Durante a Idade Média, entre os séculos XII e XIII, superstições populares e crenças sobrenaturais alimentavam medos de seres como demônios e outras criaturas malignas ou espíritos sombrios, que atormentavam pessoas em diversas localidades da Europa. Eram tempos de intensa mortalidade por causa de pestes, guerras e fome, condições que favoreciam o surgimento de narrativas macabras que iam além de qualquer especulação racional, sendo explicadas através dos apelos que envolviam as misteriosas forças do mal.
Um dos relatos mais estranhos do período proliferou a partir dos confins da Escócia, na Abadia de Melrose, um mosteiro que ganhou uma fama pouco auspiciosa. O local era um reduto para a vida religiosa, pois reunia homens de inclinação para os rigores da fé e da contemplação, mas nem todos os habitantes do local possuíam o mesmo compromisso e manifestavam um comportamento que contrariava aquilo que se esperava de um bom servo da Igreja. Um deles em particular chamou a atenção de William de Newburgh, renomado cronista, historiador e clérigo inglês, que tomou notas sobre estranhos acontecimentos no mosteiro, apesar de não citar a identidade exata do protagonista de acontecimentos absurdos relatados pelas pessoas da localidade.
Era o caso de um padre de conduta questionável, pouco envolvido nas obrigações religiosas e de hábitos que contrariavam as expectativas para um homem de vida consagrada à devoção. Citado de maneira pejorativa como Hunderprest, ou “padre-cão”, o sacerdote era um homem corrupto, pecador e de hábitos mundanos, que gostava de passar o seu tempo envolvido em caçadas e outras atividades indignas para um homem de sua posição. O tal clérigo morreu em circunstâncias não detalhadas, mas se este fato não encerrou sua existência e deu início a uma situação perturbadora. Como era crença comum na época, quando ocorria a morte sem redenção da alma era possível que o corpo da pessoa falecida retornasse para praticar malefícios e atormentar os vivos. Assim, o padre pecador acabou ressurgindo na forma de uma criatura vampírica.
Aldeões e monges começaram a relatar a aparição do defunto reanimado pelos arredores, geralmente partindo do cemitério local. A figura aterradora do monge pecaminoso insistia em invadir Abadia de Melrose durantes as noites, para o terror dos moradores do local sagrado. Testemunhas afirmaram que viram o assustador defunto ambulante saindo de sua tumba para vagar até o mosteiro. Relatos indicavam que a aparência do padre era digna de sua condição amaldiçoada e que ele chegou a atacar e matar pessoas, de quem sugou o sangue para obter forças.
Apesar do pânico, era preciso deter aquela forma maligna de existência, então grupos dos mais corajosos do local, incluindo camponeses e monges, resolveram acompanhar os passos do vampiro através de uma vigília. Eles viram quando o ser emergiu da terra do cemitério, então realizaram orações e ritos para deter aquele que era uma ameaça para todos, fazendo a entidade retornar para sua sepultura. Na manhã seguintes, eles exumaram o local do sepultamento, percebendo que o defunto tinha sangue fresco na boca, confirmação de sua condição de vampiro. Resolveram eliminar o Hunderprest, queimando seu corpo e espalhando suas cinzas para que não existissem mais indícios de sua presença maligna. Alguns relataram que esta providência extrema não bastou, pois ainda persistiram boatos de que o ser ainda podia ser percebido na forma espectral e sons arrepiantes eram ouvidos como sinal de que ele não abandonou definitivamente o local que decidiu assombrar.
As histórias aterrorizantes sobre o estranho fenômeno da Abadia de Melrose continuaram sendo contadas ao longo dos anos, mas por ocasião da Reforma Protestante e abandono do mosteiro as narrativas foram desacreditadas até caírem no esquecimento. Hoje o local das ruínas da abadia apenas atrai turistas e curiosos sobre seu passado assombrado pelo vampiro, que também perdeu status para outros sugadores de sangue mais famosos que surgiram depois.
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