A existência factual da rainha Dido pode não estar amparada em registros verificáveis, mas sua presença relevante na obra “Eneida”, de Virgílio, conferiu a ela um importante papel para os romanos. “Eneida” aborda como tema central a jornada de Eneias (do latim Æneas), que escapou de Tróia e fundou Lavinium, na Itália, estabelecendo a origem dos povos que constituíram Roma. Dido aparece no escrito de Virgílio como uma figura de destaque, tendo fundado na costa norte da África um reino que posteriormente virou rival dos romanos até ser finalmente derrotado e incorporado.
Também conhecida como Elissa, ela era filha do rei de Tiro, principal cidade fenícia, mas precisou ir embora de sua terra natal quando seu irmão, Pigmaleão, usurpou o poder. Ela fugiu com um tesouro e seguidores, constituindo Cartago como seu domínio.
Em uma ocasião fatídica, Eneias aportou em Cartago ao ter sua embarcação levada até lá por causa de uma tempestade e foi recebido com hospitalidade, pois a governante lhe ofereceu abrigo e um banquete. Até então a rainha vivia o luto e a tristeza pela morte de seu marido Sychaeus, embora a dor não impedisse sua obstinação na condução do reino, porém a deusa Vênus, através de Cupido, fez com que Dido fosse dominada por uma forte paixão pelo visitante. Um rei vizinho, Iarbus, pretendia casar-se com Dido e viu que Eneias seria uma ameaça, assim ele pediu para que Júpiter levasse o concorrente embora. Eneias foi para a Itália, deixando Dido tão afetada por seus sentimentos que passou a negligenciar suas obrigações como governante, descuidando inclusive da defesa de seu reino. Ela ficou tão arruinada pela paixão e pela incapacidade de resistir que decidiu acabar com a própria vida, se lançando em uma pira funerária.
Virgílio traçou um paralelo comparativo entre Eneias e Dido. A rainha cartaginesa foi apresentada, apesar de sábia e justa, como uma figura volátil de sentimentos frágeis e levada pela emoção, enquanto o troiano era firme e racional. Dido acabou representando na abordagem comparativa a relação entre o amor e o dever. O célebre autor romano apresentou Dido como aquela que se deixou dominar pela emoção, permitindo com isso sua própria destruição. Virgílio destacou em seu texto não apenas as diferenças entre os personagens fundadores, mas entre os gêneros, sendo a mulher abordada como mais suscetível às emoções e expectativas sentimentais.
O contexto no qual a obra foi produzida também afetou a perspectiva de comparação. Cartago já estava sob o domínio romano quando Virgílio escreveu sua obra (entre 30 a 19 a.C). As Guerras Púnicas, encerradas em 146 a.C, resultaram na destruição de Cartago e no tempo de Virgílio Roma estava sob a condução do regime imperial, sendo sua obra adotada como instrumento propagandístico e glorificador da posição romana como potência.
Referências:


[…] Razão ou paixão: O dilema da rainha Dido de Cartago […]