O escândalo dos assassinos vendedores de cadáveres

Burke e Hare
(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Comércio de cadáveres não era nenhuma novidade, pois havia quem oferecesse dinheiro por eles. Os compradores eram estudantes ou profissionais da medicina interessados nos corpos para estudos, práticas e demonstrações. Geralmente os cadáveres legalmente destinados para fins científicos eram criminosos que morreram na prisão por causas naturais ou depois de executados e também corpos de indigentes que não tinham sequer quem cuidasse de seus funerais. O problema era que a oferta nem sempre atendia à demanda, o que acabava movendo um mercado clandestino sinistro que consistia no furto de defuntos recém sepultados que ainda ofereciam condições para seus compradores pudessem aproveitar para realizar dissecações. As violações de sepulturas viraram assunto preocupante, gerando comoção pública e mobilização das autoridades, o que resultou na crescente vigilância dos cemitérios e adoção de meios para inibir a ação dos ladrões de cadáveres, como ainda na utilização de grades de aço ao redor de sepulturas e pesadas placas de concreto sobre as covas. Com uma queda no índice de criminalidade, a prisão diminuiu sua capacidade de fornecimento de mortos e no âmbito do meio científico local isso era algo a lamentar, pois inibia o acesso aos cadáveres que eram utilizados nas atividades.

Ladrão de sepultura
(imagem criada pela IA Leonardo)

Mas uma perturbadora onda de crimes ocorridos num intervalo de menos de um ano, entre 1827 e 1828, deixou a Escócia em choque. Dois assassinos em série atuando em parceria descobriram que poderiam lucrar se vendessem os cadáveres de suas vítimas para utilização nas aulas de anatomia na Universidade de Edimburgo. A mórbida oportunidade de negócio teve início quando os amigos irlandeses William Burke e William Hare tiveram a ideia de se desfazer lucrativamente do corpo de um infeliz devedor de aluguel no cortiço administrado por Burke. O homem teve um mal súbito, caiu morto e o oportunista Burke chegou até a chamar o serviço funerário para cuidar do falecido, porém os parceiros macabros resolveram tirar o defunto do caixão e escondê-lo enquanto esperavam pelo transporte para o cemitério, daí colocaram um pedaço de tronco dentro e deram um jeito de sair pela madrugada para negociar o “produto” na universidade. O notável dr. Robert Knox, professor de anatomia, pagou bem pelo desafortunado inquilino de Burke e a dupla fechou o negócio com a certeza de que estavam diante de uma ótima oportunidade para ganhar dinheiro, mas concluíram que não bastava esperar pela morte inesperada de algum azarado na frente deles. Resolveram matar.

Daí em diante tramaram armadilhas para atrair suas vítimas. Entre a massa de miseráveis e indigente de Edimburgo não faltariam eventuais “candidatos” a material de estudos médicos. Eles ofereciam uísque e atraíam as vítimas para o imóvel de Burke, então quando as presas estavam tão bêbadas que não teriam como resistir, eles as sufocavam até a morte e mantinham conseguiam um jeito de levar as “mercadorias” para o comprador. O dr. Knox sequer perguntava a procedência dos cadáveres, apenas pagava um excelente preço pelo ótimo estado de conservação dos corpos recentemente mortos. Prostitutas, mendigos, trabalhadores pobres e moradores solitários do cortiço eram as vítimas dos negociantes de cadáveres. Chegaram até a matar uma senhora e seu neto, uma criança, que viviam na espelunca de Burke. Os criminosos fizeram ao todo 16 vítimas em 10 meses de atividades e contavam com a cumplicidade de suas esposas, que até indicavam pessoas que poderiam ser mortas pelos dois.

Os alunos de Knox começaram a desconfiar da agora facilidade do professor em conseguir novos cadáveres para suas aulas e alguns chegaram até a reconhecer uma das vítimas, o mendigo James Wilson, que costumava ser visto perambulando por toda a cidade. Diante da notícia de seu desaparecimento, o próprio Knox deu um jeito de dissecar logo o corpo para fazer com que ficasse irreconhecível. A naturalidade de Burke e Hare quando praticavam os assassinatos era tanta que faziam até farras para festejar mais uma morte, porém a segurança com a qual agiam acabou sendo a causa de seus problemas, pois foram descuidados na ocultação da última vítima, uma mulher irlandesa de nome Margaret Docherty, que foi descoberta por vizinhos no local onde foi deixada posterior transporte. A polícia chegou a local e encontrou uma cena de crime revirada com vários indícios dos assassinato, embora Burke e Hare tivessem conseguido levar o corpos para Knox antes da chegada dos policiais, mas a essas alturas já eram inevitável omitir toda a situação e até o médico foi identificado como receptador.

Burke, Hare e suas esposas foram presos. As investigações e o julgamento foram marcados por confusões, interferências e favorecimentos ao ilustre dr. Knox, isentado de qualquer responsabilidade. No final das contas, apenas William Burke foi condenado a morte por enforcamento e William Hare surpreendentemente escapou até de ser preso e até escapado vivo de um linchamento até ir embora de volta para a Irlanda. O cadáver de Burke acabou indo parar numa sala de estudos médicos, sendo dissecado durante uma palestra muito concorrida realizada por um prestigiado cirurgião.

O termo em inglês “Burker” foi criado e utilizado posteriormente para se referir a ladrões e de cadáveres sepultados e negociantes defuntos para fins de estudos médicos.

Um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *