Entre os século XIII e XIV, a Europa Ocidental viveu um período de profundas transformações e tensões. As monarquias deixavam de ser instituições fragmentadas e dependentes do poder da nobreza feudal e começavam a consolidar sua autoridade, centralizando o governo, as finanças e a justiça. Este foi um processo lento e complexo, confrontando reis e outros grandes agentes e poder da época: a nobreza local, que via seus privilégios serem erodidos, e a Igreja Católica, que possuía imensa influência espiritual, riqueza material e aspirações políticas. Neste cenário, o Estado moderno, com sua burocracia incipiente e sua ambição de soberania, dava seus primeiros e decisivos passos.
Economicamente, o continente ainda se recuperava dos custos de séculos de expansão e conflito, como as Cruzadas. O comércio florescia, impulsionando o crescimento de cidades e uma nova classe burguesa, cujos empréstimos se tornavam vitais para a coroa. No entanto, esta prosperidade era frágil. A base da sociedade permanecia agrária e vulnerável, enquanto a escassez de metais preciosos começava a criar tensões inflacionárias. Este cenário de ambição real, disputa de poder com a Igreja e pressão financeira formava o palco perfeito para o surgimento de um monarca determinado, inflexível e absolutamente convencido dos direitos e da majestade de sua coroa.
A França desse período era um dos reinos mais poderosos e populosos da Cristandade latina. Seu prestígio era imenso, consolidado pelo longo e bem-sucedido reinado de Luís IX, posteriormente canonizado como São Luís, que havia transformado a monarquia em um símbolo de justiça e piedade. O território real expandiu-se significativamente, anexando vastos domínios como o Condado de Toulouse, e a autoridade do rei estendia-se cada vez mais sobre seus vassalos, graças a uma administração centralizada que começava a se organizar em torno de instituições como o Parlamento de Paris. No entanto, essa grandeza enfrentava desafios como a necessidade de financiar a máquina estatal em crescimento, as tensões com reinos vizinhos, como a Inglaterra, cujos monarcas ainda controlavam o rico Ducado da Aquitânia, e a complexa relação com o Papado, que reivindicava supremacia sobre o poder temporal.
A dinastia real Capetíngia era uma linhagem notavelmente estável que, por séculos, havia garantido a sucessão direta de pai para filho, evitando as guerras civis que assolavam outros reinos. Um dos grandes representantes dessa dinastia foi Filipe IV, filho de Filipe III, neto de São Luís, e da rainha Isabel de Aragão. Ele nasceu em 1268, sendo o segundo filho do casal real, mas acabou assumindo a condição de herdeiro imediato – o Delfim da França – em 1276, após a morte de seu irmão mais velho.
Antes de sua ascensão ao trono, a vida de Filipe foi marcada por uma formação meticulosa para governar, longe dos holofotes da corte principal. Após a morte de sua mãe, Isabel de Aragão, e o novo casamento de seu pai, Filipe III, o jovem príncipe foi confiado a um tutor, Pierre de La Broce, e depois à guarda de sua avó, Margarida da Provença. Esse isolamento forjou um caráter reservado, profundamente religioso e dotado de uma convicção na sacralidade da função real. Sua educação não foi a de um cavaleiro impetuoso, mas a de um administrador e pensador, cercando-se de um grupo de leigos letrados e juristas—os chamados “legistas”—que o instruíram nas complexidades do direito romano e na doutrina da soberania real. Esta preparação moldou o homem que seria rei: sério, impenetrável e determinado a expandir a autoridade da coroa acima de todos os interesses particulares.
Filipe IV, popularmente conhecido como “o Belo”, foi coroado em 1285, aos 17 anos, após a morte de seu pai durante a desastrosa Cruzada Aragonesa. Seus primeiros anos de reinado foram dedicados a consolidar o poder e desfazer as políticas bélicas do pai. Imediatamente, ele abandonou a custosa e infrutífera guerra contra a Coroa de Aragão, demonstrando um pragmatismo que caracterizaria seu governo. Com uma equipe de conselheiros fiéis e competentes, como Guillaume de Nogaret e Enguerrand de Marigny, ele começou a estruturar um governo centralizado e eficiente, fortalecendo as instituições reais. Estes primeiros atos já anunciavam o estilo de um monarca que governaria não por impulsos cavalheirescos, mas através de um aparato estatal sólido, marcando o início de um dos reinados mais transformadores e controversos da França medieval.
Um dos pilares do seu governo foi o enfrentamento direto com a Igreja Católica, um conflito que culminou no episódio mais dramático do seu reinado: o confronto com o Papa Bonifácio VIII. A disputa surgiu quando Filipe decidiu tributar o clero para financiar suas guerras, uma afronta aos privilégios eclesiásticos. A resposta firme do papa, com a bula Unam Sanctam, que afirmava a supremacia do poder espiritual sobre o temporal. A ordem papal foi recebida em Paris como uma ofensa. Filipe enviou seu conselheiro Nogaret à Itália, que, com a ajuda de aliados locais, prendeu o pontífice em Anagni. O breve, mas traumático, episódio abalou a autoridade papal e contribuiu para a subsequente mudança da Santa Sé para Avignon, colocando-a sob a esfera de influência da coroa francesa, uma vitória estratégica monumental para Filipe.
No plano interno, a grande realização de seu reinado foi o aprofundamento da centralização monárquica e a consolidação do Estado. Filipe IV confiou cada vez mais no legistas, que eram fiéis apenas ao rei e não aos interesses da nobreza feudal. Ele expandiu o poder do Parlamento de Paris, tornando-o uma suprema corte de justiça, e fortaleceu o Tesouro Real. No entanto, essas conquistas tiveram um custo financeiro exorbitante. Para custear os conflitos, notadamente contra a Flandres e a Inglaterra, e seu ambicioso projeto estatal, o rei recorreu a expedientes financeiros desesperados, como a desvalorização da moeda, a expulsão e espoliação dos judeus em 1306 e, o ato mais infame, a perseguição e dissolução da Ordem dos Templários, cuja vasta riqueza foi confiscada pela coroa após um processo cheio de acusações falsas.
Seu reinado também foi marcado por significativos desafios militares e diplomáticos. A tentativa de trazer a rica região de Flandres sob seu controle direto resultou em uma revolta aberta, que culminou na humilhante derrota francesa para milícias urbanas na Batalha das Esporas de Ouro (1302). Embora tenha conseguido posteriormente impor um controle mais firme sobre a região, o conflito revelou os limites do poder militar feudal contra exércitos urbanos determinados. Paralelamente, suas constantes disputas territoriais com a Inglaterra, cujo rei era seu vassalo pelo Ducado da Aquitânia, geraram um estado de guerra quase crônico, esgotando ainda mais os cofres reais e levando a uma instabilidade política permanente no oeste do reino.
A vida pessoal de Filipe IV foi um reflexo de seu dever real. Em 1284, aos 16 anos, ele se casou com Joana I, Rainha de Navarra e Condessa de Champagne. Este não foi um simples arranjo político, mas uma união estratégica de grande importância, que trouxe para o domínio real os significativos territórios de Navarra, Champagne e Brie, consolidando o poder da monarquia francesa. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, não há registros de amantes ou filhos ilegítimos, o que reforça a imagem de um homem de moral rígida e devoção familiar. O casamento com Joana, embora firmado na razão de Estado, parece ter sido harmonioso e estável, fornecendo ao rei a base doméstica necessária para seu governo. Deste casamento, nasceram três filhos homens e uma filha, todos os quais se tornariam figuras centrais na história europeia.
Os últimos anos do reinado de Filipe IV foram marcados por uma série de eventos trágicos que pareciam assombrar a família real. Após a morte de sua esposa, em 1305, o rei, já conhecido por sua austeridade, tornou-se ainda mais reservado e sombrio. A década de 1310 foi particularmente cruel: seu genro, o rei Eduardo II da Inglaterra, enfrentava revoltas abertas, e sua filha Isabel – que ficou conhecida como conhecida como a “Loba da França” – estava em uma situação precária. O golpe mais devastador, porém, ocorreu entre 1314 e 1315. Um escândalo de adultério abalou a corte, envolvendo as noras do rei, o que manchou a honra da família e levou à execução pública de duas delas. Pouco depois, em novembro de 1314, durante uma caçada, Filipe sofreu um acidente vascular cerebral e faleceu no dia 29 de novembro, no Castelo de Fontainebleau, o mesmo local de seu nascimento. Sua morte, cercada por desgraças familiares, deixou o trono para seu filho Luís X (“O Teimoso”), um rei de caráter fraco, em um reino à beira de uma crise sucessória. Seus outros filhos, Filipe V (“O Longo”) e, por fim, Carlos IV (“O Belo”), também assumiram o trono, no entanto, nenhum deles conseguiu gerar um herdeiro masculino que sobrevivesse – uma situação conhecida como “a maldição dos Capetíngios” e consequente fim da dinastia e disputa que resultou na Guerra dos Cem Anos.
O legado de Filipe IV é profundo e paradoxal. Conhecido como le Roi de Fer (“O Rei de Ferro”), ele foi um dos maiores arquitetos do Estado francês moderno, fortalecendo irreversivelmente a autoridade real contra a nobreza feudal e, de forma espetacular, contra o próprio Papado. Suas reformas administrativas e sua confiança em uma burocracia leal criaram as bases para a monarquia centralizada dos séculos seguintes. No entanto, seu reinado também é lembrado pela brutalidade financeira e pela manipulação da justiça, como no caso dos Templários.
Referências:


[…] na França por volta de 1295, Isabel era filha do rei Filipe IV, popularmente conhecido como “Filipe, o Belo” e da rainha Joana I de Navarra. Esta condição fazia dela uma privilegiada figura da realeza, […]
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