Martín de Porres, o Santo da Igualdade Racial

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

Entre o fim do século XVI e início do XVIII, o Vice-Reino do Peru era um domínio colonial espanhol marcado pela exploração da atividade mineradora com base no trabalho escravo de indígenas e africanos, que eram submetidos às péssimas condições do serviço diante da imposição de um tratamento abusivo. A sociedade era caracterizada por uma hierarquia racializada dominada por espanhois e uma elite crioulla, ou seja, já nascida em território colonial. As barreiras impostas às populações de procedência indígena e africana eram severas, complementando o cenário de extrema desigualdade da região peruana.

A atuação da Igreja Católica no contexto do Vice-Reino do Peru era considerável, pois a instituição exerceu papeis importantes no processo de conversão forçada dos indígenas e africanos para proporcionar a dominação cultural como estratégia colonial. Jesuítas e dominicanos se espalharam pelo território, onde estabeleceram missões para realizar o serviço de converter os novos fiéis e fundaram estabelecimentos formativos como os colégios e seminários voltados para a formação das elites locais e de uma população mestiça que conseguia ser favorecida. Vários sacerdotes identificaram em suas atuações a necessidade de promover ações de caridade e assistência social, organizando hospitais e orfanatos ou ainda assumindo a defesa da população afro-indígena diante de abusos. Esta postura assistencialista, embora limitada pelo poder e interesses que mobilizaram a exploração colonial, conseguiu proteger pessoas como Martín de Porres, que teve um destaque especial na história peruana.

Nascido em Lima em 1579,  Martín de Porres era filho do espanhol Juan de Porres com a ex-escrava batizada como Ana Velásquez. Sua mãe teve que cuidar sozinha do sustento de Martín e de sua irmã, vivendo em extrema dificuldade até que o pai decidiu reconhecer a paternidade das crianças. Aos 12 anos Martín teve a oportunidade de iniciar o treinamento de um ofício como aprendiz de barbeiro e aos 15 se juntou aos dominicanos para trabalhar no convento, mesmo não podendo ser ordenado por causa de restrições raciais impostas na época.

Além de sua dedicação espiritual, Martín se dedicou ao serviço em favor da saúde da população. O trabalho de um barbeiro ou cirurgião-barbeiro na época envolvia o serviço típico do corte de cabelos e barba para fins higiênicos,  mas incluía outras habilidades como serviços médicos básicos. Um barbeiro era habilitado a realizar procedimentos como suturas, tratamento de ferimentos, tratamento e extração de dentes, sangrias e cuidados cotidianos com a saúde das comunidades que geralmente não dispunham de médicos devidamente instruídos. Era uma profissão modesta, mas de extrema relevância para os habitantes. Os barbeiros geralmente eram figuras conhecidas pela população, sendo identificados como os agentes a quem recorriam em caso de necessidades de atendimentos para variados tratamentos. 

Martín trabalhava gratuitamente e não fazia distinção a respeito de quem ajudava com seu talento medicina. Sua postura de humildade e devoção ao serviço comunitário, além do compromisso devocional, eram reconhecidos por todos, incluindo os superiores na ordem religiosa, que admitiram que ele pudesse realizar os votos típicos de um integrante do clero em 1606, apesar de seu status de irmão leigo. 

Ele foi atuante na realização e mobilização de iniciativas de caridade ao longo de sua atuação religiosa. Através de sua dedicação direta, foi mobilizada uma campanha constante de arrecadação de donativos que conseguia assegurar o sustento diário de pessoas necessitadas. Além disso, Martín fundou instituições assistenciais como para acolher crianças órfãs e abandonadas, além de escravos incapacitados para o serviço. Sua rede de assistência também proporcionava a doação de dotes para casar moças pobres e patrocinava o acesso aos conventos de meninas com vocação religiosa. Toda essa mobilização era realizada enquanto seu trabalho atendendo doentes continuava ativa e intensa, demonstrando a disposição incansável do religioso.

Martín de Porres morreu em 1639, aos 60 anos de idade. 25 anos após sua morte, foi necessário reacomodar seus restos em outra sepultura e durante a exumação as testemunhas e clérigos alegaram que seu corpo estava íntegros, não tendo sido decomposto pelos agentes naturais ao longo dos tempos. Supostos milagres de cura foram atribuídos à sua intervenção e os rumores de sua santidade começaram a circular na região. A popularidade póstuma do irmão Martín motivou sua beatificação em 1837 pelo Papa Gregório XVI e, finalmente, levaram à sua canonização pelo Papa João XXIII em 1962.

Martín de Porres é reconhecido como patrono das causas sociais e, como primeiro santo mulato, é também associado à igualdade étnica.


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