Flora Tristán: Feminismo e Socialismo, duas lutas de uma mulher no século XIX

(Representação visual gerada pelas IAs Midjurney e Leonardo)

Quando mulheres ainda eram firmemente silenciadas pela imposição dos costumes e expectativas sociais no século XIX, o destaque de pensadoras e ativistas era algo altamente ousado e desafiador, pois contrariavam o papel de submissão e saíam do âmbito doméstico para explorar o universo intelectual e o cenário político. Pensadoras como Mary Astell, que no século XVII antecipou muitas discussões que formariam a base do feminismo que foi aprimorado posteriormente por Mary Wollstonecraft, que escreveu “A Vindication of the Rights of Woman” no final do século XVIII, ou a francesa  Amandine Aurore Lucile Dupin, a baronesa de Dudevant, que escreveu sob igualdade social sob o pseudônimo de George Sand, entre outras, causaram impacto significativo pelo pioneirismo, independência e renovação representada por suas perspectivas que encontravam resistência até entre os progressistas. Uma das pensadoras mais incisivas nesse contexto foi a franco-peruana Flora Tristán, que se destacou como feminista e socialista através de análises influenciadas por suas experiências e observações.

Flora Celestina Teresa Enriqueta de Tristán y Moscoso nasceu em 1803 em Paris, filha do militar peruano Mariano Tristán y Moscoso e da francesa Thérèse Lesnais. A vida da família era confortável até a morte do pai, em 1807, o que proporcionou uma situação de dificuldade e pobreza. Ele recebeu uma instrução básica precária que era comum nas condições rurais da França em sua época, mas aprimorou por conta própria sua formação através da leitura de obras literárias, além de sua profunda capacidade de observação e vivência pessoal.

Flora precisou trabalhar muito cedo para ajudar a sustentar a casa. Ela foi pintora de porcelana e arranjou um emprego num ateliê de litografia, onde conheceu e começou a se envolver com André Chazal, proprietário do estabelecimento. Eles se casaram quando ela tinha 17, mas o relacionamento foi conturbado porque o marido era um homem violento e abusivo, o que levou Flora a abandonar a relação em 1825. Eles tiveram três filhos, mas só dois sobreviveram à primeira infância, Ernest e Aline-Marie (mãe do famoso pintor Paul Gauguin). Flora conseguiu obter a guarda dos filhos num processo de separação que foi muito conturbado e André Chazal não aceitou o fim do casamento, persistindo em suas perseguições e ameaças, culminando, em 1838, numa tentativa de assassinato que deixou Flora gravemente ferida e rendeu uma condenação do agressor a vinte anos de prisão.

Flora viajou para o Peru em 1833 para reivindicar a herança do pai, que estava sob o controle do tio Pío Tristan, mas a empreitada não foi bem-sucedida porque ele se recusou a reconhecer a legitimidade da solicitação da sobrinha. Além da frustração do resultado da viagem, a atenta Flora aproveitou a experiência para observar a realidade da sociedade peruana, notando a situação de desigualdade social, as condições da população indígena e opressão às mulheres naquela região sul-americana. Durante sua estadia no Peru, flora conheceu Francisca Zubiaga y Bernales, conhecida como Doña Pancha, primeira-dama peruana e mulher de participação ativa no movimento de independência e estabelecimento do governo. Ela ficou impressionada com a trajetória da líder, que foi uma das diversas mulheres que acompanhavam os combatentes na guerra civil e que praticavam uma vida com relativa autonomia. O aprendizado no decorrer da viagem influenciou a escrita da obra “Peregrinações de uma Pária” (1838), registro autobiográfico com análises sociopolíticas e denúncias das condições de desigualdades que ela testemunhou.

Antes de “Peregrinações de uma Pária”, ela já havia publicado textos de panfletos como “Nécessité de faire bon accueil aux femmes étrangères” (1835), que abordou o trabalho feminino e o direito ao tratamento digno, além de “Pétition pour le rétablissement du divorce” (1837), defendendo os direitos das mulheres para que pudessem se libertar sem restrições legais de casamentos abusivos. Também em 1838 foi publicado o romance “Méphis”, concentrado numa narrativa sobre desigualdade e luta por justiça social, vivido numa sociedade igualitária. Sua produção intelectual continuou através de mais observações depois de um período que passou na Inglaterra, quando ela elaborou a obra “Passeios em Londres” (1840), abordando as condições de vida e trabalho dos operários no país mais industrializado do mundo, destacando que o incremento da produção acentuou a exploração e as desigualdades. Através do tratado “União Operária” (1843), Flora apresentou uma veemente defesa da organização dos trabalhadores como forma de promoção da igualdade, antecipando uma visão de “unidade universal” que seria aperfeiçoada posteriormente pelo estabelecimento da Internacional Socialista.

Flora Tristán foi associada ao socialismo utópico, corrente ideológica da primeira metade do século XIX que precedeu o socialismo científico de Karl Marx, que reconheceu sua contribuição para a causa operária e movimento de transformação social. Ela conciliou sua visão socialista ao feminismo, argumentando que a emancipação das mulheres era parte do processo de promoção da igualdade e valorização dos trabalhadores, tópico desenvolvido com mais detalhes na publicação póstuma de “L’Émancipation de la femme” (1846).

A intelectual e ativista morreu de febre tifoide em 1844, aos 41 anos.


Referências: