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Há um neandertal dentro de nós

janeiro 17, 2011

Peter Moon (publicado na Revista Época, Edição 655 – 10 de maio de 2010)

Nossos primos mais próximos não se extinguiram por completo. Humanos e neandertais acasalaram. Os europeus e asiáticos são seus descendentes.

Uma das mais importantes questões da antropologia foi respondida. Desde o século XIX se discute a identidade do homem de Neandertal. Quem era esse nosso primo em primeiro grau na família evolutiva humana? Os neandertais, ou Homo neandertha-lensis, eram maiores e mais fortes que os Homo sapiens, os homens modernos que evoluíram na África há 200 mil anos.

Já os neandertais habitaram a Europa e o Oriente Médio por 300 mil anos. Eles conheciam o fogo, caçavam mamutes com lanças sofisticadas e se protegiam do frio com peles dos animais abatidos. Os neandertais eram inteligentes. Seu cérebro era maior que o nosso. Era uma espécie magnificamente adaptada à sobrevivência nas duríssimas condições da Europa glacial. Mesmo assim, desapareceram. Após ceder progressivamente um continente inteiro aos invasores de nossa espécie, há 22 mil anos os últimos bandos remanescentes refugiaram-se nas cavernas do rochedo de Gibraltar, no extremo sul da Espanha. Era um beco sem saída. Do alto do rochedo avista-se a África, do outro lado do Estreito de Gibraltar. Só 13 quilômetros de mar separavam os neandertais da sobrevivência. Mas essa não era uma opção. Eles nunca inventaram barcos. A espécie se extinguiu.  Mas era só o primeiro volume.

O segundo volume da história dos neandertais começou a ser escrito na semana passada, com a divulgação do mapeamento do genoma da espécie na revista Science. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que, se um deles entrar aqui barbeado e vestido, ninguém notará a diferença”, disse o geneticista sueco Svante Pààbo, de 55 anos, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha. Ao comparar o DNA neandertal com o nosso, veio a surpresa. Os neandertais não desapareceram totalmente. Uma pequena fração de seu material hereditário continua viva em nós, incorporada no DNA de cada célula dos bilhões de humanos com raízes na Europa e na Ásia.

Todos têm genes neandertais. Seus antepassados comuns pertenceram à primeira leva humana que saiu da África. Eles acasalaram com os neandertais. A miscigenação, diz Pàãbo, deu-se no Oriente Médio, entre 80 mil e 50 mil anos atrás. A contribuição genética neandertal não é universal. Os descendentes dos humanos que ficaram na África não se misturaram. Seu DNA não tem genes neandertais. Entender as causas que teriam levado os neandertais à extinção foi motivo de um debate acalorado que começou em 1856, quando seus primeiros fósseis foram retirados de uma caverna no Vale do Rio Neander, na Alemanha. Na época, o planeta estava partilhado pelas potências coloniais européias. Seus monarcas creditavam esse domínio à superioridade biológica, moral e tecnológica da civilização branca, cristã e européia.

Identificar os neandertais como os ancestrais diretos dos europeus foi um passo imediato. Era a prova cabal de que o homem surgiu na Europa e, por isso, era superior aos asiáticos, aborígines e africanos. Não contavam com Charles Darwin. Em 1871, ao afirmar que chimpanzés e humanos evoluíram de um ancestral comum, Darwin apontou a África como o provável berço da humanidade. De uma hora para outra, os neandertais foram destituídos de sua primazia e rebaixados a primitivos “homens das cavernas”. A queda social dos neandertais não moveu o foco do debate sobre as causas de sua extinção. Arqueólogos, antropólogos e paleontólogos discutiram por 150 anos.

A maioria afirmava que os neandertais, supostamente dotados de uma capacidade cognitiva inferior à nossa, nunca tiveram condição intelectual para concorrer com o Homo sapiens pelo domínio dos territórios de caça. Outra grande facção creditava o fim dos neandertais na conta de nossa espécie, naquele que teria sido o primeiro genocídio. Havia ainda uma minoria defensora de uma hipótese inusitada. Os neandertais não teriam desaparecido por completo. Teriam acasalado com indivíduos de nossa espécie. Se namoros (ou estupros) tivessem ocorrido, e a prole resultante mantivesse a fertilidade (ao contrário de burros e mulas, filhotes estéreis da cruza de cavalos e jumentas), abrir-se-ia a possibilidade de neandertais terem irrigado seus genes no DNA humano.  O DNA é uma molécula complexa e frágil. Poucas horas após a morte de um indivíduo, o DNA começa a fragmentar. Por isso, os geneticistas achavam impossível extraí-lo de cadáveres.

Em 1985, o jovem Svante Pàãbo provou o contrário, ao extrair genes de múmias egípcias. Nos anos seguintes, ele foi pioneiro na extração de DNA de animais extintos (leia no quadro). Em 1997, voltou-se aos neandertais. Mapeou o DNA de suas mitocôndrias (órgãos celulares com genes transmitidos só da mãe) sem achar nada humano. Decretou: “Nunca houve acasalamento entre as espécies”.De lá para cá, o avanço da tecnologia genética fez o que era impossível tornar-se corriqueiro. “A precisão atual dos equipamentos era impensável há 15 anos.” Ainda assim, mapear o DNA neandertal demorou três anos.

A equipe extraiu genes de três ossos de fêmeas de 38 mil anos, de uma caverna na Croácia. Seus fragmentos genéticos foram remontados num só genoma. Quando comparado ao DNA do chimpanzé, o DNA neandertal exibiu semelhança de 98,5%, a mesma que guardamos com os chimpanzés. Confrontando o DNA humano com o neandertal, a diferença caiu para 0,5%. É mínima. A mesma que existe entre mim, você e qualquer ser humano. Seriam os neandertais humanos? “Tomamos cuidado para não usar nenhuma definição de espécie,” diz Pãábo. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que nenhuma definição serve.”

O grande feito de Páábo e sua equipe não foi mapear o DNA neandertal. Foi compará-lo ao nosso. Ao fazê-lo, detectou aquele 0,5% que nos é exclusivo. Lá residem os enigmas de nossa espécie. “Detectamos várias regiões e identificamos alguns genes. Há 78 mutações”, diz o americano Richard Green, co-autor do estudo. São só 78 mutações num universo de 20 mil genes. Três delas, já se sabe, estão relacionadas à pigmentação da pele. Outras quatro são ruins. Estão associadas a doenças como o diabetes do tipo 2, o autismo, a síndrome de Down e a esquizofrenia. A comparação com os neandertais poderá nos ajudar a detectar quais mutações foram as responsáveis pelos aspectos mais básicos que definem o ser humano: nossa consciência e o dom da fala.

Desde o século XIX se discute a identidade do homem de Neandertal. Quem era esse nosso primo em primeiro grau na família evolutiva humana? Os neandertais, ou Homo neandertha-lensis, eram maiores e mais fortes que os Homo sapiens, os homens modernos que evoluíram na África há 200 mil anos. Já os neandertais habitaram a Europa e o Oriente Médio por 300 mil anos. Eles conheciam o fogo, caçavam mamutes com lanças sofisticadas e se protegiam do frio com peles dos animais abatidos. Os neandertais eram inteligentes. Seu cérebro era maior que o nosso. Era uma espécie magnificamente adaptada à sobrevivência nas duríssimas condições da Europa glacial. Mesmo assim, desapareceram. Após ceder progressivamente um continente inteiro aos invasores de nossa espécie, há 22 mil anos os últimos bandos remanescentes refugiaram-se nas cavernas do rochedo de Gibraltar, no extremo sul da Espanha. Era um beco sem saída. Do alto do rochedo avista-se a África, do outro lado do Estreito de Gibraltar. Só 13 quilômetros de mar separavam os neandertais da sobrevivência. Mas essa não era uma opção. Eles nunca inventaram barcos. A espécie se extinguiu.

Mas era só o primeiro volume. O segundo volume da história dos neandertais começou a ser escrito na semana passada, com a divulgação do mapeamento do genoma da espécie na revista Science. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que, se um deles entrar aqui barbeado e vestido, ninguém notará a diferença”, disse o geneticista sueco Svante Pààbo, de 55 anos, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha. Ao comparar o DNA neandertal com o nosso, veio a surpresa. Os neandertais não desapareceram totalmente. Uma pequena fração de seu material hereditário continua viva em nós, incorporada no DNA de cada célula dos bilhões de humanos com raízes na Europa e na Ásia. Todos têm genes neandertais. Seus antepassados comuns pertenceram à primeira leva humana que saiu da África. Eles acasalaram com os neandertais. A miscigenação, diz Pàãbo, deu-se no Oriente Médio, entre 80 mil e 50 mil anos atrás.

A contribuição genética neandertal não é universal. Os descendentes dos humanos que ficaram na África não se misturaram. Seu DNA não tem genes neandertais. Entender as causas que teriam levado os neandertais à extinção foi motivo de um debate acalorado que começou em 1856, quando seus primeiros fósseis foram retirados de uma caverna no Vale do Rio Neander, na Alemanha. Na época, o planeta estava partilhado pelas potências coloniais européias. Seus monarcas creditavam esse domínio à superioridade biológica, moral e tecnológica da civilização branca, cristã e européia. Identificar os neandertais como os ancestrais diretos dos europeus foi um passo imediato. Era a prova cabal de que o homem surgiu na Europa e, por isso, era superior aos asiáticos, aborígines e africanos. Não contavam com Charles Darwin.Em 1871, ao afirmar que chimpanzés e humanos evoluíram de um ancestral comum, Darwin apontou a África como o provável berço da humanidade. De uma hora para outra, os neandertais foram destituídos de sua primazia e rebaixados a primitivos “homens das cavernas”.

A queda social dos neandertais não moveu o foco do debate sobre as causas de sua extinção. Arqueólogos, antropólogos e paleontólogos discutiram por 150 anos.A maioria afirmava que os neandertais, supostamente dotados de uma capacidade cognitiva inferior à nossa, nunca tiveram condição intelectual para concorrer com o Homo sapiens pelo domínio dos territórios de caça. Outra grande facção creditava o fim dos neandertais na conta de nossa espécie, naquele que teria sido o primeiro genocídio. Havia ainda uma minoria defensora de uma hipótese inusitada. Os neandertais não teriam desaparecido por completo. Teriam acasalado com indivíduos de nossa espécie. Se namoros (ou estupros) tivessem ocorrido, e a prole resultante mantivesse a fertilidade (ao contrário de burros e mulas, filhotes estéreis da cruza de cavalos e jumentas), abrir-se-ia a possibilidade de neandertais terem irrigado seus genes no DNA humano.

O DNA é uma molécula complexa e frágil. Poucas horas após a morte de um indivíduo, o DNA começa a fragmentar. Por isso, os geneticistas achavam impossível extraí-lo de cadáveres. Em 1985, o jovem Svante Pàãbo provou o contrário, ao extrair genes de múmias egípcias. Nos anos seguintes, ele foi pioneiro na extração de DNA de animais extintos (leia no quadro). Em 1997, voltou-se aos neandertais. Mapeou o DNA de suas mitocôndrias (órgãos celulares com genes transmitidos só da mãe) sem achar nada humano. Decretou: “Nunca houve acasalamento entre as espécies”.De lá para cá, o avanço da tecnologia genética fez o que era impossível tornar-se corriqueiro. “A precisão atual dos equipamentos era impensável há 15 anos.” Ainda assim, mapear o DNA neandertal demorou três anos.

A equipe extraiu genes de três ossos de fêmeas de 38 mil anos, de uma caverna na Croácia. Seus fragmentos genéticos foram remontados num só genoma. Quando comparado ao DNA do chimpanzé, o DNA neandertal exibiu semelhança de 98,5%, a mesma que guardamos com os chimpanzés. Confrontando o DNA humano com o neandertal, a diferença caiu para 0,5%. É mínima. A mesma que existe entre mim, você e qualquer ser humano. Seriam os neandertais humanos? “Tomamos cuidado para não usar nenhuma definição de espécie,” diz Pãábo. “Os neandertais eram tão parecidos conosco que nenhuma definição serve.”

O grande feito de Páábo e sua equipe não foi mapear o DNA neandertal. Foi compará-lo ao nosso. Ao fazê-lo, detectou aquele 0,5% que nos é exclusivo. Lá residem os enigmas de nossa espécie. “Detectamos várias regiões e identificamos alguns genes. Há 78 mutações”, diz o americano Richard Green, co-autor do estudo. São só 78 mutações num universo de 20 mil genes. Três delas, já se sabe, estão relacionadas à pigmentação da pele. Outras quatro são ruins. Estão associadas a doenças como o diabetes do tipo 2, o autismo, a síndrome de Down e a esquizofrenia. A comparação com os neandertais poderá nos ajudar a detectar quais mutações foram as responsáveis pelos aspectos mais básicos que definem o ser humano: nossa consciência e o dom da fala

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História indígena para Vestibular Seriado da UPE

outubro 3, 2008

Pela primeira vez a UPE irá realizar seu vestibular seriado. Em 2008, os alunos do 1º ano já poderão disputar uma vaga na universidade através desta nova forma de seleção. Este é o conteúdo programático:

 

  1. O CONHECIMENTO HISTÓRICO – Conceito de História –  O relacionamento com as demais ciências – As fontes históricas.
  2. A HISTÓRIA ANTES DA ESCRITA – A Pré-história: problemas conceituais. O papel do trabalho na evolução humana.Os grandes períodos da pré-história. 
  3. A “PRÉ-HISTÓRIA” BRASILEIRA – As várias hipóteses sobre a chegada do homem a América. – Os sítios arqueológicos no Nordeste. A antiguidade da presença humana em territórios do atual Brasil.  
  4. AS COMUNIDADES INDÍGENAS ANTES DA CHEGADA DOS EUROPEUS – As principais culturas pré-coloniais da América (astecas, maias e incas). A diversidade cultural dos povos que habitavam o atual Brasil. A influência das culturas indígenas nas tradições brasileiras. 
  5. HISTÓRIA ANTIGA – Culturas e Estados no Antigo Oriente  Próximo. As contribuições das culturas grega e romana para o mundo ocidental. 
  6. HISTÓRIA MEDIEVAL – A formação da Europa Ocidental. A feudalidade Européia. O cristianismo e a Igreja Católica. As culturas bizantina e Islâmica (surgimento e expansão).
Muitos livros didáticos e muitos programas escolares para o 1º ano não estão exatamente alinhados ao programa da UPE. Em noso caso, na Escola do Recife, conteúdos ainda precisam ser trabalhados para o cumprimento do programa. Pensando na lacuna que existe, está disponível um material complementar para atender ao programa do vestibular seriado. O material servirá de base para as aulas que precisarão ser realizadas para um melhor preparo para encarar a prova da UPE. O link está logo abaixo:
  
Clique aqui e baixe (em PDF) o texto complementar sobre a Pré-História brasileira e sobre os povos indígenas da América anterior à chegada dos Europeus.
Baixe documentários sobre os Maias e os Astecas
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Pré-História

outubro 2, 2008

O início

O surgimento do ser humano é, antes de mais nada, um tema polêmico, porque mexe com tradições religiosas e, sobretudo, porque até as mais prováveis hipóteses podem ser derrubadas por novos achados arqueológicos ou mesmo pela divulgação do resultado de estudos feitos sobre material já encontrado. As idéias formuladas pelo inglês Charles Darwin (1809-1882) em seu livro A origem das espécies, publicado no século XIX, inauguram uma nova forma de encarar essa discussão. Segundo Darwin, os seres humanos pertencem à ordem dos primatas e têm a mesma origem dos grandes macacos atuais, como gorilas e chimpanzés, por exemplo. Em algum momento, entretanto, por razões desconhecidas, parte de nossos antepassados se distanciou dos outros primatas na cadeia evolutiva e deu origem aos hominídeos. Dentre esses surgiram os gêneros Australopithecus e, posteriormente, Homo, do qual a nossa espécie, Homo sapiens moderno, faz parte. Usando essas idéias como ponto de partida e com base em novas pesquisas, grande parte dos estudiosos de hoje aceita a hipótese de que os primeiros ancestrais dos seres humanos se originaram na África, por volta de 7 milhões de anos atrás. Mas ainda é um grande desafio para os pesquisadores que se dedicam ao tema saber com precisão como ocorreu essa história.

Antes da escrita

Segundo a divisão da história, a origem da humanidade e as primeiras formas de organização dos grupos humanos constituem o período mais longo de nosso passado. Para facilitar seu estudo, esse período foi também dividido. O critério para efetuar a subdivisão apoiou-se nos diferentes artefatos de pedra e de metal encontrados e nas possíveis técnicas usadas para sua fabricação. O período foi então dividido em três grandes momentos: Idade da Pedra Lascada ou Paleolítico (vai desde a origem da humanidade até cerca de 10 mil a. C), Idade da Pedra Polida ou Neolítico (estende-se de 10 mil a.C. até cerca de 6 mil a.C) e Idade dos Metais (abrange os dois últimos milênios que antecedem o aparecimento da escrita, por volta de 3500 a.C. Nessa fase, alguns grupos humanos substituíram a pedra por metais, como o cobre e o bronze).

Paleolítico

Como vimos, nossos primeiros antepassados viveram na África há milhões de anos. Sua origem é a mesma dos grandes macacos que conhecemos hoje. Em outras palavras, seres humanos, gorilas, orangotangos e chimpanzés têm antepassados em comum. Esses primatas apresentam inúmeras características semelhantes; entre as principais podemos citar a capacidade de ficar em pé sobre os membros inferiores, dedos em número de cinco e polegares em oposição aos outros dedos, possibilitando a manipulação de objetos. Em algum momento, contudo, houve um gênero de primatas que apresentou um cérebro significativamente maior. Esses primatas deram origem ao ser humano. Tais mudanças ocorreram ao longo de milhões de anos. A combinação entre elas fez com que os seres humanos começassem a usar pedras e madeira como ferramentas, diferentemente dos outros primatas. Posteriormente, eles passaram a produzir seus próprios instrumentos, feitos de pedra lascada. Aos poucos também foram se iniciando o convívio em grupo e as primeiras tentativas de comunicação com o desenvolvimento da capacidade de falar.

O ser humano moderno

Estima-se que o Homo sapiens moderno (também chamado de Homo sapiens sapiens) tenha aparecido entre 100 e 200 mil anos atrás. Assim como seus ancestrais, ele é originário da África, de onde partiu para os outros continentes. Por volta de 30 mil anos atrás, encontrava-se espalhado por toda a Terra. Nessa altura, como podemos observar na Arvore genealógica da humanidade era a única espécie do gênero a sobreviver. Lentamente, o ser humano aprimorou cada vez mais seus instrumentos. Além da pedra lascada, empregava ossos e chifres para fabricar ferramentas, como arpão farpado e anzóis, chegando a construir o arco, primeiro mecanismo composto concebido pelo cérebro humano.

Em algumas regiões, a organização dos grupos começou a assumir características diferentes, com o desenvolvimento de pequenas comunidades unidas por laços de parentesco e interesses comuns. Nessas comunidades, era pequena a diferenciação hierárquica entre os membros do grupo. Embora praticamente todos participassem da produção de alimentos, já existia uma divisão do trabalho, baseada no sexo e na idade. Em geral, as mulheres se dedicavam à coleta de frutos e raízes, enquanto os homens se encarregavam da caça. Essa diversificação foi acompanhada do desenvolvimento das crenças e das idéias abstratas. Por uma série de vestígios encontrados, sabe-se que por essa época começou a haver maior preocupação com a morte, denotada pelos cuidados especiais que passaram a receber os sepultamentos. As pinturas rupestres, encontradas nas paredes internas das cavernas, e as esculturas são marcas da necessidade humana de registrar, de se expressar, seja por que razão for.

