No século XVII, as Capitanias de Pernambuco, Bahia e São Vicente eram domínios que já apresentavam condições de prosperidade econômica para Portugal por causa da produção açucareira. O mercado mundial era favorável e os engenhos demandavam bastante mão-de-obra e capitais, gerando oportunidades para diversas pessoas em atividades derivadas, como comerciantes, administradores e outros negócios que também surgiam. O cenário econômico era atrativo para migrantes portugueses, que encontraram na colônia oportunidades de ascensão social e enriquecimento explorando a cadeia de produção.
Quando os holandeses, através da Companhia das Índias Ocidentais (WIC), invadiram Pernambuco e passaram a controlar a estrutura açucareira, ampliaram ainda mais os recursos disponíveis para os senhores de engenho, proporcionando aumento do desenvolvimento e produção, além de maior presença do produto nos mercados consumidores europeus.
Um dos portugueses favorecidos por essa dinâmica foi João Fernandes Vieira, natural da Ilha da Madeira e oriundo de uma família modesta. Ele nasceu em 1613 e ainda jovem encarou a experiência migratória, chegando em Pernambuco ainda durante o início da adolescência. Ele teve um início humilde como ajudante de açougueiro até assumir uma ocupação relevante em um engenho. Ambicioso e habilidoso, logo progrediu e atuou como feitor e posteriormente conseguiu adquirir suas próprias terras. A chegada dos holandeses favoreceu suas atividades, pois os forasteiros investiram em suas propriedades através de créditos que ele adquiriu para empregar em seus negócios.
Durante a administração de Maurício de Nassau (1637–1644), Fernandes Vieira conheceu uma fase de intensa prosperidade em seus empreendimentos e era um apoiador da presença holandesa, mas quando o nobre foi destituído do cargo a situação mudou. A Companhia das Índias Ocidentais mudou sua política de parceria com os senhores de engenho. Foram cobrados os valores dos empréstimos com elevados níveis de juros e quem não conseguia quitar as dívidas tinha as propriedades confiscadas. A pressão desagradou aos proprietários e devedores, que decidiram promover uma rebelião contra os holandeses e Fernandes Vieira foi um dos destacados líderes desse movimento, depois de sua adesão inicial como um voluntário.
Quando a insurreição eclodiu, em 1645, o rico proprietário de terras foi um dos signatários do “Compromisso do Ipojuca”, documento que formava um acordo entre os senhores de engenho para expulsar os holandeses do território pernambucano. Fernandes Vieira empenhou recursos próprios para financiar armamentos e recrutar combatentes para a luta contra invasores, além de assumir diretamente o comando de tropas rebeldes. Associado a comandantes como André Vidal de Negreiros, Henrique Dias, Filipe Camarão, entre outras lideranças insurgentes, travou embates decisivos contra a bem organizada força mercenária da Companhia das Índias Ocidentais. Esteve presente nas decisivas Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649) e no cerco ao Recife (1650–1654), campanha que desgastou os oponentes confinados na capital do domínio holandês até a assinatura da rendição dos holandeses.
Após a vitória, Fernandes Vieira foi recompensado por sua dedicação e liderança na guerra, retomando seus bens, se livrando das dívidas e recebendo novas propriedades. O governo português o designou para exercer o cargo de Capitão-Mor e governador da Capitania da Paraíba, onde atuou na recuperação de engenhos afetados pela guerra, reorganizou a estrutura administrativa paraibana e promoveu guerra contra indígenas no interior. Durante esta fase incrementou seu patrimônio com novas aquisições de terras na capitania que governava.
Depois dessa experiência, exerceu o governo de Angola de 1658 até 1661. Ele precisou lidar com grandes desafios, como a tumultuada relação com o vizinho Reino do Congo e lidou com o processo de captura de escravos, percebendo nesta atividade uma oportunidade para obter benefícios pessoais, além de estabelecer seu próprio negócio na exploração do sal, recurso abundante na região. Divergências com agentes colonizadores, motins e problemas com os jesuítas tumultuaram seu governo enquanto seus empreendimentos privados conflitaram com sua missão pública. Sua atuação foi encerrada sob acusações de corrupção, abuso de poder e investigações ordenadas pelo reino de Portugal. Ele acabou sendo sucedido em Angola pelo ex-companheiro de guerra Vidal de Negreiros.
De volta ao Brasil, ele tentou retomar o governo da Paraíba, mas acabou desempenhando outras funções públicas. Exerceu influência política significativa, sendo tratado como “o Governador” por muitos interlocutores e subordinados mesmo sem exercer o cargo. Apresentou recomendações administrativas para o rei através de suas correspondências e se envolveu na política de Pernambuco atuando na deposição do governador Jerônimo de Mendonça Furtado.
Além de se ocupar dos assuntos públicos, tratou da condução de seus variados empreendimentos. Era proprietário de terras nas capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte e Ceará, além de possuidor de navios utilizados nas operações de transporte ligadas aos seus negócios comerciais. Era senhor de uma quantidade considerável de escravos e costumava ter a sua disposição uma “pequena corte” de serviçais. Foi um dos homens mais ricos da colônia.
Os filhos nascidos do casamento com Maria César não sobreviveram, mas teve ao menos descendentes diretos bastardos que foram criados por sua esposa. João Fernandes Vieira morreu no início de 1681 em sua residência em Olinda.
Em vida ele recebeu diversas honrarias fidalgas por seus serviços e conquistas. Em 2014 seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria guardado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.
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