Skinwalkers: A presença do mal na cultura nativa norte-americana

(Representação visual gerada pela IA DALL-E)

Um medo profundo preocupava os povos navajo, tradicionais nativos norte-americanos, representando uma ameaça física, psicológica e espiritual que atormentava ao ponto de fazer com que os indígenas até evitassem pronunciar seus nomes. Estas entidades eram os Yee Naaldlooshii (“Aquele que Caminha de Quatro”), conhecidos como os Skinwalkers. 

Os Skinwalkers representavam um estado amaldiçoado de desvio que contrariava os valores espirituais e morais, condição de gravidade extrema que se convertia em um enorme perigo para todos. Eles eram ‘Ánti’įhnii (feiticeiros) de índole perversa capazes de manipular a magia para praticar o mal através de maldições, provocação de doenças, má sorte, deterioração da mente e morte de suas vítimas. Os seres tocados por esta transformação renunciaram ao que é sagrado e abraçaram um poder sombrio e maldito, abandonando a humanidade e assumindo formas animalescas, dotados da capacidade metamorfa de imitar a aparência de outra pessoa para enganar a comunidade e a família. 

Os efeitos da presença e atuação dos Skinwalkers podiam ser verificados através de ataques diretos através de suas representações visíveis como bestas ferozes capazes de atingir as pessoas fisicamente pela força e agilidade das feras cujas formas foram imitadas pelas entidades. Era comum que os indígenas atribuíssem os incidentes com animais selvagens e o comportamento dos predadores noturnos às entidades malignas. Quando uma fera como um lobo ou um coiote não demonstrava medo de um humano, isso era interpretado como um sinal de que era um Skinwalker disfarçado. O eventual comportamento estranho de um animal também era tido como uma atuação desses espíritos malignos em suas formas selvagens.

A cobertura da escuridão proporcionada pelas noites favorecia a atuação dos Skinwalkers, pois os ataques furtivos eram facilitados. Com a visibilidade limitada, os sentidos poderiam ser reforçados por meio de rituais e procedimentos protetivos como cercar as moradias de cinzas, usar ervas sagradas e amuletos poderosos e manter chamas acesas como nas fogueiras. Uma pessoa não poderia se afastar do grupo sozinha durante a noite porque estaria vulnerável, situação que reforçava a unidade comunitária, atuação coletiva e vigilância.  

Além de toda atmosfera amedrontadora, doenças físicas e distúrbios mentais eram atribuídos aos poderes malévolos dos Yee Naaldlooshii. Para lidar com os problemas que afetam corpos e mentes, os xamãs precisavam identificar se uma doença tinha origem espiritual ou natural para que as providências de cura fossem adotadas. 

Por pior que fosse a condição de um Skinwalker, alguns indivíduos deliberadamente poderiam escolher trilhar o caminho do mal. Para isso, atos repugnantes eram exigidos como passaportes para o lado sombrio da existência e cometer um assassinato de um parente ou de pessoa próxima costumava ser um gesto admissível para iniciar a transição, pois é um sinal extremo de rompimento com as normas sociais. Conhecedores das artes sobrenaturais como xamãs e feiticeiros também poderiam cruzar os limites para o mal e se converterem em ‘Ánti’įhnii. Iniciações eram realizadas para assinalar o abandono do “Caminho Sagrado” (“Hozho”) e os agentes sobrenaturais da maldade aceitavam suas novas condições. As violações dos tabus que simbolizavam a adesão ao mal resultavam no afastamento dos “desviados” do convívio social e estes, por sua vez, buscavam retaliar a comunidade através da prática de seus poderes.

Frequentemente empregados como símbolos do mal absoluto, a crença nos Skinwalkers poderia representar uma forma de mecanismo de controle empregada para estabelecer valores morais, manter a coesão social através do medo, proteger a cultura contra ameaças externas através da desconfiança a respeito do “desconhecido” e buscar explicações sobrenaturais para eventos inexplicáveis. A manifestação desses entes costumava estar associada ao processo de quebra dos tabus que ameaçavam o funcionamento da comunidade e integridade das tradições e costumes.


Referências: