Ishtar, a primeira grande e poderosa divindade mitológica

(Representação visual gerada pela IA Midjourney)

Ishtar ou Inanna foi a mais popular divindade da Mesopotâmia, uma das primeiras já cultuadas (sobretudo como Inanna entre os sumérios) e ainda objeto dos mais velhos registros escritos qualificados como sagrados já produzidos, além de presente nas mais antigas obras literárias e mitológicas, a exemplo da Epopeia de Gilgamesh e A Descida de Ishtar ao Submundo, sendo protagonista nesta que foi uma das primeiras histórias escritas de amor – e vingança. A “Rainha do Céu” era também reconhecida como divindade do amor, do sexo, da fertilidade, da guerra, da vingança, incorporando várias outras causas e até aspectos que se opunham (sendo cultuada como senhora da dor e da felicidade, dentre outras oposições). Nenhuma outra figura do panteão mesopotâmico tinha mais citações escritas do que a múltipla Ishtar-Inanna e na evolução de sua presença ela foi incorporando atributos de outras divindades e ocupando seus espaços nos cultos entre os povos mesopotâmicos (virou, por exemplo, co-patrona da justiça depois de também se ocupar da função de seu irmão, o deus solar Shamash). Na literatura mitológica ela foi morta depois de julgada pela afronta de se sobrepor aos demais deuses, mas acabou ressuscitando depois de três dias e celebrou um acordo com sua irmã e opositora Ereshkigal, a “Rainha do Submundo” (a quem tentou também dominar).

Os reis mesopotâmicos costumavam se apresentar como vinculados à deusa e eles se diziam irmãos, maridos ou filhos de Ishtar, pois esta intimidade divina era importante para legitimar suas posições diante da sociedade e obter os favores da divindade presente em todas as esferas da existência. A deusa invocada como até conselheira no Código de Hamurabi era honrada e homenageada pelos soberanos terrenos: a principal entrada da imponente Babilônia era o majestoso Portal de Ishtar, tempos erguidos em seu nome estavam espalhados por toda Mesopotâmia, em tempos de guerra era para ela que clamavam generais e soldados. Até a economia de base agrária desses povos dependia de sua intervenção como senhora das chuvas e dos armazéns.

De seu papel como deusa do amor, sexo e fertilidade dependia a própria existência da vida. A tradição dá conta de que por ocasião de sua imersão ao submundo e de sua morte a prática sexual deixou de existir na terra e no plano dos deuses, problema que só foi resolvido porque ela ressuscitou. A representação visual mais típica de Ishtar apresenta a deusa nua e narrativas mitológicas se referem também à sua nudez. Entre os assírios, povo mesopotâmico dominante entre 2000 a.C. até 612 a.C., há registros de que as mulheres eram motivadas a expressar a sexualidade como expressão de satisfação física e pessoal, embora a sociedade não tenha sido tolerante em relação à participação feminina em várias atuações sociais e não ser um exemplo de liberação sexual, apesar da crença de que o prazer do sexo era importante para a vida. Na arte assíria a nudez feminina era um tema comum e o ato de observar o corpo de mulher poderia proporcionar sorte e prosperidade (embora olhar para mulher comprometida fosse crime passível de punição com o homem jogado num forno). O rei Ashur-bel-kala espalhou estátuas nuas de Ishtar em Nínive (no atual Iraque) para promover a sorte dos espectadores masculinos e inspirar os observadores diante da figura mais importante de todas: a mais poderosa e cultuada deusa que era exatamente a divindade que promovia entre todos os viventes a capacidade de amar, de sentir prazer e de reproduzir.

A adoração por Ishtar perdurou por vários séculos (tendo iniciado por volta de 4 mil aC e chegado até seu declínio ao longo dos séculos I a IV da Era Cristã) e como ente de culto muito antigo, pode ter servido de inspiração ou parâmetro para que outros povos do longínquo passado também elaborassem suas representações divinas. Mas a relevância de Ishtar durante tanto tempo não foi capaz de sustentar seu reconhecimento e interesse pelas culturas futuras e hoje a mais poderosas das divindades mesopotâmicas é vista como uma obscura personagem de uma mitologia muito antiga e esquecida.  

6 comentários

  1. […] O imperador estabeleceu a primeira biblioteca organizada do mundo em Nínive. Dotada de inúmeros volumes de registros e obras em tábuas de argila com escrita cuneiforme, a biblioteca atraía estudiosos e serviu de local para a preparação de gerações de eruditos. Sob seu reinado a cultura conheceu um período muito favorável, com vigorosa produção artística e científica, além de favorecimento à religião através da construção de templos principalmente dedicados a Ashur e Ishtar. […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *