Isabel da Baviera: Uma rainha entre entre luxos, guerras e traições

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Durante a Idade Média, mulheres costumavam ser estigmatizadas, vistas pelo patriarcado como intelectualmente limitadas, moralmente fracas e destinadas à submissão masculina. Raras mulheres exerceram o poder político naquela época e aquelas que desempenharam papeis de comando como regentes em nome de seus filhos ou maridos incapacitados tiveram que lidar com grandes desafios, enfrentando as expectativas sociais e culturais, além da religiosidade que imperava sobre as normas e costumes. 

Isabel da Baviera, que exerceu a regência sobre o reino francês, foi uma dessas figuras femininas destacadas pela posição de autoridade e controvérsias associadas a seu nome. Ela nasceu em 1371 na região alemã da Baviera, filha de Estêvão III, duque da Baviera-Ingolstadt, e da nobre milanesa Taddea Visconti. Foi criada como uma legítima representante da nobreza, vivendo em condições privilegiadas e sendo preparada para um matrimônio com algum pretendente da realeza. 

Aos 14 anos de idade ela foi submetida a um processo de avaliação antes de ser escolhida para se casar com Carlos VI, o jovem rei da França que tinha 17 anos na ocasião. O relacionamento foi inicialmente forjado por interesses estratégicos para definir uma aliança política e diplomática entre o Ducado da Baviera e a França, mas logo evoluiu para uma relação afetuosa entre o casal. A rainha foi bem acolhida na corte francesa, demonstrando uma notável capacidade de adaptação e ela logo se destacou por seu refinamento e gosto pelos luxos e extravagâncias. O casal real teve ao todo 12 filhos, sendo 6 meninas que se tornaram duquesas e rainhas em outras monarquias e 6 meninos, porém somente um herdeiro masculino sobreviveu até chegar à fase adulta e poder herdar o trono, tornando-se o rei Carlos VII, sendo o penúltimo a nascer, em 1403.

Além das perdas precoces de alguns filhos, outra grande dificuldade vivida por Isabel em seu casamento foi o adoecimento de Carlos VI, que começou a manifestar sintomas de distúrbios mentais a partir de 1392. O monarca passou a ter colapsos, desenvolver um estado de paranoia, memória prejudicada e comportamento descontrolado, condição que inviabilizou sua atuação como governante. A incapacidade do rei levou à nomeação de Isabel como regente, deixando seu papel de rainha de consorte para assumir responsabilidades relevantes e decisivas com o governo da França. 

O cenário político era tenso, pois quando Carlos VI se afastou de suas funções, grupos se aproveitaram para pressionar o governo fragilizado pela ausência de um rei ativo. Foram formadas facções rivais dos Armagnacs e os Borgonheses, que disputavam por poder e influência na corte e na imposição de posições sobre o governo. Os Armagnacs eram seguidores de Luís de Orleães, irmão do rei que foi assassinado em 1407, que posteriormente passaram a ser liderados Bernard VII, Conde de Armagnac. Eles defendiam a centralização do poder monárquico e aclamavam a legitimidade do Delfim Carlos, herdeiro do trono. Os Borgonheses eram seguidores de João Sem Medo, o duque da Borgonha, e passaram a ser liderados por Filipe, o Bom, a partir de 1419, após o assassinato do primeiro líder. Centro do grupo, o Ducado da Borgonha era a região mais rica da França, e isso inspirou a causa da autonomia regional, o que aproximava o segmento político dos ingleses. Os dois lados não praticavam apenas uma rivalidade de perspectivas e sus confrontos também envolviam atentados e batalhas uns contra ou outros, o que implicou na Guerra Civil Armagnac-Borgonhesa (1407–1435).

A rainha regente teve uma atuação complexa diante da divergência interna. Ela se aproximou dos Borgonheses na expectativa de que o poder da facção política pudesse ajudar a estabilizar o reino e, ao lado desses aliados, estabeleceu um governo sediado na cidade de Troyes, em 1417, enquanto os Armagnacs controlavam Paris e mantinham o futuro rei sob sua influência. As tentativas de conciliar seus interesses com os Armagnacs não se efetivaram e ela até chegou a ser presa pelos defensores do poder do delfim, ressaltando que a regente e o herdeiro do trono estavam em lados opostos. Isabel reagiu de maneira radical, assinando o Tratado de Troyes (1420), que negava a legitimidade do próprio filho e declarou que Henrique V, rei da Inglaterra, como detentor do direito de reinar sobre a França. Este ato aprofundou a pressão contra sua liderança, resultando no rompimento definitivo com Carlos VII.

Num plano maior, as disputas entre as facções ocorreram durante a Guerra dos Cem Anos (1337–1453), confronto entre franceses e ingleses por territórios e pela reivindicação na realeza inglesa pelo trono da França. A fragmentação interna francesa abalava a capacidade de enfrentar os ingleses e a posição de Isabel foi vista como um ato de traição. A rainha foi alvo de críticas em todas as camadas sociais, aprofundando sua impopularidade e formando uma imagem negativa a seu respeito. Além de ser qualificada como traidora da monarquia, ela foi acusada de adultério, criticada por causa da vida opulenta que levava em tempos de guerra e responsabilizada pela crise que se abateu sobre a França. Um dos mais notáveis ataques promovia um contraponto entre ela e Joana D’Arc, o que foi explorado a partir de uma difundida profecia de que a França seria salva por uma virgem de inspiração divina que se oporia ao mal causado por uma certa mulher imoral. Os críticos logo associaram a heroína à rainha como representantes opostas dessa narrativa, sobretudo porque eram contemporâneas e assumiram papeis bem diferentes no contexto da fase final da Guerra dos Cem Anos: Joana d’Arc foi celebrada como a “Virgem de Lorena” e lutou pela França com lealdade a Carlos VII, enquanto Isabel da Baviera se opôs à legitimidade do filho e figurou como a “rainha imoral”. 

Carlos VII foi coroado em 1429 com apoio e participação da heroína Joana d’Arc e o Tratado de Troyes foi desafiado e enfraquecido. O novo rei e seus aliados avançaram através do território francês impondo sua autoridade e derrotando as forças inglesas e seus apoiadores Borgonheses enquanto Isabel foi viver em Paris e perdia notoriedade até ser abafada pela obscuridade. Ela morreu em 1435, aos 64 anos, após a assinatura do Tratado de Arras, que firmou o alinhamento duque da Borgonha ao monarca e reforçou a reunificação da França. 

Apesar da conturbada situação política e do desgaste de sua reputação, Isabel da Baviera aproveitou seu reconhecido refinamento para promover a cultura. Ela foi patrona de projetos arquitetônicos e decorativos e atuou como incentivadora de criadores nas variadas belas artes. Uma das personalidades artísticas e intelectuais favorecidas pelo apoio da rainha foi Christine de Pizan, uma pioneira feminina na literatura e defesa aberta dos direitos das mulheres. 


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