Uma revolução pré-histórica

Por volta de 10 mil anos a.C., a Terra passou por uma grande mudança no clima, que ocasionou uma série de modificações na vegetação e nos hábitos dos animais. Como conseqüência, os seres humanos tiveram de se ajustar a um novo ambiente. O cultivo de plantas e a domesticação de animais foram duas importantes atividades que começaram então a ser exercidas. Nos três mil anos seguintes às alterações climáticas, a população humana aumentaria de maneira espantosa. A explicação para esse crescimento relaciona-se à agricultura. O aprendizado do cultivo de plantas provocou mudanças tão importantes na vida dos seres humanos que o fato foi denominado por muitos estudiosos de revolução agrícola. O plantio sistemático de alguns vegetais, como o trigo e a cevada no Oriente Médio, pôde garantir a sobrevivência de um grande número de pessoas. Ao dispor de uma fonte segura de alimento, diversos grupos humanos puderam abandonar os hábitos nômades, estabelecendo-se em aldeias, passando, portanto, a ser sedentários.

Após aprender a plantar, o ser humano conseguiu domesticar animais. Com a domesticação de carneiros, cabras, bois, cavalos e porcos, ele pôde obter não só alimentos, mas urna infinidade de recursos, como meios de transporte, força motriz e lã. A agricultura e a domesticação de animais acentuaram a divisão do trabalho já existente. As mulheres, que até então se ocupavam da coleta, passaram a dedicar-se também ao cultivo e à colheita de vegetais. Os homens, por sua vez, construíam as casas, cuidavam do gado, caçavam e fabricavam as ferramentas e armas necessárias. Nesse período, as áreas de cultivo e de pastoreio eram coletivas: quase todas as pessoas se ocupavam diretamente da produção de alimentos. É provável que as possíveis exceções estejam entre aqueles que cuidavam dos rituais sagrados, que se tornavam cada vez mais complexos.

Vida urbana

Por volta de 6 mil a.C., alguns grupos humanos descobriram a técnica de produção de artefatos de argila cozida cerâmica). Na mesma época, aprenderam a converter fibras naturais (linho, lã) em fios e estes em tecido. Aos poucos começaram a trabalhar com metais para produzir instrumentos. O primeiro foi o cobre. Cerca de 5 mil anos atrás, graças à experiência com o uso do calor para assar o pão ou para aquecer a argila, foi possível o desenvolvimento da técnica da fusão dos metais. Assim, chegou-se ao bronze, resultante da fusão do cobre com o estanho. Tratava-se de um metal resistente o bastante para ser usado na fabricação de utensílios, armas e ferramentas. A necessidade de aprender técnicas para trabalhar com cerâmica, tecelagem ou metalurgia acabou gerando a especialização. Os indivíduos que dominavam tais técnicas tornaram-se artesãos. Eram esses os primeiros sinais de uma nova organização social e do trabalho. A diversidade na produção, a especialização do trabalho e as novas funções na sociedade contribuíram para que algumas comunidades de agricultores se transformassem em vilas e cidades, constituindo o fenômeno que alguns historiadores chamam de revolução urbana.

O aumento da produção criou excedentes e, a partir daí, podem ter se intensificado as relações de troca entre as vilas e mesmo as expedições de saque e conquista. De qualquer modo as trocas de excedentes são os primeiros passos para a atividade comercial. O aumento das populações e a intensificação das relações sociais ocasionaram o desenvolvimento de sociedades complexas. Aos poucos, foram se organizando estruturas administrativas permanentes, responsáveis pela coordenação das atividades produtivas, sociais, culturais, de defesa do território, etc. Esses acontecimentos pertencem à Idade dos Metais e referem-se, em grande parte, aos povos que ocupavam a região conhecida como Crescente Fértil, que engloba o vale do rio Nilo, uma faixa de terras junto ao mar Mediterrâneo e à Mesopotâmia, no atual Oriente Médio. Nessa região, por volta de 4000 a.C., desenvolveram-se importantes sociedades, como a dos egípcios e a dos sumérios. Pouco depois, surgiram aí os primeiros rudimentos da escrita.

América pré-histórica

Pesquisadores acreditam que a América foi provavelmente o último dos continentes a ser ocupado pelo ser humano. A data em que isso teria ocorrido, entretanto, é motivo de controvérsia. Podemos dizer, de maneira simplificada, que as discussões se concentram em duas questões: quando teriam chegado os primeiros povoadores e que caminhos teriam percorrido. O debate é de extrema importância. Por muito tempo, considerou-se que a história da América só teve início com a chegada dos europeus ao continente, no fim do século XV. Todo o período anterior era classificado como pré-histórico, ou seja, sem história. Sabe-se hoje que a história dos povos americanos é bem mais rica e antiga do que os conquistadores europeus imaginavam. O objetivo das pesquisas atuais é, justamente, conhecer o passado dos povos americanos por uma outra perspectiva: a dos primeiros povoadores do continente e de seus descendentes.

Por muito tempo, a teoria mais aceita nos meios científicos foi a de que os primeiros povoadores teriam chegado à América há cerca de 11,5 mil anos. Vindos da Sibéria pelo extremo norte da Ásia, teriam atravessado o estreito de Bering e chegado ao Alasca. Naquela época, o planeta Terra estava sofrendo o efeito da última glaciação, e o rebaixamento dos oceanos facilitava o acesso entre os dois continentes. As imensas geleiras existentes na América do Norte impediram, durante longo tempo, que esses povos migrassem em direção ao sul. À medida, porém, que as massas geladas começaram a se desfazer, abriu-se um caminho por onde grupos humanos puderam passar e ir ocupando todo o continente. Essa versão do povoamento é conhecida como teoria Clóvis. Ela foi originada das pesquisas arqueológicas realizadas na região do Novo México, Estados Unidos, em 1937. Os vestígios deixados pelos grupos humanos que aí viveram, basicamente pontas de pedra lascada e ossadas dos animais que caçavam, constituíram a chamada cultura Clóvis.

As análises feitas pelo método do carbono-14 (C14) fixaram a data da cultura Clóvis entre 10 e 11 mil anos atrás. A partir daí determinou-se que o início da ocupação humana no continente deu-se em torno de 11,5 mil anos. Descobertas recentes em outros sítios arqueológicos colocam em dúvida essa teoria. Alguns desses sítios são os de Meadowcroft, na Pensilvânia, Estados Unidos; o de Monte Verde, no Chile; e os de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e Pedra Pintada, no Pará. Com as novas pesquisas realizadas nesses locais, já se pode supor que os primeiros povoadores tenham chegado ao continente há pelo menos 20 mil anos ou, quem sabe, há 25, 30 ou 50 mil anos.

Diante de tantas evidências, alguns estudiosos começam a admitir que os povoadores da América tenham chegado em sucessivas levas ao continente. Em 1986, três pesquisadores norte-americanos conceberam um modelo para explicar a ocupação da América por meio de três ondas migratórias. A primeira teria dado origem a todos os índios da América do Sul, da América Central e de parte da América do Norte. A segunda teria resultado nos grupos nômades da região noroeste da América do Norte. A terceira seria aquela que originou os inuits (esquimós). Nesse modelo, porém, não há ainda lugar para Luzia e seus parentes. Por essa razão, Walter Neves e outros pesquisadores estudam a hipótese de ter havido uma quarta onda migratória. Para eles, Luzia seria descendente de um grupo aparentado dos atuais aborígines negróides australianos, que teriam migrado da Ásia. A tese tem sido reforçada pela descoberta, em várias partes do continente, de outros fósseis com as características de Luzia. Esses grupos humanos, entretanto, não sobreviveram. A hipótese levantada é de que eles teriam sido exterminados por grupos mais fortes ou mais numerosos que teriam chegado posteriormente e dado origem aos indígenas atuais.

A- Migração Asiática (Teoria de Clóvis); B- Origem malaio-polinésia; C- Origem autraliana

A- Migração Asiática (Teoria de Clóvis); B- Origem malaio-polinésia; C- Origem australiana