guerra entre as forças de Teodorico e Odoacro se desenvolveu a partir de 489 através de vários confrontos como a Batalha de Verona e o Cerco de Ravena, que resultaram na vitória dos ostrogodos em 493. Após a guerra pelo trono italiano, durante um banquete de negociação a respeito dos termos de reconhecimento da situação, o próprio Teodorico estrangulou Odoacro para sinalizar que ele estava no comando e que uma nova fase iniciava com Reino Ostrogótico na Itália, que durou até 553.


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