Laskarina Bouboulina, herorína da Independência da Grécia moderna

(Representação visual gerada pela IA Leonardo)

A Grécia passou quase quatro séculos sob o domínio do Império Otomano, fase que teve início após a queda de Constantinopla em 1453 até a consumação da independência em 1830, resultado de um processo de guerra iniciado em 1820. Sob o controle otomano, os gregos sofreram severas restrições políticas, econômicas e também pressões religiosas que oprimiam a atuação da Igreja Católica Ortodoxa, predominante entre a população. A repressão dos dominadores passou a ser duramente enfrentada por grupos e movimentos que mobilizaram o Renascimento Nacional Grego, influenciado por ideais iluministas e pela participação cada vez mais engajada da população. 

Apesar do controle dos otomanos, os gregos mantinham suas tradicionais e antigas atividades marítimas, que envolviam prática pesqueira, transporte de cargas, serviços portuários e construção de embarcações, destacando ilhas como Hydra, Spetses e Psara como centros desenvolvidos de economia náutica. A vida no mar influenciava a formação da resistência nacionalista, pois a força combatente de marinheiros era superior ao contingente terrestre que atuava na Guerra de Independência Grega (1821-1829). A frota rebelde era numerosa, bem equipada e operava com tripulações qualificadas e experientes, representando uma ameaça para os otomanos, pois causavam estragos consideráveis à marinha, realizavam manobras de bloqueio de portos, interceptação de cargas e levavam suprimentos para assegurar a combatividade dos nacionalistas revolucionários. 

Muitos armadores gregos disponibilizaram recursos, suporte logístico e navios para a causa da independência e entre tais apoiadores e participantes da rebelião estava Laskarina Bouboulina, rica capitã, construtora e proprietária de navios. Laskarina nasceu numa cadeia de Istambul em 1771 durante uma visita de sua mãe ao seu pai, um capitão de navio preso por ter participado de uma revolta contra o Império Otomano. Com a morte do pai, a família saiu da ilha de Hydra e foi viver em Spetses, onde ela começou a participar do movimento nacionalista. 

Ela se casou aos 17 anos com o capitão de navios Dimitrios Yiannouza e tiveram três filhos, mas ficou viúva quando o marido morreu em confronto com piratas. Logo em seguida, ela voltou a se casar com o rico armador e comandante naval Dimitrios Bouboulis, de quem adotou o sobrenome. Depois da morte do segundo marido, também em confronto com piratas, ela herdou sua fortuna, negócios e navios, assumindo vantajosas condições de influência na sociedade e no movimento nacionalista. Engajada à causa rebelde, colocou seus recursos à disposição da luta e participou diretamente da ação como comandante do imponente navio de guerra Agamemnon durante a guerra, conduzindo exitosas missões em combates navais, além dos cercos de Nafplion e Tripolitsa. Seu prestígio entre os rebeldes era considerável, pois ela era reconhecida como líder respeitada e estrategista habilidosa, sendo tratada como “Kapetanissa” (Capitã) e “Kyra” (Senhora). 

Laskarina Bouboulina não conseguiu acompanhar a consumação da independência de seu país, pois morreu em 1825 por causa de conflitos familiares, quando acabou sendo baleada durante uma discussão com  Christodoulos Koutsis, chefe de um influente clã local. O motivo da desavença foi um casamento secreto de uma filha de Laskarina com um filho de Koutsis, situação problemática no contexto das rivalidades entre as famílias. A autoria do disparo nunca foi identificada.

A perda Laskarina foi lamentada e o Império Russo, aliado dos rebeldes, lhe concedeu o título póstumo de Almirante, sendo a primeira mulher a receber tal distinção. 

A independência grega prevaleceu através do Tratado de Adrianópolis (1829), firmado pelo Império Otomano e Rússia. Depois disso, em 1930,  a Conferência de Londres, que envolveu as principais potências europeias, definiu a criação do Reino da Grécia e coroou o príncipe bávaro Otto como seu primeiro rei.


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